• Ricardo Bonacorci

Contos: Diálogos Urbanos - Grupo do Whatsapp


Diálogos Urbanos: Grupo do Whatsapp

Desculpem-me, mas não vi o que vocês enviaram hoje. Celular é bom por isso: dá para deletar sem ver. O botão apagar mensagem é uma das maravilhas da tecnologia. Só tenho uma coisa para dizer: Deus me prometeu que antes de eu morrer, eu vou voltar a gritar É CAMPEÃO!!! Aí quero ver neguinho vir com gracinha besta no Whats. Enquanto minhas preces não são atendidas (João 8:12 - Ó minha alma, espera silenciosa somente em Deus, porque Dele vem a minha esperança), o que me resta é ignorar os comentários indesejáveis dos antis.


E saibam que não brinco mais com vocês. Não escutei o que vocês mandaram e nunca mais verei nada que tiver como temática o futebol. Apaguei tudo (TUDO MESMO) e vou continuar deletando sempre. Não adianta enviar. Será perda de tempo. Também não quero saber se foi pênalti (NÃO FOI!) e se o juiz estava comprado (É CLARO QUE ESTAVA!). Perder uma decisão DE NOVO e dessa vez no finalzinho para o timinho da Marginal sem número é UM ABSURDO. Enquanto não tirarem essa diretoria safada do Morumbi, não ganharemos uma taça importante tão cedo (e para mim, Paulistinha não é troféu importante, tá).


Sabe qual é a nossa diferença? Eu sou totalmente dedicado à minha família. A minha família é tudo para mim. Ela e Deus, é claro. Já fui de esquentar a minha cabeça com o tricolor, mas, graças a Deus, eu mudei. Quando falo que mudei, é porque eu mudei pra valer. O São Paulo pode perder de mil a zero, pode perder dos gambás, dos porcos, da peixada que eu não ligo. Eu quero que esse time se foda mesmo! Sabe por quê? Porque tem jogador, técnico, dirigente lá ganhando salário em milhão. E o que eu ganho torcendo para esse time de merda? Nada! E ainda passo a noite com a cabeça cheia desses falsos amigos que só pensam em tripudiar do nosso sofrimento. Ninguém pensa na minha aflição, né? Desgraçados!

Grupo do Whatsapp é o conto de Ricardo Bonacorci da série Diálogos Urbanos

Vocês podem me ligar quantas vezes quiserem. Vou atendê-los da mesma forma, com a educação que Dona Sônia e Seu Jorge me ensinaram desde pequeno. E vou falar com vocês de sorriso no rosto, de boa. Sabem por quê? Porque hoje sei levar a vida de um jeito bem mais suave, sem me preocupar com coisas idiotas, bobas, infantis. Depois que me deu o problema no coração, naquele joguinho do Paulista, eu comecei a repensar muitas coisas na minha vida. E depois daquela briga em Piracicaba, eu decidi mudar pra sempre. Você sabe o que é ver sua mulher e seu filho chorarem porque tiveram que te buscar em uma delegacia no fim do mundo, hein? Prometi que nunca mais daria aquela vergonha para eles.


Agora dou muito mais valor à minha vida. Ganhando ou perdendo, o que vale é a paz, a tranquilidade e o bem-estar dos meus familiares. E o São Paulo nunca foi a minha verdadeira família. Pergunto: quem foi me visitar no hospital depois do infarto? E quem foi me tirar da cadeia? Eu mesmo respondo aos senhores: não foram jogadores, torcedores nem os amigos de arquibancada. Foi a minha família que se preocupou comigo! O São Paulo é apenas um time que eu me simpatizo e mais nada. Agora morrer por ele, pelo amor de Deus! É muita burrice. De jeito nenhum a minha vida vale só isso. A vida é muito curta para a gente desperdiçar com bobagens. Deus é mais. Deus é tudo na minha vida. Eu acredito nas promessas dele e sei que essa fase é passageira. Ainda vou gritar é campeão muitas vezes. Vocês vão ver. Deus é maior do que tudo e não preciso de mais nada e de ninguém além Dele.


Então agora tá todo mundo sabendo: eu não assisto mais futebol! Parei. Inclusive faz muito tempo que não vejo uma partida. A final desta tarde, acreditem, eu não vi. Fui à igreja e fiquei orando para a minha família e pela de vocês, seus ingratos. E se vocês quiserem continuar enchendo meu Whatsapp de mensagens, eu não vou ver nada. Nadinha. Fique com Deus. E boa noite (para quem conseguir dormir hoje).

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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