Filmes: Tel Aviv em Chamas - A comédia sobre o conflito Israel-Palestina

Os cinemas reabriram na cidade de São Paulo. Uhu! Desde sábado, dia 10, já é possível pegar uma sessão em várias salas da capital paulista. Essa é, evidentemente, a boa nova dos últimos dias do setor cinematográfico. A má notícia é que nem todas as salas voltaram a operar - algumas por decisão momentânea, como as redes Cinemark e Cinépolis (elas estão voltando aos poucos), e outras em caráter definitivo (fecharam de vez). Como bom cinéfilo que sou, interrompi o jejum forçado de mais de seis meses sem filmes nas telonas na primeira oportunidade. Seguindo os protocolos de higiene, fiz uma visita, nesta terça-feira à tarde, ao Petra Belas Artes (ou Cine Belas Artes para quem for avesso aos naming rights). E minha escolha recaiu sobre o mesmo longa-metragem que iria assistir quando as medidas de distanciamento social foram decretadas na cidade em março: “Tel Aviv em Chamas” (Tel Aviv On Fire: 2018).

 

Lembro-me, como se fosse hoje, que na fatídica semana do fechamento dos cinemas, em 24 de março, eu tinha me programado para ver dois filmes - este e “O Homem Invisível” (The Invisible Man: 2020). Se a adaptação do romance clássico de H. G. Wells eu consegui conferir em julho, quando foi lançado nas plataformas de streaming, “Tel Aviv em Chamas” precisei aguardar até agora. E saiba que essa longa espera não foi por falta de iniciativa da minha parte. Procurei-o para alugar, mas não o encontrei em nenhum lugar. Acho que ele ainda não foi para o streaming. No fim das contas, achei até bom que não tivesse visto este filme. Como não há títulos novos em cartaz nas salas de cinema nesta primeira etapa da retomada das atividades (uma escolha mais dos estúdios do que dos distribuidores), o público só tem duas opções: conferir os clássicos (que ocupam mais da metade da programação dos cinemas) ou se ater ao que já estava sendo exibido antes da parada. Por estar ávido por novidades, fiquei com a segunda opção.

 

“Tel Aviv em Chamas” é uma comédia dramática dirigida e roteirizada pelo israelo-palestino Sameh Zoabi, diretor de “Man Without a Cell Phone” (2010) e roteirista de “O Ídolo” (Ya Tayr El Tayer: 2015). Além de Zoabi, Dan Kleinman também participou do roteiro de “Tel Aviv em Chamas”. Coprodução de Israel, Luxemburgo, Bélgica e França, este longa-metragem representou Luxemburgo na última edição do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Porém, ele não chegou à final – quem venceu esta categoria foi o sul-coreano “Parasita” (Gisaengchung: 2019). Apesar de ser uma trama ambientada em Jerusalém e Ramallah, “Tel Aviv em Chamas” foi filmado quase totalmente em Luxemburgo por uma equipe local. As filmagens ocorreram entre 2017 e 2018. Daí a escolha deste país europeu por tê-lo como seu representante na maior premiação do cinema mundial.  

O lançamento internacional de “Tel Aviv em Chamas” se deu em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Veneza. Nos meses seguintes, ele foi levado ao circuito comercial na Europa, Estados Unidos e Oriente Médio, onde faturou pouco mais de US$ 1,7 milhões em bilheteria. No Brasil, o filme de Sameh Zoabi já tinha sido apresentado, em 2019, no Festival Internacional de Cinema de Curitiba e no Festival de Cinema Judaico de São Paulo. Nos cinemas comerciais do nosso país, sua estreia só aconteceu em fevereiro de 2020.

 

Em suas apresentações pelo mundo, “Tel Aviv em Chamas” conquistou alguns prêmios relevantes. Em Israel, o filme ganhou o Ophir Award, a principal honraria da Academia de Cinema e Televisão Israelense, como melhor roteiro original de 2019. No Festival Internacional de Cinema de Haifa de 2019, ele levou para a casa os prêmios de melhor filme e de melhor roteiro. E no Festival Internacional de Cinema de Seattle daquele mesmo ano, o longa-metragem de Zoabi foi o escolhido o melhor filme.

 

“Tel Aviv em Chamas” é estrelado pelo palestino Kais Nashif, vencedor do prêmio de melhor ator do Festival Internacional de Veneza por este papel. Ao seu lado no elenco desta produção, temos a belga Lubna Azabal, o jordaniano Nadim Sawalha, os israelenses Yaniv Biton, Maisa Abd Elhadi, Yousef Sweid e Salim Dau, o palestino Amer Hlehel e a francesa Laëtitia Eïdo. Não é errado enxergar “Tel Aviv em Chamas” como uma Torre de Babel da sétima arte.  

 

Quem acompanha as análises críticas da coluna Cinema do Bonas Histórias, irá notar que este é o segundo filme de um cineasta palestino-israelense que comentamos em 2020. O primeiro foi, no comecinho de janeiro, o divertido e criativo “O Paraíso Deve Ser Aqui” (It Must Be Heaven: 2019), a mais recente comédia dramática de Elia Suleiman. Ainda no universo cinematográfico árabe-israelense, só para citar os títulos dos últimos dois anos, analisamos em 2019 “Não Mexa Com Ela” (Isha Ovedet: 2018), drama do israelense Michal Aviad, e em 2018 "O Apartamento" (Forushande: 2016), drama do iraniano Asghar Farhadi que conquistou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2017, "Clash" (Eshtebak: 2016), thriller de ação do egípcio Mohamed Diad, e "Shivá - Uma Semana e Um Dia" (Shavua ve Yom: 2016), comédia de estreia do israelense Asaph Polonsky.  

O enredo de “Tel Aviv em Chamas” se passa nos dias de hoje. Sua história começa quando Salam Abbass (interpretado por Kais Nashif), um palestino que vive na parte Oriental de Jerusalém, é contratado como assistente de produção de uma popular telenovela palestina. Com o nome de “Tel Aviv em Chamas”, a atração televisiva é um grande sucesso de audiência tanto em Israel quanto na Palestina. As populações dos dois lados da fronteira param o que estão fazendo para conferir a trama histórica que se passa pouco antes da Guerra dos Seis Dias (ou seja, no primeiro semestre de 1967). Nela, uma agente secreta palestina chamada Manal aka Rachel (Lubna Azabal) tenta descobrir os segredos do exército israelense. Em nome da segurança dos seus compatriotas, ela terá que seduzir um importante oficial inimigo, o General Yehuda Edelman (Yousef Sweid), apesar de ser apaixonada por um soldado palestino.

 

A função de Salam em “Tel Aviv em Chamas” é ajudar a atriz principal da telenovela, Tala, que interpreta a heroína Manal aka Rachel, na pronúncia correta dos termos em hebraico. Por ser francesa, ela tem certa dificuldade para falar algumas palavras do roteiro. Bastante atrapalhado, muito inseguro e sem grande capacidade criativa, Salam Abbass só foi contratado para o cargo por ser sobrinho de Bassam (Nadim Sawalha), o produtor do programa. E por dominar o hebraico, é claro. Afinal, ele vive há anos em Israel e conhece profundamente o idioma deste país.

 

Para Salam, seu novo emprego caiu do céu. Há muito tempo endividado, ele não sabia mais aonde recorrer para conseguir dinheiro. Para completar, tão interessante quanto o salário, é poder falar para todo mundo que agora está participando da produção de um programa de televisão popular. Ao ocupar, enfim, uma posição profissional aparentemente importante aos olhos dos telespectadores, o rapaz acredita ter mais chances de conquistar o coração de Mariam (Maisa Abd Elhadi), seu amor de infância. Para o desespero de Salam, a moça insiste em desprezá-lo há muito tempo. Por essas razões, o assistente de produção palestino não se importa em ter que atravessar diariamente o posto de controle (uma barreira militar) que separa Jerusalém, onde mora, da cidade palestina de Ramallah, onde “Tel Aviv em Chamas” é filmado.  

A rotina tranquila do protagonista no novo emprego infelizmente dura pouco tempo. Após dar vários palpites descabidos no roteiro da telenovela, Salam Abbass vê a roteirista do programa, Maisa (Laëtitia Eïdo), pedir demissão. Ela ficou brava com as tentativas de interferência em seu trabalho. Sem alternativa para a reposição de Maisa, Bassam coloca seu sobrinho no cargo. O problema é que Salam não tem criatividade para dar sequência à trama de “Tel Aviv em Chamas”. Para piorar, ele se torna alvo das chantagens do capitão israelense Assi Tzur (Yaniv Biton), responsável pelo posto de controle entre Jerusalém e Ramallah.

 

O capitão Tzur vive uma fase complicada em seu casamento e quer impressionar positivamente a esposa, uma grande fã da telenovela palestina. Dessa forma, ele começa confiscando o roteiro da atração, que foi descoberto no carro de Salam. Com o texto do programa em mãos, ele pode contar à mulher o que irá acontecer nos capítulos seguintes da trama. Depois, o oficial do exército israelense quer interferir diretamente no roteiro da telenovela. Assi Tzur insiste que a história da TV não tenha um tom tão antissemita. Ele quer, por exemplo, que Manal aka Rachel e o General Yehuda Edelman fiquem juntos no final.  

 

Salam Abbass fica no meio de um triplo fogo-cruzado. Seu tio e os patrocinadores de “Tel Aviv em Chamas” querem escancarar a vilania dos israelenses na Guerra dos Seis Dias (e agradar ao público palestino). A atriz principal, Tala, por sua vez, exige um papel mais nobre para si (independentemente do que os fãs vão pensar). E Assi Tzur trabalha para transformar o programa em uma propaganda sionista que valorize os militares de seu país (e que engrandeça sua profissão aos olhos da esposa noveleira). O que Salam deve fazer em uma situação como esta, hein?!

 

O filme “Tel Aviv em Chamas” tem aproximadamente 100 minutos. Ele é um longa-metragem engraçado para quem domina as nuances do conflito israelo-palestino e a cultura desta região. Estes aspectos, por sinal, são as principais características do humor do longa-metragem. A maioria das piadas exige da plateia profundo conhecimento sobre a história do conflito bélico entre israelenses e palestino e sobre os detalhes de suas culturas (alimentação, vestimenta e comportamento, por exemplo). Quem não está inserido nesse contexto histórico-social, certamente terá muitas dificuldades para entender grande parte da graça do que está acontecendo na tela.

Além disso, o humor do roteiro de Sameh Zoabi e Dan Kleinman apresenta uma grande intertextualidade televisiva. Outra significativa parte da comicidade deste enredo está nas maluquices metalinguísticas: uma produção audiovisual que aborda a produção de outra obra audiovisual. Nesse aspecto, assistimos a uma hilária sátira sobre a importância das telenovelas para os espectadores. Muita gente acaba dando mais atenção aos dramas das personagens ficcionais do que às suas próprias vidas.

 

Em muitos momentos da sessão de “Tel Aviv em Chamas”, lembrei-me de “Jojo Rabbit” (2019), a comédia do neozelandês Taika Waititi que foi indicada ao Oscar de 2020. Afinal, ambos os filmes abordam passagens delicadíssimas da história judaica. Se “Tel Aviv em Chamas” apresenta as consequências da Guerra Israel-Palestina, o longa de Waititi mostra os horrores da Segunda Guerra Mundial. E mesmo em ambientações nas quais a violência e a truculência imperam, as duas produções conseguem extrair graça, beleza e humor.

 

Outra questão que gostei bastante em “Tel Aviv em Chamas” foi a agilidade de seu roteiro. A sensação é que sempre está acontecendo alguma coisa no filme. Algo que colaborou muito para esse dinamismo foi a característica tripla de sua história. A narrativa segue por três caminhos distintos: o suspense da telenovela histórica (qual o desfecho para as aventuras de Manal aka Rachel?), a tragicomédia da nova profissão de Salam Abbass (por qual caminho narrativo o agora roteirista deve optar?) e as desventuras sentimentais da personagem principal do longa-metragem (conseguirá Salam conquistar o coraçãozinho da bela Mariam?). De certa maneira, cada uma das pontas deste triângulo cênico interfere nas demais partes. Por isso, algo que acontece em um plano mexe substancialmente com os outros. Notar essa evolução do enredo (e a relação entre fatos do passado com a realidade no presente) é bem interessante. Do ponto de vista do roteiro cinematográfico, este filme é um exemplo impecável.

 

Não dá para falar de “Tel Aviv em Chamas” sem enaltecer o trabalho primoroso de seu elenco de atores e atrizes. Não foi apenas Kais Nashif que deu um show de interpretação. Lubna Azabal também está ótima. E Nadim Sawalha, Yaniv Biton, Maisa Abd Elhadi, Yousef Sweid e Amer Hlehel não ficam muito atrás. Todos conferem graça e vivacidade às suas personagens.

 

Assista, a seguir, o trailer de “Tel Aviv em Chamas”:

“Tel Aviv em Chamas” é uma comédia inteligente e sutil. É preciso ter um bom repertório das culturas israelense e palestina para entender suas piadas e suas sátiras. Se pensarmos bem, acho que não podia ter escolhido um filme melhor para assistir nesta retomada dos cinemas paulistanos. De alguma maneira, “Tel Aviv em Chamas” dialoga intimamente com a necessidade de superação da realidade muitas vezes atroz, com a busca pela criatividade incessante e com a importância de atender a múltiplos interesses. É ou não é um pouco do que estamos vivendo atualmente, hein? Agora é torcer para que os cinemas não voltem a fechar (nunca mais)!  

 

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