• Ricardo Bonacorci

Peças teatrais: Ato Falho - Tragicomédia da vida contemporânea


Está em cartaz, desde 17 de junho, em São Paulo, a peça "Ato Falho", uma tragicomédia sobre a vida contemporânea. Produzido de maneira independente pelas atrizes Bruna Anauate e Tati Lenna e viabilizado por meio de uma exitosa campanha de crowdfunding, o espetáculo oferece um impecável retrato das neuroses do mundo moderno. A ótima interpretação das duas atrizes no palco confere maior força dramática ao excelente texto da peça, levando a plateia a se emocionar de diferentes formas. O público vai da risada espontânea à sensação de desconforto (proposital) em questão de segundos. O resultado final é uma provocante e inteligente reflexão sobre os hábitos que levamos atualmente.


"Ato Falho", apesar da aparente simplicidade, é uma peça intensa, profunda e encantadora. Dentro do circuito cênico alternativo da cidade, essa é uma das melhores opções em cartaz neste momento. Ela é ideal para quem gosta de vivenciar o verdadeiro teatro. Nele, as ótimas cenas, o texto muito bem trabalhado e a excelente interpretação dos artistas são a essência. O restante é detalhe, que pode muito bem passar despercebido ou, como é o caso aqui, ser excluído sem comprometer em nada a produção.


O enredo de "Ato Falho" se passa na cidade de São Paulo em um dia corriqueiro. Em seis cenas fragmentadas e sem uma ordem cronológica bem definida, a plateia presencia o drama dos moradores desta metrópole caótica. Logo de cara, há a mulher que sofre de prisão de ventre e sonha em conseguir defecar. Diante de seu problema, ela repensa, em pleno banheiro, sua vida a partir da perspectiva do seu intestino. Na sequência, outra personagem derruba um copo cheio de líquido no chão de sua residência. Aquele acidente banal é considerado uma tragédia pela moradora, pois ela não comprou detergente. Onde já se viu se esquecer de comprar os produtos de limpeza para a casa?! No quadro seguinte, duas desconhecidas ficam presas dentro de um vagão do Metrô. Elas começam a conversar e expõem a faceta irônica da impessoalidade do ambiente público.

As cenas vão surgindo sucessivamente, compondo quadros ao mesmo tempo hilários e ácidos, tão comuns nos grandes centros urbanos. A quarta enquete é sobre uma mulher que deseja marcar uma operação médica para a mãe. Para tal, precisará superar a burocracia e a pouca autonomia da operadora de telemarketing do plano de saúde. Há também as duas amigas que se encontram na balada. Em meio à alegria de se rever, a dupla não para de tirar selfie. Elas não se preocupam em aproveitar a companhia da amiga há tanto tempo sumida. O que desejam é tirar a foto perfeita daquele instante. Para completar, temos duas personagens que se divertem com a tentativa de suicídio de uma moça obesa. Enquanto a jovem tenta se jogar do alto de um prédio, as duas espectadoras se juntam à enorme plateia na rua para assistir ao deprimente espetáculo como se estivessem em frente à televisão de casa.


A riqueza de "Ato Falho" está em sua capacidade de retratar a realidade contemporânea com uma pegada irônica e sensível, sem perder a profundidade dramática. Tudo é muito intenso no palco. A união de ótimas interpretações com um texto apuradíssimo transforma o espetáculo em uma síntese sagaz dos nossos tempos. A proximidade da plateia e o clima intimista do teatro aumentam consideravelmente a sensação dos espectadores estarem vivenciado (de verdade) aqueles situações, ao invés de simplesmente estarem assistindo à encenação.


A peça também aborda a melancolia, a solidão, os distúrbios psicológicos, a desumanização, a impessoalidade, o mau uso da tecnologia e os relacionamentos frágeis dos moradores da cidade de São Paulo. O tom sombrio e tenso das cenas é quebrado em parte pelo humor leve e natural das situações. Assim, o público se diverte ao mesmo tempo em que pode refletir sobre suas condutas habituais.

É impossível a plateia não se enxergar em quase todas as cenas representadas no palco. A maioria das situações é bastante original e bem trabalhada pelas artistas. A exceção é o quadro da atendente do telemarketing, uma cena um tanto batida e muito caricata. Destaque positivo para a enquete em que o trem do Metrô fica parado por causa de problemas técnicos. Além de ser a cena mais longa, é também aquela em que há elementos mais engraçados e dramáticos da peça. A atuação das atrizes é perfeita neste momento! A vontade que dá é de ver essa enquete várias vezes para observar os muitos detalhes apresentados em cena.


Bruna Anauate e Tati Lenna são excelentes atrizes, formadas há quase uma década pelo CPT (Centro de Pesquisa Teatral), celebrada companhia de Antunes Filho. Por isso, não é surpresa nenhuma em ver o belo desempenho cênico da dupla em cima do palco. A grata novidade foi ter descoberto a capacidade delas em produzir um espetáculo artístico de altíssima qualidade do início ao fim. Bruna e Tati são autoras do texto de "Ato Falho" e ficaram responsáveis por quase todos os demais elementos da peça. Além de serem atrizes e dramaturgas, elas também desempenham os papéis de diretoras, cenógrafas, figurinistas e produtoras do espetáculo. Só a iluminação que não conta com a participação direta delas. A dupla inclusive fica na bilheteria, vendendo os ingressos e recepcionando de forma simpática o público no teatro. Ou seja, são duas artistas completas e na plenitude do trabalho cênico.


É claro que Bruna Anauate e Tati Lenna, que somente agora passaram a trabalhar em conjunto como produtoras, já realizam suas próprias peças há algum tempo. Bruna, por exemplo, produziu, em 2013, o ótimo "Tem Alguém que Nos Odeia", sobre a intolerância ao homossexualismo. Já Tati integrou o Núcleo de Dramaturgia do SESI, um dos principais formadores de artistas teatrais do país. Sua primeira peça como dramaturga foi "Circo Chernobyl – Um ensaio sobre a peça”, lançada no ano passado.

Não é errado afirmar que "Ato Falho" é a produção mais autoral, intimista e interessante da dupla. Se a peça possui figurino, cenário, iluminação e acomodação muito simples (e põe simples nisso) é porque suas produtoras/intérpretes optaram por concentrar toda a atenção e energia no texto e na interpretação, os elementos verdadeiramente importantes. Essa decisão se mostrou acertadíssima. A plateia se emociona e ri com o que vê no palco. O público fica praticamente sem respirar e sem piscar durante os sessenta minutos do espetáculo, tamanha é a força hipnotizante das cenas.


O único ponto negativo da peça é o seu local de encenação. O Espaço Cia do Pássaro é um teatro simpático e aconchegante, porém está localizado na República, bem no centro de São Paulo. Essa é uma região que infelizmente se degradou muito nos últimos anos. É chato você levar alguém ao espetáculo e sua companhia ficar com medo de ser assaltada nas ruas escuras e desertas daquela região da cidade. Por isso, a melhor alternativa é ir de carro à Cia do Pássaro, apesar da estação de Metrô do Anhangabaú estar a alguns metros de distância da porta do teatro.


"Ato Falho" está em cartaz aos sábado (às 21 horas) e domingos (às 19 horas) no Espaço Cia do Pássaro (Rua Rua Álvaro de Carvalho, 177 – Centro). A temporada vai só até o dia 30 de julho e os ingressos custam R$ 40,00. Por isso, corra se você quiser acompanhar essa interessante peça.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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