Novela: O Ghost Writer - Capítulo 5, Para Se Molhar

Meu celular tocou de um jeito bisonho. Demonstrando que não estava mais aguentando os dissabores recentes, ele resolveu protestar como podia: esperneando em tom baixo, inconstante e anasalado. Era o sussurro metálico de um aparelho a ponto de sucumbir. Infelizmente, eu entendia o seu estado de espírito naquela noite. A alteração de som devia ser consequência tanto da queda sofrida à tarde quanto da garoa que ele estava recebendo na última hora. Por mais que eu tentasse protegê-lo com o guarda-chuva aberto, sempre um pouco de água espirrava.

 

Depois de ver de quem era a ligação, procurei um lugar menos molhado na calçada e atendi. Precisava me esforçar para parecer minimamente bem.

 

– Alô.

 

– Oi, amor! Tá tudo bem aí?   

 

– Sim, Dora. Está tudo ótimo. Melhor impossível.

 

– Que bom. Fiquei preocupada. Tive pressentimentos ruins.

 

– Pressentimentos ruins?!

 

– Na verdade, não foram pressentimentos. Aproveitei que cheguei mais cedo hoje, aquele lance do eletricista que você tinha marcado, e pedi para a Layla jogar cartas para mim. E saiu que você ia ter sérios problemas nesta viagem. Tá tudo bem mesmo, amor?

 

– É claro que tá, Santo Deus! – dessa vez não escondi a irritação. Eu tentando parecer feliz e ela me jogando para baixo. Esta mania da Dora de acreditar em tarô era o fim da picada. Onde já se viu uma advogada inteligente e intelectualizada ficar dando ouvidos a práticas anticientíficas? – Achei que você já tinha superado essa fase.

 

– É... Não... Mais ou menos. Não chamei a Layla aqui para isso. Ela só veio para tomar um chá comigo. Fazia tempo que a gente não se via, né? Aí ficamos conversando, falei de você, do novo livro, da sua viagem, que as coisas estão melhorando. Foi quando ela perguntou se eu queria que ela jogasse cartas. Coisinha boba, sabe? Pra não ficar chato, eu falei que sim e ela desceu no apartamento dela, pegou as cartas e voltou para cá. Foi só isso. Nada demais.

 

– Ah, tá. Eu te conheço muito bem, Sra. Isadora Maria. A Layla ainda tá aí?

 

– Saiu faz meia horinha. E a sua reunião, me conte. Como foi? Já acabou?

 

– Acabou há uma hora. Foi normal, mais ou menos como eu esperava: aquele blábláblá sobre o que escrever e o que não escrever.  

 

– E por que essa vozinha chocha de quem comeu e não gostou?

 

– É que estou cansado... – respondi tentando parecer mais animado. Por mais que me esforçasse para mentir corretamente, sempre pecava em algum detalhezinho bobo. Admito que eu era péssimo em enganar as pessoas. Às vezes, penso que mentir é uma arte para poucos privilegiados. Nunca consegui esconder nada da minha esposa. Em alguns segundos, ela conseguia detectar minhas contradições. Por isso, minha tática sempre foi falar o máximo de verdades – Teve acidente na estrada, uma cena horrorosa. O ônibus atrasou muito e tive que sair correndo para a reunião. Ainda não consegui parar um minuto sequer.  

 

– Coitadinho! – não sei se ela foi sincera ou irônica – Você precisa descansar agora. Já tá no hotel?

 

– Não. Ainda não. Saí agora, agorinha da casa do Roberto. Ainda estou na frente da porta dele. Do lado de fora. Tomando chuva na cabeça. Chuva não, garoa. De qualquer jeito é água na cachola.  

 

– Mas a reunião não tinha acabado faz tempo?!

 

– Sim, acabou... – um pequeno engasgo interrompeu minha frase ao meio – Só que depois ficamos conversando. Tinha uma festinha rolando lá. Era aniversário do cara. Dá pra acreditar? Saí neste instante mesmo e estou esperando um táxi passar por aqui – vai que excepcionalmente minhas meias-verdades se sobressaiam às meias-mentirinhas.     

 

– Beleza. Faz assim: quando você chegar no hotel me liga. Preciso falar com você.

 

– Falar comigo?! Aconteceu alguma coisa, Dora? Fale agora. Não sei quanto tempo ainda vou demorar para chegar lá.

 

– Mas você não falou que estava esperando o táxi?

 

– É. Mas sabe-se lá quanto tempo ele pode demorar. Estou em um bairro residencial meio deserto. O que está pegando, amor? Fale logo. Se for má notícia já estou preparado – Afinal, recebê-las estava virando minha especialidade.  

 

– Agora não. Não vou falar disso com você preocupado com outras coisas.

 

– Se for sobre suas roupas, Dora, acho que podemos pedir para a Marlene cuidar disso enquanto...

 

– Não tem nada a ver com a minha roupa!

 

– É alguma coisa com sua mãe, né? Não vai me dizer que ela...

 

– Não! Pare com essas besteiras – se eu tentava esconder meu mal humor, ela não tinha o menor receio de escancarar o seu – É sobre a gente!

 

– Sobre a gente?!

 

– Mais ou menos sobre a gente. Será que agora que você voltou a trabalhar como escritor pra valer, será que as coisas vão ficar melhor? Digo quanto à grana, sobre você ficar mais tempo em casa...

 

– Dora, o que você andou perguntando para as cartas da Layla? – pergunta retórica, na definição formal, é o tipo de interrogação no qual você faz já sabendo da resposta. Acho que usei esse recurso no meio da conversa. Após segurar por alguns segundos o celular na orelha com o antebraço, troquei o guarda-chuva de mão. Sustentá-lo aberto já estava me cansando – Não vai me dizer que...

 

– Amor, faz assim: a gente fala disso depois. Tá bem? Depois que você chegar no hotel, tomar um banho, trocar de roupa e relaxar um pouco, você me liga. Tá bom?

 

– Não, Dora! – O pior é que eu não tinha hora para voltar. A imagem idílica de um quarto de hotel, um banho quente, roupas limpas e secas e uma cama confortável me esperando só acentuaram minha impaciência – Você vai falar de novo naquela parada de termos filho, de que estamos na idade de ter uma criança, que não podemos deixar para mais tarde, de que você passou dos trinta anos, que esse é o momento certo, que todas as suas amigas já têm pelo menos um bebê.

 

– Acho que não liguei em boa hora.

 

Era claro que aquele não era o melhor momento para discutirmos a ampliação da população do planeta, que já se encontrava superlotado. Há uma hora fui enxotado da casa do autor do meu principal (e único) projeto editorial em andamento. E pior: nem ao menos entendi o que havia feito de errado em minha apresentação. O resultado foi o recebimento de uma senhora portada na cara.

 

Contando com algum mal-entendido que pudesse ser prontamente resolvido, preferi aguardar na calçada em frente à residência enquanto tentava falar com o Paulo pelo celular. E quem disse que o bonitão atendia às minhas ligações, hein? Já tinha tentado meia centena de vezes, mandado mensagens e deixado recados, mas ele simplesmente me ignorava. E isso porque foi o Paulo quem pediu para eu telefonar assim que saísse da reunião.

 

Como minha fase não era das mais favoráveis, precisava espantar a chuvica que caía insistentemente. Mais importante do que me proteger da água era salvar minha mochila da umidade. Meu notebook estava lá dentro, além do gravador de áudio. Não queria estragá-los. Por isso, estava vestindo a mochila nas costas, embaixo do casaco, e a protegia com o guarda-chuva aberto. Não à toa, eu estava bem molhado na parte da frente.

 

Justamente no instante em que tentava entender qual era o grande mal que eu cometera com o Roberto, com a Dora, com o Paulo, com o planeta e com Deus, o celular fez novamente barulhos esquisitos. O nome que aparecia meio apagado no visor do aparelho, em meio aos novos estampidos metálicos, indicava que meu querido editor ressurgia sabe-se lá de onde. Enfim, ele retornava minhas incontáveis chamadas. Saravá!

 

– Dora, o Paulo está me ligando na outra linha. Preciso falar com ele sobre a reunião. Depois a gente se fala.

 

– Beleza, amor. Beijo.

 

Pela rapidez com que desligou, ela não queria mais falar comigo naquela noite. Pelo menos não até que eu estivesse mais calmo. Há certos tipos de conversa que sempre me tiram do sério. E parece que a Dora escolhia os piores momentos para abordá-los.   

 

– Fala, meu escritor favorito!!! Por um acaso, você me traz boas novas?! Já temos o sumário do livro pronto?

 

– O Roberto me expulsou da casa dele, Paulo. Isso não é uma boa notícia para ninguém.

 

– Não acredito que ele te expulsou!

 

– E com direito a batida de porta na minha cara. Se eu estivesse dez centímetros para frente, ele teria acertado meu nariz em cheio. E se estivesse meio metro dentro da casa, quem sabe ele não teria chutado minha bunda para que eu voasse em direção à sarjeta da rua.

 

Para minha perplexidade, o Paulo, a quem eu, até então, nutria respeito e admiração, caiu em uma risada copiosa. Há muito tempo eu não via alguém rir tanto. Não entendi o porquê da graça. A cena tinha sido extremamente desagradável e humilhante. Nunca eu tinha sido expulso assim de um lugar. Tá bom, teve uma vez no cinema (culpa da intempestividade da Jéssica), outra no estádio do Canindé (entrei pelo portão errado usando a camisa do Grêmio) e mais uma na aula de química do colegial (aquele professor me perseguia). Se não fora a primeira vez, a expulsão da casa do Roberto foi a mais desconcertante (depois da do cinema).  

 

– Imaginei que ele ficaria bravo, mas não a este ponto – depois de parar de rir um pouco, Paulo conseguiu falar algumas palavras – Onde você tá? No quarto do hotel?

 

Que mania era aquela de todo mundo achar que eu estava no hotel?! Só porque era uma noite chuvosa (garoenta!) e fria, eu não podia ficar zanzando por aí? E que história era aquela de “eu imaginei que ele ficaria bravo”? No fundo, eu sabia que o dono da editora estava mentindo. Se não estivesse me enganando, na certa omitia boa parte da história, o que no fim das contas dava na mesma. Não gostava de ser feito de trouxa, mesmo estando acostumado a exercer, nos últimos anos, este papel (com a competência de um indicado ao Oscar).

 

– Paulo, está na hora de você abrir o jogo. O que está rolando, hein?

 

Só aí soube exatamente a enrascada em que tinha me metido. Com a serenidade típica dos mais respeitados profissionais do mercado editorial brasileiro, o dono da Pomelo colocou as cartas faltantes na mesa. Aconselho aos interessados deste triste episódio de minha vidinha a se sentar para ouvir o relato do Paulo. É bom também dar uma respirada antes e tomar um copo de água com açúcar. Se possível, indico descarregar a raiva e a adrenalina em atividades terapêuticas: espancar saco de boxe, praticar yoga ou meditação, fazer sessão de gritos, ir a sauna, receber massagem relaxante...

 

Faço tais recomendações porque, infelizmente, não tive a oportunidade de amenizar o que meus ouvidos captaram da ligação telefônica. De pé, decepcionado, com raiva, cansado, molhado, preocupado e, graças a Dora, grilado, recebi como uma bomba a notícia de que o autor do livro pelo qual fora contratado para escrever jamais aprovara a ideia da produção daquela publicação. É isso mesmo o que você ouviu/leu! O Paulo jamais acertara com o Roberto a confecção da obra sobre Estratégia Empresarial. O editor estava tentando convencer o consultor há sete anos (repito: SETE ANOS) a ter um livro, mas jamais obtivera êxito.

 

Soube que eu fora, neste período, o quarto ghost writer a ser enviado para São José dos Campos para convencer o autor a embarcar no projeto editorial da Pomelo. Paulo me contava em tom jocoso todas as tentativas anteriores. Depois de incansáveis reuniões, ligações e e-mails frustrados que duraram perto de dois anos, o proprietário da editora resolveu radicalizar: enviou um escritor de São Paulo com a missão de tratar pessoalmente do assunto com o Roberto. O rapaz chegou a ser recebido no escritório do consultor e a apresentar a ideia do livro. Com educação e elegância, Roberto respondeu negativamente à proposta. Dessa maneira, a única alternativa do (primeiro) escritor contratado do Paulo foi voltar para São Paulo com as pernas entre o rabo.

 

Por duas vezes mais, Paulo repetiu essa estratégia pouco ortodoxa. Pouco ortodoxa e muito mal sucedida, diga-se de passagem. Nessas novas oportunidades, os escritores não conseguiram nem chegar perto do consultor. Ao anunciar que eram da editora do Paulo e que vinham tratar do livro de Estratégia, eles eram desprezados pelo autor (que até então não era autor de jossa nenhuma). Nenhum desses contratados do Paulo (chamados por ele de “segundo” e “terceiro”) conseguiu sequer entrar no escritório do Roberto.

 

– Neste sentido, meu caro, saiba que sua viagem foi um sucesso – Em contraste com meu desespero, Paulo falava se divertindo com a confusão – Não imaginei que você conseguisse entrar na casa do Roberto nem que conseguisse apresentar novamente a ideia do livro. Você foi muito bem! Estou orgulhoso.

 

Só não o matei porque estávamos a 90 quilômetros de distância. Não o xinguei, pois, em estado de pânico, não conseguia pronunciar uma só palavra. Sabe quando a garganta seca totalmente e a pessoa perde a voz? Era o que tinha acontecido comigo naquele momento. E não desliguei a ligação na cara dele porque junto com o pânico e a secura nas cordas vocais, meu corpo entrara em prostração. Estava simplesmente sem reação.

 

Agora entendia plenamente a minha contratação (será que ele estava me chamando de “o quarto” para os funcionários da Pomelo) e o pagamento antecipado. Paulo sabia que eu precisava de grana e que faria qualquer coisa para escrever um livro. Ou seja, eu era a pessoa mais indicada para aquela missão quase impossível. Além disso, ele me conhecia o suficiente para saber que eu não iria embolsar a bolada recebida previamente sem apresentar o texto da obra. Ou eu escrevia o livro e ficava com a remuneração ou não escrevia e devolvia o dinheiro.

 

Como ele sabia disso? Era óbvio (pelo menos a partir daquele instante tudo ficou claro para mim). Se eu não fizera nada com as editoras que ficaram me devendo no passado, por que iria arranjar confusão desta vez? Vale explicar que tanto a Dora quanto o Paulo tinham insistido para eu espernear, entrar na Justiça, invadir o escritório das editoras devedoras e ameaçar revelar minha participação nos livros se não recebesse os pagamentos, mas preferi a maneira mais sensata: não retaliar. Não sou de briga nem de confusão. Antes amargar o prejuízo do que começar um litígio ou uma guerra com alguém. E agora não seria diferente. Ainda mais porque era eu quem estava no débito e não a editora.

 

Por tudo isso, Paulo tinha a certeza de que eu devolveria centavo por centavo do adiantamento, mesmo que levasse algum tempo (quem sabe anos, décadas, séculos ou gerações). Em outras palavras, eu era a piranha perfeita para avançar pelo rio antes da passagem da boiada. Em uma analogia mais elegante, eu era, desde o depósito na minha conta na quarta-feira passada, a parte mais interessada em resolver o imbróglio. Ninguém queria ver aquele livro pronto mais do que eu.  

 

– Se o Roberto não quer o livro, é melhor não insistirmos mais – Paulo abandonava o tom brincalhão e voltava a falar com alguma racionalidade – Não precisa mais procurá-lo. Entendeu? Volte amanhã mesmo para São Paulo e na segunda-feira a gente conversa sobre como você fará o estorno do que depositamos em sua conta. Ah, e traga as notinhas das suas despesas. Não quero que você saia no prejuízo.

 

Juro que fiquei imaginando a cena: eu entrando em casa com as malas na mão. A Dora atônita querendo uma resposta plausível para minha chegada tão antecipada. E eu, com o coração em frangalho, tentando achar as palavras para explicar do melhor jeito possível que fora até o fim da linha. Ao fim do livro que nunca existiu; do sonho de ser escritor; da nossa tranquilidade financeira que durara uma semana; da minha dignidade como marido e profissional que pensava saber o que estava fazendo; do nosso filho que estaria a caminho se o pai não tivesse falhado tanto; e, quem vai saber, até mesmo da nossa insipiente família, que a trancos e barrancos tentávamos construir em meio às adversidades. 

 

– Ei, você está aí? Tá me ouvindo?

 

Não. Eu não poderia voltar com as mãos abanando para a Dora. De jeito nenhum! Eu tinha que insistir. Devia persistir. Se eu contasse para o Roberto o meu drama, será que ele deixava eu escrever o livro por piedade? Acho que ele nunca mais deixará eu me aproximar dele. Entrei em sua casa sem ser convidado, sentei-me junto à sua família e aos seus amigos e, sem saber, provoquei-o novamente com a interminável história da obra que ele não queria saber de ver publicada. Em sua visão, eu devia ser alguém insensível e abusado por perturbá-lo até em sua festa de aniversário. Confesso que fiquei com vergonha de mim mesmo. Pensando bem, acho que dei sorte de ele não ter chamado a polícia. Ser preso só iria coroar a pior noite da minha vida. 

 

– Alô. Tem alguém aí? Responde! Por um acaso, você está...

 

Talvez abalado com o que presenciara, meu celular resolveu encerrar por conta própria a ligação. No fundo, o Paulo merecia aquilo, apesar de eu não ter a coragem de desligar na cara de ninguém. Em seguida, o aparelho emitiu um estampido baixinho, uma espécie de gemido incompreensível para os humanos, e apagou. Não sei se foi morte definitiva ou morte provisória (frase esta que seria dita por João Cabral de Melo Neto se ele tivesse vivido no século XXI). A interrupção do funcionamento do telefone podia ser falta de bateria, defeito mecânico ou tristeza com a história que acabara de intermediar. Pensando bem, não deve ser fácil ser celular hoje em dia. Pior mesmo é ficar sem ele justamente quando um turbilhão de acontecimentos pouco satisfatórios invade nossa vida de repente.  

 

Na hora, minha vontade foi de atirá-lo longe. A raiva acumulada nos últimos minutos precisava ser canalizada, nem que fosse para uma vítima indefesa da situação. Não demorou, contudo, para eu perceber que o telefone não tinha culpa de nada. Ele era uma vítima tanto quanto eu das maluquices da existência patética que eu levava há algum tempo.  

 

O que fazer?! Sinceramente, não compreendia como podia agir para resolver o caô em que estava metido. Senti falta da Dora. Na certa, ela saberia me orientar. Ela sempre tinha uma resposta certeira para cada dificuldade. Apesar das dúvidas que brotavam em minha cabeça, uma coisa eu tinha certeza: não voltaria para minha cidade de mãos abanando. Iria ficar em São José dos Campos custe o que custasse. E eu escreveria um livro de Estratégia. Só não tinha visualizado ainda como faria para produzi-lo. Talvez eu precisasse seguir o Roberto como faziam os espiões secretos. Quem sabe não podia grampeá-lo sem que ele soubesse. Assim, teria acesso total às suas conversas e reuniões com os clientes. Ou será que eu precisaria sequestrá-lo, obrigando-o a transmitir seu conhecimento para mim?  

 

Ideias fervilhavam, enquanto eu permanecia estático na mesma rua do Jardim Aquarius. Indiferentes aos meus dramas, os convidados da festinha do Roberto foram embora. A maioria, em consideração, passou por mim e se despediu com rápidos “boa noite”, “tchau” e “boa sorte”. Um casal chegou a perguntar se eu precisava de alguma coisa. Agradeci sensibilizado indicando que não.

 

De dentro da casa, alguém fechou a cortina da sala. Em seguida, as luzes do térreo se apagaram e as do segundo andar começaram a trabalhar. Nesse instante, vi um vulto na janela olhando para mim. Não conseguir reconhecer quem era, mas tenho certeza, pela altura, que era o Roberto ou a Patrícia. Quando a pessoa se voltou para dentro, a residência ficou inteiramente escura.

 

Com isso, a calçada onde eu estava foi dominada pela escuridão da noite. Indiretamente, era a luminosidade da construção à minha frente que me aparava na rua. No completo breu, assisti à noite se transformar em madrugada e à madrugada virar manhãzinha. A temperatura ambiente caía cada vez mais. Minha roupa molhada não ajudava a espantar o frio. Não reclamei porque ao menos a garoa cessou entre a madrugada e a manhã. Para dar descanso para as minhas costas tão combalidas, tirei a mochila e passei a segurá-la nas mãos.

 

Minha sorte é que eu não tinha um espelho para ver minha imagem. Definitivamente, meu visual não devia ser dos mais agradáveis naquele início de sexta-feira. Quem disse que vida de escritor era fácil? Quando os primeiros raios solares apontaram no horizonte, eu senti falta mesmo foi do funcionamento do meu celular. Se ele estivesse com vida, confesso que teria feito uma ligação urgente. Indiferente ao horário, teria acordado a Layla. Na certa, gritaria ao telefone: “Pelo amor de Deus, mulher, o que suas cartas falaram?! Diga para mim se não vou enlouquecer!”.

 

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