Livros: A Casa dos Espíritos - O romance de estreia de Isabel Allende

Comecemos a análise da literatura de Isabel Allende, a escritora chilena que será estudada em profundidade no Desafio Literário deste mês, pelo seu romance de estreia. “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil) não é apenas o primeiro romance de Allende como é sua obra mais famosa até hoje. Sucesso instantâneo de público e de crítica, este livro se tornou um best-seller em vários países. Li esta publicação no último final de semana e confesso que fiquei maravilhado com seu conteúdo. Ao lado de “Os Vestígios do Dia” (Companhia das Letras), de Kazuo Ishiguro, e “Uma Questão Pessoal” (Companhia das Letras), de Kenzaburo Oe, “A Casa dos Espíritos” é um dos melhores títulos que li neste ano (e, sem dúvida nenhuma, é também um dos romances históricos mais impactantes que conheci).   

 

Publicado em 1982 por uma editora de Buenos Aires, “A Casa dos Espíritos” nasceu de uma carta que Isabel Allende escreveu, no ano anterior, para seu avô, então com 99 anos e que parecia estar à beira da morte. Nesta época, Isabel vivia em Caracas e trabalhava como jornalista freelancer. Ela tinha deixado o Chile em 1973, após o golpe militar que derrubou Salvador Allende da presidência. Salvador era primo de primeiro grau do pai da autora (daí o sobrenome em comum). A família inteira do presidente deposto e morto (ou você acredita naquela historinha de suicídio, hein?) teve que abandonar o Chile às pressas. A carta ao avô, que tinha o propósito de ser uma homenagem à sua memória, logo se transformou em um livro em que Isabel denunciava os abusos cometidos pela ditadura de Augusto Pinochet. Com passagens biográficas de seus familiares e com elementos de Realismo Fantástico, “A Casa dos Espíritos” retrata a saga de uma família chilena por quatro gerações.

 

Por fazer duras críticas à violência, às injustiças sociais, à corrupção e aos desmandos do governo militar de seu país natal, o livro de Isabel Allende não podia ser publicado no Chile. Afinal, a nação andina vivia, naquele momento da história, sob implacável censura. Depois de incontáveis recusas de várias editoras sul-americanas, enfim uma editora de Buenos Aires decidiu lançar “A Casa dos Espíritos”. E tão logo a obra chegou às livrarias argentinas, ela se tornou um grande sucesso. Entre 1982 e 1983, o romance de estreia de Allende foi publicado na Espanha e em vários países latino-americanos. Antes do final da década de 1980, após ganhar várias edições em língua espanhola, “A Casa dos Espíritos” foi traduzido para dezenas de idiomas e lançado com êxito na Europa e nos Estados Unidos. Impulsionada pelo interesse do público internacional pelo Realismo Mágico do continente, movimento chamado de Boom da Literatura Latino-americana, Isabel Allende se tornou uma autora best-seller nos quatro cantos do mundo.

Curiosamente, até os chilenos tiveram que se render à força narrativa de “A Casa dos Espíritos”. Mesmo sob as pesadas críticas dos militares do país, o livro foi eleito o melhor romance chileno de 1982 e sua escritora recebeu o Prêmio Panorama Literário de 1983 pela sua fabulosa criação ficcional. Nos anos seguintes, à medida que a obra foi sendo lançada no exterior, os prêmios internacionais foram se acumulando na prateleira da casa de Isabel Allende. Ela conquistou importantes troféus literários na Alemanha, França, Estados Unidos, México, Bélgica, etc.

 

No início dos anos 1990, a história deste romance foi adaptada para o cinema. O filme “A Casa dos Espíritos” (The House of The Spirits: 1993) foi dirigido pelo dinamarquês Bille August e teve um orçamento aproximado de US$ 40 milhões. Em seu elenco, o longa-metragem contou com a participação de uma constelação de Hollywood: Meryl Streep, Antonio Banderas, Winona Ryder, Jeremy Irons e Glenn Close. Já no século XXI, a trama de “A Casa dos Espíritos” foi adaptada também para o teatro algumas vezes. E há sempre quem cogite a transformação do romance de Allende em um seriado televisivo, algo que não aconteceu até agora.   

 

O enredo de “A Casa dos Espíritos” começa mais ou menos na virada do século XIX para o século XX. Em um Chile pós-colonial, a família Del Valle tem uma vida confortável na capital do país. Severo, um advogado com pretensões políticas, é casado com Nívea, uma engajada feminista. O irmão de Nívea é Marcos, um aventureiro que realiza proezas que ora envergonham os familiares, ora enchem a todos de orgulho. Severo e Nívea têm alguns filhos. Clara, a caçula de 10 anos, possui mediunidade aflorada. Além de ver espíritos, de ter presságios e de movimentar objetos com a mente, a menina tem telepatia. Para não assustar as pessoas (e principalmente o temido Padre Restrepo), os Del Valle escondem dos visitantes os poderes paranormais de Clara. Rosa, a filha mais velha, tem 18 anos e é conhecida pela beleza estonteante. Ela é noiva de Esteban Trueba, o filho de um decadente fazendeiro. Outro descendente direto de Severo e Nívea Del Valle é Luis, um rapaz que teve o quadril deslocado na infância e que, por isso, anda coxeando. Ele parece seguir os caminhos do pai e sonha em se tornar um respeitado advogado.  

 

Então com vinte e cinco anos, Esteban Trueba, o noivo de Rosa Del Valle, é filho de Dona Ester, uma mulher paralítica que vive sob os cuidados diários de sua filha Férula. O pai de Férula e Esteban morreu há alguns anos, deixando a família em dificuldades financeiras. Com o intuito de voltar a ficar rico e de poder se casar com Rosa, Esteban trabalha nas minas no norte do país à procura de ouro. Assim que descobrir uma pedra preciosa, o rapaz planeja chegar à casa de sua noiva e levar a moça para o altar. Com esse sonho em mente, ele não reclama de precisar passar anos longe de Rosa e de viver dentro dos insalubres campos de mineração.

Contudo, o destino será impiedoso com o jovem Esteban. Tão logo ele se torna rico ao descobrir uma pepita grande de ouro, ele recebe uma carta de Férula. Na mensagem, a irmã avisa ao rapaz que Rosa morreu. Desolado, Esteban Trueba retorna para a capital para o enterro da noiva. Para perplexidade geral, a moça foi envenenada. As investigações indicam que alguém tentou matar Severo Del Valle, que dava os primeiros passos na política. Por engano, ao invés do advogado morrer, quem morreu foi sua filha mais velha. Para comprovar tal teoria, o médico Cuevas e seu assistente fazem a autópsia da falecida. Clara, a caçula de Severo e Nívea Del Valle, assiste à cena dos médicos trabalhando e fica impressionada com aquela prática invasiva no corpo da irmã. Traumatizada, a garota ficará dez anos sem emitir qualquer palavra. Ela só quebrará o silêncio quando for anunciar aos pais o seu casamento.     

 

Com a morte de Rosa Del Valle, Esteban decide largar definitivamente a mineração. Com o dinheiro adquirido com a pepita de ouro, ele viaja para a fazenda de Las Tres Marias, no sul do Chile. A antiga propriedade da família Trueba estava abandonada desde o falecimento do marido de Dona Ester. Após muito trabalho, Esteban Trueba consegue tornar a fazenda novamente próspera e rentável. Os tempos de dificuldade financeira do rapaz ficaram definitivamente para trás. Agora, ele é um fazendeiro rico. Para aplacar a libido, o solteirão estupra várias camponesas da região. Por ser o homem mais poderoso daquela localidade, ninguém nunca o importunou quanto aos crimes sexuais praticados à torto e direito. Indiferente aos filhos bastardos que brotavam pelos quatro cantos de Las Tres Marias, Esteban jamais reconheceu qualquer uma das crianças das mulheres atacadas por ele.    

 

Após dez anos vivendo em Las Tres Marias, Esteban Trueba recebe uma nova carta da irmã. Segundo Férula, quem está morrendo agora é a mãe deles. Ao visitar a capital chilena para testemunhar os últimos momentos de Dona Ester, o filho promete à mãe que irá se casar com uma mulher de sua classe social. Após o enterro de Dona Ester, Esteban vai à residência dos Dell Valle para saber se há outra moça solteira ali. E há. Clara, agora com 19 anos, deixa o fazendeiro encantado. Ela não é tão bonita quanto Rosa, mas é bastante formosa. Além disso, Clara é muito mais simpática do que a irmã mais velha. Sendo bastante transparentes com o candidato a noivo da filha, Severo e Nívea Del Valle explicam para Esteban as particularidades de Clara: ela tem poderes paranormais, é péssima dona de casa e ficou quase uma década em total silêncio. Já encantado pela beleza da moça, ele não vê problema no que enxerga ser características excêntricas da personalidade da mulher amada.

Uma vez casados, Clara e Esteban são, à princípio, muito felizes. Enquanto ele cuida dos negócios na fazenda do interior e entra na política (torna-se senador da República), ela realiza trabalhos sociais e ações religiosas na residência dos Trueba na capital. Um não se mete nas atividades do outro. Não demora e o casal tem três filhos: Blanca, a mais velha, e os gêmeos Jaime e Nicolau. Para ajudar Clara na administração do lar, Férula vai viver com o irmão e com a cunhada logo após o casamento.

 

Entretanto, os gênios tão diferentes de Clara e Esteban irão colocá-los em campos opostos. À medida que os anos passam, a esposa odiará o marido, cada vez mais truculento e insensível quanto às necessidades do povo carente do Chile. O mesmo conflito será protagonizado, mais tarde, entre os filhos de Clara e o pai deles. Blanca se envolverá com Pedro Tercero Garcia, um jovem trabalhador de Las Tres Marias. Jaime se tornará um médico engajado socialmente. E Nicolau terá gosto pelas aventuras exóticas como o tio Marcos tinha no passado. Ninguém da família parece nutrir bons sentimentos por Esteban, cada vez mais velho, rabugento e solitário. A única que irá dar alguma atenção e algum carinho ao velho senador é Alba, a sua única neta. A moça é filha de Blanca e Pedro Tercero Garcia. E assim como a mãe, Alba irá se apaixonar por um revolucionário marxista, Miguel, o que trará problemas para todos quando o Golpe Militar de 1973 for decretado. Aí tempos sombrios se abaterão sobre a casa dos Trueba. Insistentemente, Esteban resistirá às dificuldades do presente com a força inabalável do passado e com a convicção típica de sua personalidade.           

 

“A Casa dos Espíritos” é um romance do tipo tijolão. Com 448 páginas, ele possui 15 capítulos. Precisei do final de semana inteiro para concluir esta leitura. Comecei o livro na sexta-feira à noite e o terminei no domingo à noite. Devo ter investido cerca de treze a quatorze horas de leitura. E esse tempo valeu a pena. “A Casa dos Espíritos” é uma trama emocionante e impecável. O mais impressionante é notar que este romance representou a estreia de Isabel Allende nas narrativas longas. Até a publicação desta obra, a chilena só havia lançado livros infantis e peças teatrais. Há muito tempo não lia um título de estreia tão excelente quanto este (isso é, se algum dia já li).    

 

Vários elementos de ordem narrativa chamam a atenção do leitor em “A Casa dos Espíritos”. Em primeiro lugar, temos cenas maravilhosas durante quase todo o livro. É até difícil apontar quais são os momentos mais marcantes desta longa trama. A impressão que tive é que este romance começa e termina em alto nível. Apesar da passagem do tempo, da mudança de cenários e da troca paulatina de protagonistas, uma coisa não muda em suas quase 500 páginas: a sucessão de cenas contagiantes.   

Outra questão a ser elogiada é a construção das personagens. Figuras memoráveis desfilam pelos capítulos deste livro. E não são apenas os protagonistas que se destacam em “A Casa dos Espíritos”. Há vários coadjuvantes com força para encantar os leitores. De cabeça, lembro-me de Padre Restrepo, do Doutor Cuevas, de Ama, de Pedro Garcia, de Pedro Segundo Garcia, de Barrabás, de Férula Trueba, das três irmãs Mora, do tio Marcos, do conde de Satigny e de Tránsito Soto. Note que quase todas as figuras retratadas nesta obra são personagens redondas. Não há indivíduos totalmente bonzinhos nem pessoas totalmente vilãs. Quem melhor representa essa contradição é Esteban Trueba. Ora ele é o típico caudilho sul-americano, capaz de estuprar as mulheres pobres e indefesas do seu vilarejo e de mandar matar seus desafeitos políticos, ora é o marido apaixonado e o avô zeloso, capaz de fazer qualquer coisa para agradar as mulheres de sua família.  

 

Por falar nas mulheres da família Del Valle/Trueba, vale a pena citar a força delas. Tanto Nívea Del Vale quanto Clara Trueba, Blanca Trueba Satigny e Alba Trueba desafiam a sociedade patriarcal e o machismo de suas épocas. Cada uma das integrantes das quatro gerações deste clã (bisavó, avó, mãe e filha) se impôs e deixou legados incontestáveis. Apesar da trama ser narrada em boa parte por Esteban Trueba, uma figura proeminente da sociedade chilena e um sujeito extremamente rico, as verdadeiras protagonistas desta história são as mulheres que agiram na surdina para promover a igualdade social em uma nação tão desigual. Não à toa, elas padeceram, muitas vezes, pela falta de recursos financeiros e de confortos mínimos. Incrível acompanhar suas trajetórias.

 

Por falar em personagens, há algumas figuras reais que são citadas em “A Casa dos Espíritos”, mas que não são mencionadas nominalmente. Isso fica mais evidente no caso do Presidente socialista derrubado pelo golpe militar e do Poeta conhecido internacionalmente e perseguido pelos militares do seu país. Não é difícil perceber que o primeiro é Salvador Allende e o segundo é Pablo Neruda. Os dois são chamados, respectivamente, o tempo inteiro apenas de Presidente e de Poeta.  

 

Já que estamos tratando das omissões, é importante dizer que não há a caracterização do espaço narrativo nem do tempo narrativo neste livro. Em nenhum momento, Isabel Allende cita seu país como palco desta trama ficcional. Porém, é perceptível que a história se passa no Chile durante o final do século XIX e boa parte do século XX (são 75 anos de história).

 

O tom de realismo fantástico, mais acentuado nos primeiros capítulos de “A Casa dos Espíritos”, lembra muito “Cem Anos de Solidão” (Record), romance clássico de Gabriel García Márquez. Porém, o livro de Isabel Allende não se limita aos eventos mágicos protagonizados principalmente por Clara Del Valle Trueba. À medida que sua história evolui, o livro muda frequentemente de característica estilística: ele adquire tom de drama romântico, de saga política, de conflito agrário e de thriller de terror. Parte do charme desta obra de Allende está em suas transmutações ao longo dos capítulos, o que confere grande agilidade à narrativa e não deixa os conflitos esfriarem.   

Neste sentido, o contexto político do Chile no século XX serve de ambientação para toda a narrativa de Isabel Allende. Vale lembrar que Rosa Del Valle morreu envenenada quando seu pai se filiou ao Partido Liberal, de esquerda, e não ao Partido Conservador, de direita. E, dali em diante, os conflitos de natureza política irão influenciar as brigas e os conflitos de quase todos os protagonistas. Os capítulos finais de “A Casa dos Espíritos” servem de alerta para todos aqueles que ainda hoje insistem em apoiar medidas autoritárias, não democráticas e à margem do Estado de Direito. Por mais absurdo que pareça, ainda há pessoas em países da América Latina que parecem não ter aprendido nada com o passado! Em uma ditadura militar, ninguém escapa das mãos pesadas, injustas e inconsequentes dos idiotas fardados no poder. Não é, Esteban Trueba?!   

 

Apesar das cenas fortes, de muita violência e maldade explícita, “A Casa dos Espíritos” não é uma narrativa pesada. O que abranda a ambientação é o humor de Isabel Allende. Ao longo de todo o texto, somos brindados com cenas divertidas e comentários espirituosos. Algumas passagens são hilárias: o destino da cabeça de Nívea Del Valle, a transformação da pele de Barrabás em enfeite e a agonia de Esteban Trueba toda vez que sua mulher fazia as malas para viajar para Las Tres Marias, por exemplo. Como já deve ter dado para perceber, o humor típico desta obra é o humor negro.      

 

“A Casa dos Espíritos” é uma narrativa entrecortada por relatos em primeira pessoa e em terceira pessoa. Quem narra a história é Esteban Trueba e sua neta Alba. Porém, há trechos extraídos de anotações de Clara (daí a explicação para as partes em terceira pessoa). Este talvez seja o único ponto negativo do romance de Allende – a inverosimilhança do foco narrativo. É difícil engolir que Esteban e Alba Trueba tivessem acesso aos detalhes da vida de todos os personagens citados. Além disso, não me pareceu crível que Esteban Trueba criticasse abertamente seu próprio comportamento (intransigente, mesquinho e extremamente violento). Como um “bom” caudilho nascido no final do século XIX, ele jamais iria reconhecer seus excessos e nunca os apontaria como algo negativo de sua personalidade.  

Ao terminar este livro, juro que pensei: “Se Isabel Allende tiver escrito outro romance com 50% da excelência de “A Casa dos Espíritos”, ela merece um Nobel de Literatura”. Para descobrir a qualidade das demais obras da escritora chilena (Teria “A Casa dos Espíritos sido sorte de principiante, hein?!), vou continuar as leituras do Desafio Literário de outubro. O próximo título que vou comentar no Bonas Histórias é “Eva Luna” (Bertrand Brasil), o quarto romance de Allende. Publicado em 1987, este livro também se tornou um grande sucesso. O post sobre “Eva Luna” estará disponível no blog na próxima sexta-feira, dia 9. Não perca!  

 

Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

Please reload

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes
Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento