• Ricardo Bonacorci

Filmes: Que Horas Ela Volta? - À caminho do Oscar


É possível projetar, desde já, que temos grande chance de possuirmos, no ano que vem, um candidato na disputa do Oscar de 2016 pela estatueta de Melhor Filme Estrangeiro. Se iremos ganhar ou não o prêmio, não sei, mas que a probabilidade de pelo menos termos uma produção brasileira entre os finalistas é muito grande desta vez, isto é possível afirmar categoricamente. "Que Horas Ela Volta?" (2015), filme da diretora Anna Muylaert e protagonizado por Regina Casé, é a esperança do cinema nacional de voltar a ser protagonista no cenário internacional depois de muitos anos de ausência de títulos relevantes. Após o sucesso do cinema nacional na década de 1990, com três indicações ao Oscar, com "O Quatrilho" (1994), "O Que É Isso, Companheiro" (1998) e "Central do Brasil" (1999), a última vez em que tivemos um finalista na principal cerimônia do cinema mundial foi em 2004 com "Cidade de Deus". Este jejum, ainda bem, está próximo do fim...

Faz 11 anos, portanto, que não conseguimos nem chegar à final. Isso demonstra as escolhas equivocadas feitas pelas produções selecionadas para concorrer ao Oscar (em alguns anos, infelizmente, o melhor filme brasileiro não foi o indicado) e a opção pela produção de longas-metragens com qualidade inferior, mas com potencial para angariar grandes plateias no circuito nacional (os filmes brasileiros de maior bilheteria no cinema nacional, nos últimos anos, foram principalmente comédias sem qualquer apelo internacional e sem a excelência cinematográfica digna de premiação).

"Que Horas Ela Volta?", que chegou ao circuito nacional no início deste mês, após ter sido lançado internacionalmente com grande sucesso, é quem pode tirar o cinema brasileiro do marasmo que vem apresentado nas duas últimas décadas. Em cartaz em 22 países, o filme de Anna Muylaert foi eleito o Melhor Filme, segundo votação do público, no Festival de Berlim e foi premiado com o prêmio de Melhor Atriz (Regina Casé e Camila Márdila) no Festival de Sundance, nos Estados Unidos. Ele já foi visto por 150 mil pessoas na França e 70 mil na Itália. A crítica europeia e norte-americana não se cansa de rasgar elogias a produção brasileira.

Assisti ontem a este filme no Caixa Belas Artes e sai da sessão maravilhado com o que presenciei. Esta, com certeza, é a melhor produção brasileira dos últimos dez anos. O filme é engraçado, poético e crítico, conseguindo retratar o cotidiano de uma família de classe média alta brasileira e as relações sociais entre patrões e empregados. Nas quase duas horas de filme, você fica completamente hipnotizado pela personagem de Regina Casé, a empregada doméstica Val. O drama e as confusões que esta mulher enfrenta no dia a dia são retratados com graça, leveza e com muita sinceridade. Nada é escondido para debaixo do tapete. Ao mesmo tempo em que é doce e divertido, o filme de Muylaert também consegue ser ácido e muito crítico. Uma excelente combinação, difícil de ser concretizada, mas que traz um excelente resultado quando bem viabilizado.

A história de "Que Horas Ela Volta?" é sobre a empregada doméstica Val (Regina Casé), que vive em São Paulo e trabalha há treze anos na casa de uma família de classe média alta. Vinda de Pernambuco, a nordestina mora no serviço, dormindo em um quartinho de empregada no fundo da mansão. Ela é quem cuidou e criou, praticamente sozinha, de Fabinho (Michel Joelsas), o filho do casal empregador, Dona Bárbara (Karine Teles) e Seu Carlos (Lourenço Mutarelli). O menino, agora na adolescência, parece ter mais amor e intimidade com a empregada do que com a própria mãe.

A vida de Val segue tranquila, sem qualquer anormalidade que possa interferir em sua rotina, até ela receber uma ligação telefônica da sua filha, Jéssica (Camila Márdila). Jéssica mora com pai em Pernambuco e não falava com a mãe há alguns anos. Mãe e filha não se viam há mais de dez anos. A moça, que irá prestar vestibular em São Paulo, quer saber se pode passar alguns dias na casa da mãe na capital paulista. Surpreendida com o pedido, Val aceita feliz a solicitação da filha e vê a oportunidade de ficar alguns dias com a menina, algo raro em sua vida. Porém, a empregada doméstica não fala para a filha que ela não possui uma casa e que mora nos quartinhos dos fundos da casa dos patrões.

Esta realidade da mãe só é descoberta por Jéssica quando ela se muda para a mansão. Aí começam os problemas naquela residência. A moça é tratada de forma distinta pelos integrantes da família proprietária do lugar. Enquanto o marido e o filho tratam a filha da empregada com mordomias e a consideram como sendo uma hóspede, a esposa a trata com certo desprezo e uma boa dose de ciúmes. Jéssica parece não ajudar. Ela não compartilha do sentimento servil e obediente da mãe. Ela não se sente inferior aos donos da casa e não se vê na obrigação de paparicá-los. A tensão se torna insuportável entre mãe e filha, entre empregados e empregadores e entre a própria família de Bárbara e Carlos.

"Que Horas Ela Volta?" é uma belíssima produção. Ele já pode ser comparado e colocado à altura de "Cidade de Deus" e "Central do Brasil". O filme de Anna Muylaert consegue ser engraçado, comovente e tratar de temas delicados da sociedade brasileira de um jeito leve e irreverente. O drama de Val e da sua filha na casa dos patrões é sintomático da sociedade preconceituosa e com grande disparidade de renda que é a brasileira.

Os pontos positivos deste longa-metragem são vários. Primeiro, precisamos destacar a atuação de Regina Casé no papel principal. Ela está espetacular neste trabalho. Ela rouba todas as cenas, conferindo graça e carisma para sua personagem. Quem está acostumado a vê-la apenas na apresentação pouco inspirada em seus programas musicais na Rede Globo aos finais de semana, pode se esquecer do potencial artístico desta bela atriz. Para relembrar suas qualidades nas artes cênicas, basta recordamos da atuação de Regina em "Eu Tu Eles" (2000), quando ela se destacou e recebeu muitos elogios da crítica especializada. Ou seja, não é novidade nenhuma o desempenho de Regina Casé em frente às telas. Só que dessa vez, ela superou todas as expectativas. Nota 10 para ela!

Outra que teve desempenho primoroso foi Anna Muylaert. A diretora conseguiu transformar uma bela história em um ótimo filme. O ritmo do longa-metragem é ágil (para um drama) e tem uma cadência impecável. A narrativa não tem grande variação em seu ritmo em nenhum momento. Praticamente ficamos com os olhos presos na história do início ao final. As quase duas horas da produção cinematográfica passam muito rapidamente, demonstrando a excelência do trabalho de Muylaert.

A brasilidade deste filme é um dos elementos mais marcantes. A realidade do nosso dia a dia e as relações pessoais e sociais típicas do nosso país ficam acentuadas na tela. O guaraná servido como bebida na mesa da refeição, o quartinho de empregada no fundo da casa, a relação de amizade entre patrões e funcionários, o comodismo acentuado dos empregadores de ter alguém dentro de casa para fazer tudo para eles, a dificuldade de criar os filhos (independente da renda e da classe social) e a questão da migração nordestina para os centros da região sudeste são temas tipicamente brasileiros. É de encher os olhos quando vemos nosso país ser retratado com fidelidade nas telas de cinema.

Engraçado. O filme consegue também ser muito divertido. O humor ajuda a tornar o ambiente tenso da narrativa mais leve e descontraído. Rimos praticamente de todas as situações dramáticas vivenciadas pelos personagens, até mesmo as mais delicadas, como quando o patrão, apaixonado pela filha da emprega, a pede em casamento. Hilário. Triste, chocante, mas engraçado.

Não consegui encontrar, a princípio, nenhum grande defeito neste filme para comentar aqui. Talvez eu ainda esteja absorvido pelo encanto da produção e, por isso, não consegui localizar nenhum ponto abaixo da crítica. Pode ser.

O que eu tenho certeza é que "Que Horas Ela Volta?" é um dos melhores filmes nacionais que já assisti e que merece estar na disputa do Oscar de 2016. Vamos torcer por ele que ele merece.

Veja o trailer deste longa-metragem nacional:

O que você achou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Não se esqueça de deixar seu comentário. Se você é fã de filmes novos ou antigos e deseja saber mais notícias da sétima arte, clique em Cinema. E aproveite também para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

#AnnaMuylaert #ReginaCasé

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento