• Ricardo Bonacorci

Livros: Zorro, Começa a Lenda - O herói mascarado por Isabel Allende


A literatura de Isabel Allende possui três fases distintas. Na primeira delas, que se estendeu por toda a década de 1980, a escritora chilena produziu romances históricos ambientados na América do Sul. Seus primeiros livros ficcionais, “A Casa dos Espíritos” (Bertrand Brasil), “De Amor e de Sombra” (Bertrand Brasil) e “Eva Luna” (Bertrand Brasil), por exemplo, foram protagonizados invariavelmente por figuras femininas de personalidade forte, possuíam elementos de realismo fantástico e seus enredos eram afetados substancialmente pelas influências do cenário externo (a camada mais frágil da população estava suscetível a perseguições, violências, injustiças sociais e desmandos políticos de militares e/ou de caudilhos que se perpetuavam no poder).


Na segunda etapa de sua produção ficcional, iniciada com a chegada dos anos 1990, Allende passou a ambientar seus romances nos Estados Unidos, país onde foi morar em 1988. Para ser mais exato em minha análise, a chilena escolheu como novo cenário/espaço narrativo de suas obras a Califórnia. Contudo, Isabel Allende não abandonou completamente a América Latina. Livros como “O Plano Infinito” (Bertrand Brasil), “Filha da Fortuna” (Bertrand Brasil) e “A Cidade das Feras” (Bertrand Brasil), exemplares dessa fase, tiveram como protagonistas imigrantes latino-americanos que tentavam a sorte na costa Oeste norte-americana. Além disso, Isabel Allende manteve boa parte dos demais elementos estilísticos do período anterior: tramas históricas, romances de formação, personagens femininas fortes, engajamento social, promoção do feminismo e tramas fortemente influenciadas por acontecimentos macroambientais (principalmente de natureza política).


E a terceira e última fase da literatura de Isabel Allende é aquela em que, a partir da metade dos anos 2000, a autora passou a variar seus cenários narrativos (suas tramas incluíram a Europa, principalmente a Espanha, e a América Central) e começou a explorar novos gêneros narrativos (romances policiais, aventuras de capa e espada e thrillers). Abriu-se, portanto, um novo mundo de possibilidades ficcionais. Os melhores exemplos de títulos deste novo ciclo literário de Allende são “Zorro – Começa a Lenda” (Bertrand Brasil) e “O Jogo de Ripper” (Bertrand Brasil).


Fiz essa longa introdução para explicar que, como já falamos bastante da primeira fase da literatura de Isabel Allende nas primeiras semanas do Desafio Literário de outubro, a proposta agora é nos atentarmos exclusivamente à terceira fase do trabalho ficcional da chilena. A ideia é comentarmos, no post de hoje do Bonas Histórias, o romance “Zorro – Começa a Lenda”. Este livro marca de certa forma a transição da segunda para a terceira fase da produção literária de Allende. E na próxima semana, vamos comentar “O Jogo de Ripper”, uma obra totalmente da terceira fase.

Publicado em 2005, “Zorro – Começa a Lenda” é o romance de Isabel Allende em que ela faz a sua interpretação para a formação da personalidade e do caráter da famosa personagem criada há pouco mais de um século por Johnston McCulley. Zorro, vale a pena lembrarmos, é a versão hispano-americana de Robin Hood. A estreia literária do herói mascarado aconteceu em 1919 com a publicação da aventura “A Marca do Zorro” na revista ilustrada All-Story Weekly. Como era típico daquela época, a história foi lançada em capítulos (cinco partes) pelo periódico. O sucesso foi imediato. Já no ano seguinte, um romance com esta trama foi lançado nas livrarias norte-americanas e um filme chegou ao cinema. Empolgado com o interesse crescente do público por Zorro, McCulley passou a produzir, ao longo das décadas de 1920, 1930 e 1940, novas aventuras com esta personagem. Era o início da trajetória de um dos heróis mais carismáticos de todos os tempos.


Apaixonada desde pequena pelas narrativas do justiceiro californiano, Isabel Allende apresenta, em “Zorro – Começa a Lenda”, a infância, a adolescência e o início da fase adulta da principal criação ficcional de Johnston McCulley. Curiosamente, esta é uma parte da vida de Diego de la Vega até então pouco explorada até mesmo pelo seu autor original. Não à toa, a escolha do tempo narrativo é justamente o maior acerto deste livro de Allende. Ao invés de contar novas aventuras de Zorro, algo que a literatura, o cinema, a televisão, os quadrinhos, o teatro e as rádios já fizeram à exaustão, Allende optou por narrar as primeiras aventuras do filho único de Don Alejandro de la Vega. Assim, ela seguiu sua tradição de construir romances de formação e de mergulhar em tramas históricas.


Há alguns anos, o livro “Zorro – Começa a Lenda” foi adaptado para um musical. A peça se tornou um grande sucesso no West End Londrino (a Broadway inglesa) e, na sequência, foi exportada para outros países. A versão musical de “Zorro – Começa a Lenda” foi trazida para o Brasil no ano passado, em comemoração ao centenário da criação de seu protagonista. Apresentado no Teatro Santander, o espetáculo nacional teve direção (cênica) de Ulysses Cruz e (musical) Carlos Bauzys e contou com um elenco estelar: Bruno Fagundes (interpretou o Zorro), Marcos Mion (foi o vilão), Leticia Spiller (representou a cigana) e Nicole Rosemberg (foi o par romântico do herói da trama).


Para fazer a sua (re)construção ficcional da lenda do Zorro, Isabel Allende usou boa parte dos elementos explorados pelos enredos literários e cinematográficos anteriores. Ou seja, os fãs mais fervorosos de Zorro não só encontram os tradicionais personagens desta aventura clássica (Bernardo, Sargento Garcia, Alejandro de la Vega e Tornado) como o protagonista também possui quase todas as suas características originais ou que ficaram conhecidas pelo grande público ao longo do tempo (afinal, não foi possível a manutenção de todas as ideias de Johnston McCulley – ao longo dos anos, várias alterações no enredo foram promovidas principalmente nos filmes e nas séries televisivas).

Se por um lado Isabel Allende optou por respeitar as bases históricas da lenda do justiceiro mascarado, é importante salientar que ela também se permitiu algumas liberdades narrativas (que devem ter feito McCulley se revirar no caixão). Assim, Zorro ganhou uma mãe indígena (e traços mestiços) e adquiriu poderes telepáticos para conversar com Bernardo. Por falar no inseparável amigo do protagonista, Bernardo ganhou uma nova biografia (que explica, de um jeito alternativo, a sua mudez e a sua fidelidade a Diego). Essas são algumas das novidades trazidas por Allende. Suas alterações nas bases estruturais da trama podem incomodar os leitores mais conservadores, mas é inegável que elas deixaram o romance com a cara de sua escritora (conhecida pelo engajamento social, pelo feminismo e pelo realismo fantástico) e com um ar mais contemporâneo (lufada que a história centenária precisava ganhar!).


Em suma, por mais que tenha mantido a maioria dos elementos principais da lenda do Zorro, Isabel Allende não se furtou de fazer mexidas sensíveis ao enredo sempre que achou necessário promovê-las. O resultado é um romance divertido, dinâmico, interessante e criativo. Confesso que gostei bastante desta leitura. Prova maior disso é que li as 420 páginas desta publicação em apenas dois dias (no último sábado e domingo).


“Zorro – Começa a Lenda” está dividido em seis partes (não há capítulos), sendo que a última seção da obra é o seu epílogo (que avança um quarto de século para mostrar o que aconteceu com as personagens retratadas). O foco desta história está nos primeiros 20 anos de vida de Diego de la Vega, quando ele se transformou no Zorro. Assim, acompanhamos: seu nascimento (e, um pouco antes, a relação dos pais do protagonista) e sua infância (Parte I – Califórnia, 1790 – 1810); sua adolescência e a formação educacional na Espanha (Parte II – Barcelona, 1810 – 1812 e Parte III – Barcelona, 1812 – 1814); seu regresso tumultuado à terra natal (Parte IV – Espanha, Fim de 1814 - início de 1815); e os graves problemas que se deparou ao chegar ao continente americano (Parte V – Alta Califórnia, 1815). A sexta e última parte (Breve Epílogo e Ponto Final – Alta Califórnia – 1840) mostra rapidamente o herói com 45 anos (a figura que todos nós conhecemos).


Este livro começa na última década do século XVIII, na Califórnia (então província da Alta Califórnia). O que é hoje o território norte-americano e a cidade de Los Angeles, naquela época era La Reina de Los Ángeles, um povoado simples do México, uma das colônias do Reino da Espanha na América do Norte. Na Alta Califórnia, conviviam os índios e os colonizadores espanhóis, além de religiosos católicos (enviados para catequizar os primeiros) e soldados espanhóis (para proteger os segundos e garantir a coleta dos impostos destinados ao Rei madrilenho). Não é preciso dizer que o convívio entre as partes (indígenas, colonizadores, soldados e religiosos) não era nada harmônico.

Certo dia de 1790, o padre Mendoza, responsável pela administração da Missão San Gabriel, que ficava próxima à La Reina de Los Ángeles, pediu ajuda para Alejandro de la Vega. Vivendo há anos na colônia americana, o fidalgo espanhol tinha 30 anos e era um sujeito muito honrado e corajoso. A missão de Mendoza seria atacada por tribos indígenas lideradas pelo temido Chefe Lobo Cinzento, que usava uma máscara de lobo na cabeça (daí seu nome). Por isso, o padre franciscano precisava urgentemente de proteção armada. Mesmo sem contar com o apoio dos soldados reais, que ignoraram o alerta do religioso, Don Alejandro seguiu para o local com apenas dois colegas. Ao ver o limitado contingente trazido pelo amigo, Padre Mendonza imaginou o pior: seria morto pelos nativos e San Gabriel seria dizimada e destruída pelos inimigos.


Contra todas as previsões iniciais, Alejandro de la Vega conseguiu vencer a batalha contra as tribos indígenas e salvar a missão. No combate, o espanhol feriu Chefe Lobo Cinzento. Terminado o confronto, Don Alejandro tirou a máscara do inimigo combalido e, para sua surpresa, descobriu que o chefe indígena era uma mulher. Tratava-se de Toypurnia, uma bela moça de 20 anos. Filha de Coruja Branca, uma respeitada curandeira local, e de um marinheiro espanhol, que fora viver com os nativos e que ensinara sua língua à filha, Toypurnia unira várias tribos em prol da defesa coletiva de suas terras. Encantado com a beleza da indígena, Alejandro de la Vega ajudou-a na recuperação dos ferimentos e, depois, a levou para viver com o governador da província, em Monterrey. Assim, ela não correria o risco de ser presa (aos olhos dos colonizadores, a jovem havia liderado ações bélicas contra propriedades espanholas).


Três anos mais tarde, Alejandro, que neste momento já começava a prosperar nos negócios (era fazendeiro) e conseguira chegar ao posto de prefeito de La Reina de Los Ángeles, reencontrou Toypurnia (agora com o nome espanhol de Regina) em uma festa. Ao vê-la vestida como uma dama ocidental, ele ficou ainda mais apaixonado pela moça. Sem pestanejar, Don Alejandro pediu Regina em casamento. A união dos dois foi concretizada e deu fruto dois anos após o matrimônio. Em 1795, Diego veio ao mundo. No mesmo instante em que o filho único de Alejandro e Regina de La Vega nasceu, Ana, uma índia convertida ao catolicismo que era a melhor amiga de Regina, também pariu uma criança, Bernardo. A proximidade desde o nascimento transformou Diego e Bernardo em amigos inseparáveis (eles eram quase irmãos). Nem mesmo quando uma grave fatalidade na infância tirou a voz de Bernardo, a dupla se separou ou se desuniu.


Diego de la Vega foi criado quase que exclusivamente pela mãe, já que seu pai vivia em longas e rotineiras viagens pela Califórnia. Por isso, o menino passava muito tempo na tribo da avó, Coruja Branca. Ali, aprendeu a língua, a cultura e os hábitos dos nativos do continente americano. Na presença do pai, Diego agia como um verdadeiro cavalheiro europeu. Quando o patriarca virava as costas, o garoto lançava-se pelos descampados californianos como um legítimo indígena.

Em 1810, quando completou 15 anos, Diego foi enviado para a Espanha para concluir seus estudos. Não é preciso dizer que o inseparável Bernardo foi junto, para auxiliar o irmão-amigo. Em Barcelona, a dupla ficou hospedada na residência de Tomás de Romeu, amigo de longa data de Alejandro de la Vega. Viúvo, Tomás tinha duas filhas: Juliana, a mais velha e a mais bonita, por quem Diego se apaixonou perdidamente, e Isabel, a caçula destrambelhada, que logo se encantou pelo visitante ilustre.


Nos quatro anos em que ficou no Velho Continente, Diego teve uma rotina agitada. De manhã, ele fazia aulas de esgrima, sua grande paixão, com Manuel Escalente, um mestre de fama internacional. À tarde, o rapaz ia para a escola, onde pôde aperfeiçoar os estudos formais. À noite e aos finais de semana, o filho de Alejandro integrava um grupo circense comandado por ciganos. Nos espetáculos do circo, Diego, que tinha a companhia de Bernardo, atuava como ilusionista e acrobata. Essas habilidades foram adquiridas na infância e desenvolvidas com mais intensidade na viagem oceânica (que durara semanas).


No início dos anos 1810, a Espanha era governada pelo irmão de Napoleão Bonaparte. O imperador francês havia invadido e conquistado a Península Ibérica, assim como boa parte da Europa. Indignados com a dominação francesa, os espanhóis, que clamavam pelo retorno de seu rei, criaram vários movimentos de resistência, devidamente reprimidos pelo governo estrangeiro. A violência e as injustiças cometidas contra os espanhóis mexeram com Diego de La Vega. Inconformado com a postura das autoridades francesas, o jovem californiano entrou em uma sociedade secreta, a Justiça. A ideia era combater a tirania invasora na Espanha.


Assim, nasceu a figura de Zorro. Para não ter sua identidade revelada ao público, Diego se vestia com roupas pretas, colocava uma capa e usava uma máscara sempre que atuava em ações clandestinas. Devidamente trajado, ele ficava à vontade para agir contra as autoridades públicas. Sua missão era combater todas as formas de injustiça e violência cometidas contra o povo. O disfarce foi tão bem planejado que até o seu comportamento o rapaz mudou. Quando estava à paisana, Diego de la Vega portava-se com elegância e melindre. Exagerando na afetação, passava a imagem de um covarde hipocondríaco. Quando assumia a figura de Zorro, aí ele se tornava audacioso, atrevido, corajoso e brincalhão. Na sua visão, ninguém poderia descobrir seu segredo, que apenas Bernardo tinha ciência.


Para infelicidade da família de Romeu, os ventos políticos da Espanha mudaram. No fim de 1814, os espanhóis conseguiram expulsar os franceses de seu território. A partir daí, todos aqueles que uma vez apoiaram os invasores passaram a ser perseguidos pelo rei, que retornou ao seu país com mãos de ferro, e por seus correligionários. E como Tomás de Romeu sempre foi um partidário pró-França, ele caiu em desgraça. Antes de ser preso, Tomás pediu para Diego de la Vega cuidar de suas duas filhas. E com a promessa dada ao amigo, o filho de Don Alejandro e Regina tornou-se o protetor de Juliana e Isabel.

O problema é que o grande vilão do romance, Rafael Moncada, está obcecado pela bela Juliana. Ele não sossegará enquanto não se casar com a filha de Tomás. Moncada fará de tudo para convencer a moça a subir ao altar ao seu lado. Para evitar tal fatalidade, Diego de la Vega promoverá a fuga das meninas de Romeu da Espanha. Sempre ao lado de Juliana e Isabel, ele viajará a pé até o noroeste do país e de lá embarcará para a Califórnia. Sem imaginar o que pode acontecer com eles, o grupo iniciará uma aventura de tirar o fôlego pela Europa, pelo Oceano Atlântico e, depois, pelas colônias americanas.


A história de “Zorro – Começa a Lenda” é contada por um narrador misterioso. Sua identidade é revelada apenas nas últimas páginas do livro. Quem já está habituado à literatura de Isabel Allende, não terá dificuldade nenhuma para descobrir esse segredo. Se eu, que sou péssimo para fazer esse tipo de descoberta, saquei no primeiro terço da obra quem era o narrador, imagine, então, a facilidade de quem é mais espertinho(a) para solucionar os enigmas literários. Somente um leitor menos atento (e muito mais ingênuo) possa ser surpreendido.


O primeiro aspecto que chama a atenção em “Zorro – Começa a Lenda” é o caráter variado de sua narrativa. Allende desenvolveu um livro com características de gêneros distintos. À medida que a trama evolui, a sensação é que a história muda de perfil. Começamos com um romance histórico com cara de faroeste. Depois, entramos em uma pegada de realismo fantástico e, logo à frente, em crônicas náuticas. Na sequência, a obra adquire tintas de thriller político e de guerrilha urbana, chegando a desembocar em uma aventura de sociedade secreta (ao estilo de Dan Brown). Até o final, a publicação muda umas tantas vezes de tom: drama romântico, road story e aventura de pirata.


Uma coisa é preciso se dizer sobre “Zorro – Começa a Lenda”: de tédio o leitor não sofre durante esta leitura. Sempre está acontecendo algo de emocionante no livro. Portanto, não se surpreenda se você devorar as quatro centenas de páginas em poucos dias. Quem gosta de uma trama de aventura e muita ação irá gostar deste título.


Outro elemento que chama a atenção neste romance é a transformação da história da infância e da adolescência de Diego de la Vega em uma narrativa com a cara dos livros de Isabel Allende. Assim, “Zorro – Começa a Lenda” possui doses generosas de realismo fantástico, ambientação com muita violência e injustiças sociais, personagens femininas fortes, cenário social com muitos preconceitos, racismo e machismo, apresentação do protagonista a partir do relato da vida dos pais, casamentos abreviados ou infelizes e figuras que padecem da orfandade. Não há nada mais Allende do que isso, não é mesmo?

Como já falei, a escritora chilena usa, nesta construção narrativa, a linha mestre da história original do Zorro e, ao mesmo tempo, se dá liberdade criativa para efetuar mudanças sensíveis na trama. Confesso que gostei bastante desse expediente. O resultado foi tão positivo que a partir de agora, para mim, essa será a versão oficial da vida de Diego de la Vega. Esse mesmo efeito já tinha acontecido comigo quando li os romances de Saramago – a partir daquele momento, o Velho e o Novo Testamento são como estão relatados, respectivamente, em “Caim” (Companhia das Letras) e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), e não como está escrito na Bíblia (prezo sempre pela verossimilhança das tramas).


O único ponto negativo de “Zorro – Começa a Lenda” é o predomínio de personagens planas. Esqueça a riqueza literária dos trabalhos anteriores de Isabel Allende, com figuras redondas e contraditórias. Neste romance, não há quaisquer nuances. Ou a pessoa é boazinha ou ela é ruim. Não há meio termo. Essa característica maniqueísta estraga um pouco da qualidade da narrativa. Diego de la Vega/Zorro é o exemplo mais bem acabado desse fato. Ele é perfeito: bonito, divertido, talentoso, justiceiro, inteligente, criativo, culto... Ou seja, não possui nenhum defeito aparente. Ninguém faz algo melhor do que ele – Diego é quem mais lê, melhor cavalga, melhor se sai na esgrima, é o melhor trapezista, o mágico mais talentoso, o melhor na briga um a um, o mais criativo para bolar planos mirabolantes... Fica difícil acreditar em alguém assim (até os heróis da Marvel e da DC possuem algum defeito). A única personagem redonda do livro é Jean Laffite. Em alto-mar, ele é um pirata frio e sanguinário, em terra é um cavalheiro requintado e democrático). Não à toa, Laffite é a figura mais interessante do romance (exatamente pelas contradições apresentadas).


O Desafio Literário de outubro continuará no próximo domingo, dia 25. O sexto e último livro de Isabel Allende que será analisado no Bonas Histórias neste mês é “O Jogo de Ripper” (Bertrand Brasil). Publicada em 2014, esta obra é o primeiro romance policial da escritora chilena. Não perca o debate sobre “O Jogo de Ripper” e a sequência do estudo sobre a literatura de Isabel Allende. Até lá!


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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