• Ricardo Bonacorci

Livros: Eva Luna - O terceiro romance de Isabel Allende


Li, nesta semana, “Eva Luna” (Bertrand Brasil), o terceiro romance de Isabel Allende. Após o sucesso meteórico de “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil), sua primeira narrativa longa e também seu primeiro best-seller internacional (livro este analisado na segunda-feira, dia 5, no Bonas Histórias), a escritora chilena passou a investir na produção de romances históricos ambientados no conturbado cenário político-social da América do Sul. Com pitadas generosas de realismo fantástico, personagens encantadoras, humor inteligente, cenas inesquecíveis, críticas sociais pesadas, sátiras políticas divertidíssimas e dramas sentimentais contundentes, Allende criou um receituário narrativo original e de enorme repercussão comercial na década de 1980. “Eva Luna”, o segundo dos seis livros da autora que serão comentados no Desafio Literário de outubro, é peça fundamental para compreendermos este início arrebatador da carreira literária de Isabel Allende, um dos mais populares nomes da ficção contemporânea em língua espanhola.


E o que seria, afinal de contas, um começo de carreira exitoso, hein?! Basta dizer que em apenas cinco anos, Allende lançou três obras de enorme sucesso tanto de público quanto de crítica: “A Casa dos Espíritos”, em 1982, “De Amor e de Sombra” (Bertrand Brasil), em 1984, e “Eva Luna”, em 1987. Enquanto as histórias dos dois primeiros romances foram logo adaptadas para o cinema, a trama do terceiro romance originou uma bem-sucedida coletânea de contos. “Contos de Eva Luna” (Bertrand Brasil) foi publicado em 1989 e é narrado pela mesma protagonista do título de dois anos antes. Não à toa, há muitos críticos literários que apontam estes quatro primeiros livros de Isabel Allende, juntamente com “Paula” (Bertrand Brasil), lançado em 1995, como seus mais importantes trabalhos ficcionais. Concordo em número, gênero e grau com essa opinião.


Por isso, não confunda as bolas, por favor! Há “Eva Luna”, o romance que vamos discutir no post de hoje do Bonas Histórias, e existe “Contos de Eva Luna”, a coleção de 23 narrativas curtas ambientada e protagonizada pelas mesmas personagens do livro anterior (um dia ainda vou analisar esta obra aqui no blog, pode apostar nisso... só não será no Desafio Literário deste mês). Ou seja, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa (apesar dos nomes parecidos). Quem tiver a vontade de conhecer também a coletânea de contos, recomendo lê-la após o romance. Dessa maneira, o leitor conhecerá previamente as principais personagens, as situações gerais e a maioria dos cenários criados por Isabel Allende. Aí ficará mais fácil acompanhar as aventuras deliciosas de “Contos de Eva Luna”. Este livro é, até hoje, a principal publicação da escritora chilena no gênero das narrativas curtas.

O que faz “Eva Luna” (voltemos ao romance e deixemos os contos um pouco de lado) uma narrativa tão especial é, em grande parte, o carisma absurdo de sua narradora-protagonista. Não é errado pensarmos que Eva, a personagem central deste livro, é a figura mais marcante da literatura de Allende (e, portanto, uma das principais criações da literatura chilena e da literatura sul-americana contemporânea). Se você já tinha gostado de Clara Del Valle Trueba, Blanca Trueba Satigny e Alba Trueba, de “A Casa dos Espíritos”, e de Irene Beltrán e Evangelina Ranquileo Sánchez, de “De Amor e de Sombra”, você precisa conhecer Eva Luna. A moça obstinada e corajosa é filha de Dona Consuelo, uma empregada pobre e solitária, e de um índio desconhecido de olhos amarelos.


Órfã desde os seis anos, Eva teve que se virar sozinha em um mundo violento, machista, injusto e em constante ebulição (estamos na América do Sul, meu amigo!). Apesar de permanecer analfabeta até o início da adolescência, Eva se tornou uma contadora de história fenomenal, capaz de hipnotizar quem ouvia seus relatos. Assim, ela pôde extrapolar a dimensão do seu próprio romance e se tornou a narradora de uma obra de contos. É incrível acompanhar essa transformação metalinguística! Sinceramente, não me recordo de outro protagonista que tivesse tamanha força literária para ganhar o papel de destaque em um título de outro gênero narrativo. Não conte para ninguém, mas desconfio que Eva Luna seja o alter ego de Allende.


Por falar na importância literária de Eva Luna, a própria Isabel Allende, no meio do texto do romance de 1987, compara sua personagem à Sherazade, figura central de “As Mil e Uma Noites” (Biblioteca Azul). Se a esposa do Rei Xariar criava histórias todas as noites como estratégia de sobrevivência, a protagonista de “Eva Luna”, por sua vez, desenvolveu a habilidade de contar suas tramas simplesmente pela beleza de apresentá-las aos outros. Em comum, as duas mulheres eram exímias narradoras e prolíficas contistas. No caso da personagem chilena, ela ainda era dona de uma força de vontade incomparável. Eva apresenta muitas das características das principais personagens feministas da literatura moderna. Confesso que durante esta leitura lembrei muito de Léa Delmas, de “A Bicicleta Azul” (BestBolso), e de outras protagonistas memoráveis de Régine Deforges.


A trama de “Eva Luna” é narrada em primeira pessoa por sua heroína homônima. Ao mesmo tempo em que apresenta suas memórias para o leitor, Eva também conta o drama de Rolf Carlé, um alemão que emigrou para a América do Sul logo após a Segunda Guerra Mundial. Assim, o livro tem uma dupla narrativa. As duas histórias caminham paralelamente na primeira metade da obra (cada capítulo é dedicado a um dos seus protagonistas). Na metade final do livro, obviamente, as narrativas de Eva e de Rolf se unem.

Na parte do enredo dedicada a Eva Luna, conhecemos sua trajetória de vida desde o nascimento da mãe, Consuelo. Abandonada pelos pais assim que veio ao mundo, Consuelo foi criada, primeiramente, por missionários no interior e, depois, em um convento de freiras na capital. Ao ficar adulta, ela arranjou trabalho como empregada doméstica. Seu patrão era o Professor Jones, um médico estrangeiro que sabia embalsamar corpos como ninguém (seus mortos ficavam com aspecto de vivos por anos e anos). Foi na residência do doutor que Consuelo engravidou de um índio que estava à beira da morte. Com pena do rapaz que aparentava ter poucas horas de vida, a empregada fez sexo com ele. Nove meses depois, nasceu Eva. Como a mãe não sabia nem seu sobrenome nem o sobrenome do índio, a menina ganhou o apelido de Luna (por causa da Lua).


Eva Luna cresceu com grande liberdade na casa do Professor Jones, que parecia dedicar-se apenas à arte de embalsamar os defuntos e não notava a presença da criança em seu lar. Contudo, quando Eva tinha seis anos, Consuelo morreu. A garota foi deixada aos cuidados da cozinheira da casa, sua madrinha. A mudança radical na vida de Eva aconteceu mesmo quando o Professor Jones faleceu. Aí ela, então com sete anos, precisou ganhar o mundo.


Ao se separar da madrinha, Eva Luna trabalhou como empregada doméstica. No início, serviu dois irmãos solteirões. Depois, ela foi atuar na casa de um importante oficial militar que nutria aspirações políticas. Era o início da saga da menina pobre e órfão. Em sua luta pela sobrevivência, Eva conheceu várias pessoas que puderam ajudá-la: Huberto Naranjo, menino de rua que vivia de pequenos trambiques, Elvira, colega de trabalho que a garota chamava de avó, a Senhora, importante meretriz da capital, Melecio/Mimi, transexual que ganhava a vida cantando em bares, Riad Halabi, turco de lábios leporinos que tinha uma mercearia em Água Santa, e Coronel Tolomeo Rodríguez, renomado militar. Nos momentos mais difíceis, Eva Luna via e conversava com o espírito da mãe. De certa forma, Consuelo nunca abandonou sua filha.


Por sua vez, a trajetória de Rolf Carlé começou na Alemanha no período de Entreguerras. Ele era filho de Lukas Carlé, um professor sádico. O menino era vítima sistemática das maldades tanto do pai em casa quanto dos colegas na escola (que para se vingar do odiado professor, batiam sem dó no seu filho). Quando explodiu a Segunda Guerra Mundial, Rolf, seus irmãos e sua mãe ficaram extremamente felizes. Lukas Carlé foi enviado para o front e ficou vários anos sem poder aparecer em casa. Aqueles foram os melhores momentos da infância de Rolf, que não se importava com as limitações financeiras e de comida.

A alegria da família acabou com o término do conflito. O professor regressou ao lar ainda mais cruel com os filhos e com a esposa. Certo dia, para perplexidade geral, Lukas foi encontrado morto no meio do mato. A família suspeitava que ele tivesse sido assassinado pelos alunos da escola, que também o odiavam tanto quanto os parentes mais próximos. Como a polícia acreditou tratar-se de uma morte natural, ninguém desmentiu as autoridades de segurança pública. Sem o patriarca, os Carlé passaram a viver sem a opressão brutal de outrora, mas tiveram que conviver também com a crise econômica de uma Alemanha devastada. Sem dinheiro no bolso, a mãe de Rolf decidiu enviar o filho para a América do Sul. Sonhando em recomeçar a vida em um lugar mais tranquilo, o garoto embarcou sozinho e atravessou o Oceano Atlântico sob insistentes lágrimas.


Chegando à América do Sul, Rolf foi viver junto com os tios e com as primas em Colônia, um povoado de origem alemã encravado no alto das montanhas. Agora no seio de uma família feliz e estruturada, ele arranjou uma profissão, aprendeu a falar espanhol, se esqueceu do passado terrível que tivera na Europa e conquistou seus primeiros amores. Era uma nova vida que Rolf Carlé tinha pela frente.


A paixão por contar histórias irá aproximar os dois protagonistas deste livro. Enquanto Eva mergulhará na literatura e na produção de telenovelas, Rolf se tornará cineasta e um importante produtor de documentários para a televisão. A indignação de ambas as personagens pela difícil realidade político-social do país em que vivem irá uni-las.


“Eva Luna” é um romance de 294 páginas e está dividido em 12 capítulos. Precisei de dois dias para concluir a leitura integral desta obra. Devo ter levado aproximadamente 10 horas, entre segunda e terça-feira, para ir da primeira à última página. Em extensão, este livro é bem menor do que os caudalosos “A Casa dos Espíritos” e “O Plano Infinito” (Bertrand Brasil), mas é ligeiramente maior do que “De Amor e de Sombra” e “Contos de Eva Luna” - para ficarmos em uma comparação com as primeiras publicações da autora.


Vale a pena começarmos os elogios da última edição deste livro pelo seu projeto gráfico. A nova capa da versão brasileira de “Eva Luna” está simplesmente fantástica. O visual desenvolvido pela Bertrand Brasil faz agora justiça à qualidade do conteúdo textual de Isabel Allende, algo que tinha ficado aquém na primeira edição nacional. Repare na intertextualidade bíblica da imagem da capa. Se o ilustrador responsável por esta obra de arte não ganhou prêmios de design, na certa cometeram uma enorme injustiça. Curiosamente, a capa brasileira está até mais impactante do que a versão original do livro (em espanhol).

Como romance histórico, “Eva Luna” é um livro impecável. Ele é muitíssimo parecido com a narrativa de “A Casa dos Espíritos”. Assim como o primeiro best-seller de Isabel Allende, esta obra tem como características fundamentais: o excesso de personagens (que vão e voltam o tempo inteiro na história); o humor é ao mesmo tempo escrachado e inteligente (coisa que só os grandes gênios da literatura conseguem fazer); a ambientação está ancorada na política e na história real do continente (assistimos à trajetória de um país sul-americano em constante crise a partir do enredo particular das personagens principais e secundárias do romance); as cenas são impecavelmente construídas; as personagens quase sempre são do tipo redondo (Coronel Tolomeo Rodríguez é um ótimo exemplo desta prática) e estão magnificamente desenvolvidas (Melecio/Mimi e Riad Halabi são excelentes exemplificações); há grande agilidade narrativa (está sempre acontecendo alguma coisa diferente nas páginas); as personagens reais têm nomes velados/apelidos (Homem da Gardênia, Benfeitor, General...); há intensa intertextualidade histórica e literária; o realismo fantástico marca presença (os acontecimentos envolvendo o Professor Jones são divertidíssimos); e o texto é extremamente engajado (fortes críticas à religião, às injustiças sociais, ao sistema político, à ação dos militares, ao machismo, ao conservadorismo da sociedade latino-americana, ao preconceito aos indígenas, à censura da imprensa e dos artistas, à ditadura militar e à violência urbana).


“Eva Luna” traz também algumas novidades de ordem narrativa: temos forte metalinguagem literária (a narradora-protagonista constrói na frente do leitor uma de suas histórias); há indefinição do espaço narrativo (fiquei na dúvida se a nação retratada era o Chile ou a Venezuela – talvez seja o híbrido de ambos os países); temos maiores doses de humor (dá para soltar muitas risadas nessa leitura); encontramos uma protagonista que, enfim, encara de frente a opressão militar e enfrenta de forma mais direta o status quo político (algo que ficou faltando às mulheres de “A Casa dos Espíritos” – a única que tinha uma atuação mais forte era Nívea Dell Valle, mesmo assim ela promovia mais o feminismo do que a luta pela igualdade social; mas que já tinha aparecido nas protagonistas femininas de “De Amor e de Sombra”); este romance tem uma maior pegada de road story (Eva Luna e Rolf Carlé estão sempre viajando); e o tempo narrativo é pontuado apenas de forma indireta (a partir exclusivamente da citação de eventos históricos).


Como já falei, o ponto alto de “Eva Luna” está em sua narradora-protagonista. A órfã pobre que precisa encarar um mundo de adversidades é quase uma versão feminina e latino-americana de Forrest Gump, a personagem central do romance mais famoso do recém-falecido Winston Gordon. Assim como Forrest, Eva está direta e indiretamente envolvida com os acontecimentos mais sensíveis do seu país, adora contar histórias, chega ao estrelato e sempre se reencontra com os conhecidos do passado. É incrível acompanhar suas aventuras.

Outro ponto que adorei em Eva Luna é sua personalidade (moderna). Ela não é a heroína clássica que fica esperando o amado aparecer nem teme se envolver com os problemas sociais do seu país. Nananinanão! Eva é mulher de fibra e tem total ciência do que pode fazer com sua vida e com seu corpo. Assim, ela tem liberdade sexual, não fica glorificando o homem por quem está apaixonada (quando se apaixona realmente), encara os problemas de frente, não leva desaforo para casa e não tem medo de cara feia. E, o que é mais legal, ela parece não ter qualquer preconceito. Impossível não gostar de alguém assim.


Apesar de excelente, “Eva Luna” está meio degrau abaixo de “A Casa dos Espíritos”. Mesmo com uma narrativa mais redondinha do que o romance de estreia de Isabel Allende (lembremos que o título anterior do Desafio Literário tinha alguns problemas de foco narrativo, devidamente corrigidos agora), “Eva Luna” peca pela falta de novidades estéticas impactantes. A sensação é que a partir do mesmo receituário do primeiro sucesso, a autora chilena desenvolveu suas novas tramas. Para quem está lendo os livros em sequência como eu, falta aquele quê de surpresa. Por outro lado, quem não leu nada de Allende ainda (repita em voz alta três vezes rapidinho este trecho: nada de Allende ainda!), na certa não terá essa impressão negativa. Aí “Eva Luna” se mostrará uma leitura grandiosa.


O próximo livro que será analisado no Bonas Histórias é "Paula" (Bertrand Brasil), a obra mais intimista de Isabel Allende. Escrito para a filha da escritora quando a moça de 28 anos se encontrava em coma em um hospital de Madrid, este romance autobiográfico será comentado no post de terça-feira, dia 13. Até lá!


Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento