• Ricardo Bonacorci

Livros: O Selvagem da Ópera - O romance diferentão de Rubem Fonseca


Chegamos à análise do quinto livro do Desafio Literário de Rubem Fonseca. Depois de comentarmos duas coletâneas de contos Brutalistas, "Lúcia McCartney" (Agir) e “Feliz Ano Novo” (Nova Fronteira), e dois romances policiais noir, "O Caso Morel" (Biblioteca Folha) e "A Grande Arte" (Círculo do Livro), vamos discutir hoje, no Bonas Histórias, um drama histórico do autor mineiro. O título em questão é “O Selvagem da Ópera” (Companhia das Letras), o sexto romance de Fonseca. Nas páginas desta publicação, assistimos à reconstituição semi-biográfica da trajetória pessoal e profissional de Antônio Carlos Gomes, o principal compositor brasileiro de ópera. O portfólio artístico de Gomes abrange criações como “Fosca”, “Lo Schiavo”, “Condor” e “Colombo”. Contudo, sua obra-prima é “O Guarani”, ópera ballo baseada no romance homônimo de José de Alencar. Curiosamente, este livro de Rubem Fonseca foi construído para se parecer uma cinebiografia - o narrador prepara o texto de um filme e não um romance convencional.


“O Selvagem da Ópera” é a narrativa longa que mais destoa da proposta literária de Rubem Fonseca. Dos oito romances do autor - não considero “E do Meio do Mundo Prostituto Só Amores Guardei ao Meu Charuto” (Companhia das Letras), “O Doente Molière” (Companhia das Letras), “O Seminarista” (Companhia das Letras) e “José” (Nova Fronteira) como sendo romances e sim como novelas -, “O Selvagem da Ópera” é o único que não é um thriller policial. Como assim o principal escritor policial brasileiro faz um livro fora de seu gênero preferencial?! A explicação para esta questão passa pela admiração que Fonseca tinha pela figura de Carlos Gomes e pela paixão do escritor pela ópera. Os leitores mais assíduos de Rubem Fonseca devem ter percebido isso. Invariavelmente, os protagonistas dos romances fonsequianos eram fãs de ópera e discorriam sobre os principais espetáculos com a naturalidade de quem discute futebol no bar da esquina.


Sem dúvida nenhuma, “O Selvagem da Ópera” nasceu mais para atender às vontades íntimas de Rubem Fonseca do que para aplacar os desejos dos seus leitores. Em outras palavras, este é um livro do autor (e não tanto dos seus fãs tradicionais). Apaixonado por ópera e por cinema, nada mais natural do que Fonseca produzir uma cinebiografia de Carlos Gomes, até hoje a figura central da ópera nacional. Para desenvolver o texto deste romance, o escritor mineiro realizou uma extensa e profunda pesquisa documental e biográfica que consumiu alguns anos. A ideia era recriar fielmente as principais passagens e os dramas mais sensíveis da vida de Gomes, ao mesmo tempo em que enxertos ficcionais seriam inseridos na narrativa sempre que necessário. Daí a pegada semi-biográfica do texto. Como consequência desse processo criativo, “O Selvagem da Ópera“ foi a obra literária que mais exigiu tempo e esforço (principalmente de pesquisa) de seu autor. A ambição de Fonseca era criar, mesmo com o suporte ficcional, a mais fiel biografia do maior maestro brasileiro de todos os tempos.

Publicado em 1994, “O Selvagem da Ópera” chegou às livrarias brasileiras quatro anos após “Agosto” (Companhia das Letras), o romance anterior de Rubem Fonseca e seu maior sucesso comercial. Entre esses dois títulos, o mineiro lançou também uma coletânea de contos, “Romance Negro e Outras Histórias” (Companhia das Letras), a primeira coleção de narrativas curtas depois de quase uma década e meia. Diante da repercussão do êxito de “Agosto” e da novidade de “Romance Negro e Outras Histórias”, “O Selvagem da Ópera”, apesar de sua qualidade narrativa, acabou decepcionando tanto os leitores (que, na certa, estavam esperando um novo romance policial) quanto a crítica (pega de surpresa com a mudança de proposta do autor). Não é errado enxergarmos este livro como o mais chato da carreira literária de Fonseca.


O maior problema de “O Selvagem da Ópera” não está na qualidade de sua narrativa e sim na expectativa (não atendida) do leitor. Quando pegamos um livro de Rubem Fonseca (assim como acontece constantemente com os títulos de Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Raymond Chandler, Andrew Vachss, Luiz Alfredo Garcia-Roza, Raphael Montes), esperamos naturalmente encontrar uma investigação criminal. Do contrário, nos surpreendemos com a novidade lançada ou mesmo nos decepcionamos com o descumprimento do que imaginávamos ser o conteúdo do livro. Se “Selvagem da Ópera”, um dramalhão tórrido, fosse, por exemplo, uma publicação de Maria José Dupré (conhecida por seus dramas históricos), a aceitação teria sido diferente (provavelmente mais positiva).


Prova maior do quanto este título foi subvalorizado pelo mercado editorial é que ele nunca foi adaptado para o cinema, como era a pretensão inicial de seu autor. Vale lembrar que na metade da década de 1990, alguns dos principais livros de Fonseca já tinham ganhado as telas tanto da televisão quanto do cinema ou estavam em processo de adaptação. “Lúcia McCartney, Uma Garota de Programa” (1971) e “A Grande Arte” (1991), por exemplo, estrearam no cinema com boa aceitação do público. “Stelinha” (1991), um roteiro cinematográfico de Fonseca, ganhou vários prêmios. “Agosto” (1993), por sua vez, foi transformado em uma minissérie televisiva pela Rede Globo. Contudo, “O Selvagem da Ópera”, o texto mais fácil para ser levado para as telas, ainda espera por esta migração midiática duas décadas e meia depois de sua publicação em papel. Nos últimos anos, a Rede Globo até anunciou que faria uma minissérie de TV a partir desta trama de Rubem Fonseca. Uma vez cancelado o projeto, agora a emissora carioca fala em adaptar este texto fonsequiano para uma telenovela. De concreto, porém, ainda não há nada.


O enredo do livro de “O Selvagem da Ópera” inicia-se em 1859. Nesta época, Antônio Carlos Gomes é um jovem estudante da Faculdade de Direito de São Paulo (Capítulo 1 – A Partitura Rasgada). Nascido em Campinas e com 23 anos, o rapaz sonha em se tornar maestro. Incentivado pelos amigos, Carlos abandona a faculdade e viaja, contra a vontade do pai, para a Corte do Rio de Janeiro para tentar a sorte. Na capital do Império, ele conhece pessoas influentes como Azarias Botelho e Condessa de Barral. Graças aos novos amigos, o jovem músico é apresentado a D. Pedro II. Com uma recomendação do imperador brasileiro, Carlos Gomes inicia seus estudos no Conservatório de Música do Rio.

Não demora muitos anos para o obstinado estudante de música ganhar a medalha de ouro em um badalado concurso da Academia de Belas Artes. Uma vez maestro, ele compõe sua primeira ópera, “A Noite do Castelo”. Encenada no Rio de Janeiro, a peça recebe muitos elogios da imprensa carioca. Ao mesmo tempo em que o talento de Carlos Gomes é exaltado pela imprensa, nota-se certo preconceito pela origem humilde do músico e pela sua constituição física – o rapaz é moreno e possui traços indígenas.


Aos 27 anos, Carlos Gomes estreia sua segunda ópera, “Joana de Flandres”, no Teatro Lírico Fluminense (Capítulo 2 – Storia Interessante Di Selvaggi Del Brasile – ou Non Per Solo Istinto Ma Per Profonda Cognizione). A crítica divide-se entre elogios e avacalhações. O importante é que D. Pedro II gostou ao ponto de patrocinar o desenvolvimento dos estudos do jovem músico na Europa. Desta maneira, Carlos Gomes viaja para Milão e se apresenta ao Conservatório de Música local. Contudo, ele é impossibilitado de ingressar na instituição. A justificativa é que aquele conservatório só aceita menores de idade. Por este ponto de vista, o brasileiro é muito velho. Não querendo voltar ao seu país, Carlos encontra uma solução intermediária – se não pode frequentar as aulas do Conservatório de Música de Milão, pode pelo menos fazer aulas particulares com o maestro Rossi, professor da escola, a fim de obter o atestado de conclusão de curso. E assim, o jovem músico inicia seus estudos.


Uma vez formado maestro (sim, ele conseguiu o certificado de conclusão de curso), Carlos Gomes passa a trabalhar em Milão. Essa decisão é reflexo da Guerra do Paraguai. Por causa do conflito na América do Sul, os teatros cariocas precisaram ficar fechados. Sem alternativa, coube ao brasileiro permanecer na capital da Lombardia. Ali, ele consegue se tornar conhecido a partir de sua primeira criação na Europa, “Se Sa Minga”, que agrada ao público milanês, o mais exigente da Itália.


Já naquele momento, Carlos Gomes trabalhava em sua mais ambiciosa ópera, “O Guarani”, baseada no romance de José de Alencar (Capítulo 3 – A Condessa Maffei e Il Povero Selvaggetto). Enquanto preparava sua obra-prima, o brasileiro estreou seu segundo trabalho em Milão, “Nella Luna”. Novamente, a crítica é extremamente favorável ao talento do brasileiro. Apaixonado por Adelina Peri, filha de um tapeceiro e que sonhava em ser concertista, o protagonista de Rubem Fonseca precisa conviver com a forte oposição da família da moça. Os Peri não viam com bons olhos a união de Adelina com um rapaz de traços indígenas. Enquanto saía escondido com a namorada, Gomes apresenta “O Guarani” no Teatro Scala, em Milão. O público vai ao delírio.


Somente após uma carta de recomendação escrita por D. Pedro II, Carlos consegue vencer a resistência dos pais de Adelina e encaminhar seu casamento com a moça (Capítulo 4 – A Ovelha e o Leão). Logo em seguida, o maestro precisa retornar ao Rio de Janeiro para acompanhar a estreia nacional de “O Guarani”. Apesar das críticas negativas de José de Alencar pelo tipo de adaptação feita pelo compositor, a ópera é um sucesso. Assediado pelas mulheres, Carlos Gomes esquece por ora da noiva na Itália e não recusa nenhuma investida feminina. O sucesso com as cariocas não é acompanhado pelo dos políticos da Corte. Há quem duvide que Gomes tenha produzido suas obras e há quem conteste o alto investimento feito pelo governo brasileiro para bancar o artista na Europa - movimentos republicanos começam a ganhar força no Rio.

Apesar das críticas quanto à bolsa recebida por D. Pedro II, o maestro brasileiro vive em certa penúria financeira. Com ajuda dos amigos, ele consegue dinheiro para retornar para Milão. Novamente na Itália, Carlos se casa com Adelina e tem três filhos: Carlota, Manuel José e Carlos André. A menina, infelizmente, morre com poucos anos de vida. Os problemas financeiros persistem, pois o brasileiro faz péssimos negócios – não sabe negociar os direitos de suas criações. Para aplacar as angústias, ele coleciona algumas amantes.


Aos 38 anos, Carlos Gomes estreia “Salvator Rosa”, sua criação mais aguardada (Capítulo 5 – Na Casa Ricordi). Nesta época, ele mora com a esposa e os filhos em Lecco. Eles tinham deixado Milão após o músico receber uma bolsa mais polpuda do governo brasileiro. O sucesso de “O Guarani” enchera seus conterrâneos e principalmente o imperador brasileiro de orgulho. Por outro lado, o maestro também era chamado de parasita pelos parlamentares do Rio de Janeiro. Indiferente aos protestos dos políticos na capital do seu país natal, Carlos consegue colocar suas finanças, até então caóticas, em ordem. Depois da perda de mais um filho (dessa vez é Manuel José quem morre precocemente), ele e Adelina aguardam o nascimento de outra criança (Mário Antônio).


Perfeccionista, Carlos Gomes não se cansa de revisar suas antigas criações (Capítulo 6 – A Extasiante Darclée). Com um novo contrato assinado, desta vez para produzir “Maria Tudor”, o maestro se vê impossibilitado de concluir este trabalho. As recorrentes viagens para acompanhar suas óperas e as várias amantes espalhadas pela Itália, a principal delas é Hariclée Darclée, consomem seu tempo e sua energia. Em casa, Adelina tem o quinto e último filho do músico, Itala.


“Maria Tudor” é a sexta ópera de Carlos Gomes, a quarta produzida na Itália (Capítulo 7 – Miçangas Douradas). Depois de alguns atrasos, o brasileiro enfim a concluiu. Dessa vez, a estreia do novo trabalho é um fracasso. Deprimido com a crítica, o maestro briga com a esposa e se separa. Seu único consolo é a companhia cada vez mais frequente de Darclée. Para piorar ainda mais o cenário, Mário, o filho mais querido de Carlos, morre aos cinco anos. Ainda mais abalado, o músico passa a consumir ópio. Rapidamente, o ópio passa a ser usado dia e noite em doses preocupantes.


Após se convencer dos malefícios do ópio, Carlos Gomes larga as drogas e volta ao Brasil ao lado do filho Carlos André (Capítulo 8 – O Pesadelo). Ele é recebido como herói em Salvador, Rio de Janeiro e Campinas. Na capital brasileira, se encontra com D. Pedro II. O imperador, neste momento, tem 55 anos e o maestro 44. Em sua cidade natal, Carlos Gomes descobre as verdades sobre a morte de sua mãe e sobre um pesadelo recorrente que tinha desde pequeno. O pai tinha matado a mãe por ciúmes quando o músico ainda era um garotinho. Por isso, seus sonhos perturbadores – uma mulher era assassinada por um homem misterioso.

Em 1881, a Vila Gomes, um palacete em Maggianico, é inaugurada pelo seu proprietário, Carlos Gomes (Capítulo 9 – Dez Anos Improfícuos). Com as despesas volumosas de manutenção da nova morada e com o declínio das receitas de suas peças, o maestro brasileiro precisa fazer dívidas. Nesta época, morre Adelina. Sucumbindo ao alcoolismo, o brasileiro não consegue criar nada por quase uma década. Os resultados práticos desta fase nebulosa do artista são: a venda do palacete em 1887; a briga com Hariclée Darclée por ela se mudar para Paris; e o surgimento dos primeiros pensamentos suicidas. No Brasil, os movimentos republicanos ganham ainda mais fôlego.


Enfim, Carlos Gomes conclui “O Escravo”, sua nova ópera (Capítulo 10 – O Escravo). Ele viaja para o Rio de Janeiro para supervisionar a estreia do espetáculo, que tem uma recepção apenas respeitosa pelo público. Alguns dias depois, a Monarquia brasileira é derrubada e a República é instalada. D. Pedro II deixa o país, rumo ao exílio na Europa.


“Condor” (que mais tarde teria o nome mudado para “Odaléa”) estreia na Itália (Capítulo 11 – Odaléa, a Rainha de Samarcanda). Hariclée Darclée, que havia retornado de Paris e reestabelecido o romance com Carlos Gomes, ocupa o papel principal do espetáculo. A crítica italiana recebe com reservas a nova criação do maestro brasileiro. “Colombo”, o trabalho seguinte de Gomes, é apresentado primeiramente no Rio de Janeiro. Apesar das novas criações ganharem os palcos, a saúde financeira do artista se mantém em situação calamitosa. Suas dívidas só aumentam. Na Europa, morre D. Pedro II.


Ao completar 60 anos, Carlos Gomes está muito doente (Capítulo 12 - Fim). Mesmo assim, ele decide viajar da Europa para o Brasil. Ao chegar ao Pará, acaba morrendo. É setembro de 1896.


“O Selvagem da Ópera” é um romance histórico de 248 páginas. Para construir esta análise, reli este livro no último final de semana. As primeiras vezes que li esta obra foram em 2017 e 2018, quando estudava a literatura de Rubem Fonseca para o meu trabalho de Iniciação Científica. Nesta nova leitura, precisei de um único dia para percorrer seus 12 capítulos. Devo ter levado entre seis e sete horas ao todo para ir da primeira à última página (com algumas paradas no meio do caminho, obviamente).


Tenho a impressão de que este é o livro mais chatinho de Rubem Fonseca (sensação tida nas minhas primeiras leituras deste título e confirmada mais uma vez agora). Acompanhamos meio passivamente a biografia do mais importante maestro brasileiro. O problema é que não há uma intriga forte a ponto de nos tirar da zona de conforto (talvez o leitor não tenha tanta curiosidade sobre a vida de Carlos Gomes como tinha o romancista policial). A trajetória do compositor de “O Guarani” é parecida a de muitos artistas: ascensão rápida, má gestão da carreira e das finanças, gênio autodestrutivo e ocaso físico, mental e profissional. Quem estiver acostumado com os suspenses e as cenas de ação dos outros livros de Fonseca, na certa irá se decepcionar com o ritmo mais lento e a falta de uma intriga envolvente.

Se “O Selvagem da Ópera” tem uma proposta distinta às demais obras literárias de Rubem Fonseca (drama histórico semi-autobiográfico versus thriller policial ficcional), o mesmo não pode ser dito sobre o estilo deste texto. Rubem Fonseca continua sendo Rubem Fonseca mesmo quando abandona momentaneamente as narrativas criminais. Ou seja, “O Selvagem da Ópera” possui boa parte das marcas estéticas do autor: linguagem seca; intertextualidade envolvendo múltiplas áreas culturais (literatura, cinema, ópera, teatro, música); bom humor (mesmo em situações delicadas, o que dá o tom de humor negro); erotismo acentuado (Carlos Gomes é um predador sexual); ambientação noir; e inserção de trechos textuais em outros idiomas (no caso, italiano) sem a preocupação da tradução.


Além disso, o próprio protagonista do livro se parece muito com as personagens principais dos romances tipicamente fonsequianos. Antônio Carlos Gomes de “Selvagem da Ópera” é um homem charmoso, hedonista, viciado em sexo, apaixonado por artes, promíscuo sexualmente (tem várias amantes simultaneamente), mentiroso contumaz e inconsequente quanto ao aspecto financeiro (vive endividado e precisando da ajuda dos amigos). Nesse sentido, ele é parecidíssimo com Paulo Morais/Paul Morel, de “O Caso Morel”, com Mandrake, de “A Grande Arte” e “Mandrake – A Bíblia e a Bengala” (Companhia das Letras), com Ivan Canabrava/Gustavo Flávio, de “Bufo & Spallazani” (Companhia das Letras), com Rufus, de “Diário de Um Fescenino” (Companhia das Letras), e com o protagonista sem nome de “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos” (Companhia das Letras). O único aspecto que Gomes não tem (que seus colegas literários tinham) é a propensão para cometer crimes. Pela perspectiva deste último ponto, ele é, portanto, mais parecido a Alberto Mattos, de “Agosto”.


“O Selvagem da Ópera” é um romance histórico que lembra um pouco “Agosto”, a narrativa longa anterior de Rubem Fonseca. Ambos os livros retrataram os dramas de protagonistas em ambientes conturbados do passado brasileiro (se o comissário Mattos padecia durante o fim do governo Getúlio Vargas, Carlos Gomes sofria com a transição da Monarquia para a República). Como construção histórica, “O Selvagem da Ópera” é uma narrativa impecável. A sensação que o leitor tem é de estar realmente acompanhando às passagens verídicas da segunda metade do século XIX. Incrível como Rubem Fonseca consegue transportar suas personagens (e, como consequência, seus leitores) pelo espaço temporal.


Gostei também da brincadeira com o cinema. O texto de “O Selvagem da Ópera” é apresentado desde o início como um argumento cinematográfico. Daí a descrição das cenas do ponto de vista da câmera. O narrador do romance (evidentemente um cineasta fã de Carlos Gomes e de ópera) tem a liberdade para fazer explicações sempre que julga necessário (neste instante, ele abandona um pouco o tom de roteiro de cinema da narrativa e se ancora mais nos elementos das crônicas). Dessa forma, a narração é em primeira pessoa, mas tem uma pegada quase em terceira pessoa (quando a história fica focada na biografia do protagonista e o narrador se torna oculto).

Dos livros de Rubem Fonseca, este é o que apresenta maior aspecto de road story. Desde a primeira cena, Carlos Gomes está viajando. Seus deslocamentos são frequentes durante o enredo e servem de composição narrativa. A vida caótica do protagonista do romance e seu intenso inconformismo (tanto no lado artístico e existencial quanto no lado pessoal e familiar) são, em parte, simbolizados pela necessidade urgente de pegar a estrada (estaria ele fugindo de algo?).


O Desafio Literário de setembro terá prosseguimento na próxima sexta-feira, dia 25. O sexto e último livro de Rubem Fonseca que vamos analisar no Bonas Histórias, neste mês, é a novela semiautobiográfica “José” (Nova Fronteira). Nesta narrativa, o autor reconstrói, em uma mistura de ficção e memórias, sua infância, adolescência e juventude. Não perca a análise de “José” e a continuação do estudo sobre a literatura de Rubem Fonseca. Até mais!


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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