Livros: O Caso Morel - O primeiro romance de Rubem Fonseca

Reli, no último final de semana, "O Caso Morel" (Biblioteca Folha), o primeiro romance de Rubem Fonseca. Considerada por muitos críticos literários como uma das melhores criações ficcionais do escritor mineiro, esta obra foi cercada de muitas expectativas na época de sua publicação. Afinal, o principal contista da literatura brasileira lançava-se em um novo gênero narrativo. Seria Rubem Fonseca tão bem-sucedido na produção das narrativas longas assim como foi nas coletâneas de contos?! Esta era a pergunta que o público leitor e o mercado editorial faziam nos primeiros anos da década de 1970. Sob esse ponto de vista, “O Caso Morel” representou um ousado passo na carreira do seu escritor.

 

Até então, todos os livros publicados por Rubem Fonseca tinham sido coletâneas de contos: "Os Prisioneiros" (Agir), de 1963, "A Coleira do Cão" (Nova Fronteira), de 1965, "Lúcia McCartney" (Agir), de 1967, e "O Homem de Fevereiro ou Março" (Nova Fronteira), de 1973. Curiosamente, as quatro obras foram premiadas e muito elogiadas. Assim, com quase 50 anos, o escritor nascido em Juiz de Fora e residente desde a adolescência no Rio de Janeiro mergulhava, enfim, na produção romanesca.

 

Publicado em 1973, "O Caso Morel" tem 192 páginas. Esta publicação chegou às livrarias brasileiras no auge da ditadura militar. Vale lembrar que, nesta época, o AI-5, promulgado em 1968, já começava a enfrentar pesadas críticas e resistências de grupos civis. Conhecido como Período de Chumbo, o governo do ditador Emílio Garrastazu Médici, que durou de 1969 a 1974, reprimiu de maneira violenta aqueles que tinham opiniões contrárias. Como consequência, surgiram a política de censura da informação e o controle pesado das manifestações artísticas. Monitorava-se tudo o que era publicado em jornais, revistas, livros, peças de teatro, filmes, músicas e outras formas de expressão.

 

Era de se imaginar, portanto, que "O Caso Morel", um romance extremamente violento, ácido e crítico, caísse na malha fina da censura federal. Contudo, inexplicavelmente, ele foi autorizado a ser publicado. Sinceramente, não sei precisar como isso aconteceu. Talvez, naquele momento da história, os militares estivessem mais preocupados com o que era veiculado nos meios de comunicação e pelas letras das músicas populares. O maior controle ao conteúdo literário ainda demoraria alguns anos mais para ser efetivado. A maioria das proibições das obras de ficção aconteceu na segunda metade dos anos 1970.      

Em seu romance de estreia, Rubem Fonseca trouxe parte do estilo literário que marcou seus contos: retrato da violência urbana em todos os níveis sociais, linguagem coloquial e direta, enfoque às personagens marginalizadas da sociedade brasileira, erotismo acentuado e descrição de psicopatologias. Ou seja, “O Caso Morel” continha tudo aquilo que a censura poderia ver com maus olhos (mas que deixou passar!). Por si só, a iniciativa de Fonseca em retratar a sociedade brasileira de forma "nua e crua" já era um sinal de coragem por parte do escritor (atitude essa que podia ser encarada como uma afronta pelo repressor governo do período).

 

"O Caso Morel" começa com seu protagonista, Paul Morel, confinado em uma cela prisional. Fotógrafo e pintor de relativo renome no Rio de Janeiro, ele vive uma fase decadente. Paul acalenta o desejo de escrever um livro enquanto aguarda a decisão da Justiça se deverá permanecer preso ou se deverá ser solto da cadeia. Assim, pede o auxílio de um profissional das letras. O delegado Matos indica Vilela, um antigo amigo seu, ex-policial, ex-advogado e atualmente escritor, para assessorar o preso na produção da obra literária.

 

Vilela passa a visitar semanalmente Morel na prisão, lendo e comentando os manuscritos do artista. A secretária de Vilela, Hilda, é quem datilografa o livro desenvolvido pelo preso. Surpreendentemente, a obra de Paul Morel não é uma ficção e sim uma autobiografia. As páginas narram a história de vida do protagonista dos tempos de criança à vida precedente à prisão, com particular destaque aos hábitos sexuais do artista. Enquanto lê os rascunhos/originais de Morel, Vilela começa a se envolver com aquela narrativa.

 

Pouco a pouco, Vilela vai se interessando pela história de Morel ao ponto de não conseguir mais parar de lê-la. Sua fixação é tanta que o escritor, que atua mais como leitor da biografia do prisioneiro do que como autor propriamente dito, se desespera quando Paul Morel afirma que vai parar de escrever o livro. Vilela também tem ciúmes da obra, não querendo que o delegado Matos a leia. Enquanto acompanhamos a curiosidade de Vilela, também conhecemos mais detalhes da história de vida de Morel.

 

O fotógrafo e pintor é obcecado por mulheres e é viciado em sexo. Ele parece não pensar em outra coisa a não ser ir para a cama com o maior número de parceiras. Apesar do medo de ficar impotente, ele transa o tempo inteiro com várias mulheres diferentes, sem se envolver afetivamente com nenhuma delas. Ele frequenta prostíbulos e orgias para aplacar sua libido. Hedonista, ele está sempre bebendo e se drogando. Sua paixão pela pintura, pela literatura e pelas artes de maneira geral fica evidente com seus comentários culturais. 

Tarado, meio pervertido, um "tanto louco" e muito mentiroso, Paul Morel se envolve com cinco mulheres paralelamente: Joana é uma jovem de 20 anos, filha de embaixadores, que gosta de fazer sexo selvagem (ela é sadomasoquista); Elisa Gonçalves é uma senhora casada e rica, pertencente à alta sociedade carioca; Ismênia é a pintora que fora uma antiga paixão de Paul quando ele ainda era adolescente; Carmen é modelo fotográfica e prostituta; e Ligia, moça que Paul conheceu em uma festa na casa de Elisa, é a mais difícil delas, pois não aceitou fazer sexo com o artista no primeiro encontro.

 

Paul é separado de Cristina, com quem foi casado por dez anos. Não querendo um novo relacionamento sério, o protagonista aceita morar com Joana quando a jovem afirma não exigir fidelidade do parceiro. Empolgado com o relacionamento aberto, Paul Morel vislumbra uma rotina poligâmica em sua residência. Assim, convida Carmen, Ismênia, Ligia e Elisa para integrarem sua "família". Nessa configuração conjugal alternativa, todas seriam suas esposas. Elisa Gonçalves foi a única das mulheres a recursar a proposta, apesar de frequentar o local regularmente durante o dia (à noite, ela voltava para a casa do marido legítimo). Ligia foi, mais tarde, excluída do clã por se desentender com o marido poligâmico. As outras três (Joana, Ismênia e Carmen) formaram o harém particular e fixo de Paul Morel.

 

O conflito que rege o romance é a dúvida sobre o que originou a prisão do protagonista. O que, afinal, Paul Morel teria feito para estar detido pela polícia? Depois de conhecida a acusação (esta descoberta se dá na metade final do livro), a pergunta que o leitor se faz é: a personagem central é culpada ou é inocente daquilo que está sendo acusada? Esse duplo questionamento ronda a cabeça de Vilela, o primeiro leitor da autobiografia escrita por Paul Morel, e de nós, leitores de Rubem Fonseca. Essas dúvidas são o que dão graça a narrativa e criam o clima de suspense ao enredo do romance policial.

 

Outro aspecto interessante desta obra é a mudança de foco narrativo. Em "O Caso Morel", há dois tipos de narradores: o observador e a personagem. O narrador observador surge quando a história é contada no tempo presente - Paul Morel está preso e a polícia investiga (cuidado, aí vai parte do spoiler!) quem foi o assassino de Heloísa Wiedecker. O narrador personagem aparece quando as lembranças de Paul Morel são narradas pelo próprio protagonista e remetem ao passado – conteúdo de sua autobiografia.

O narrador observador é parcial, identificando-se e seguindo de perto os passos do escritor Fernando Vilela. Nesta parte do romance, o texto está escrito em terceira pessoa.  Já o narrador personagem pode ser classificado como sendo do tipo protagonista, pois é o próprio Paul Morel/Paulo Morais quem relata a história. O texto, nesta parte do livro, está escrito em primeira pessoa. A diferença entre os narradores (primeira pessoa e terceira pessoa) é o principal recurso literário utilizado pelo autor para distinguir as duas partes da trama (passado e presente), o que ajuda o leitor a se situar nos acontecimentos narrados.   

 

"O Caso Morel" pode ser descrito como um conflito do tipo Personagem versus Sociedade. Afinal, a vida libertina, promíscua e hedonista de Paul Morel é encarada pela sociedade conservadora do Rio de Janeiro (e do Brasil) como uma afronta à moral e aos bons costumes das famílias tradicionais (apesar de boa parte da população também repetir, em menor escala e/ou de forma mais velada, grande parte das atitudes do artista). Assim, a rotina de devassidão de Morel choca a sociedade, que precisa freá-lo de alguma forma (a prisão é a alternativa mais fácil e politicamente correta). Ao não compreender essa perseguição (que julga inicialmente como injusta), Paul Morel começa a fazer uma autoanálise sobre sua trajetória pessoal e profissional. Ele quer descobrir o que levou a polícia a acusá-lo pelo crime de assassinato.

 

As ações que permeiam o conflito são as aventuras sexuais de Paul Morel e sua vida libidinosa. O protagonista é viciado em sexo e vai para a cama com quase todas as mulheres do enredo. Ele retrata em sua autobiografia essas práticas sexuais que contêm sadismo, orgia, menáge a trois, escatologias, voyeurismo, masturbação, etc. Outros aspectos presentes nas ações desse romance são: a violência da sociedade brasileira, as injustiças sociais, a marginalização de parcela da população nacional e a opressão contra a camada mais pobre da nossa pirâmide social.

 

Uma das características mais marcantes de “O Caso Morel” é o acentuado contraste entre os espaços narrativos (locais onde as cenas do livro acontecem). Ora a história se passa em lugares sujos, claustrofóbicos, pobres, violentos, escuros, mórbidos, bagunçados e hostis (penitenciária, cabaré, residência desarrumada, quarto de hospital, barraco, sobrado velho, casa pobre, cemitério, etc.), ora se passa em ambientes requintados, grandiosos e charmosos (mansão, restaurante romântico, hotel, cidade de Paris, casa espaçosa com belo jardim e piscina, etc.). Assim, o leitor encara constantemente as oposições espaciais (belo-feio, grande-pequeno, calmo-violento e rico-pobre). Em muitos momentos, o espaço narrativo escancara a agressividade/violência pela qual as personagens acabam submetidas.

Como a maioria das personagens possui um caráter dúbio (um dos protagonistas é um mentiroso contumaz) é difícil precisar o que é verdade e o que é mentira na dupla narrativa do livro. O leitor precisa construir sua própria versão dos acontecimentos, conferindo certa subjetividade à interpretação do romance. Ou seja, é difícil, para quem lê a obra, saber o que é verdade e o que é mentira.

 

Ao analisar este primeiro romance de Rubem Fonseca, dois elementos da linguagem chamam a atenção: a variedade de códigos linguísticos e o contraste das linguagens utilizadas pelo autor.

 

O código linguístico prioritário utilizado em "O Caso Morel" é a língua portuguesa. Porém, ela não é a única. Há mais cinco idiomas usados por Rubem Fonseca para construir sua narrativa: o francês, o inglês, o italiano, o alemão e o latim. Ora esses outros idiomas são usados em uma palavra ou em uma expressão no meio do texto em português, ora são usados para compor citações ou na construção de parágrafos inteiros. Curiosamente, essas partes nas línguas estrangeiras não são traduzidas para o português. Ou o leitor é poliglota (como o escritor mineiro era) para entender esses trechos do texto ou ficará sem compreender a totalidade do conteúdo do livro. 

 

Uma das características mais curiosas deste romance está no contraste de linguagem. Rubem Fonseca produz um texto mesclando linguagem formal e linguagem cotidiana. Ele utiliza termos técnicos da medicina, da psicologia, do direito, da polícia, da literatura, das artes plásticas e do jornalismo ao mesmo tempo em que usa expressões populares e vulgares da linguagem cotidiana. Assim, seu livro apresenta uma acentuada variação entre o erudito/culto e o popular/escrachado.

 

Esta obra possui muitas citações retiradas principalmente da literatura. A história de "O Caso Morel" é inteiramente entrecortada por inserções literárias extraídas de vários títulos. Esses trechos aparecem no meio do texto, pinçadas pelas personagens ou jogadas pelos narradores (lembremos que são dois os narradores!). O elemento da textualidade mais relevante deste romance é a intertextualidade. “O Caso Morel” pode ser descrito como uma overdose de citações e referências culturais.

A maior incidência intertextual está, obviamente, no campo da literatura. Há menções a autores, obras e personagens que parecem não ter fim. Durante seu romance, Rubem Fonseca fala: do livro "Alice no País das Maravilhas", obra do inglês Lewis Carroll; das biografias do poeta francês Guy de Maupassant, do poeta anglo-americano W. H. Auden, do dramaturgo inglês William Shakespeare e do escritor francês Marcel Proust; do poema épico "Orlando Furioso", do italiano Ludovico Ariosto; dos ideais do escritor francês Honoré de Balzac; das personagens de Marquês de Sade; dos livros de Rainer Maria Rilke, Ezra Pound, T. S. Eliot, Arthur Rimbaud e D. H. Lawrence; das cartas da Marquesa de Sévigne; e de mais uma infinidade de outros autores e de incontáveis obras literárias. Até mesmo o nome artístico do protagonista do romance, Paulo Morel/Paul Morel, foi retirado do livro do inglês D. H. Lawrence, apesar do desmentido do personagem a Vilela no capítulo XVIII. Lembremos que o fotógrafo e pintor era um homem mentiroso e dissimulado... 

 

Depois da literatura, a maior incidência intertextual recaí sobre a pintura. São citados obras e artistas como Paolo Uccello, Johannes Vermeer, Jean-Auguste Dominique Ingres, Pablo Picasso, Victor Vassarely, Pierre Alechunsky, Man Ray, etc. Além disso, há referências e citações à filosofia (Francis Bacon, Sócrates, Platão), ao cinema (Agnès Varda e Ingmar Bergman), à escultura (Vênus de Milo), à psicologia (Sigmund Freud), à política (Adolf Hitler e Catarina, a Grande), à astronomia (Johannes Kepler, Nicolau Copérnico e Tycho Braher), entre outros.

 

O desfecho desta obra de Rubem Fonseca é do tipo aberto. Por isso, quem gosta de um mistério saiba que ele poderá continuar mesmo após a conclusão da leitura do livro. Achei este expediente narrativo espetacular. Ele força o leitor a ler (ou mesmo reler) o romance com atenção. Além disso, o leitor é colocado na posição de julgador. Paul Morel é inocente ou é culpado para você? Eu tenho minha opinião muito clara desde a primeira leitura (reforçada agora nesta releitura), mas não vou emiti-la para não influenciar a sua. Por tudo isso, adorei "O Caso Morel". Ele é um romance policial incrível e demonstra que Rubem Fonseca não foi apenas um excelente contista, mas foi também um romancista de mão-cheia.

 

O próximo livro que será lido e analisado no Desafio Literário de setembro é "Feliz Ano Novo" (Nova Fronteira), talvez a mais polêmica obra de Rubem Fonseca. Os comentários sobre a coletânea de contos que foi censurada pela ditadura militar nos anos 1970 estarão no post do próximo domingo, dia 13, do Bonas Histórias. Até lá!

 

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