• Ricardo Bonacorci

Análise Literária: Isabel Allende


Depois de quatro semanas fazendo avaliações individuais dos principais livros de Isabel Allende, "A Casa dos Espíritos" (Bertrand Brasil), "Eva Luna" (Bertrand Brasil), "Paula" (Bertrand Brasil), "Meu País Inventado" (Bertrand Brasil), "Zorro – Começa a Lenda" (Bertrand Brasil) e “O Jogo de Ripper" (Bertrand Brasil), podemos agora analisar de maneira mais completa e aprofundada sua literatura. Assim, chegamos hoje à última etapa do Desafio Literário de outubro de 2020, a do detalhamento das características estilísticas de Allende. Para completar este post do Bonas Histórias, ainda apresentaremos uma pequena biografia da escritora e daremos uma visão geral sobre suas obras mais destacadas. Com isso, concluiremos o estudo sobre a produção narrativa de Isabel Allende, o segundo nome da literatura chilena contemplado no Desafio Literário – o primeiro foi Pablo Neruda, poeta vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 1971, analisado no blog em julho de 2016.


Para começo de conversa, Isabel Allende é a escritora viva de língua espanhola mais lida no mundo. Seus títulos somam mais de 70 milhões de unidades vendidas e já foram traduzidos para mais de quatro dezenas de idiomas. Além de best-seller, Allende coleciona prêmios literários, como Prêmio Nacional de Literatura (Chile) de 2010 e a Medalha Presidencial da Liberdade (Estados Unidos) de 2014. Desde 2004, ela integra a American Academy of Arts and Letters, uma espécie de hall da fama da cultura norte-americana (que inclui figuras de destaque tanto da literatura quanto da música e das artes). Ou seja, além de ser uma das escritoras de maior sucesso comercial da literatura contemporânea, Allende angariou ao longo dos anos o respeito da crítica literária, que a classifica normalmente como uma autora da nova fase do Realismo Fantástico Sul-americano.


Filha do diplomata chileno Tomás Allende, Isabel nasceu em agosto de 1942 em Lima, quando seu pai trabalhava na embaixada do Chile no Peru. Por isso, ela tem a nacionalidade chilena (e não peruana). Em Lima, Isabel viveu até os três anos. Ela só foi morar em Santiago após a separação dos pais, em 1945. Tomás era bissexual e se envolveu em escândalos homossexuais que repercutiram na capital peruana. Envergonhado, ele abandonou a família e fugiu sem revelar seu paradeiro. Sem o marido, a mãe de Isabel voltou a viver na casa dos seus pais, Agustin e Isabel Barros. Dos três aos onze anos, Isabel Allende viveu com a mãe e os irmãos na residência dos avós maternos.


Quando a mãe de Isabel se casou novamente, agora com Ramón, outro diplomata chileno, as viagens da família recomeçaram. Depois de um ano morando em La Paz, Ramón, a esposa e os enteados foram viver por três anos em Beirute. Aos quinze anos, Isabel Allende retornou ao Chile, outra vez para viver na casa do avô Agustin. Nesse novo período em Santiago, a futura escritora terminou seus estudos e logo começou a trabalhar. Aproveitando-se da experiência internacional e do domínio de línguas estrangeiras, seu primeiro emprego foi como secretária da filial das Nações Unidas na capital chilena. Depois, ela passou a realizar traduções de romances água com açúcar do inglês para o espanhol. Com dezessete anos, Isabel ingressou no jornalismo, carreira que abraçaria nas duas décadas seguintes.

Aos 19 anos, Isabel Allende casou-se com o engenheiro Miguel Frías. O casal teve dois filhos: Paula, nascida em 1963, e Nicolás, nascido em 1967. Na segunda metade da década de 1960 e na primeira metade dos anos 1970, Allende se consolidou como uma importante jornalista no Chile. Ela tinha uma coluna de humor em um periódico semanal, foi editora de uma revista feminina e de uma publicação infantil e fez reportagens para a televisão local. Assim, tornou-se uma figura conhecida e querida do público chileno.


No início da década de 1970, Isabel Allende publicou seus primeiros livros. Sem ainda encarar a literatura como profissão, ela lançou obras infantis e uma coletânea de crônicas (com textos de suas colunas nas revistas). Além disso, começou a produzir peças teatrais, que foram encenadas por companhias amadoras em Santiago.


A grande reviravolta na trajetória pessoal e profissional de Isabel (e de seus familiares) aconteceu em setembro de 1973. Um golpe militar tirou do poder Salvador Allende (tio de Isabel, irmão de Tomás), o presidente chileno de viés socialista que fora eleito em 1970. Augusto Pinochet assumiu o governo e começou a perseguir os opositores. Por ser sobrinha de Salvador Allende e jornalista, Isabel foi várias vezes ameaçada de morte. Com medo de perder a vida ou de ser presa pela força policial de Pinochet, ela fugiu do país em 1975. Seu exílio foi em Caracas. Na capital venezuelana, Isabel, Miguel, Paula e Nicolás Frías viveram até 1988.


No exterior, Allende até tentou continuar trabalhando como jornalista. Contudo, ela não encontrou trabalhos fixos (apenas serviços de freelancer) nem boa remuneração (quando contratada, os valores recebidos eram ínfimos). Por isso, ela começou a trabalhar em uma escola particular de Caracas, o que a deixava muito frustrada.


A escrita retornou à sua rotina quando, em 1981, a autora foi informada que seu avô Agustin, na iminência de completar um século de vida, estava muito mal, a beira da morte. Sem poder regressar ao Chile para vê-lo (a ditadura militar de Pinochet estava mais violenta do que nunca), Isabel resolveu escrever da Venezuela uma carta para Agustin. No texto, ela poderia homenageá-lo e, ao mesmo tempo, fazer uma retrospectiva da vida do avô. Pouco a pouco, a narrativa foi aumentando de tamanho e mudando de característica - deixava de ser um relato biográfico e se tornava cada vez mais uma trama ficcional (ou semiautobiográfica). De dia, a escritora trabalhava na escola e à noite produzia aquele texto. No final de 1981, Isabel anunciou para a família (e para si mesma) que havia desenvolvido um romance.


Publicado em 1982, A Casa dos Espíritos (Bertrand Brasil) é a obra de estreia de Allende na ficção. Com algumas passagens biográficas de seus familiares e com elementos de Realismo Fantástico, o livro retrata a saga de uma família chilena (os Del Valle/Trueba) por quatro gerações. Por fazer duras críticas às ditaduras militares sul-americanas, “A Casa dos Espíritos” foi à princípio recusado por várias editoras do continente. Isso até uma pequena editora argentina aceitar lançá-lo. Rapidamente, o romance histórico de Isabel Allende se tornou um sucesso de crítica e de público na Argentina.


Nos anos seguintes, o livro foi publicado na Espanha e em vários países latino-americanos, além de ser traduzido para outros idiomas. Do dia para noite, a escritora chilena que apenas debutava na literatura comercial se tornava uma best-seller internacional. Junto com os elogios dos leitores na América do Norte e na Europa, “A Casa dos Espíritos” também colecionou prêmios literários pelos quatro cantos do planeta. Os troféus recebidos vieram da Alemanha, França, Estados Unidos, México, Bélgica etc. Até no Chile, para desespero dos militares no poder, o livro foi lançado e aclamado. “A Casa dos Espíritos” foi eleito o melhor romance chileno de 1982 e Isabel Allende recebeu em seu país o Prêmio Panorama Literário de 1983.


O enredo desta obra se passa no Chile entre o final do século XIX e a metade dos anos 1970. A trama começa apresentando Severo Del Valle, um advogado com pretensões políticas, e Nívea Del Valle, uma atuante defensora das causas feministas. O casal está junto há anos e possui vários filhos. Clara é a caçula dos Dell Valle (e a personagem mais incrível da literatura de Allende!) A menina de 10 anos possui mediunidade: ela vê espíritos, tem presságios, movimenta objetos com a mente e se comunica telepaticamente. Para não assustar ninguém, a família esconde os poderes paranormais de Clara por muitos anos. Porém, quando ela, aos 19 anos, decide se casar com Esteban Trueba, um ambicioso fazendeiro, o casal Del Vale é obrigado a revelar ao pretendente as habilidades incomuns da filha. Uma vez apaixonado, Esteban não se importa com o que chama de características peculiares da noiva.


Esteban e Clara se casam e têm três filhos: Blanca, Jaime e Nicolau. Para desespero de Esteban Trueba, Blanca se apaixona por um jovem trabalhador com ideias comunistas. Começam, dessa maneira, as brigas dentro de casa. À medida que envelhece, o fazendeiro se torna cada vez mais rabugento, solitário, violento e intolerante. A única que parece sentir algum carinho pelo velho Trueba é Alba, a sua neta. A moça é filha de Blanca. E assim como a mãe, ela se apaixonará por um revolucionário marxista. Essa união clandestina trará sérios problemas para ela e para a família quando os militares decretarem um golpe e assumirem o poder.


A Casa dos Espíritos”, o maior sucesso até hoje da escritora chilena, inaugura o que podemos chamar da primeira fase da literatura de Isabel Allende. Nesse período inicial de sua carreira, que abrangeu todo os anos 1980, Allende produziu obras esteticamente muito parecidas ao seu livro de estreia: tramas históricas, personagens femininas marcantes, denúncia do machismo, enaltecimento do feminismo, romances de formação, elementos de realismo fantástico, contextos políticos marcados pela violência e por injustiças sociais, ambientação sombria, pesada e com muitas tragédias e enredos passados essencialmente na América do Sul.


Além de “A Casa dos Espíritos”, fazem parte da primeira fase da literatura de Isabel Allende os romances “De Amor e de Sombra” (Bertrand Brasil), de 1984, uma trama com teor político ainda mais acentuado do que a obra anterior, e “Eva Luna”, de 1987, um drama histórico delicioso, e a coletânea de narrativas curtas “Contos de Eva Luna” (Bertrand Brasil), de 1989.


“De Amor e de Sombra”, o segundo romance de Isabel Allende, tem como pano de fundo o golpe militar chileno de 1973. Irene, jovem jornalista advinda de uma família aristocrata e conservadora, e Francisco, fotógrafo oriundo de uma família humilde e anarquista, se apaixonam. Em um país que caminha para o caos político-social, eles precisam colocar à prova seus sentimentos em meio a tantas adversidades e provações. O jovem casal vai encarar seus dramas pessoais justamente em um dos períodos mais tumultuados e violentos da história do Chile.


O sucesso literário de “A Casa dos Espíritos” e “De Amor e de Sombra” atraíram o interesse de cineastas hollywoodianos. Eles queriam adaptar essas histórias para as telonas. Enquanto o romance de estreia de Allende virou filme em 1993 pelas mãos do diretor Bille August, o segundo romance da chilena migrou para o cinema em 1994 graças à Betty Kaplan.


Terceira narrativa longa de Allende, Eva Luna(Bertrand Brasil) é o romance histórico ambientado em um país indeterminado da América do Sul. Essa nação apresenta algumas características do Chile e outras da Venezuela. Com doses de realismo fantástico, sátiras políticas e humor inteligente, esta obra consolidou o estilo da autora chilena e apresentou sua personagem mais carismática. Eva Luna, a protagonista deste livro, precisou superar a infância de carências e de abandonos, a sociedade machista e injusta e o mundo violento e em ebulição política para se consolidar como uma contadora de histórias admirada nacionalmente. Ou seja, temos aqui uma narrativa metalinguística com forte intertextualidade literária.


Eva Luna” possui uma narrativa dupla – de sua heroína, uma órfã que encara desde cedo as maldades da sociedade, e de Rolf Carlé, um alemão que emigrou para a América do Sul logo após a Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo em que narra suas memórias desde o nascimento da mãe, Eva apresenta o drama do alemão desde a infância dele na Europa. As duas histórias caminham paralelamente até se unirem em um desfecho integrado. Em meio às injustiças, às pobrezas, às violências e às instabilidades familiares e políticas, o amor pode brotar e até mesmo prosperar.


A personagem principal de “Eva Luna” fez tanto sucesso que extrapolou a dimensão do seu próprio romance. Dois anos mais tarde, Eva se tornou a narradora de uma coletânea de narrativas curtas, “Contos de Eva Luna” (Bertrand Brasil). Para este novo livro, Allende aproveitou-se dos cenários, das pessoas e da ambientação criados originalmente em “Eva Luna”. “Contos de Eva Luna” é, até hoje, o principal título de Isabel Allende no gênero das narrativas curtas (é também o meu favorito nesta seara!).


Com o sucesso literário, Allende largou o trabalho na escola em Caracas e passou a se dedicar exclusivamente à produção ficcional. Em 1988, após 25 anos de casamento com Miguel Frías, ela se separou do primeiro marido. Meses depois, Isabel conheceu o advogado norte-americano William C. Gordon (mais tarde, ele se tornaria escritor de romances policiais) e se apaixonou. Para viver ao lado de Gordon, a escritora se mudou da Venezuela para os Estados Unidos. Desde o começo do relacionamento, o novo casal dividiu uma casa em São Francisco. Começava, assim, o segundo matrimônio da chilena e, como consequência, uma nova vida na América do Norte. A nova rotina na Califórnia influenciou sua produção literária. Dessa maneira, iniciava-se o que podemos chamar de segunda fase da literatura de Isabel Allende.


Esta nova etapa foi inaugurada com a publicação, em 1991, de “O Plano Infinito” (Bertrand Brasil), a quarta narrativa longa da chilena. Nesta obra, assistimos ao romance de formação de Gregory Reeves, um advogado norte-americano branco criado em um bairro latino de Los Angeles. O protagonista do livro precisa superar os dramas político-bélicos do seu país (Guerra do Vietnã), a discriminação racial em sua cidade (os latinos não o veem com bons olhos) e os dramas familiares (doença do pai e escolhas polêmicas da filha) até se consolidar tanto afetiva quanto profissionalmente. “O Plano Infinito” foi inspirado na trajetória de William C. Gordon, o marido norte-americano de Isabel.


A segunda fase da literatura de Allende se estendeu até a metade dos anos 2000. O que caracterizou esse período foi a mudança de cenário narrativo de seus romances. Após “O Plano Infinito”, Isabel ambientou suas tramas longas prioritariamente nos Estados Unidos - mais precisamente na Califórnia. Entretanto, a escritora não abandonou completamente as suas personagens latino-americanas. Livros como “O Plano Infinito”, “Filha da Fortuna” (Bertrand Brasil) e “A Cidade das Feras” (Bertrand Brasil), exemplares típicos desta nova etapa literária, tiveram como protagonistas ou figuras centrais de suas tramas os imigrantes da América Latina que tentaram a sorte na costa Oeste norte-americana.


Ao mesmo tempo em que mudou o cenário narrativo, Isabel Allende manteve quase todos os demais elementos narrativos da primeira fase: os romances de formação, as tramas históricas, as personagens femininas fortes, as mulheres que direta ou indiretamente promoviam os valores feministas, o engajamento social, a ambientação com violência e muitas injustiças e os cenários macroambientais instáveis e com radicalização política.


Outras duas questões interessantes dessa segunda fase da literatura de Isabel Allende são: (1) ela voltou a lançar histórias infantojuvenis (lembremos que ela já havia iniciado nesse gênero quando trabalhava como jornalista no Chile, na década de 1970); e (2) sentiu a necessidade de produzir seus primeiros livros de memórias. Em relação aos títulos infantojuvenis, o destaque vai para a série “As Aventuras da Águia e do Jaguar” – trilogia formada por “As Cidade das Feras” (Bertrand Brasil), de 2002, “O Reino do Dragão de Ouro” (Bertrand Brasil), de 2003, e “A Floresta dos Pigmeus” (Bertrand Brasil), de 2004. Quanto às memórias, as obras de maior importância são “Paula”, publicado em 1995, e “Meu País Inventado”, de 2003.


Paula(Bertand Brasil) foi escrito em um dos períodos mais delicados da vida de Isabel Allende. Em dezembro de 1991, ela recebeu uma notícia trágica: sua filha Paula, então com 28 anos e morando em Madrid, sofreu uma crise neurológica rara e ficou em coma na U.T.I. Sem titubear, a escritora interrompeu os eventos de divulgação do lançamento de “O Plano Infinito” e viajou para a Espanha. Como o quadro clínico de Paula não mudou ao longo dos meses, coube a Isabel ficar ao lado da filha, torcendo por sua melhora.


Para aplacar sua angústia e a inércia involuntária, Allende resolveu escrever para a filha inconsciente (para que a moça pudesse ler quando se reestabelecesse). Neste texto autobiográfico e em tom de confidência, a escritora chilena narrou sua trajetória pessoal e profissional. Antes, ela recapitulou a saga de sua família desde a chegada do primeiro antepassado ao Chile, no início do século XIX. E, por fim, Isabel relata a biografia da filha e o drama da recuperação hospitalar. “Paula” (obviamente o título da obra é uma homenagem ao nome da filha adoentada) é o primeiro livro de memórias de Isabel Allende (e o mais emocionante!).

Quase uma década depois, Allende publicou uma obra complementar: Meu País Inventado (Bertrand Brasil). Nesta segunda obra de memórias, a escritora explicou sua condição de imigrante na América do Norte e o que significou para ela ter nascido no Chile. Ou seja, muito mais do que uma biografia, “Meu País Inventado” adquire certo tom de crônicas nacionais. Flertando com o ensaio, essa narrativa possui três linhas de debate: (1) quais as características típicas do povo chileno?; (2) quais as consequências de viver tantos anos distante da terra natal?; (3) e quais as diferenças culturais, sociais, políticas e geográficas do Chile para as demais nações sul-americanas e para os Estados Unidos? Isabel Allende faz um mergulho em sua trajetória de vida e, abusando do humor politicamente incorreto, relata confidências bem-humoradas dos seus conterrâneos. Se “Paula” era uma biografia mais formal e convencional, “Meu País Inventado” pode ser visto como uma coletânea de crônicas sobre o que significa ser chileno(a).


A terceira e última fase da literatura de Isabel Allende começou na metade dos anos 2000. Nessa nova etapa de sua produção ficcional, a escritora não apenas variou mais uma vez seus cenários narrativos (suas tramas deixaram a Califórnia e o Chile e passaram a incluir a Europa, principalmente a Espanha, e a América Central) como também (o que é até mais interessante!) começou a explorar novos gêneros narrativos (os romances históricos deram lugar aos romances policiais, às tramas de super-heróis e aos thrillers).


Nota-se, portanto, uma tentativa de Allende em buscar novas possibilidades e novos materiais de trabalho ficcional. Ao sair de sua zona de conforto, ela se arrisca por caminhos inéditos (para ela) e até então inexplorados dentro da sua literatura. As obras que melhor caracterizam esta nova fase de Isabel Allende são os romances “Zorro – Começa a Lenda”, uma aventura protagonizada pelo herói mascarado criado, em 1919, por Johnston McCulley, e “O Jogo de Ripper”, um thriller policial com uma pegada infantojuvenil. Enquanto “Zorro – Começa a Lenda” marca a transição da segunda para a terceira fase da literatura de Allende, “O Jogo de Ripper” é um título totalmente ancorado na terceira fase.


Publicado em 2005, Zorro – Começa a Lenda (Bertrand Brasil) apresenta a interpretação de Isabel Allende para a formação da personalidade e do caráter de Zorro. Apaixonada pela figura do justiceiro californiano desde pequena, a escritora se propôs a narrar a infância, a adolescência e o início da fase adulta de Diego de la Vega. Em outras palavras, este livro é o romance de formação do icônico herói de descendência espanhola. Curiosamente, esta é a parte da vida de Zorro menos explorada por McCulley e pelos autores e roteiristas que vieram depois.


Mesmo usando boa parte dos elementos narrativos explorados pelos enredos literários e cinematográficos anteriores de Zorro, Isabel Allende não se furtou em trazer novidades radicais à história clássica. Essa mistura de tradição com inovação da trama veio acompanhada de uma multiplicidade de gêneros narrativos. “Zorro – Começa a Lenda” tem trechos típicos dos romances históricos, dos faroestes, das tramas de realismo fantástico, das crônicas náuticas, dos thrillers políticos, dos dramas de guerrilha urbana, das aventuras de sociedade secreta, dos dramas românticos, dos road stories e das aventuras de pirata.


O Jogo de Ripper (Bertrand Brasil) representou a primeira (e até agora única) incursão de Isabel Allende pelos romances policiais. A chilena, como muitos escritores renomados de outros gêneros, foi picada pela vontade de produzir uma trama criminal, um tipo de literatura popular e desafiante. Publicado em 2014, “O Jogo de Ripper” tem como protagonistas um grupo de adolescentes acostumados a jogar RPG pelo Skype. Depois de desvendarem vários crimes fictícios, eles se propõem a solucionar uma série de assassinatos reais praticada em São Francisco. A partir de determinado momento da trama, a investigação particular promovida pela garotada avança mais do que a investigação formal realizada pela polícia.


Apesar de ser um dos títulos de Isabel Allende mais comercializados na última década, “O Jogo de Ripper” possui graves problemas estilísticos e narrativos, o que comprometem seriamente sua qualidade textual. Dos livros que li da autora chilena, este foi o único que deixou a desejar. Allende é uma escritora espetacular, mas não domina os segredos dos romances policiais ao ponto de conseguir desenvolver uma trama interessante deste gênero. Contudo, é inegável a sua coragem para se lançar em direção ao novo.


Isabel Allende é normalmente classificada pela crítica literária internacional como uma autora pertencente ao novo Realismo Fantástico Sul-americano. Entretanto, prefiro vê-la mais como uma escritora de romances históricos. De qualquer maneira, é inegável que ela esteja entre os grandes nomes da literatura contemporânea. Seu último romance até aqui foi “Longa Pétala do Mar” (Bertrand Brasil), drama histórico ambientado na Guerra Civil Espanhola. Esta obra foi publicada no ano passado. Até o final de 2020, está programado a edição no Brasil de “Mujeres del Alma Mía” (Bertrand Brasil), título não ficcional sobre feminismo que foi lançado em espanhol no início deste ano (não sei qual será seu nome na versão brasileira).


Para terminar esta análise literária, reservei a última parte deste post para esmiuçar as 10 características estilísticas das narrativas de Isabel Allende. Seguem, abaixo, os aspectos que mais chamaram minha atenção no trabalho artístico da escritora chilena:[if !supportLists]


1) O Realismo Fantástico aparece em todos os livros de Allende que foram analisados neste Desafio Literário, até mesmo em suas tramas não ficcionais (o que chega a ser surpreendente!). As passagens, as cenas e as personagens mágicas dão um colorido especial às obras, sem jamais monopolizar os enredos. Os leitores com maior sensibilidade para assuntos espíritas e para o universo paranormal acreditarão em todos ou na maioria dos episódios fantásticos encenados nas páginas de Isabel Allende. Ou seja, temos aqui um diálogo íntimo com a verossimilhança. Essa questão fica mais evidente em “A Casa dos Espíritos” e em “Paula”, livros com forte pegada espiritual. [if !supportLists]


2) Por mais variada que seja a literatura de Allende, há o predomínio de romances históricos entre suas publicações e entre suas obras de maior sucesso. É nesse gênero narrativo em que a autora chilena mostra toda a sua qualidade como contadora de história. Ao produzir este tipo de trama, ela constrói títulos memoráveis. Não é errado enxergá-la como uma especialista neste tipo de texto – Isabel Allende é uma das melhores autoras contemporâneas. “Zorro – Começa a Lenda” é um bom exemplo de romance histórico (ele é ambientado entre o final do século XVIII e a metade do século XIX). [if !supportLists]


3) As construções dos protagonistas, dos cenários e dos enredos ficcionais dialogam intimamente com pessoas, fatos e lugares reais. Isabel Allende ancora-se na realidade como ponto de partida de sua criação ficcional. Basta conhecer um pouco da biografia da escritora chilena para compreender o quanto de sua inspiração/criatividade vem do aproveitamento de episódios extraídos da vida concreta (fora da literatura). Os melhores exemplos disso são as personagens centrais de “A Casa dos Espíritos” (desenvolvidas a partir de figuras da própria família da autora) e a criação de Rolf Carlé, uma das personagens centrais de “Eva Luna” (criado a partir do relato verídico que autora ouviu em uma viagem pela Alemanha, conforme relatado em “Meu País Inventado”). [if !supportLists]


4) As narrativas longas de Allende fazem parte do que se convencionou chamar de romances de formação. Nesse tipo de trama, apresenta-se a vida de cada personagem principal desde o nascimento ou adolescência até a maturidade ou velhice. O propósito fundamental desse tipo de obra é a exposição do desenvolvimento psíquico, social, físico, profissional, afetivo e/ou moral do protagonista. Podemos dizer, sem receio de cometer generalizações equivocadas, que boa parte da literatura de Allende é baseada no desenvolvimento de romances de formação. “Zorro – Começa a Lenda” é um exemplo evidente dessa prática. [if !supportLists]


5) Já que estamos falando de romances de formação, uma característica peculiar dos livros ficcionais e não ficcionais de Isabel Allende é a apresentação dos protagonistas a partir das histórias de vida de seus pais e/ou avós. A escritora tem essa mania de começar uma trama bem antes do nascimento da personagem principal. Ela vai buscar na ancestralidade (ora nos familiares mais distantes, ora nos parentes mais próximos) parte da compreensão dos indivíduos retratados. A título de exemplificação, posso citar “Eva Luna”. Esse romance começa relatando a infância de Consuelo, a mãe da protagonista. [if !supportLists]


6) Na produção literária de Allende, as personagens de maior destaque são geralmente mulheres aguerridas, de personalidade forte e vítimas de injustiças sociais ou familiares. Sem abaixar a cabeça para o cenário externo que se descortina opressor, elas encaram de frente as adversidades que vem pelo caminho, por maiores que sejam. Até mesmo quando os protagonistas das histórias são homens, é possível encontrar uma figura feminina forte, destemida e carismática (que invariavelmente rouba a cena). O melhor exemplo disso ocorre com Isabel de Romeu em “Zorro – Começa a Lenda” e com Amanda Jackson Martín em “O Jogo de Ripper”. [if !supportLists]

7) As narrativas de Isabel Allende possuem tradicionalmente uma ambientação impregnada de violência, injustiças sociais, tensões políticas e opressões. Independentemente da época retratada (século XVII, século XVIII, século XIX, século XX ou século XXI) e do espaço narrativo escolhido (Chile, Venezuela, México, Califórnia, Espanha, Alemanha...), o clima noir impera na maior parte das vezes. Um bom exemplo do quão pesado é a ambientação dos romances da chilena pode ser visto em “A Casa dos Espíritos”. O clima sombrio, pesado e angustiante da obra de estreia de Allende aparece tanto na casa dos Trueba (quase como uma locação de um filme de terror) quanto no caos político do Chile (o país andino parece viver em permanente estado de ebulição social).[if !supportLists]


8) Por falar em ambientação, é preciso citar a importância do cenário político para os enredos dos livros de Isabel Allende. Suas tramas são normalmente influenciadas diretamente pelos acontecimentos políticos do país onde os protagonistas nasceram ou vivem. A impressão que temos é que o macroambiente interfere o tempo inteiro nas ações do microambiente. Os indivíduos precisam escapar dos desmandos impostos pelos governantes e das brigas políticas que se perpetuam ao longo dos séculos. Essa tendência surge até nos títulos não ficcionais da autora – “Paula” e “Meu País Inventado”. Nessas leituras, compreendemos que a vida e a carreira de Allende foram influenciadas fortemente pelos acontecimentos políticos de seu país. [if !supportLists]


9) Normalmente, as narrativas de Isabel Allende possuem uma pegada de engajamento social e um tom de denúncia social. Ao fazer constantemente a associação do que acontece no macroambiente (eventos nacionais e coletivos) com as consequências desses fatos no microambiente (episódios individuais e familiares), a autora se posiciona criticamente. Assim, ela aponta o quanto as pessoas mais simples e humildes sofrem diante das injustiças praticadas pelos poderosos, pelas elites político-econômicas e pelos religiosos. Em “Zorro – Começa a Lenda” e em “Eva Luna”, esse denuncismo aparece do começo ao fim das obras. [if !supportLists]


10) Ao apresentar o machismo das sociedades tradicionais da América Latina e, ao mesmo tempo, descortinar o empoderamento de figuras femininas fortes, corajosas e obstinadas, Isabel Allende promove, ora mais explicitamente, ora mais sutilmente, os valores feministas. Ler suas narrativas é mergulhar em um mundo em que as mulheres não se curvam aos preconceitos sexistas de seus parceiros, de suas famílias, de seus conterrâneos e de seus contemporâneos. Não à toa, a primeira personagem feminina que desponta no romance de estreia da autora, “A Casa dos Espíritos”, é Nívea Del Valle. No final do século XIX, em um Chile com ares ainda coloniais, ela era citada como a primeira feminista do país.


Este foi o Desafio Literário de outubro. O próximo artista das letras que será analisado no Bonas Histórias é José Eduardo Agualusa, escritor moçambicano de 59 anos e autor de mais de 30 publicações entre romances, novelas, coletâneas de contos, coleção de crônicas, obras infantis e títulos poéticos. Entre seus títulos mais importantes podemos destacar “A Conjura” (Gryphus Editora), “Estação das Chuvas” (Língua Geral), “Nação Crioula” (Tusquets), “O Vendedor de Passados” (Tusquets), “As Mulheres do Meu Pai” (Língua Geral), "Nweti e o Mar" (Gryphus Editora) e “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”. Acompanhe as análises literárias de novembro do blog. E ótima literatura para todos!


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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