• Ricardo Bonacorci

Livros: O Conto da Ilha Desconhecida - A bela parábola de José Saramago


O Nobel de Literatura de 1998, o português José Saramago, não se dedicou apenas aos romances. Apesar de sua fama internacional ter sido construída principalmente pelos romances "Ensaio sobre a Cegueira" (Companhia das Letras), "Memorial do Convento" (Companhia das Letras) e "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (Companhia das Letras), Saramago também foi um grande cronista, ensaísta, dramaturgo, contista, poeta e jornalista. Neste começo de 2017, me propus a conhecer um pouco mais o lado contista/novelista do português. Por isso, li "O Conto da Ilha Desconhecida" (Companhia das Letras).

Este livro aborda a história de um homem que visita o castelo real para pedir um barco ao monarca. O sonho do rapaz é viajar pelos mares para descobrir uma ilha até então desconhecida. O rei, intrigado com tão curioso pedido, questiona o homem sobre como ele sabe da existência da ilha se ela é desconhecida. O súdito responde argumentando que todas as ilhas são desconhecidas até que sejam descobertas. Inicia-se, aí, um debate de cunho filosófico. O desafio do homem do barco, como o protagonista é chamado pelo escritor durante a trama, é viabilizar seu sonho, por maiores e mais desafiantes que sejam os problemas do dia a dia.

Esta disposição do protagonista de encarar o novo e o misterioso contagia a mulher da limpeza, que trabalhava no castelo. Ao ouvir a conversa entre o súdito sonhador e o rei, ela opta por fugir do castelo e se juntar ao homem do barco em sua empreitada. Ela sempre sonhou em ser a responsável pela limpeza de um barco e viu naquela oportunidade a chance de fazer o que sempre quis.

"O Conto da Ilha Desconhecida" é uma obra com pouco mais de 60 páginas. É possível lê-la em pouco mais de duas horas. Ela é uma bela parábola sobre a força de vontade que precisamos ter para realizarmos nossos sonhos. Também há elementos interessantes sobre as relações pessoais e sobre as relações de poder entre governantes e governados.

Este livro permite algumas interpretações de cunho mais filosófico. O ponto alto da narrativa está nos diálogos e, como é comum nas parábolas, nas interpretações das palavras e das ações de seus personagens. Há ótimas personagens também.

O rei prefere muito mais receber os favores e as graças do seu povo do que se prestar a ajudá-los. No momento de receber algo, ele se mostra disposto e atento. Na hora em que precisa prestar ajuda ou socorro a alguém, ele fica com preguiça e mal-humorado. É o retrato do governante interesseiro, atendendo apenas àqueles que têm algo para lhe dar e desprezando aqueles sem posses para oferecer (e apenas pedir).

A mulher da limpeza, que tem um papel crescente na obra, saindo do papel secundário e ganhando certo protagonismo, tinha uma vida estável, segura e previsível no castelo. Contudo, saiu de lá para realizar seu sonho (ser responsável pela limpeza de um barco). Buscando a concretização deste sonho e desejando fazer algo na qual ela se realizasse, ela efetuou a mudança. A mensagem que este episódio nos transmite é que devemos lutar pelos nossos sonhos e buscar nossas realizações profissionais, por mais difíceis que elas pareçam (deixando o mundo confortável e seguro que não nos representa).

O homem do barco também é uma personagem com grande força interior. Pode-se dizer que se trata de um protagonista do tipo esférico, pois ele apresenta uma grande complexidade de comportamentos, possuindo conflitos e contradições de difícil resolução. Além disso, suas características psicológicas vão se formando ao longo do conto/novela, por vezes, surpreendendo o leitor.

A história se passa em um espaço físico e psicológico. No início da narrativa, temos muito bem delimitado o espaço físico. Os personagens estão em um castelo (reino). Depois, eles partem para o porto, para conhecer o navio. Quando o homem do barco começa a sonhar, neste instante, temos o espaço psicológico. A aventura marítima acontece exclusivamente em seu sonho.

Há também dois tipos de tempo neste conto. No momento em que o homem do barco fica esperando o rei por três dias, deitado na porta do castelo, temos o tempo cronológico. Por outro lado, quando o homem do barco começa a divagar, sonhando com a viagem marítima, temos o tempo psicológico.

A parte que mais gostei foi a do final. Além de surpreendente, o desfecho possui um tom poético incrível. Saramago é ao mesmo sutil e profundo, provocando o leitor a uma grande reflexão.

Gostei tanto desta história que estou pensando em incluir, neste ano, José Saramago no Desafio Literário. Será bom ler mais obras deste monstro da Língua Portuguesa.

Gostou deste post e do conteúdo do Blog Bonas Histórias? Se você é fã de literatura, deixe seu comentário aqui. Para acessar as demais críticas, clique em Livros. E aproveite para curtir a página do Bonas Histórias no Facebook.

#JoséSaramago #literaturaportuguesa #LiteraturaClássica #Parábola #Novela #conto #Existencialismo

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento