• Ricardo Bonacorci

Premiações: Jabuti 2020 - Surpresas e polêmicas


Em uma boa premiação literária, não podem faltar surpresas e polêmicas. Esses dois componentes são inerentes a qualquer competição na qual a subjetividade integra os critérios de avaliação. O que não se pode é exagerar na dosagem desses elementos. E essa talvez tenha sido a grande peculiaridade do Prêmio Jabuti de 2020, a principal honraria da literatura brasileira. No finalzinho de novembro, a Câmara Brasileira do Livro (CBL), entidade responsável pela premiação, anunciou os escritores e os livros vencedores da 62ª edição do Jabuti. E, obviamente, junto com a entrega das estatuetas, vieram os questionamentos e as críticas. Até aí normal. O que impressiona é a lista interminável de confusões protagonizada pelo prêmio em todas as suas fases: concepção, divulgação dos critérios, análise das obras e, por fim, revelação dos vencedores. Confesso que há muito tempo não via algo tão caótico (fora dos corredores de Brasília).


Antes de falarmos dos premiados, façamos uma retrospectiva breve das polêmicas da última edição do Jabuti. No início do ano, o anúncio da criação de uma nova categoria, a literatura de entretenimento, dividiu o mercado editorial ao meio. Muita gente foi contra a segregação dos livros entre “alta cultura” e “baixa cultura”, o que oficializaria certo preconceito (julgamento prévio das publicações) por parte do setor. Porém, muita gente foi a favor da nova categorização, dizendo que essa separação já estava consolidada na cabeça de leitores, autores e editores. Além disso, alegava o segundo grupo, muitos prêmios pelo mundo a fora já usavam esse critério. Gostemos ou não, as narrativas longas têm agora essa distinção conceitual – romance de literatura versus romance de entretenimento. Ao que tudo indica, essa distinção veio para ficar no Brasil.

Alguns meses depois, uma enxurrada de reclamações exigiu a saída de Pedro Almeida da curadoria do prêmio. Almeida, como um bom bolsonarista que se preze, utilizou as redes sociais para falar muita besteira e foi envenenado pela própria língua (ou teria sido envenenado pelos dedos?!). A comunidade literária não perdoou os escorregões do intelectual (?), provando que há ainda setores na sociedade nacional que são contrários à idolatria torpe a figuras pobres de ideias, que desprezam os valores sociais e não manifestam qualquer apreço pela vida humana. Como resultado, a cabecinha de Pedro Almeida rolou ladeira abaixo – ele renunciou ao cargo, depois de pedir desculpas publicamente.


Quando todo mundo achava que as polêmicas tinham, enfim, cessado, a CBL divulgou que a maioria das inscrições ao prêmio foi feita incorretamente e, assim, muitas obras foram eliminadas já no primeiro filtro de avaliação. A repercussão foi novamente negativa. Aos olhos do grande público e do mercado editorial, se grande parte dos postulantes ao prêmio não atendeu aos critérios burocráticos da comissão da Câmara Brasileira do Livro, o problema parecia estar mais no lado das definições conceituais e nos processos dos organizadores do que na postura e ações dos inscritos. Mesmo sob a chiadeira geral, a decisão de desclassificar muitos livros participantes não foi revogada.


Entre tropeços e percalços, chegamos ao dia da premiação. Em 26 de novembro, uma cerimônia virtual (condizente, portanto, com os tempos atuais de quarentena e de distanciamento social) foi apresentada pela jornalista Maju Coutinho. Coube à estrela global divulgar os vencedores do Prêmio Jabuti de 2020. E, mais uma vez, surpresas saltaram aos olhos (como diria o velho lobo – fomos surpreendidos novamente!). Emulando o Oscar de 2017, essa edição do Jabuti foi uma das mais engajadas da história. As principais estatuetas foram dadas para escritores e livros que combatem o racismo e enaltecem a negritude e a resistência quilombola. Em um país que só agora está descobrindo muitos preconceitos estruturais, trata-se de uma postura elogiável da CBL. Além do mais, esse é um dos temas do momento não apenas em nossa sociedade como em muitos países ocidentais.

O problema, na visão de alguns críticos literários e de personalidades influentes do mercado editorial, é que as escolhas finais da comissão organizadora foram feitas mais para agradar a opinião pública do que para valorizar os melhores títulos – a finalidade principal da premiação. Sob esse ponto de vista, mais importante do que a qualidade das publicações é a sua temática e o perfil dos autores. Ao jogar apenas para a torcida, a Câmara Brasileira do Livro estaria cometendo um novo erro – se no passado discriminava certos livros e escritores, agora estaria dando preferência a eles.


Parece-me um exagero (além de ser uma grande injustiça aos vencedores – já ouviu falar de choro de perdedor?!) querer desqualificar os premiados. De qualquer maneira, uma coisa eu tenho certeza entre tanto bafafá: as polêmicas da última edição do Prêmio Jabuti parecem não ter fim.


Depois de narrar a trajetória tumultuada da edição desse ano do prêmio da CBL, falemos agora do mais importante – os premiados! Afinal, é isso o que todo mundo quer saber. Segue, abaixo, a lista dos vencedores do Prêmio Jabuti 2020 nas principais categorias:


- LIVRO DO ANO – “Solo para Vialejo” (Cepe Editora) – Cida Pedrosa.


- ROMANCE LITERÁRIO – “Torto Arado” (Todavia) – Itamar Vieira Júnior.


- ROMANCE DE ENTRETENIMENTO – “Uma Mulher no Escuro” (Companhia das Letras) – Raphael Montes.


- CONTO – “Urubus” (Confraria do Vento) – Carla Bessa.


- CRÔNICA – “Uma Furtiva Lágrima” (Record) – Nélida Piñon.


- INFANTIL – “Da Minha Janela” (Companhia das Letrinhas) – Otávio Júnior.


- JUVENIL – “Palmares de Zumbi” (Editora Nemo) – Leonardo Chalub.


- POESIA – “Solo para Vialejo” (Cepe Editora) – Cida Pedrosa.


- HISTÓRIAS EM QUADRINHOS – “Silvestre” (Darkside) – Wagner William Menezes de Araújo.

Parabéns aos vencedores e à literatura brasileira. Desejamos que a 63ª edição do Prêmio Jabuti seja realizada sem tantas confusões, polêmicas e, o mais importante, com a volta da normalidade. Seja bem-vindo 2021!


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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