• Ricardo Bonacorci

Passeios: O futebol alternativo da cidade de São Paulo


A temporada do futebol brasileiro já está para começar. Milhares de torcedores dos quatro cantos do país se preparam para voltar aos estádios e acompanhar suas equipes nas principais competições de 2017. Aqui na cidade de São Paulo não é diferente.

A capital paulista é privilegiada por abrigar grandes clubes e estádios. Além de Corinthians, Palmeiras e São Paulo, os principais times locais, a metrópole ainda é a segunda casa dos Santos, uma das equipes mais tradicionais da história. No sábado mesmo, o clube da Baixada Santista jogou por aqui. Belos e grandes estádios não faltam. A Arena Corinthians é luxuosa e moderna, o Allianz Parque é confortável e glamouroso, o Morumbi é grande e imponente e o Pacaembu é aconchegante e tradicional. Quando falamos em futebol em Sampa, são estes os protagonistas e os principais palcos que as pessoas logo pensam.

Contudo, as melhores experiências futebolísticas que podemos encontrar por aqui passam longe deste caminho óbvio. Há na cidade de São Paulo um divertido e prazeroso roteiro que chamo de "Futebol Alternativo". Nele, a paixão dos torcedores parece mais genuína. A amizade e a confraternização esportiva nas arquibancadas vencem as brigas e a violência. As famílias prevalecem frente às gangues organizadas. O interesse de jogadores e torcedores está mais ligado ao aspecto esportivo e menos aos elementos financeiro-comerciais. O clima nos estádios é mais parecido ao da década de 1950 do que ao dos anos 2000. O glamour e a tradição movem uma multidão guiada exclusivamente pela paixão.

Os responsáveis por este feito são dois pequenos times de futebol da cidade: o Nacional Atlético Clube e o Clube Atlético Juventus. Acompanhar uma partida destas agremiações em seus estádios é infinitamente mais interessante do que ver os confrontos entre os grandes clubes da capital. Aqui não existe Série A do Campeonato Brasileiro muito menos Libertadores da América. Estamos falando de segunda e terceira divisões estaduais.

Infelizmente, muitas pessoas desconhecem estas opções de lazer e entretenimento. Também duvidam de como pode ser divertido torcer por equipes nanicas e ver partidas de baixíssimo nível técnico. Para mim, esta é a essência do verdadeiro futebol.

Estou falando sobre esta questão porque neste começo de ano fiz um tour pelo Futebol Alternativo da cidade de São Paulo. Visitei, em janeiro, o Estádio Nicolau Alayon (chamado simplesmente de Rua Comendador Souza), na Barra Funda, e o Estádio Conde Rodolfo Crespi (mais conhecido como Rua Javari), na Mooca. Aproveitei a realização da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2017 para ver partidas do Nacional e do Juventus in loco.

A seguir vão as minhas descobertas sobre esses clubes e seus incríveis estádios:

Nacional Atlético Clube - Estádio Nicolau Alayon (Rua Comendador Souza):

O Nacional é o menor time profissional da cidade de São Paulo. Ele está atualmente na terceira divisão do futebol paulista (campeonato conhecido como Série A-3). Sua fundação remonta o ano de 1919. Portanto, é um dos clubes mais tradicionais do estado.

Seu estádio tem capacidade para aproximadamente 10 mil torcedores. Na maioria dos lugares, os torcedores ficam de pé e não têm a proteção de uma cobertura superior (ou seja, é tipicamente um estádio da velha guarda). O gramado é cercado pelo bom e velho alambrado. Não há combinação mais interessante para quem ama o futebol do passado.

A Rua Comendador Souza não é tão acanhada assim e possui certo conforto (para quem está acostumado, obviamente, com os antigos estádios). Os jogos do Nacional não atraem mais do que quinhentas pessoas em média. Por isso, sobram lugares à disposição do público e tranquilidade para se acompanhar as partidas nas arquibancadas.

O clima no estádio não é de fanatismo exacerbado. O time possui uma pequena e tímida torcida. Formada por associados do clube e por velhos admiradores, os torcedores são exigentes e gostam de cornetar tanto a equipe rival quanto os próprios profissionais do seu clube do coração. Não espere, portanto, ver bandeiras, cânticos e grande vibração nas arquibancadas.

A partida que assisti foi entre Nacional e Goiás, em uma sexta-feira (6 de janeiro) à tarde (às 14 horas). O público era de aproximadamente 600 pessoas. Pelo horário e considerando que se tratava de um jogo da primeira fase da Copa São Paulo, a presença de torcedores foi muito acima da expectativa. Para os padrões do Nacional, foi um excelente público.

O momento alto do jogo aconteceu no segundo tempo quando a arquibancada inteira passou a gritar: "Tira o dez! Tira o dez! Tira o dez!". Os torcedores estavam cansados das jogadas individuais e pouco produtivas do camisa 10 da equipe da casa. Como não sabiam o nome do jogador (lembremo-nos que era uma competição juvenil), o público passou a reclamar com o técnico exigindo a saída do jogador-vilão. A cada jogada errada deste atacante, surgiam mais gritos de "Tira o dez! Tira o dez! Tira o dez!". Aos trinta e cinco minutos, o treinador fez a vontade da massa. Quando o camisa 10 saiu, o estádio explodiu em alegria. Alguns torcedores chegaram a se abraçar ironicamente. Os gritos foram até mesmo superiores ao momento do gol do Nacional.

A partida terminou 2 a 1 para o Goiás. Neste dia, percebi que o que move aqueles torcedores não é a glória nem a vitória. E sim o amor genuíno pelo seu pequeno time do coração.

Clube Atlético Juventus - Estádio Conde Rodolfo Crespi (Rua Javari)

Se assistir a um jogo do Nacional em seu estádio é interessante e calmo, acompanhar uma partida do Juventus na Rua Javari é uma experiência frenética e intensa. O Moleque Travesso, como é conhecido o clube da Mooca, possui uma torcida numerosa (para os padrões dos pequenos clubes) e fanática. Em dia de partida, a impressão que se tem é que o bairro inteiro se mobiliza para ver os jogadores da camisa grená.

A fundação do Juventus remonta a década de 1920. Imigrantes italianos do bairro da Mooca foram os responsáveis pela criação deste clube. Como a maioria destes imigrantes torcia para o Juventus e para o Torino, ambas equipes de Turim e rivais históricas na Itália, o grupo estabeleceu: o time brasileiro se chamaria Juventus (para agradar à metade dos fundadores), mas iria ter as cores do Torino (agradando a outra parte). É como se fosse criado um time na Itália chamado Corinthians e ele tivesse as cores verde e branca ou se o novo clube italiano se chamasse Grêmio e fosse vermelho e branco.

O clube da Mooca é um dos mais tradicionais do estado de São Paulo, sendo o sexto time com maior número de participações no Campeonato Paulista. Atualmente, o Juventus está na segunda divisão do campeonato estadual (Série A-2). Desde 2008, está distante da elite estadual. Este momento desfavorável, contudo, não diminui o fanatismo dos seus torcedores.

A Rua Javari é um típico estádio da década de 1920. Seu charme está em manter as características da sua fundação. Para se ter uma ideia, o lema dos torcedores locais é "Ódio eterno ao futebol moderno". Por isso, nem refletores há (os jogos são exclusivamente diurnos). Ver as partidas em pé, espremido no alambrado e tomando chuva é a diversão da maioria ali. A capacidade total é de aproximadamente 4 mil lugares.

O clima animado é puxado pelas torcidas organizadas, que seguem o estilo das barras-bravas argentinas. Elas cantam o jogo inteiro e apoiam sua equipe incondicionalmente. Formadas essencialmente por jovens do bairro, estas torcidas são divertidas e não pregam a violência. Afinal, elas gostam do futebol de antigamente, quando as brigas entre rivais não existiam nas arquibancadas. A mais numerosa delas é a "Setor 2" (antiga "Ju-Metal") que tem este nome por ficar no setor homônimo, atrás de um dos gols. Apesar da animação dos jovens torcedores organizados, a maioria do público é formada por famílias. A arquibanca parece um grande encontro de famílias italianas.

O jogo que assisti foi entre Juventus e Figueirense em um domingo (8 de janeiro) à tarde (16 horas). O estádio estava completamente lotado. Entre 3 mil e 4 mil pessoas foram acompanhar a partida que valia o primeiro lugar do grupo (era primeira fase da Copa São Paulo). Fiquei pensando: "Se um jogo de juvenis lota, imagina quando o time profissional joga!". Realmente, a expectativa dos torcedores do Juventus para esta temporada é alta. Pelas conversas que tive com o público, eles esperam ansiosos o início da Série A-2. Afinal, haverá clássicos como Juventus e Portuguesa e Juventus e Guarani, ambos na Rua Javari. Para os juventinos fanáticos, estas partidas são imperdíveis. Muitos souberam dizer até mesmo as datas que elas vão acontecer nesta temporada. Não tenho dúvida que a Javari ficará pequena para estes aguardados confrontos.

Ver o jogo espremido entre torcedores apaixonados é divertidíssimo. Quando uma chuva de verão despenca no estádio, a diversão só aumenta. Para escapar da molhadeira e do frio, só mesmo pulando e gritando sem parar. No intervalo, não há como não provar o canolli do Seu Antônio. O difícil é ficar em um só.

Infelizmente, o Juventus perdeu por 2 a 0. A derrota não desanimou os torcedores. Eles saíram cantando do estádio, combinando o novo encontro do meio de semana. Este é o espírito do verdadeiro futebol. Ainda bem que ele não morreu na maior cidade do continente. Há ainda oásis de alegria e civilidade. Algo que todas as torcidas deveriam se inspirar.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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