Livros: A Grande Arte - O segundo romance de Rubem Fonseca

O quarto livro de Rubem Fonseca que será analisado neste Desafio Literário é "A Grande Arte" (Agir). Este romance foi apenas a segunda narrativa longa do escritor mineiro, mas teve papel importantíssimo na redefinição da trajetória de sua carreira literária. Com o sucesso de "A Grande Arte" junto aos leitores e perante a crítica, Fonseca optou por escrever mais romances em detrimento aos contos, gênero em que era reverenciado como um dos melhores escritores da história nacional. Assim, nas décadas de 1980 e 1990, temos um Rubem Fonseca mais romancista e menos contista. Inicia-se, assim, o que podemos chamar de segunda fase da literatura fonsequiana: o período romancista.  

 

Publicado em 1983, "A Grande Arte" foi lançado dez anos depois de "O Caso Morel" (Biblioteca Folha), a primeira narrativa longa de Rubem Fonseca. Naquela época, início dos anos 1980, a ditadura militar já não exercia um poder tão forte de censura sobre as obras artísticas produzidas no país. Além disso, desde 1975, o autor mineiro que vivia desde a adolescência no Rio de Janeiro não atuava mais como executivo – fora demitido da Light, estatal fluminense, após a publicação de “Feliz Ano Novo” (Nova Fronteira), sua mais polêmica coletânea de contos. Desempregado, Rubem passou a trabalhar essencialmente como escritor e como crítico cinematográfico. Se até então a escrita/literatura era apenas um hobby, a partir da segunda metade dos anos 1970, ela se tornou sua principal profissão.  

 

"A Grande Arte" foi um sucesso retumbante tanto de crítica quanto de público. No ano seguinte ao seu lançamento, o livro recebeu o principal prêmio da literatura brasileira, o Prêmio Jabuti, como o melhor romance daquela temporada. Este foi o único Jabuti de Rubem Fonseca na narrativa longa - os outros cinco foram conquistados pela produção de narrativas curtas: "Lúcia McCartney" (Agir), de 1969, “O Buraco na Parede” (Nova Fronteira), de 1995, “Secreções, Excreções e Desatinos” (Nova Fronteira), de 2001, “Pequenas Criaturas” (Nova Fronteira), de 2002, e "Amálgama" (Nova Fronteira), de 2013.

 

Em 1991, a história de "A Grande Arte" foi adaptada para o cinema. O filme homônimo foi dirigido por Walter Salles. O longa-metragem recebeu, no ano seguinte, o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como o melhor roteiro. Mais recentemente, entre 2005 e 2007, o canal de televisão fechado HBO Brasil lançou uma série televisiva inspirada em "A Grande Arte" e "Mandrake, a Bíblia e a Bengala" (Companhia das Letras), os dois romances protagonizados pela mesma personagem, um detetive particular mulherengo e hedonista. A produção televisiva chamada simplesmente de "Mandrake" teve duas temporadas e foi indicada duas vezes ao Internacional Emmy Awards, a principal premiação da TV mundial.

Ou seja, “A Grande Arte” é uma das obras mais importantes da carreira romanesca de Rubem Fonseca. Muita gente considera esta publicação uma de suas melhores narrativas longas. Um dos grandes méritos deste livro está na transposição dos contos para o romance de uma das personagens mais marcantes da literatura contemporânea nacional: o advogado e detetive particular Mandrake, figura que caminha o tempo inteiro na linha tênue entre o heroísmo tradicional e o anti-heroísmo (característica esta típica do romance policial noir, também chamado no Brasil de literatura brutalista).  

 

Esta polêmica personagem foi apresentada pela primeira vez ao público no livro de contos "Lúcia McCartney" (Agir), de 1963. Depois, Mandrake ressurgiu em outro conto de "Feliz Ano Novo" (Nova Fronteira), de 1976. Sua estreia nos romances viria justamente em "A Grande Arte". Depois, Mandrake ainda voltaria à literatura de Rubem Fonseca na novela "E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto" (Companhia das Letras), de 1997, e no romance "Mandrake, a Bíblia e a Bengala", de 2005. Isso é o que eu tenho conhecimento. Não duvidaria se o detetive particular mais cafajeste da ficção nacional tivesse participado de outras coletâneas de contos do autor. 

 

Para muitos críticos literários, Mandrake é o principal protagonista da literatura de Rubem Fonseca. Se não for o mais importante, ao menos é o mais recorrente, aparecendo em muitas das obras de seu autor. Além da grande incidência, Mandrake é relevante por representar perfeitamente o perfil da personagem masculina de Rubem Fonseca: homem bonito, hedonista, mulherengo, viciado em sexo, promíscuo sexualmente, propenso ao crime e à violência, erudito, bem-humorado, mentiroso e amante das artes. É o típico anti-herói charmoso que consegue cativar os leitores das tramas policiais modernas.  

 

O enredo de "A Grande Arte" começa com o assassinato brutal de três prostitutas no Rio de Janeiro. Os crimes acontecem dias após um programa do trio com Roberto Mitry, um cliente endinheirado. O figurão da alta sociedade carioca contratou as mulheres para uma tarde de muito sexo. Contudo, ao deixar o apartamento de Elisa de Almeida, a meretriz anfitriã cujo nome de guerra era Gisela, ele esqueceu uma fita de videocassete no local. Ao ser extorquido pela prostituta, Roberto Mitry contrata o escritório de advocacia de Mandrake e Wexler para cuidar do caso. O ricaço quer a fita de volta o mais rápido possível, custe o que custar. Roberto, porém, não informa qual é o conteúdo do vídeo.

Antes que os advogados contratados possam fazer alguma coisa pelo novo cliente, as moças são assassinadas. Primeiro é Gisela/Elisa de Almeida. Depois, é Carlota/ Danusa. E por fim, Cila/Osvalda de Sousa/Laura Lins aparece morta (todas têm mais de um nome, usados dependendo da ocasião). A terceira e última vítima era rica. Ela tinha um apartamento abastado e uma loja de roupas na Zona Sul do Rio. As duas primeiras garotas de programa, após serem mortas, tiveram o rosto marcado à faca com a letra "P" pelo assassino. Trata-se da assinatura do criminoso.

 

Mandrake, o narrador da trama, começa a investigar o caso. Ele quer descobrir quem é o responsável pelo triplo homicídio. Seu suspeito principal é o próprio cliente: Roberto Mitry. Enquanto procura a fita de videocassete para Roberto, Mandrake coleta evidências e provas deixadas pelo assassino nos locais dos crimes. Porém, na maior parte do tempo, o advogado aproveita para se deleitar com suas três namoradas: Ada (a oficial), Bebel (filha de uma investigada) e Lilibeth (uma cliente).

 

Após passar um dia com as três amantes (cada uma de uma vez – elas não se conhecem), Mandrake é atacado por dois homens misteriosos quando chegava, à noite, em sua residência. Mandrake quase morre nesta ocasião e é salvo por ser levado às pressas ao hospital. No quarto do centro médico, após o atendimento, o detetive particular descobre que sua namorada (oficial) Ada tinha sido estuprada pelos criminosos que tentaram matá-lo. Assim, Mandrake jura vingança e se lança obstinadamente à procura dos responsáveis por aquela monstruosidade. Para não ficar novamente vulnerável a novas disputas corporais com os inimigos, o protagonista compra uma faca de um ex-militar e aprende os segredos do Percor, conjunto de técnicas e táticas de uso de armas brancas.

 

A investigação do advogado/detetive particular o leva à cola dos seus dois agressores: Camilo Fuentes e Rafael. A dupla integra uma organização criminosa chamada de Escritório Central, que está envolvida com tráfico de drogas, prostituição e pornografia. O trabalho investigativo de Mandrake é compartilhado com Raul, seu amigo policial que é o responsável formal pela investigação do caso das prostitutas assassinadas. O Escritório Central é comandado por Thales Lima Prado, um riquíssimo empresário carioca dono de várias empresas. Descobre-se que a fita de videocassete que Roberto Mitry tanto anseia é na verdade de Thales. Enquanto investiga o caso, Mandrake continua levando uma vida promíscua. Além das três namoradas, o advogado ainda faz sexo com uma policial enquanto viaja para a Bolívia atrás de Camilo Fuentes. 

Na edição da Editora Agir, "A Grande Arte" tem 536 páginas. A obra é dividida em duas partes: "Percor" e "Retrato de Família". Enquanto a parte inicial possui 18 capítulos, a final tem 19 capítulos. Li este livro em apenas dois dias no último final de semana. Como sua trama é interessante e possui muito suspense, admito ter devorado as páginas da publicação sem titubear.

 

“A Grande Arte” pode ser caracterizado como um conflito do tipo personagem versus sociedade. Neste romance de Rubem Fonseca, o adversário de Mandrake é aparentemente uma instituição criminosa chamada Escritório Central. Apesar de perseguir Camilo Fuentes, um dos seus agressores, o principal inimigo do advogado não é apenas o boliviano e sim a organização que ele pertence. Para elucidar o mistério de maneira global, Mandrake precisa entender quem está por trás da gangue e quais são as intenções de seus membros. Porém, querendo ou não, a criminalidade do livro não está restrita ao Escritório Central, mas está disseminada em toda a sociedade carioca. Não há nenhum santinho nem bonzinho nesta história (nem a polícia é uma instituição confiável!).

 

As ações que permeiam o conflito de “A Grande Arte” são as aventuras sexuais do protagonista e dos antagonistas. O protagonista, Mandrake, é um advogado viciado em sexo e extremamente promíscuo. Ele tem uma namorada fixa (Ada) e duas amantes (Bebel e Lilibeth). Porém, ele não se contenta com essa variedade. Durante a narrativa, ele faz sexo com outras mulheres: a policial Mercedes e a prostituta Miriam, além de dar em cima da ex-esposa. Ele vai para cama várias vezes no mesmo dia com parceiras diferentes. Os antagonistas, Camilo Fuentes e Thales de Lima Prado, não ficam muito atrás quando o assunto é a libido e a busca por novidades sexuais. Eles também gostam de variar de parceiras, não sendo fiéis às suas companheiras.

 

Outros aspectos que permeiam as ações de “A Grande Arte” são: a violência da sociedade brasileira, a impunidade ao crime (crime compensa no Brasil!), a incompetência policial na resolução dos casos, a corrupção epidêmica, a banalização e a comercialização do sexo, a visão negativa/preconceituosa (e sexualizada) da mulher, a imprecisão sobre a verdade (quase todas as personagens mentem recorrentemente durante a trama) e a injustiça. Em muitas das situações do livro, estes elementos são apresentados com um humor tragicômico.

O protagonista e os antagonistas deste segundo romance de Rubem Fonseca são personagens redondas. Tanto Mandrake quanto Fuentes e Lima Prado possuem características psicológicas e morais complexas de difícil precisão (ora agem de forma elogiosa, ora agem de maneira vexatória). A maioria das figuras secundárias (os integrantes do Escritório Central, as mulheres de Mandrake, os policiais, o sócio de Mandrake e as prostitutas) também segue essa linha paradoxal (características positivas e negativas misturadas), sendo personagens redondas.

 

Como já havia acontecido em "O Caso Morel", "A Grande Arte" possui espaços narrativos com grande contraste social. Há cenas que se passam em ruas, casas e ambientes degradados, sujos, poluídos, fedidos, pequenos, apertados, feios e perigosos, indicando a propensão ao aparecimento da violência. Muitas vezes, a pobreza é um componente complementar e a marginalização é uma consequência das condições desses lugares. Algo que chama a atenção nos ambientes retratados é a recorrência do autor em apresentá-los através do olfato. Na maioria das vezes, os cenários degradados são identificados pelo cheiro desagradável. Por outro lado, há cenas que se passam em ambientes requintados e muito agradáveis, gerando o contraste social. Em alguns casos, os contrastes entre os dois tipos de cenário (belo-feio, grande-pequeno, calmo-violento e rico-pobre) se dão na mesma cena.

 

Este romance possui um clima acentuado de violência e erotismo. Essa mistura compõe boa parte do ambiente da trama. A violência é retratada principalmente pela série de homicídios que ocorrem do início ao fim da história. Não é apenas o trio de prostitutas (Gisela/Elisa de Almeida, Danusa/Carlota Ferreira e Osvalda de Sousa/Cila/Laura Lins) que é vítima de assassinato. Muitas personagens acabam sendo mortas barbaramente (cuidado aí vai parte do spoiler), como Roberto Mitry, Mercedes, Thales de Lima Prado, Rafael Marinho, Hermes de Almeida e Camilo Fuentes, por exemplo. Quem não morre, ainda assim é vítima de atos brutais. Mandrake quase foi morto em uma invasão a sua casa por bandidos. Ada foi vítima de estupro. José Zakkai se salvou por pouco de ser morto. É difícil encontrar alguém que não tenha passado por algo violento durante a história, seja como vítima ou autor de crimes.

Ao lado da violência, há elevadas doses de criminalidade em “A Grande Arte”. Além dos assassinatos e dos estupros, o romance apresenta uma série de atividades ilegais: prostituição, pornografia, subornos/propinas a políticos e a policiais, tráfico de drogas, extorsão, contravenção, formação de quadrilha, etc. O romance mergulha no mundo do crime, seja ele praticado por ricos ou pobres e por pessoas comuns ou por influentes personalidades da sociedade. Talvez o ponto alto dessa questão esteja na cena em que uma mãe pobre tenta vender o olho (na verdade, a córnea) da filha jovem. Este trecho da narrativa é de arrepiar!      

 

O sexo aparece em todos os momentos da trama e das mais diferentes formas: consensual, não consensual (estupro), pago (prostituição), com interesses sociais, sádico, sadomasoquista, homossexual, orgia, extraconjugal, pedofilia, incesto, casual, etc. Quase sempre, o sexo é instrumento de dominação, de violência e de prazer hedonista, estando totalmente desassociado ao matrimônio, ao amor romântico e à fidelidade conjugal. A prostituição é um recurso corriqueiro de homens e de mulheres para fazer sexo ou para ascender financeiramente. O sexo, muitas vezes, é o eixo central da vida dessas personagens, sendo o elemento mais importante de suas rotinas. 

 

O ambiente também possui fortes elementos escatológicos (expressos na maioria das vezes pelo olfato) e muitas doses de humor (tiradas divertidas são ditas principalmente pelo narrador, uma pessoa irônica e espirituosa do tipo politicamente incorreta). 

 

Assim como já havia acontecido no primeiro romance de Rubem Fonseca, dois elementos da linguagem se destacam em "A Grande Arte": a variedade de códigos linguísticos e o contraste das linguagens. Este segundo romance de Rubem Fonseca foi escrito essencialmente em língua portuguesa, mas há outros cinco idiomas sendo utilizados simultaneamente na narrativa: inglês, francês, italiano, alemão e latim. Normalmente, esses códigos linguísticos estrangeiros são usados de maneira complementar: em uma palavra ou expressão no meio do texto em português, como citação literal ou na construção de parágrafos inteiros com pensamentos ou falas das personagens. Em nenhum desses casos, o autor se preocupa em fazer a tradução para o português. Esse trabalho cabe ao leitor.

Outra característica desta obra está na mistura contraditória da linguagem formal e da linguagem cotidiana. Rubem Fonseca alterna as duas linguagens o tempo inteiro. Ora ele usa termos técnicos da medicina, da psicologia, do direito, da polícia e da literatura, ora se expressa com termos vulgares típicos da marginalidade (criminosos e prostitutas). Essa questão fica mais evidente no momento do sexo. O narrador e as personagens podem descrever de forma culta ou de maneira coloquial as partes dos corpos dos parceiros e as intimidades dos casais.

 

Por fim, este livro possui uma forte intertextualidade com o universo cultural. Há grande número de citações à literatura, ao cinema, à mitologia grega, à psicologia, ao direito, à história, à política e à cultura popular.

 

"A Grande Arte", assim como "O Caso Morel", é uma narrativa policial (a história aborda a investigação sobre uma série de assassinatos realizados contra prostitutas) do tipo romance negro (o protagonista tem moral e atitudes dúbias, possuindo mais defeitos de personalidade do que virtudes; o ambiente da história é violento, opressivo, sujo, amoral e repleto de cenas de sexo; as personagens são normalmente hedonistas, criminosas e viciadas em sexo; e a sociedade é machista, corrupta, injusta e cruel). Sem dúvida nenhuma, este é um dos romances negros mais famosos do nosso país, que vale a pena ser conhecido por quem gosta de literatura e das narrativas de Rubem Fonseca.

 

O Desafio Literário de setembro retornará na próxima segunda-feira, dia 21, com a análise de mais um livro de Fonseca. A próxima obra a ser debatida no Bonas Histórias será "O Selvagem da Ópera" (Companhia das Letras). Publicado em 1994, este romance foge completamente do estilo literário do autor mineiro. Não perca esta nova análise. Até mais!

 

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