• Ricardo Bonacorci

Filmes: Nápoles Velada - O thriller surpreendente de Ferzan Ozpetek


Enquanto os cinemas tradicionais da cidade de São Paulo não retomam as atividades normais (há quem diga que eles voltarão a operar entre setembro e outubro), aproveitemos os festivais online que se propagam pelos quatro cantos da Internet. Nos últimos meses, comentei na coluna Cinema algumas produções exibidas pelo Festival Varilux em Casa, a excelente coletânea de filmes franceses que ficou em cartaz até 27 de agosto. Neste momento, há quatro bons festivais rolando simultaneamente: 8 ½ Festa do Cinema Italiano Edição Online, Mostra Mundo Árabe de Cinema, 46º Festival Sesc Melhores Filmes de 2019 e 8º Programa Digital do Cinema Suíço. Confesso que estou conferindo um pouquinho de cada um deles. Vou tentar comentar no Bonas Histórias os seus principais destaques.


Dos títulos que assisti neste final de semana, o mais interessante é “Nápoles Velada” (Napoli Velata: 2017), o penúltimo longa-metragem do cineasta turco naturalizado italiano Ferzan Ozpetek. Inédito no circuito comercial brasileiro, este filme é o principal destaque do 8 ½ Festa do Cinema Italiano Edição Online (não confunda, o diretor pode até ter nascido na Turquia, mas sua produção é italiana!). Protagonizado pelos ótimos Giovanna Mezzogiorno e Alessandro Borghi, “Nápoles Velada” foi exibido pela primeira vez no Brasil em outubro de 2018 na 42ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Curiosamente, naquela oportunidade, ele foi apresentado com outro nome: “O Segredo de Nápoles”. De qualquer forma, apesar da bizarrice tupiniquim (um filme ser lançado no país com dois nomes distintos!), o novo título em português ao menos respeita mais a versão original (em italiano).


“Nápolis Velada” é um thriller noir que foi exibido no circuito comercial italiano a partir de dezembro de 2017 e alcançou US$ 7 milhões de bilheteria. No exterior, o filme foi lançado nas salas de cinema da Turquia, da Bulgária e da Coreia do Sul no segundo semestre de 2018. Seu enredo foi desenvolvido por Ferzan Ozpetek ao longo de dois anos. Para tal, o diretor contou com a colaboração da dupla de roteiristas Valia Santella e Gianni Romoli.

A ideia para a construção da história de “Nápoles Velada” surgiu em uma festa de 2007. Naquele evento, Ozpetek, que na época já era um dos principais cineastas da Itália, teve uma conversa intrigante com uma mulher desconhecida. Ao final do bate-papo, a moça, de grande beleza e demonstrando grande conhecimento cultural, surpreendeu o diretor dizendo ser uma médica-legista. Os contrastes entre a personalidade alegre e afável da mulher e sua profissão fúnebre mexeram com o diretor. Aproveitando uma temporada passada em Nápoles, quando Ferzan Ozpetek acompanhava a adaptação de um de seus filmes para o teatro, ele decidiu ambientar aquela história (da mulher bonita e inteligente que cuidava de cadáveres) na icônica cidade do sul da Itália. Assim, Nápoles surge como uma personagem indireta e importante deste filme.


O enredo de “Nápoles Velada” começa em uma festa que sucedeu a uma apresentação teatral. Adriana (interpretada por Giovanna Mezzogiorno), uma médica-legista napolitana, solteira e de meia-idade, conhece Andrea (Alessandro Borghi), um rapaz bonito e muito mais jovem do que ela. Sem rodeios, os dois vão para cama em uma noite de sexo tórrido. É amor à primeira vista. O novo casal combina de se encontrar no dia seguinte no museu arqueológico de Nápoles. Contudo, para a decepção da apaixonada Adriana, Andrea não aparece no encontro. O moço simplesmente desaparece do mapa, não respondendo mais as ligações e as mensagens da médica.


Alguns dias depois, Adriana descobre, enfim, o que aconteceu com seu affair. Ela é surpreendida durante uma autópsia de um corpo de um jovem desfigurado e sem identidade. Por causa da tatuagem de um ser mitológico na virilha do homem morto, a legista tem a certeza de que o rapaz na mesa de autópsia é Andrea. Por isso, ela chama imediatamente a polícia para identificar a identidade do falecido.

Mais tarde, Adriana é informada sobre o que poderia ter ocorrido com sua paixonite de uma noite. Segundo os policiais que investigam o crime, Andrea era um ladrão de obras de arte que foi, muito provavelmente, assassinado por uma das organizações criminosas com quem trabalhava. Ele foi morto exatamente quando chegava ao museu arqueológico. Abalada com as descobertas recentes, a doutora não quer acreditar na versão da polícia. Mesmo com a morte de Andrea, Adriana não consegue esquecê-lo, entrando, assim, em uma fase de negação e de depressão. O auge de seu turbilhão emocional ocorre quando ela começa a procurar/ver a figura de Andrea pela cidade: no vagão do trem, na estação de trem, no jardim de casa, caminhando pelas ruas...


Será que o rapaz não morreu e ainda está vivinho da Silva por aí?! Com uma dose de sorte, Adriana descobrirá alguns segredos de Andrea que nem mesmo a polícia sabe. Em uma jornada de enlouquecer qualquer um, a médica-legista mergulhará em um thriller policial capaz de mexer e de remexer com seu já frágil sistema emocional. Ao mesmo tempo em que tenta descobrir o que está acontecendo/o que aconteceu com seu amante, Adriana será levada a uma investigação particular sobre seu passado – a relação conflituosa dos pais já falecidos (a mãe assassinou o pai na frente da filha, quando ela ainda era uma menina).


Com 115 minutos de duração, “Nápoles Velada” é um bom suspense romântico-policial. O espectador fica preso à rede de mistérios tecida pela narrativa a ponto de não desgrudar os olhos da tela. Porém, o duplo mistério (o que aconteceu com Andrea? E o que aconteceu com os pais de Adriana?) não é totalmente homogêneo. Enquanto a primeira parte (o que aconteceu com Andrea?) é empolgante e reserva surpresas inimagináveis (um dos pontos altos do filme!), a segunda parte (o que aconteceu com os pais de Adriana?) é recheada de clichês e banalidades. Para piorar, em muitos momentos, o enredo cinematográfico dá mais destaque para os dramas do passado dos pais da protagonista (algo que não desperta a mínima curiosidade da plateia!) do que para os dramas policial-sentimentais atuais da personagem principal (algo que todos querem saber).


Um dos destaques de “Nápoles Velada” é a sua trilha sonora. Impossível não ficar encantado com as canções deste filme. Em muitos momentos, o som torna-se um protagonista do longa-metragem, jogando as imagens para o segundo plano. A trilha sonora foi inteiramente produzida por Pasquale Catalano, um dos principais compositores italianos da atualidade. Catalano, um músico napolitano especializado em produções cinematográficas, começou a colaborar com Ozpetek em “O Primeiro que Disse” (Mine Vaganti: 2010). A partir daí, o napolitano foi o responsável por todas as trilhas sonoras do diretor turco-italiano – exceção a “Rosso Istanbul” (2017). Para você ter uma ideia da qualidade da trilha sonora de “Nápoles Velada”, um álbum musical foi lançado na Itália, na mesma época da exibição do filme, para promover as canções do longa-metragem.

Quando falo que o som é um protagonista desta produção de Ferzan Ozpetek, não estou me referindo apenas as músicas (de Catalano). Repare, por exemplo, que muitos dos flashbacks das personagens de “Nápoles Velada” são feitos não pelas imagens e sim pelos sons. As imagens ficam paradas no presente, enquanto as lembranças auditivas das figuras em cena voltam para o passado. E para o espectador, a viagem no tempo é feita quase que exclusivamente pelos sons. É muito interessante este recurso cinematográfico (não me lembro de tê-lo visto em outros filmes).


Já que estamos falando em protagonistas inusitados, vamos falar da cidade de Nápoles – indiscutivelmente uma personagem central do filme. O município sulino surge como uma figura importante deste longa-metragem não apenas como cenário narrativo, mas como ambientação noir. Vale destacar que esta localidade é vista tradicionalmente como um dos lugares mais perigosos do mundo (berço da máfia – lembremos da Camorra). Se muita gente relaciona a cidade do Rio de Janeiro com o tráfico de drogas, com as disputas das gangues pelo comando nos morros e com o estabelecimento de um governo paralelo, há quem aponte Nápoles como o Rio de Janeiro da Europa. Parte da compreensão do enredo policial do filme passa diretamente pela identificação deste cenário social-político-criminal da cidade italiana.


No começo do filme, o cenário napolitano é menos óbvio e menos turístico (exatamente por isso, mais interessante também). As cenas são realizadas em partes de Nápoles mais comuns aos moradores e aos fãs do roteiro artístico-cultural do município. À medida que o filme se desenrola, Ozpetek não consegue se segurar e aí sua câmera passa a retratar os cenários mais conhecidos dos visitantes de Nápoles: as caóticas feiras-livres, a belíssima orla marítima, as casas sobrepostas umas às outras, os becos claustrofóbicos, o banditismo urbano. Não há clichês napolitanos maiores que estes, né?


Como é típico dos filmes de Ferzan Ozpetek, há muita sensualidade e erotismo em “Nápoles Velada”. A cena de sexo ardente de Adriana e Adrian logo no início é ousada, porém é totalmente condizente com a proposta da história (serve de gatilho para tudo o que acontecerá depois). Já algumas cenas posteriores de nudismo explícito me pareceram mais apelativas do que necessariamente fundamentais para a construção da estética cinematográfica. Uma pena!

Quanto ao roteiro de “Nápoles Velada”, o destaque vai para as reviravoltas de sua trama. Apesar deste longa-metragem de Ozpetek não ter guinadas narrativas tão originais assim - há vários filmes norte-americanos que trabalham com o mesmo tipo de drama vivenciado por Adriana (cuidado aí vai o spoiler!!!), como “O Sexto Sentido” (The Sixth Sense: 1999), “Clube da Luta” (Fight Club: 1999), “Uma Mente Brilhante” (A Beautiful Mind: 2001) e “Amigo Oculto” (Hide And Seek: 2004) -, ainda sim é legal assistir ao surpreendente desfecho. Neste quesito, o final de “Nápoles Velada” se torna mais interessante pela última cena, que é literalmente arrepiante e embaralha a interpretação do espectador. Por isso, considerei o desenlace desta produção um pouco aberto (e/ou com um quê de sobrenatural).


Um ponto negativo que identifiquei foi o climão de telenovela mexicana das cenas rodadas no ambiente familiar da protagonista. Nesses instantes, as personagens se tornam caricatas, os acontecimentos são óbvios, as interpretações dos atores parecem exageradas e até as cores das câmeras são mais acentuadas. Não se surpreenda, portanto, se no meio da sessão você se sentir em uma produção de classe B (no passado, chamávamos essa categoria de filmes trash). Sinceramente, não entendo o gosto de muitos cineastas italianos por esta quedinha pelo popularesco (seria resquícios do Spaghetti Western?!).


De modo geral, “Nápoles Velada” é um bom filme. Seus elementos positivos superam os aspectos negativos. As surpresas do roteiro (reservadas para o final) valem, por si só, a experiência de encarar esta produção de Ferzan Ozpetek. Por outro lado, este longa-metragem está distante dos melhores títulos do diretor turco-italiano. Não espere encontrar aqui a força narrativa de “O Primeiro que Disse” ou “Saturno em Oposição” (Saturno Contro: 2007).


Veja, a seguir, o trailer de “Nápoles Velada”:

Se você ficou interessado em conferir este filme e os demais títulos do 8 ½ Festa do Cinema Italiano Edição Online, saiba que a mostra ficará em cartaz somente até quinta-feira, dia 10. As produções italianas do festival estão disponíveis gratuitamente na plataforma de streaming Looke. São mais de 20 longas-metragens entre títulos inéditos no país, como “Os Mosqueteiros do Rei” (I Moschettieri del Re - La Penultima Missione: 2018), “Um Peixe Fora D´Água” (Come un Gatto in Tangenziale: 2017) e “Bendita Loucura” (Benedetta Follia: 2018), e obras recém-saídas dos cinemas nacionais, como “Desafio de um Campeão” (Il Campione: 2019), “O Rei de Roma” (Io Sono Tempesta: 2018), “Testemunha Invisível” (Il Testimone Invisibile: 2018) e “E Agora? A Mamãe Saiu de Férias!” (10 Giorni Senza Mamma: 2019). Além das ficções, a mostra também possui alguns documentários, como “Selfie” (2019), “A Passagem” (Il Varco: 2019) e “Normal” (2019), e cinebiografias, como “Nico, 1988” (2017).


Como a maioria das seleções cinematográficas, 8 ½ Festa do Cinema Italiano Edição Online possui ótimas pedidas, como “Nápoles Velada”, “Desafio de um Campeão”, “O Rei de Roma” e “Testemunha Invisível”, mas também reserva algumas barcas furadas, como as comédias “Bendita Loucura” e “E Agora? A Mamãe Saiu de Férias!”. A maioria dos filmes pode ser acessada normalmente até o fim do festival, enquanto alguns títulos específicos ficam disponíveis por apenas 24 horas. Vale a pena conferir!


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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