• Ricardo Bonacorci

Livros: Flush, Memórias de um Cão - A brincadeira de Virginia Woolf


O que faz um(a) escritor(a) renomado(a) após conquistar o respeito definitivo da crítica e do público? Para tal questionamento, existem vários caminhos possíveis. Cada artista parece agir de uma maneira distinta. Há quem tente se reinventar (em uma busca infinita pelo novo). Há aquele(a) que prefira sair de cena no auge (deixando a melhor impressão possível). E há quem opte por continuar aprimorando seu estilo (em uma procura obstinada pela perfeição estética). Para Virginia Woolf, romancista, ensaísta e editora inglesa da primeira metade do século XX, a alternativa escolhida foi muito mais simples: se divertir! Após alcançar a consagração com obras memoráveis como “Mrs. Dalloway” (L&PM Pocket), “Passeio ao Farol” (Rio Gráfica), “Orlando” (Penguin) e “Um Teto Todo Seu” (Tordesilhas), Woolf resolveu, no comecinho dos anos 1930, desenvolver um romance em que pudesse brincar com o processo da escrita. O resultado concreto dessa sábia decisão é “Flush – Memórias de um Cão” (L&PM Pocket), o sexto e último livro da autora britânica que vamos analisar no Desafio Literário de julho.


Publicado em outubro de 1933, “Flush” é uma obra da fase final da carreira de Virginia Woolf. Quando começou a escrevê-lo, em julho de 1931, ela tinha acabado de lançar “As Ondas” (Nova Fronteira), seu sétimo romance. Visto atualmente como seu título mais experimental, “As Ondas” consumiu muito da energia de sua autora. Se o leitor sofre durante a leitura difícil e intrincada desta trama multifacetada, saiba que a escritora também padeceu para produzi-la. Esgotada física e mentalmente após meses de trabalho intenso, Woolf resolveu relaxar assim que o livro chegou às livrarias. E como uma pessoa como ela relaxa, hein? Produzindo um novo romance, oras bolas. Só que dessa vez, a nova história seria muito mais leve e divertida do que a anterior. Mais importante do que o produto final da escrita seria o processo de seu desenvolvimento. A meta era se divertir. Para os amigos e familiares, Virginia Woolf resumiu “Flush” como uma grande brincadeira sua. Ah se todo escritor brincasse dessa forma...


A proposta deste livro era biografar a vida do cachorrinho de Elizabeth Barrett, uma famosa poetisa do Romantismo inglês do século XVIII. Uma biografia de um cão?! Pode isso, Arnaldo? Para Woolf, podia sim senhor(a). Ao ler as cartas de Elizabeth e seu futuro marido, Robert Browning, trocadas ao longo de vários anos, ela ficou encantada com a história de amor deles. E nesse material, havia sempre a menção a Flush, o Cocker Spaniel de estimação da poetisa. O cachorrinho ruivo era a grande companhia de Elizabeth Barrett, principalmente na fase em que, seriamente doente, ela precisou passar longas temporadas em seu quarto. As citações a Flush chamaram tanta a atenção de Virginia Woolf que a escritora resolveu fazer a reconstituição da vida do bichinho. Misturando realidade (fatos extraídos das cartas de Barrett) e ficção (fruto de sua imaginação), ela narrou, em “Flush – Memórias de um Cão”, a trajetória do cachorrinho de Barrett do nascimento até sua morte.

Ah, que livro mais besta, podem pensar aqueles que não são nada apegados aos animaizinhos de estimação. Eita ideia genial, sentenciam os que amam os pets. Confesso que integro o segundo grupo de leitores/críticos literários. O fato é que Virginia Woolf gostou tanto de sua proposta que ela trabalhou por um ano e meio nesta trama. O texto de “Flush – Memórias de um Cão” só ficou pronto em janeiro de 1933. E, quando foi lançado, este livro surpreendeu a todos tornando-se o maior êxito comercial de Woolf. Sim, o maior sucesso da britânica não é nenhum dos seus romances mais importantes e valorizados pela crítica. Esqueça “Orlando”, “Passeio ao Farol”, “Mrs. Dalloway” e todas as suas inovações narrativas e estéticas. Para a maioria dos leitores, não há nada melhor do que uma boa história de um cachorrinho para incentivar a leitura.


Isso quer dizer que “Flush” é um livro rasteiro? Nananinanão! Aí está o maior mérito deste título: ele passa longe de ser uma narrativa bobinha. Virginia Woolf, com todo o seu talento e maestria, jamais conseguiria produzir algo banal. Além de conceder o protagonismo do seu romance a um Cocker Spaniel (que por si só já era bastante ousado para a época), ela salpica, em seu texto, fartas doses de crítica social e de humor ácido. Como consequência, temos uma paródia genial sobre a sociedade burguesa do período vitoriano e sobre o gênero biográfico. É realmente hilário! Vale lembrar que Woolf já tinha usado esses mesmos expedientes literários em “Orlando”, não à toa, seu livro mais popular até então.


“Flush – Memórias de um Cão” não apenas se tornou um sucesso de público como recebeu também o reconhecimento de grande parte da crítica literária inglesa da época. Mesmo com uma pegada mais popularesca, este livro ainda assim é um texto woolfiano. Ou seja, ele possui muitas das particularidades e das inovações típicas das narrativas de sua autora, o que lhe confere um charme todo especial. Mais interessante do que a própria história do cachorrinho e os dramas da poetisa romântica do século XVIII é o jeito como esta trama vem escrita. Só mesmo Virginia Woolf para realizar uma construção literária tão inteligente e bonita com elementos narrativos aparentemente corriqueiros.


“Flush” inicia-se como uma crônica histórica sobre a origem do Spaniel. Logo de cara, são apresentadas as várias hipóteses para a escolha do seu nome. Depois, relata-se a migração desse tipo de cão ao Reino Unido, sua adoção como animal da nobreza inglesa e as variações de raças do Spaniel, entre elas a do Cocker. Após um pulo temporal considerável, chegamos ao começo do ano de 1842. Neste momento, o endiabrado Cocker Spaniel de Mary Russell Mitford, uma escritora romântica de posses limitadas e moradora da Three Mile Cross, tem um filhotinho. O novo cachorrinho é ruivo, bonito e tem pedigree. Por isso, a Srta. Mitford recebe algumas boas propostas para vender o cãozinho. Contudo, ao invés de comercializá-lo, ela decide presentear sua amiga, a também escritora e poetisa Elizabeth Barrett.

Com sérios problemas de saúde, Elizabeth passa os dias em seu quarto, na mansão do número 50 da Wimpole Street, em Londres. Solitária, melancólica e com dificuldades de locomoção, ela raramente sai de casa. Na certa, pensa Mary Russell, a amiga gostará de uma companhia fiel e carinhosa ao seu lado. Assim, Flush, como o cachorrinho é nomeado, se muda ainda filhotinho para o lado rico da capital inglesa. Se ele perde a liberdade que tinha na casa dos Mitford, onde podia correr livremente pelos campos do subúrbio londrino, na nova morada ele recebe todo o luxo disponível para um animal de sua linhada.


O preço que Flush paga por viver em um lugar tão chique é ter de passar quase o tempo inteiro dentro do quarto escuro de sua dona. Nas raras saídas à rua, ele usa uma coleira, exigência dos bairros mais ricos de Londres. Rapidamente, Flush e Elizabeth se tornam amigos inseparáveis. Os dois passam o dia grudados dentro do aposento da mansão dos Barrett e adquirem uma estreita cumplicidade. Se sentindo um verdadeiro aristocrata, Flush se transforma em um cão vaidoso, orgulhoso e preocupado com sua aparência.


Para quem imagina que a rotina do cachorrinho será profundamente tediosa, diante desse cenário tão inóspito e fútil, alguns acontecimentos acabam por desmontar essa impressão. Da violência urbana de Londres na metade do século XVIII a acessos de ciúme pela exclusividade do coração de sua dona, Flush viverá intensas e contraditórias emoções. Entre alegrias e tristezas, o cachorrinho passará por novas e inimagináveis experiências. Acompanhando Elizabeth, o protagonista do romance morará em Pisa e em Florença, na Itália, e precisará abandonar sua formação aristocrata e sua postura arrogante para se dar bem na nova localidade.


Narrado pela biógrafa do cachorro de Elizabeth Barrett, “Flush – Memórias de um Cão” é um livro curtinho (é quase uma novela). Ele possui apenas 152 páginas, que estão divididas em seis capítulos. Dá para ler esta obra em aproximadamente quatro horinhas. Foi mais ou menos esse o tempo que levei para concluir sua leitura na última quarta-feira. Iniciei o livro à tarde, lá pelas seis horas, e as dez horas da noite já havia chegado à sua última página.


O primeiro elemento que chama a atenção do leitor em “Flush” é o humor de Virginia Woolf. Este é o livro mais engraçado da inglesa. Com um jeito desbocado, a escritora compara as pessoas aos animais. Neste sentido, Herald´s College, tradicional instituição aristocrata da Grã-Bretanha, não seria nadinha diferente do Spaniel Club, clube de cachorros de raça. E o que dizer de um cãozinho metido a nobre, hein? Uma vez na residência dos Barrett, Flush se torna fútil, metido e arrogante. É hilário seu comportamento. Com um humor ácido (bem ao estilo dos ingleses), Virginia Woolf tece uma forte crítica à burguesia do século XVIII, que vivia da aparência e em um mundo à parte da realidade social do país (em que a pobreza e as injustiças predominavam).

Outra questão elogiável, que potencializa ainda mais a graça desta trama, é a mistura de gêneros narrativos. Chega a ser até difícil classificar “Flush”. Ele é um romance histórico na maior parte do tempo/texto. Porém, também é, em parte, uma biografia. Afinal, Virginia Woolf cria uma história ficcional em cima de elementos reais, extraídos de documentos históricos de Elizabeth Barrett. Para completar, há trechos ao melhor estilo das crônicas de costumes, das sagas de aventura, dos dramas românticos, dos romances policiais, dos road stories, das parábolas moralizantes, sátiras inteligentes e, por que não, das fábulas clássicas. Essa multiplicidade de gêneros confere dinamismo, graça e riqueza ao livro.


A maior beleza de “Flush – Memórias de um Cão”, contudo, ainda está na forma como Virginia Woolf construiu sua narrativa. Melhor do que a história em si é a maneira como ela foi contada. Mesmo produzindo um romance “na brincadeira” (expressão da autora), a inglesa não abriu mão da elegância e dos principais recursos que marcaram sua literatura. Sabe quando um estilista faz uma linha de roupas populares, mesmo assim mantém a classe inconfundível do seu estilo? Ou quando um chef renomado vai para a cozinha de sua casa, só por lazer, e ainda assim não renega seu nível máximo de exigência culinária? Foi o que Woolf fez aqui. Ela é o jogador de futebol que em um campo encharcado de lama não perde a classe, jogando de pé, sem sujar o uniforme.


A única questão negativa desta edição da L&PM Pocket (que li) são os erros grosseiros de português e de diagramação. Nota-se uma falta de cuidado com o texto final do livro (aposto que não houve uma revisão criteriosa por parte da editora antes da obra ser enviada à gráfica). Há palavras registradas equivocadamente (já na primeira linha do romance, duas palavras estão grudadas – “deorigem”), inversões de sobrenomes e grafias incorretas (o que é o suprassumo do desleixo). É uma pena, porque esta história de Virginia Woolf merecia um cuidado maior (a escritora fica dezoito meses trabalhando em seu original para depois alguém fazer a revisão da tradução nas coxas!). Ninguém merece isso. Ao menos, é possível perceber que a tradução de Ana Ban foi muitíssimo bem-feita, inclusive respeitando alguns termos no original (francês e italiano).


Com a análise de “Flush – Memórias de um Cão”, chegamos ao final do estudo individual dos seis livros da escritora inglesa deste Desafio Literário. Agora, vamos partir para a investigação geral, tanto da carreira quanto da literatura de Virginia Woolf. Não por acaso, esta é a última missão de julho desta coluna do Bonas Histórias. A partir de tudo o que levantamos ao longo deste mês, já podemos tecer uma avaliação acurada da estética woolfiana e dos seus preceitos narrativos. O post com a análise literária de Virginia Woolf será publicado na próxima quarta-feira, dia 29. Não perca!

Ah, quase que ia me esquecendo de mencionar - o post de hoje é uma singela homenagem ao Pescuitto Enny Júnior, meu grande companheirinho de aventuras pelas ruas de São Paulo. Você pode não ser um Cocker Spaniel aristocrata, mas aqui em casa você é o lorde dos Vira-Latinhas. Um abraço e uma lambidinha na fuça, Pescuittinho!


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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