• Ricardo Bonacorci

Livros: Breve Romance de Sonho - A novela disruptiva de Arthur Schnitzler


Imagine se um autor, no início do século XX, produzisse uma obra literária em que pudesse dar vazão, a partir dos conceitos da psicanálise, aos seus desejos sexuais mais bem guardados. Parece inacreditável, né?! Pois saiba que Arthur Schnitzler, um dos principais escritores austríacos na virada do século XIX para o XX, realizou esse feito incrível. “Breve Romance de Sonho” (Companhia de Bolso) é a novela de Schnitzler que mistura vários ingredientes até então inusitados na ficção comercial: terror com erotismo, fantasia com realidade e psicanálise com moralidade. Impossível ficar indiferente a esta composição narrativa.


Passados quase cem anos de sua produção, “Breve Romance de Sonho” continua extremamente interessante aos olhos dos leitores contemporâneos. Ao menos foi essa a impressão que tive nessa semana ao ler pela primeira vez este livro. Uma boa prova do quão atual é sua história é que ela foi adaptada para o cinema há alguns anos. Ninguém menos do que Stanley Kubrick, se não o maior cineasta da história, ao menos um dos principais, levou a trama de Schnitzler para as telonas. “De Olhos Bem Fechados” (Eyes Wide Shut: 1998) foi o último longa-metragem do diretor, falecido em março de 1999. A versão cinematográfica de “Breve Romance de Sonho”, que se arrastou por três anos de idas e vindas, teve o protagonismo de Tom Cruise e Nicole Kidman.


Além de romancista, Arthur Schnitzler também escreveu contos, ensaios e peças teatrais. A escrita só se tornou sua principal profissão depois dos quarenta anos. Médico de formação, ele sempre esteve muito ligado à medicina, seja como assistente, médico titular ou proprietário de clínica em Viena. Sua grande paixão, porém, foi a psicologia, mais especificamente a psicanálise. Contemporâneo e conterrâneo de Sigmund Freud, Schnitzler usou a literatura para dar vazão a boa parte dos dramas internos de suas personagens. Sua técnica narrativa baseada no fluxo de consciência era propícia à canalização do subconsciente dos indivíduos retratados.

“Breve Romance de Sonho” foi indubitavelmente a trama mais polêmica de Arthur Schnitzler. Lançada em 1926, esta novela causou burburinho na época ao revelar os desejos sexuais de seu protagonista, um médico respeitado e bem-casado. Apesar das intenções libidinosas da personagem ficarem quase sempre na imaginação ou no plano onírico, a obra foi taxada de pornográfica. Obviamente, essa era sua classificação no início do século XX. Hoje em dia, duvido que alguém fique escandalizado com seu conteúdo.


Ambientado em Viena, “Breve Romance de Sonho” se passa na época de Carnaval. Fridolin, um médico conceituado de 35 anos, e Albertina, uma dona-de-casa de hábitos pacatos, estão casados há alguns anos. Apaixonados um pelo outro, eles possuem uma filhinha de 6 anos. A vida conjugal deles está ótima, mas é inegável que o longo tempo juntos tenha esfriado o ímpeto sexual do casal. Após irem a uma festa carnavalesca de máscara na capital austríaca, Dr. Fridolin e Albertina têm surpreendentemente uma noite de paixão tórrida. Nem mesmo no início do relacionamento, o sexo tinha sido tão intenso. O clima amoroso e a condição de grande proximidade do casal permitiram que ambos extrapolassem todas as barreiras da intimidade.


Assim, na noite seguinte à festa, tanto Albertina quanto Fridolin, no conforto de seu quarto, revelam um para o outro segredos sentimentais do passado. Ela quis trair o marido na última viagem de férias à Dinamarca. O alvo foi um jovem e bonito soldado alemão que estava hospedado no mesmo hotel. O médico, por sua vez, se sentiu atraído por uma desconhecida de quinze anos que conheceu por acaso na praia naquela mesma viagem. Tudo não passou de uma paixonite platônica dos dois cônjuges. Se Albertina não ficou chocada com o que ouviu do marido, entendendo o viés onírico dos relatos, Fridolin acabou abaladíssimo. Ele não pôde demonstrar a raiva para a esposa porque precisou sair correndo para atender a uma consulta médica urgente. Um conselheiro da cidade, sujeito muito idoso e acometido há tempos por várias doenças, estava agonizando em seu leito.

Com as palavras da esposa ainda atormentando a sua mente, Dr. Fridolin partiu em direção à casa do conselheiro. Lá, ele não conseguiu salvar o enfermo. Porém, pela primeira vez, o médico deu trela para Marianne, a filha do dono do lugar. Marianne sempre foi apaixonada pelo doutor e, só agora, ele se perguntava se não deveria ter um caso extraconjugal com a jovem, apesar da aparência desleixada e pouco atrativa da moça. De certa forma, o médico queria se vingar de sua esposa por ela ter concebido mentalmente uma traição.


Este é o início da aventura do protagonista madrugada à dentro. Revoltado com a postura pouco digna de Albertina (ao menos foi assim que ele interpretou as palavras dela), Fridolin parte disposto a concretizar boa parte de suas vontades sexuais. Por isso, ele beija Marianne, aceita se encontrar com uma prostituta menor de idade e, em seguida, parte para uma festa secreta (e mascarada) onde as mulheres ficam nuas à disposição dos homens. O estado de loucura do médico durará algumas horas e essa experiência incomum trará consequências graves.


O que faz “Breve Romance de Sonho” uma obra tão interessante é um conjunto de fatores. Em primeiro lugar, a narrativa da noite/madrugada catártica do Dr. Fridolin é surpreendente. O protagonista da novela se mete em uma sucessão interminável de confusões. O médico está com a intenção de transar com a primeira mulher que lhe der bola, mas não consegue. Como consequência, ele torna-se vítima de situações pouco comuns para um homem de sua posição social.


De certa maneira, essa trama lembra “Se Beber Não Case” (The Hangover: 2009), filme de Todd Philips, e “Pornopopéia” (Objetiva), romance de Reinaldo Moraes. Por falar em referências intertextuais, impossível não relembrar de “Complexo de Portnoy” (Companhia das Letras), clássico literário de Philip Roth. Assim como o escritor norte-americano, o austríaco também vinha de uma família judia. O mais incrível é perceber que a criação de Arthur Schnitzler antecede esses títulos citados em muitas e muitas décadas.

Curiosamente, a revolta de Fridolin se dá pela revelação dos sonhos e da imaginação de sua esposa. Se na prática ela continua sendo uma mulher correta (afinal, não fez nada de errado), para o marido ela é agora uma esposa traiçoeira, infiel e, acima de tudo, cruel (por escancarar seus desejos e seus fetiches). Não apenas o médico não consegue levá-la mais à sério como também quer se vingar da forma mais vil possível.


A vingança proposta por ele, entretanto, possui um duplo drama psicológico. Enquanto quer dar livre caminho aos seus desejos sexuais, a personagem principal do livro ainda sim se sente preso aos laços do matrimônio (ele ainda ama irrestritamente a esposa). Fridolin sempre pende para um lado e aí, logo em seguida, vai para o outro. É um vai-e-volta interminável. Além da dicotomia desejo sexual versus obrigações do casamento que o consome (libido versus razão), o médico também é atormentado pela imprecisão do que é realidade e do que é fantasia em sua aventura noturna. Como estamos acompanhando um fluxo de consciência, não sabemos, como leitores, o que é sonho, o que é imaginação e o que é concreto nos relatos da personagem. É muito legal embarcar nessa confusão de planos narrativos.


Por fim, achei simplesmente fantástico o desfecho aberto desta narrativa. A maioria das perguntas que o leitor se faz durante o livro não é respondida (e talvez não deveria mesmo). O charme desse tipo de história está mais na interpretação dos leitores do que nos apontamentos do autor/narrador. Porém, sei que esse recurso poderá frustrar alguns leitores, que preferem respostas fechadas aos devaneios intermináveis.


Por falar em frustração, para quem espera que Dr. Fridolin se comporte como o professor Phil Wenneck em Las Vegas, como o cineasta José Carlos Ribeiro na noite paulistana ou mesmo como o advogado Alexander Portnoy em sua adolescência, saiba que o protagonista de Schnitzler está mais para um romântico fracassado do que para um herói dos homens libertinos. Esse choque entre o que ele pretende ser e o que é de fato traz um humor melancólico e delicado à obra. É preciso sutileza para compreender esse nuance - quem não tiver, na certa ficará decepcionado(a).

Impossível falar de “Breve Romance de Sonho” sem falar dos conceitos psicanalíticos trazidos pelo seu autor e incorporados à trama. Nesse sentido, quem conhece mais profundamente a teoria freudiana irá se encantar ao correlacioná-la com cada parte dos dramas fictícios do protagonista. Schnitzler construiu uma novela com forte intertextualidade com a Psicologia.


Quem gosta de livros curtinhos e de leituras rápidas, na certa vai se encantar com esta obra de Arthur Schnitzler. Com apenas 112 páginas, é possível ler “Breve Romance de Sonho” (daí o termo breve em seu título, né?) em uma única tarde ou mesmo em uma só noite. Foi o que fiz na última quinta-feira. Comecei a leitura por volta das 19 horas e às 22 horas já a tinha concluído. Sei que este título não é o mais indicado para esta época do ano (não tem nada a ver com o espírito natalino), mas gostei do seu conteúdo. Agora entendi em qual fonte foram beber Philip Roth, Todd Philips e Reinaldo Moraes.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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