• Ricardo Bonacorci

Livros: Baú de Miudezas, Sol e Chuva - As crônicas de Cidinha da Silva


Li, no último final de semana, “Baú de Miudezas, Sol e Chuva” (Mazza), a coletânea de crônicas de Cidinha da Silva. A autora mineira que mora há anos na cidade de São Paulo tem seu trabalho voltado essencialmente para a valorização do passado e da cultura da população negra em nosso país. Graduada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais, Cidinha atua em projetos socioeducativos direcionados aos negros, às famílias de baixa renda e às mulheres. Ela foi presidente do Geledés - Instituto da Mulher Negra, trabalhou como gestora cultural na Fundação Palmares e é fundadora do Instituto Kuanza.


Na literatura, Cidinha da Silva estreou, em 2006, com a publicação da coletânea de narrativas curtas “Cada Tridente em Seu Lugar e Outras Crônicas” (Mazza). De lá para cá, ela produziu uma dezena e meia de obras, entre livros de contos e crônicas, romances infantojuvenis, coleção de poesias e materiais educativos. A autora também produziu algumas peças teatrais. Atualmente, a escritora mineira é um dos principais nomes quando o assunto é produção de textos engajados socialmente e quando o tema é a inserção dos negros no desenvolvimento da literatura brasileira. Eu cansei de ouvir Ferréz, um dos autores que mais admiro, citando-a em seu blog e em seu canal no Youtube. O escritor paulistano, autor de “Capão Pecado” (Tusquets), elogia bastante o trabalho de Cidinha, considerando-a um ícone da literatura contemporânea nacional.


Interessado em conhecer a produção literária de Cidinha da Silva, mergulhei na leitura de “Baú de Miudezas, Sol e Chuva”, um dos seus livros mais elogiados. Publicada em 2014, esta coletânea de crônicas é o décimo livro da autora. Nas 104 páginas de “Baú de Miudezas, Sol e Chuva”, presenciamos um belo e poético retrato do cotidiano e das crenças de Cidinha da Silva. A escritora encara tanto a realidade ao seu redor quanto o seu mundo interno com um olhar sensível e acurado. O resultado é a produção de textos reflexivos tendo como temas a vida comum, as artes, a cultura, os sentimentos humanos, as particularidades de nossa sociedade e o passado de nosso país. Esses temas são abordados sempre pela perspectiva da negritude. Cidinha demonstra orgulho pela sua raça e promove a conscientização do protagonismo dos negros no Brasil, valorizando a riqueza e a força de sua cultura.

O livro possui 41 crônicas. São elas: “Como o Jazz!”, “Minha Senhora das Águas!”, “O Amor da Novela”, “Amor e Fé”, “Vida de Condutor”, “Nossa Natureza”, “Volver a Los 20”, “Quem Não Soube a Sombra, Não Sabe a Luz...”, “O Tempo”, “Vida de Marisco”, “Fall in Love”, “A Voz Funda do Rio”, “Duas Mulheres Numa Rua Íngreme”, “De Volta ao Começo”, “Memória”, “A Tratadora de Peixes”, “Doce”, “Durga e a Senhora das Águas”, “Oração da Terça!”, “Eu Sou Vegetariana! Meu Orixá, não!”, “Balotelli, Rei de Ifê”, “Uma Bisnaga de Lança-perfume por uma Britadeira? Vai aê?”, “O Fundo do Fim”, “Era do Rádio Particular”, “Coisas que Nem Deus mais Duvida!”, “E Foi por Ela que o Galo Cocorocou”, “Concha, Mi Conchita Buika”, “O Tigre e o Pavão”, “Me oriente, Rapaz!”, “Sobre um Menino Dançante e Sorridente!”, “Delegado!”, “Flores para os Autores de ‘Lado a Lado’”, “Cavalo das Alegrias”, “O Universo de Itamar Assumpção!”, “Salvador, Negro Rancor!”, “Eu Sou Coluna de Aço! Se Quer Passar, Arrodeia!”, “Adeus IMACO – Triste Horizonte”, “Inversão de Sentidos”, “Deixem Neymar Chorar em Paz!”, “O Fogo, Têmpera do Aço, o Tempo, Têmpera das Gentes” e “Xangô”.


Basicamente, esses textos abordam a recepção da literatura da escritora, as particularidades do Candomblé, o sentido das telenovelas em nossa sociedade, o primeiro amor, o envelhecimento, o efeito das redes sociais na vida contemporânea, o amadurecimento, a interpretação dos sonhos, a frustração amorosa, o racismo, as saudades de quem já faleceu, a linha que separa o medo e a coragem, a beleza do trabalho de um ambulante de ônibus, a morte/luto, a força da paternidade e da maternidade, a riqueza da cultura negra no Brasil e a importância das pessoas que ajudaram a escritora em sua carreira. Ou seja, temos aqui um mergulho simultâneo na cultura popular do nosso país (mundo externo) e nas emoções e nos pensamentos da autora (seu mundo interno).


Por ser um livro com poucas páginas, “Baú de Miudezas, Sol e Chuva” permite uma leitura extremamente rápida. Concluí seu conteúdo em pouco mais de duas horas no último sábado à tarde. Trata-se de uma obra que pode ser lida em uma única batida. Quem não consegue ficar muito tempo concentrado, talvez um ou no máximo dois intervalinhos rápidos no meio da leitura sejam necessários. De qualquer maneira, esta é uma publicação para ser lida em uma só manhã, tarde ou noite.

O que mais gostei em “Baú de Miudezas, Sol e Chuva” foi de sua prosa poética. Cidinha da Silva escreve sobre aspectos corriqueiros da vida com beleza e sensibilidade. Navegar por suas palavras é adentrar no mundo inspirado da subjetividade poética, apesar da narrativa ser toda em prosa. E junto com esse olhar pouco cartesiano da realidade, há inserções bem concretas, na qual a objetividade e a praticidade são os fins e os meios. Um bom exemplo disso está na abertura da crônica “Quem Não Soube a Sombra, Não Sabe a Luz...”. Veja a passagem espetacular em que há a junção entre a subjetividade do texto poético e a objetividade da narrativa curta:


“Apliquei um Taiguara antigo na veia de um amigo pós-moderno que arranhou o dedo, e por isso, decidiu nunca mais brincar com faca. Essa moçada criada a iogurte de copinho, excesso de proteção e carinho, não sabe ralar o joelho no chão. Cicatriz, então, nem imaginam o que seja”.


Estes textos de Cidinha são também diretos (não há rodeios para se chegar ao cerne dos assuntos tratados) e bastante sucintos (não se gasta muitas palavras para dizer o que se deseja). As crônicas têm entre uma e quatro páginas. A exceção é “Salvador, Negro Rancor!”, com suas dez páginas sobre a análise do livro de Mandingo.


Outra característica de “Baú de Miudezas, Sol e Chuva” é a intertextualidade. A escritora utiliza-se de muitas referências da música, da televisão, da religião, do futebol, do carnaval e da literatura para apresentar seu ponto de vista, para tecer exemplificações e para fazer analogias. Isso é bem interessante, pois tal recurso deixa as crônicas mais divertidas e ricas. Outro aspecto positivo do material é o tom de conversa e de confidência. Cidinha da Silva usa sua vida e sua experiência para fazer boas explanações da realidade do nosso país na perspectiva da população negra. A impressão que se tem é de estar na mesa de um bar conversando com a escritora sobre vários assuntos do cotidiano.


Também gostei dos temas abordados. Curiosamente, esta coletânea não sofre tanto do efeito perecível das crônicas (o principal problema deste tipo de narrativa). Passados seis anos de sua publicação, a maior parte do texto de “Baú de Miudezas, Sol e Chuva” ainda é atual e muito relevante. As exceções são as citações a novelas da Rede Globo, a eventos culturais ou a episódios que tiveram grande repercussão no passado, mas que hoje já foram esquecidos pela maioria dos leitores. Ainda bem que essas passagens temporais são pontuais e não se configuram como a regra do livro.

Como qualquer coletânea de crônicas com quase meia centena de narrativas, “Baú de Miudezas, Sol e Chuva” tem seus altos e baixos. Cidinha da Silva acerta na maioria das vezes, principalmente quando fala de sua vida, de suas experiências emocionais, de sua admiração pela cultura e pelos artistas negros, do preconceito racial em nossa sociedade e da beleza da rotina das pessoas comuns. Por outro lado, ela escorrega feio ao não apresentar argumentos sólidos para sua defesa ao sacrifício de animais pelas religiões afro-brasileiras, ao debater assuntos banais (como o choro de Neymar por deixar o futebol nacional) e ao analisar obras literárias pouco conhecidas do grande público (“Ela está falando do quê?”, pensam os leitores em algumas páginas do livro).


Também achei desnecessário o uso indiscriminado de pontos de exclamação em muitos títulos das crônicas. Ou os nomes das narrativas são fortes ou não são. Não será um tipo de pontuação que fará o título de um texto mais impactante.


Reconheço que gostei de “Baú de Miudezas, Sol e Chuva”. Cidinha da Silva tem uma escrita contundente e marcante. Seus textos são bem construídos e exalam grande delicadeza e sensibilidade. Ao concluir esta leitura, fiquei curioso para conhecer “Canções de Amor e Dengo” (Me Parió Revolução), a obra poética publicada pela autora em 2016. Se na prosa o texto de Cidinha já é tão profundo e bonito, fiquei imaginando seu efeito nos versos. Por isso, não se surpreenda se eu ler e comentar em breve no Bonas Histórias este outro livro da escritora mineira.


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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