• Roberto S. Inagaki e Ricardo Bonacorci

Novela: O Ghost Writer - Capítulo 6, Sem Saída


O Ghost Writer - Capítulo 6 - Sem Saída

– Oi. Moço! Acorda. Ei. Acorda logo, vai!


Abri os olhos em meio ao sobressalto provocado por um cutucão nas pernas. Demoraram alguns segundos até eu me situar. Onde estava? Quem eu era? O que estaria fazendo dormindo na sarjeta? Por que estava tremendo de frio? Quem era o guri na minha frente com uma bandeja nas mãos? Não havia um jeito melhor de ele me acordar sem precisar me chutar?


Quando a primeira resposta bateu em minha mente, as demais foram solucionadas como uma fileira de peças de dominó que caem em sucessão. Após a bola de neve de elucidações, tudo fez sentido. Ou melhor, a falta de sentido das últimas horas se descortinou para mim. Havia dormido na calçada em frente à casa do Roberto. Depois de ficar a madrugada toda de pé espantando a friagem e as incertezas do destino, no comecinho da manhã não resisti: me agachei, encostei em um muro da residência com a mochila no colo e caí no sono.


– Minha mãe mandou pra você – Robertinho segurava uma bandeja com café, água, pães e fatias de bolo. O cheiro emanado era apetitoso. Mesmo não estando com muita fome, senti minha salivação despertar.


O menino que estava diante de mim parecia vestir uniforme escolar. De onde eu estava, atirado ao chão naquela rua diabólica do Jardim Aquarius, o filho do Roberto aparentava ser maior e estar mais asseado do que na véspera. Com alguma dificuldade para enxergar, só o reconheci pela voz. O sol, talvez querendo mostrar serviço logo cedo, dava as caras com força total naquela manhã. Por mim, ele seria eleito fácil o funcionário do mês do Sistema Solar. Pensando bem, como o sistema era solar, ele devia ser o chefe e não um mero funcionário da organização cósmica. Isso explicava o porquê de começar seu expediente com tanta disposição.


– Obrigado – Falei assim que peguei a bandeja. Porém, minha voz saiu tão falha que precisei repetir o agradecimento. Pelo visto, não eram apenas meus olhos que começavam o dia em ritmo lento – Obrigado! Agradeça sua mãe por mim.


O garoto pareceu balançar a cabeça, não sei se em sinal de aprovação ou de desaprovação, deu meia-volta e retornou para dentro de casa. Sei que ele entrou porque consegui ouvir o barulho da batida da porta. Novamente só, ajeitei o corpo de uma maneira em que me livrasse da mochila, que até aquele instante permanecia grudada em mim, sem derrubar nada da bandeja. Aproveitei o malabarismo corporal para ficar sentado.


Só então me pus a executar a tarefa de tomar o café da manhã. Já estava tão à vontade naquela calçada que não me importei com a curiosidade alheia. Alguns carros passavam na rua devagarinho. Na certa, me olhavam curiosos e se perguntavam: o que fazia um mendigo tomando a primeira refeição do dia com xícaras de porcelana, copo de vidro, garfo, faca e pratos em uma bandeja? Se a moda pega, hein?!


Naquele horário, o fluxo na rua era essencialmente de veículos. Só duas pessoas passaram caminhando enquanto eu tomava o café atirado ao chão. Obviamente, elas tiveram que desviar o caminho, indo para a rua quando chegaram perto de mim. Ambas eram jovens: uma moça bonitona de no máximo vinte anos e um rapaz com cara de nerd que aparentava ter catorze, quinze anos. Nenhum dos dois retribuiu o meu bom dia nem aceitou minha oferta para se sentar e degustar o banquete matinal. Vai ver que estavam com pressa, né? Ou já tinham desjejuado. Ou eram mal-educados mesmo. Quem disse que o pessoal do interior é mais afável e simpático do que na capital?!


Terminada a refeição, subi as escadas da casa e coloquei a bandeja na frente da porta de entrada principal. O que não comi, coloquei na mochila velha de guerra. Nunca se sabe quando precisaremos de alimentos novamente? Assim, na bandeja ficaram apenas os itens da casa: xícara, copo, talheres, pratos, açucareiro e a pequena garrafa térmica do café. O fato de já estar pensando como um verdadeiro mendigo não me abalou. Eu sabia que a vida de escritor não seria nada fácil desde o começo.


De volta à calçada, vesti a mochila nas costas e saí à procura de um lugar mais reservado. A grande quantidade de áreas verdes do bairro me favoreceu consideravelmente. Em menos de quinhentos metros, achei uma área isolada em meio a um conjunto de árvores de todos os tamanhos. Ali pude fazer minha higiene matinal com discrição e certo conforto. Não gostaria de entrar em detalhes sobre essas atividades, tá? Só digo, à título de curiosidade, que só abri a garrafinha de água comprada na Rodoviária do Tietê naquele momento. O líquido serviu para lavar meu rosto e para fazer a escovação dos dentes.


Infelizmente, não tinha água disponível para tomar um pequeno banho. Se tivesse comprado uma garrafa de 5 litros ao invés de uma de meio litro, não titubearia em me banhar ali mesmo. Por mais incrível que possa parecer, estava mais desconfortável com a falta de uma boa ducha do que de saudades da época em que o meu celular funcionava. De telefone eu consigo viver sem (apesar de estar preocupado com o que Dora pensaria se me ligasse e eu não pudesse atendê-la), mas de banho não.


Revigorado com o pit-stop improvisado nas moitas compreensíveis de São José, voltei para a frente da casa do Roberto. E ali permaneci de pé, de braços cruzados e olhando fixamente para a residência por horas a fio. No longo período de observação, notei que uma perua escolar veio buscar o Robertinho. O menino até acenou para mim em tom de despedida. Depois foi a vez de um Honda Civic prateado deixar a garagem. Como o carro tinha película fumê nos vidros, não pude identificar na hora quem havia deixado a residência. Somente quando o portão automático da garagem se abriu mais tarde e um Nissan Kicks avermelhado deixou o local com a Patrícia ao volante, pude deduzir quem era o motorista do outro veículo.


A casa permaneceu, acredito eu, vazia até a metade da manhã. Foi quando chegou uma moça de roupas simples e a pé. Com um molho de chaves na mão, ela entrou por uma entrada lateral, que eu ainda não tinha notado. Antes, ficou me olhando com cara assustada, como se temesse qualquer ação agressiva de minha parte. Vai ver ela suspeitava que eu fosse um bandido à espreita. Eita pessoal mais ressabiado esse, meu Deus!


A ausência do celular, morto ou desmaiado na noite anterior, dificultava a medição do tempo. Há anos não usava relógio de pulso. Assim, não fazia ideia de que horas eram. Se tivesse que arriscar um palpite, diria que a mulher chegou por volta das dez, dez e meia da manhã. E, para ficar ainda na casa das adivinhações, diria que ela era a empregada doméstica da família.


No que imaginei ser a hora do almoço, a perua escolar retornou trazendo o filho menor dos proprietários da casa. Robertinho entrou dessa vez sem acenar. Simplesmente passou por mim sem levantar os olhos. Na metade da tarde, foi a vez do Nissan Kicks chegar. Patrícia me cumprimentou com uma leve buzinada, antes de desaparecer pela garagem adentro. Poucos minutos depois, no sentido contrário, a mulher que imaginava ser a empregada saiu em passos acelerados e foi se embora. Roberto só chegou no início da noite. Já estava escuro quando seu veículo passou indiferente por mim.


Permaneci no mesmo lugar e na mesma posição sem qualquer receio de ser visto. Eu até queria que todos notassem minha presença. Era a minha forma de gritar ao mundo: “Não saio daqui enquanto não escrever o livro pelo qual fui contratado! Ouviram? Não vou sair daqui!!!”. Curiosamente, no fim do dia, eu era alvo da curiosidade mais dos demais moradores do bairro do que da própria casa em que me postara na frente. Não foram poucos os carros que passaram me encarando ou as janelas da vizinhança que me observavam em busca de respostas lógicas para as minhas atitudes das últimas vinte e quatro horas.


Apesar de ter a sensação de estar conseguindo despertar a atenção dos moradores da rua (e, como consequência, promover o desconforto dos familiares do Roberto), a chegada da noite acentuou meu cansaço. Ficar de pé, embaixo do solão o dia inteiro (ainda bem que estávamos no Inverno, já pensou ficar ali no Verão?), sem comer e sem beber quase nada por horas, exterminou qualquer resquício de otimismo que eu ainda podia nutrir. Minha vontade era acabar logo com aquela ceninha patética.


Quando já cogitava desistir e retornar definitivamente para o hotel (e seu chuveiro quentinho e sua cama grande e macia...), a porta principal da casa se abriu. Patrícia desceu apressada as escadas e veio em minha direção.


– O que você está fazendo aqui?! – Seu tom de voz continha uma dose considerável de irritação.


– Vim para escrever o livro do Roberto.


– Ele não vai escrever livro nenhum.


– Eu sei.


– Então por que continua aqui?


– Sou eu quem vou escrever o livro para ele – Nessa hora, não cogitei manter o segredo de minha profissão. Precisava colocar todas as cartas na mesa e aquele me pareceu o momento mais adequado para isso. Minhas frases saíram com um misto de tranquilidade e convicção. Se a Dora estivesse me ouvindo, ela ficaria orgulhosa de mim. Aposto!


– Meu Deus, outro cabeça dura! – Patrícia parecia não acreditar no que ouvia. Após alguns segundos de um silêncio constrangedor, ela prosseguiu – Você comeu alguma coisa hoje? Digo, depois do café da manhã...


– Não, senhora – Menti. Eu havia, na hora do almoço, comido o que havia guardado na mochila: metade de um pão francês com manteiga e uma fatia farta de bolo de laranja. Não era muita coisa, admito, mas dera para enganar o estômago.


A mulher fez uma careta. Pela sua fisionomia, ficar sem comer era muito pior do que passar o dia de pé na frente da casa de desconhecidos. Ou será que ela percebera minha mentira? Patrícia não falou mais nada. Apenas voltou a passos apertados para o interior da construção. Alguns minutos depois, Robertinho saiu com uma bandeja. Assim que o vi, compreendi o que aconteceria. Sentei-me na calçada com os pés cruzados e com um sorriso vitorioso no rosto. Se não tinha vencido a guerra, ao menos uma batalha importante fora conquistada.


– Obrigado. E agradeça a sua mãe por mim.


Junto com o pratão de arroz, feijão, bife e batata, veio uma garrafa de um litro e meio de água gelada. Morrendo de sede, virei na hora boa parte do conteúdo do recipiente assim que peguei a bandeja. Uma vez hidratado, comecei a comer. Confesso que meus modos não deviam deixar minha mãe orgulhosa. Ou a comida estava maravilhosa ou eu estava com muita fome.


– Você não vai sair daqui nunca mais?


Para minha surpresa, era o Robertinho que me perguntava. Ávido por ingerir os itens que me foram trazidos, eu esquecera que o garoto permanecia ao meu lado, de pé. Ao apontar os olhos para cima, notei que ele me observava com atenção. Para ele, eu deveria ser tão exótico quanto um animal de circo ou do zoológico que surpreendentemente passara a viver na frente de sua casa.


– Vou permanecer aqui até seu pai me deixar escrever o livro – Dei mais uma garfada e completei com a boca cheia de comida – Acho que depende dele mais do que de mim o fim dessa situação, né?


Indiferente a reação do meu amiguinho, continuei comendo. Eu já falei que o rango estava uma delícia?! Se me enviassem toda noite um prato como aquele, talvez eu não quisesse sair dali nunca mais. Quando terminei a refeição, cuidei da garrafa de água. Agora com um pouco mais de moderação, tomei o restante do líquido. Dessa vez, não havia sobrado nada na bandeja que eu pudesse guardar para outra ocasião. Finalizada a ceia, procurei Robertinho, mas ele não estava mais ao meu lado. Devia ter voltado para a casa depois de nossa conversa.


Subi as escadas e coloquei a bandeja no mesmo lugar que a havia deixado de manhã. Retornei satisfeito para minha posição habitual. Novamente de pé e com os braços cruzados, fiquei olhando na direção da casa do Roberto. A refeição farta e, principalmente, a água ingerida foram as responsáveis pelo retorno da minha energia e do meu otimismo. Minha impressão é que estava participando de uma prova de resistência do Big Brother Brasil. Até a sensação de estar sendo observado por todos no bairro coincidia com a dinâmica do reality show. Eu podia estar vivendo como um mendigo, mas era agora uma personalidade famosa. Ao menos naquela rua do Jardim Aquarius, eu era a grande novidade do final de semana.


A sexta-feira estava prestes a terminar e não demoraria para o sábado começar. A animação da segunda noite era evidentemente maior do que a da primeira. Isso é: para os moradores daquele bairro. Da minha posição de vigília, era possível ouvir as vozes das famílias e a música alta. Alguém estava dando uma festa ali perto. Vários motoqueiros, provavelmente levando pizzas, zanzavam freneticamente pelas ruas. O clima era de descontração. A impressão é que ninguém iria dormir cedo.


A exceção era justamente a família da casa à minha frente. Todas as luzes da residência se apagaram tão logo eu coloquei a bandeja no devido lugar. Ou aquela gente dormia cedo até aos finais de semana ou não tinha nada o que comemorar. Acreditei que talvez a segunda opção fosse a mais adequada quando notei silhuetas na janela do quarto que dava para a rua. Ora era uma pessoa que me observava, ora eram duas. Em algumas oportunidades, deu para notar que elas discutiam. Algo me dizia que eu sabia o motivo e o teor da briga conjugal.


A única coisa que não mudou foi o frio. À medida que a noite dava lugar à madrugada, a temperatura caía mais e mais. Como São José é uma cidade gelada, meu Deus! Como os moradores de rua fazem para viver ali, hein? Para espantar a tremedeira, me encolhia em meu casaco. Ao menos dessa vez não chuviscava. Ficar seco já era um sinal positivo. Perto da noite anterior, a umidade do sereno não era um obstáculo intransponível.


Acredito que tenha dormido mais cedo do que na véspera. Agora que eu tinha um cantinho para puxar o sono, não foi difícil adormecer. Na manhã de sábado, não fui acordado por ninguém. Entretanto, ao me levantar da calçada, reparei que a bandeja jazia perto de mim. Novamente eu era agraciado com um banquete de café da manhã. Minha estada no interior paulista começava a entrar na rotina. Havia escolhido um caminho e agora estava preso a ele. Meu plano seguia barranco abaixo. Sem saída, eu só podia dar sequência ao teatro montado.


O sábado foi igualzinho à sexta-feira. Pelo menos para mim, que continuava impassível na mesma posição e no mesmo lugar do dia anterior. Os dois únicos momentos em que saí do meu posto foram para fazer minhas higienes pessoais no cantinho que agora encarava como meu banheiro particular.


Quanto aos moradores da casa, não notei grandes movimentações. O Honda Civic saiu da garagem na metade da manhã e retornou depois do horário do almoço. Tirando esse ato, não foi possível estabelecer qualquer aspecto da rotina familiar. No final da tarde, uma bandeja com comida me foi entregue. Dessa vez, foi a Patrícia que me levou o rango.


– Bom apetite! – Foi a única coisa que ela falou. Depois de ouvir meus agradecimentos, a esposa do Roberto retornou para a casa.


Novamente, a comida estava boa. Se bem que dessa vez... Sei que não é elegante ficar reclamando, mas preciso admitir: achei que salgaram demais o arroz. A carne me pareceu um pouco fria. E o feijão tinha mais caldo do que grãos. A batata foi o único item do cardápio que não sofrera grandes alterações. Podia apostar que foram pessoas diferentes que fizeram as duas refeições quentes que comera até aquele instante.


Na noite de sábado, um carro de polícia parou perto de onde eu estava. Como permanecia de costas para rua, não vi sua chegada e muito menos a saída de dois oficiais do veículo de patrulha.


– Boa noite – Ao ouvir a saudação, voltei-me na direção da rua e avistei os visitantes e sua carruagem que iluminava o lugar com luzes vermelhas e azuis.


– Boa noite – Respondi com a impressão que minha aventura por São José terminaria de uma maneira pouco digna.


Os policiais se aproximaram de mim com certo asco. Sei que minha aparência não era das melhores, poxa, mas eles não tinham motivos para sentir qualquer tipo de ojeriza. Afinal, o que estava fazendo de errado, hein? A calçada era pública e, até onde sabia, eu podia permanecer ali se não importunasse ninguém. Se bem que seria mais adequado consultar a Dora, que era quem entendia realmente das leis, sobre essa possível linha de defesa. Mesmo não estando com minha advogada pessoal por perto, comecei a imaginar um discurso matador. Sou bom de lábia e não seria complicado ganhar aqueles policiais na conversa.


O que aconteceu em seguida me surpreendeu. Não tive chance nenhuma de conversar. Quando dei por mim, a dupla de “homens da lei” estava... estava... como posso dizer? Ao invés de narrar o que efetivamente se passou, prefiro usar os versos de uma música do Raul Seixas. Você já ouviu Metrô Linha 743? Pois a canção diz (em uma sequência que adaptei para ficar mais condizentes aos fatos que vivenciei) algo mais ou menos assim:


“Aí eu me encostei num poste e fiquei fumando/Dois outros chegaram com pistolas na mão/Um gritou/Mão na cabeça malandro/Se não quiser levar chumbo quente nos cornos/Eu disse/Claro, pois não/Mas o que é que eu fiz/Se é documento eu tenho aqui/ Trabalho em cartório, mas sou escritor/Perdi minha pena/ nem sei qual foi o mês/Metrô linha 743/Outro disse/Não interessa, pouco importa, fique aí/Eu quero saber o que você estava pensando/Eu avalio o preço me baseando no nível mental/Que você anda por aí usando/E aí eu lhe digo o preço que sua cabeça agora está custando/Minha cabeça caída, solta no chão/Eu vi meu corpo sem ela pela primeira e última vez/Metrô linha 743”.


Se você não curte um clássico do rock'n'roll nacional, pode substituir a trilha musical dessa cena por algo mais popular e contemporâneo. Você conhece Foi Daquele Jeito, música da dupla sertaneja Thaeme & Thiago? Apesar da versão original ter um outro sentido (completamente diferente do embate no Jardim Aquarius), seus primeiros versos podem ser aproveitados aqui:


“Vixe, bem-feito/Foi tapa na bunda, na cara/Puxão de cabelo/Na cama, no chão e no banheiro/Foi daquele jeito”.


Talvez eu tenha mesmo que recorrer aos grandes Caetano Veloso e Gilberto Gil. Em Haiti, eles cantam:


“Quando você for convidado/Pra subir no adro da Fundação Casa de Jorge Amado/Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos/Dando porrada na nuca de malandros pretos/De ladrões mulatos/E outros quase brancos/Tratados como pretos/Só pra mostrar aos outros quase pretos/E são quase todos pretos/Como é que pretos, pobres e mulatos/E quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados/E não importa se olhos do mundo inteiro possam/Estar por um momento voltados para o largo/Onde os escravos eram castigados/E hoje um batuque, um batuque/Com a pureza de meninos uniformizados/De escola secundária em dia de parada/E a grandeza épica de um povo em formação/Nos atrai, nos deslumbra e estimula/Não importa nada/Nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico”.


Após um nariz destruído, ao menos dois dentes quebrados, um braço com provável luxação, uma costela possivelmente trincada e o rosto banhado de um líquido avermelhado e viscoso, fui atirado para dentro do veículo. Minhas mãos estavam devidamente algemadas. O que me deixava mais desolado era o fato de não ter dado nenhum sopapo nos policiais. Há algumas brigas que saímos derrotados, mas temos a chance de dar alguns socos em nossos adversários. Não foi o caso ali. Se minha derrota fosse de 7 a 1, pelo menos eu teria tido a oportunidade de uma celebração (os comentaristas de futebol chamam isso de gol de honra). Não! Perdi sem marcar nenhum gol. Fui derrotado sem qualquer honra. A humilhação foi completa.


No banco de trás da viatura, um pensamento me fustigou: “Cadê minha mochila?!”. Nela, tinha os principais materiais do meu trabalho. Não podia abandoná-la sozinha na calçada. Na certa, os policiais não teriam o trabalho de recolhê-la. Esquecida na rua, a mochila seria pega pelo primeiro que passasse e nunca mais seria devolvida. Aí adeus notebook, gravador de som e tudo mais... Não sei se é um tanto mesquinho pensar nos bens materiais naquela situação delicada, mais do que nas minhas feridas expostas, mas foi o que minha mente arquitetou.


Tentei falar algo, avisar os policiais dos meus pertences largados a deus-dará, mas não consegui emitir som. Só a tentativa de mexer meu maxilar resultou na queda de mais um dente. Vixe! Será que a Dora iria se importar de beijar um banguela quando eu voltasse para casa? Será que eu conseguiria sair logo da cadeia?


– Pera aí! O que vocês pensam que estão fazendo?! – Ouvi uma voz feminina conhecida quando os policiais, devidamente sentados nos bancos da frente, já iam dar a partida na viatura.


Com o que restava da minha visão (não é fácil enxergar quando seu nariz está espalhando gosma por toda a cara), notei a presença de Patrícia no lado de fora da casa. Ela caminhava em direção ao carro de polícia. Santo Deus, ela segurava minha mochila. Alguém se lembrou dos meus pertences! Como eu gostava dessa mulher. Ela era uma mistura de Joana D´Arc e Madre Teresa de Calcutá.


– Não acredito... – o policial que estava no banco de passageiros não demonstrava nenhum constrangimento. Sua fala saía um tanto forçada, como se estivesse fingindo preocupação – Esquecemos de apanhar o material do meliante. Obrigado, senhora – Ele esticou o braço para pegar minha mochila.


Contudo, Patrícia, nesse instante bem próxima à janela do carro, não entregou o que tinha em mãos. Ela parecia olhar para a figura ensanguentada no banco de trás. Pela sua reação, ela não estava nem um pouco feliz com o que estava vendo.


– O que vocês fizeram?!


– Recolhendo o meliante, madame. Recebemos uma denúncia que ele estava barbarizando nos últimos dias.


– Meliante? Barbarizando? Não pode ser... Ele é nosso hóspede.


Se a reação dela me surpreendeu, imagine só as caras dos policiais. Era uma pena não poder vê-las. Sabe aquele jogo que estava 7 a 0?! Acho que ele foi impugnado.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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