• Ricardo Bonacorci

Livros: Passeio ao Farol - O best-seller de Virginia Woolf


Segundo as perspectivas do público e da crítica literária, os livros mais famosos de Virginia Woolf são, atualmente, “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket) e “Orlando” (Penguin), respectivamente, o quarto e o sexto romances da autora inglesa. Logo depois, em termos de importância e de popularidade, aparece “Passeio ao Farol” (Rio Gráfica). Esta obra ficcional foi publicada justamente entre os dois maiores sucessos de Woolf. E é especificamente sobre este título, o terceiro que analisamos no Desafio Literário de julho, que vamos comentar no post de hoje do Bonas Histórias.


Li “Passeio ao Farol”, o quinto romance de Virginia Woolf, no último final de semana. E mais uma vez fiquei impressionado positivamente com a originalidade e a ousadia do estilo woolfiano. Você até pode não gostar dos livros da escritora inglesa. Juro que não faltam motivos para isso. Entendo perfeitamente quem torça o nariz. Porém, não reconhecer a relevância, a criatividade e a coragem da proposta disruptiva da literatura desta autora é nadar contra a maré ou fechar os olhos para evidências óbvias. Uma coisa é o nosso gosto pessoal (ele é variável). Outra coisa completamente distinta é o conjunto de fatos histórico-conceituais. Desse segundo grupo, é difícil fugir das conclusões convergentes.


Publicado em maio de 1927, “Passeio ao Farol” é considerado o livro mais autobiográfico de Virginia Woolf. Ao narrar o drama da família Ramsay na casa de veraneio na costa escocesa, a escritora relata boa parte de suas angústias mais íntimas: a perda precoce dos pais, a desestruturação familiar, o acompanhamento da morte trágica dos irmãos ainda jovens, a importância da infância na formação do indivíduo, os questionamentos sobre o matrimônio e a maternidade, o relato dos horrores da Primeira Guerra Mundial, o machismo e o patriarcalismo da sociedade inglesa no início do século XX, as dúvidas de muita gente sobre a competência das mulheres em trabalhar fora de casa e de se inserir como produtoras culturais e a loucura como sequela da sobrecarga psicológica. Isso tudo em um texto ao melhor estilo de Virginia Woolf: predomínio do fluxo de consciência, que toma boa parte da narrativa; ausência quase completa de ação; pegada filosófica; cenas banais; personagens complexadas; e mergulho no universo interior/psicológico dos indivíduos retratados.


Ou seja, em relação à estética, “Passeio ao Farol” se assemelha bastante a “Mrs. Dalloway” e “Orlando”. Não à toa, essa trinca de títulos foi lançada em um intervalo de apenas três anos - “Mrs. Dalloway” é de 1925 e “Orlando” é de 1928. Exatamente por isso, os críticos afirmam que a segunda metade da década de 1920 representou o auge da produção literária de Virginia Woolf. Em uma rara fase em que seus surtos depressivos estiveram controlados, ela pôde colocar no papel boa parte de suas visões filosóficas e existencialistas. O resultado é o conjunto de três obras-primas da literatura inglesa do século XX.

“Passeio ao Farol” é também um marco do Modernismo inglês. Seu principal mérito está em aprofundar (e, por que não, popularizar) a imersão interior das personagens na base da estrutura narrativa ficcional, algo iniciado por James Joyce, em “Ulisses” (Penguin), e por Marcel Proust, em “A Busca do Tempo Perdido” (Nova Fronteira). Exatamente por isso, “Passeio ao Farol” aparece em várias listas/seleções dos melhores romances ingleses do século passado. Há até quem o veja como o trabalho mais maduro de Woolf. Confesso que prefiro “Mrs. Dalloway”, um romance com mais conteúdo. Porém, não me surpreendo com a opinião contrária (principalmente porque este livro que estamos comentando hoje tem um texto mais poético e uma trama mais subjetiva).


O sucesso de “Passeio ao Farol” não ficou restrito à crítica literária. Esta obra foi também a mais vendida, até então, de Virginia Woolf tanto nas livrarias inglesas quanto nas norte-americanas. Enfim, Woolf se tornava, aos 45 anos, uma autora best-seller. Após um mês de seu lançamento no Reino Unido, “Passeio ao Farol” precisou ganhar uma nova edição (a primeira com tiragem de 3 mil cópias havia se esgotado em alguns dias). No outro lado do Atlântico, o livro teve cinco reimpressões em menos de doze meses, tamanho foi o interesse do público nos Estados Unidos. A primeira edição norte-americana teve 4 mil cópias e se esgotou em algumas semanas. Lembremos que isso aconteceu em 1927, há quase 100 anos!!!


Em língua portuguesa, “Passeio ao Farol” foi editado com outros dois nomes: “Ao Farol” (título encontrado no Brasil) e “Rumo ao Farol” (título em Portugal). Portanto, não se confunda: apesar dos três nomes diferentes, trata-se da mesma obra. A versão que li é da Editora Rio Gráfica. Ela foi impressa em 1987 e teve a tradução de Luiza Lobo. Achei esse livro na biblioteca da casa do meu pai. Curiosamente, esse era o único exemplar de um romance de Virginia Woolf em seu acervo. Pelo visto, o sucesso de vendas deste título também repercutiu em nosso país.


Com 216 páginas, “Passeio ao Farol” é narrado em terceira pessoa por um narrador com total acesso aos pensamentos e aos sentimentos das personagens. Esse narrador fica pulando de pessoa em pessoa, relatando o que cada um está vendo, lembrando e achando. O livro está dividido em três partes: “A Janela”, que tem 19 capítulos, “O Tempo Passa”, com 10 capítulos, e “O Farol”, com 13 capítulos.


Na primeira seção do romance, “A Janela”, acompanhamos um dia, em 1910, na casa de veraneio da família Ramsay. Anualmente, a Sra. Ramsay (uma bonita senhora de 52 anos totalmente dedicada ao marido, aos filhos e à rotina doméstica), o Sr. Ramsay (um senhor de 70 anos que é um tanto calado, autoritário e melancólico) e seus oito filhos (Rose, Prue, Andrew, Jasper, Roger, Nancy, James e Cam) viajam no Verão para sua residência em Hebrides, na Ilha de Skye, na Escócia, para aproveitar o clima litorâneo, a paisagem bucólica e o contato com a natureza. Desta vez, eles estão acompanhados por um grupo de amigos: Charles Tansley (um machista ateu), Lily Briscoe (uma solteirona convicta de 33 anos que adora pintar quadros), William Bankes (um cientista viúvo e sem filhos), Augustus Carmichael (um poeta tímido e recluso), Minta Doyle (uma bonita adolescente) e Paul Rayley (um jovem de boa aparência). Todos aproveitam o período de férias.

A Sra. Ramsay é o centro das atenções da casa. É ela quem cuida dos filhos, administra a rotina doméstica e precisa entreter os visitantes. Diante de um dia a dia tão estafante, o que a matriarca mais gosta é de ficar próxima ao seu caçula, James, de 6 anos. O menino adora quando a mãe fica lendo para ele. O garoto também está ansioso para fazer uma excursão até o farol local, uma promessa do pai. Contudo, a viagem marítima até lá não será possível no dia seguinte. A maré está agitada e os ventos estão muito fortes. Assim, o passeio se torna perigoso. A decepção de James corta o coração da bondosa mãe, que fica indignada com todos aqueles que comunicam a inviabilidade da viagem de barco para o dia seguinte.


“A Janela” é a parte mais longa do livro, englobando quase 60% do seu texto. Isso ocorre porque ela tem mais capítulos e seus capítulo são mais extensos. Por outro lado, “O Tempo Passa” é a menor seção de “Passeio ao Farol”. Além de ter menos capítulos, eles são na maioria das vezes breves. Curiosamente, se a parte anterior se passava em um único dia, a segunda se passa em um intervalo de dez anos.


De maneira rápida e com descrições poéticas sobre a dinâmica da vida, a passagem do tempo e o destino dos seres humanos, “O Tempo Passa” aborda as fatalidades que ocorrem com a família Ramsay na década seguinte. Juntamente com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, muitos dos integrantes do clã morrem precocemente, o que leva a desestruturação familiar e a corrosão do moral e da saúde mental dos sobreviventes.


Por fim, a terceira parte, “O Farol”, se passa exatamente dez anos depois da primeira seção do romance. Depois de uma longuíssima ausência, os Ramsay e alguns de seus velhos amigos retornam para a residência na Ilha de Skye. O Sr. Ramsay quer fazer o passeio até o farol ao lado de James e Cam, justamente seus dois filhos menores de idade (agora James tem dezesseis e Cam é uma moça de dezessete anos). Assim, depois de uma década de atraso, o pai quer cumprir a promessa de levar os rebentos ao farol. Porém, dessa vez, James não está mais tão empolgado com a aventura como em sua infância. O ânimo e, principalmente, a postura autoritária do pai levam o adolescente a encarar aquela excursão mais como uma obrigação do que como uma atividade prazerosa.


Li “Passeio ao Farol” em um único dia. Iniciei a leitura na manhãzinha de sábado e no início daquela noite já havia chegado à sua última página. Quem não gosta de fazer longas sessões de leitura, é possível ler esta obra em duas ou três noites ou mesmo em duas tardes tranquilamente. O livro é curtinho, mas é preciso realizar uma leitura extremamente atenta. Como há constante mudança de foco narrativo, é necessário se atentar para quem está falando (na verdade, pensando...).

Assim como aconteceu em “A Viagem” e “Mrs. Dalloway”, o debate sobre o feminismo surge, em “Passeio ao Farol”, pelas diferenças de postura e de crença de duas personagens femininas: Sra. Ramsay e Lily Briscoe. Enquanto a primeira vê sua felicidade no casamento e na maternidade, a ponto de viver incondicionalmente para sua família, a segunda prefere a solteirice e a ausência de filhos como a melhor estratégia de encontrar a realização plena. Grande parte da graça deste romance está em notar essa dicotomia. Repare, por exemplo, que a Sra. Ramsay nem nome próprio tem (ao menos ele não é mencionado em nenhum instante do livro). Por sua vez, Lily Briscoe é chamada quase sempre pelo primeiro nome e não pelo sobrenome. Isso não é por acaso. Os destinos das duas personagens ficcionais dentro da trama também indicam a previsão de Virginia Woolf sobre o que acontecerá com esses dois tipos de mulheres ao longo do século XX. Enquanto uma está fadada a morrer/desaparecer, a outra irá viver/prosperar. É legal notar esses pontos no texto.


O feminismo surge como a única solução para o combate ao machismo da sociedade da época. A personagem mais machista de “Passeio ao Farol” é evidentemente Charles Tansley. Ele chega ao ponto de repetir várias vezes que as mulheres não têm capacidade de escrever livros nem de pintar quadros. Não por acaso, ele é odiado por todos e ridicularizado pelas crianças. Entretanto, o Sr. Tansley não é o único a pensar e a se comportar desta forma. Muitas outras personagens do livro, tanto homens quanto mulheres, agem direta ou indiretamente para acabar com a perspectiva de independência e de realização feminina. O machismo, muitas vezes, está oculto em hábitos pessoais e sociais.


Junto com esse debate sexista, assistimos a um romance com forte intertextualidade literária. Como é típico da ficção de Virginia Woolf, “Passeio ao Farol” comenta vários livros e autores relevantes da virada do século XIX para o século XX. Normalmente, as personagens woolfianas são escritores, poetas, artistas, intelectuais e apreciadores da boa cultura. Eles adoram discorrer sobre figuras de destaque da literatura e sobre obras clássicas. Ler Woolf é dialogar indiretamente com outros autores. Desses, William Shakespeare é disparadamente o mais citado.


“Passeio ao Farol” trata essencialmente de tragédias. Elas são pessoais, familiares e sociais. Os dramas do romance giram sempre em torno desses três níveis de fatalidade. Em alguns casos, os diferentes tipos de tragédias se agrupam, potencializando o cenário negativo. Por meio de suas decepções, angústias, tristezas e complicações, as personagens questionam o sentido da vida, a passagem do tempo e as engrenagens sociais. Ler “Passeio ao Farol” é adentrar em uma piração existencialista de alto grau de complexidade. Se você não gosta de dramalhão nem de textos filosóficos, por favor, não comece a leitura deste livro.

Algo que gostei muito foi do paradoxo entre o tamanho do texto e o tempo de duração da narrativa. A parte mais longa do romance (a primeira) é justamente a que se passa em um único dia. Tudo ali é descrito em detalhes (quando digo descrito em detalhes, não são as cenas e sim os pensamentos das personagens que são pormenorizados). A parte mais curta (a segunda) é, por outro lado, a que se passa em um longo período temporal (dez anos). Aí vemos o tempo voar. É incrível constatar esse efeito (velocidade distinta) no texto e na história do livro.


Achei que “Passeio ao Farol” intensifica a proposta literária de Virginia Woolf. Proposta essa apresentada inicialmente em “O Quarto de Jacob” (Nova Fronteira) e mais tarde elaborada com mais força em “Mrs. Dalloway”. Temos nesses três livros grande mistura do tempo narrativo (passado, presente e futuro embolados), fluxo de consciência intenso, conflitos pouco aparentes, enredos simples, alternância constante de foco narrativo, mergulho na psique e na memória das personagens, exposição de preconceitos sociais e cenas banais. A diferença é que em “Passeio ao Farol” temos alguns elementos novos: uma leve pegada sobrenatural e um texto muito mais poético. Por isso, eu achei que este título foi uma evolução da proposta estética de Woolf.


“Passeio ao Farol” é realmente uma obra-prima da literatura inglesa. Contudo, para se aproveitar essa narrativa em sua totalidade é preciso uma boa dose de paciência, muita concentração e certo desprendimento para o que estamos acostumados a encontrar normalmente por aí na literatura comercial. Na certa, um leitor mais ansioso, desatento e menos sensível terá muitas dificuldades para gostar deste livro. É uma pena. Porque vale sim o esforço de desbravar as reflexões, a filosofia, as angústias existencialistas, as tragédias e o feminismo de Virginia Woolf.


O Desafio Literário de julho continuará na próxima sexta-feira, dia 17, com a análise do quarto livro de Virginia Woolf deste mês. A obra que vamos debater será “Orlando” (Pinguin), outro romance de grande sucesso da autora inglesa. Publicado um ano depois de “Passeio ao Farol”, “Orlando” tem um texto (ufa!) um pouco mais leve e de certa maneira mais palatável do que os livros anteriores de Woolf. Para acompanhar o próximo post do Desafio Literário, continue ligado no Bonas Histórias. E ótimas leituras para todos!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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