• Ricardo Bonacorci

Gastronomia: Festa da N. S. da Achiropita - Comida italiana no Bixiga


A Festa da Nossa Senhora da Achiropita chega, neste ano de 2017, a sua 91a edição. O evento gastronômico tem mais de um século de tradição e é promovido anualmente pela paróquia da Achiropita (daí seu nome). O local, a data e a culinária da confraternização continuam sendo os mesmos desde 1908: as ruas do bairro do Bixiga, em São Paulo, os finais de semana do mês de agosto e a comida de origem italiana.

Como vem acontecendo nas últimas edições, o evento de 2017 se prolongará até a primeira semana de setembro. Portanto, quem tiver o interesse de participar da festa ainda neste ano terá mais um final de semana para ir. São esperadas cerca de 250 mil pessoas nos cinco finais de semana. O público é atraído por 30 barracas que vendem pratos e bebidas tipicamente italianos. São encontrados por lá pizza, macarrão, fogazza, fricazza, polenta, doces italianos e vinhos, além dos bem brasileiros sanduíche de linguiça e o churrasquinho na brasa. Refrigerantes e cervejas completam o cardápio.

Os números da Festa da Nossa Senhora da Achiropita são grandiosos. Por noite, passam pelo local mais ou menos 25 mil pessoas. Elas consomem ao longo dos dez dias de evento aproximadamente 17 toneladas de farinha, 11 toneladas de macarrão, 10 toneladas de queijo mussarela e 10 mil litros de vinho. Mama mia! Não é errado afirmar que se trata de um dos maiores eventos gastronômicos de rua do país.

A proposta da festa é angariar fundos de maneira beneficente para a paróquia da Achiropita. Todos os produtos vendidos no local são doados por patrocinadores (normalmente grandes empresas dos setores de alimentação e de bebida) e os funcionários que trabalham nas barraquinhas são voluntários. Desta maneira, a totalidade da receita da festa é destinada à igreja do Bixiga, que realiza trabalhos sociais pela cidade. Entretanto, tenho a impressão que a maioria das pessoas que se aglomeram nas frias noites de sábado e de domingo não sabe disso. Elas são levadas até lá normalmente pelos apetitosos pratos italianos e pelo clima alegre e familiar do evento. Assim, o caráter religioso e altruísta do encontro acaba ficando um pouco em segundo plano.

A Festa da Achiropita surgiu da iniciativa dos italianos que chegaram ao bairro do Bixiga entre o final do século XIX e o início do século XX. Esses imigrantes se resentiam do fato de não existir no bairro uma igreja católica onde pudessem rezar e cultuar sua fé. Por isso, decidiram, em 1908, montar uma quermesse durante o mês de agosto. Ali venderiam pratos típicos do seu país natal. Os recursos obtidos pela venda dos quitutes seriam destinados à compra de um terreno onde seria erguida a igreja católica do bairro. A empreitada deu tão certo que rapidamente o dinheiro do terreno foi levantado.

Depois de comprar o terreno, o grupo manteve a festa e seu caráter beneficente. A ajuda financeira passou a ser canalizada para as obras de construção da igreja. Mais tarde, uma vez erguido o prédio, a quermesse passou a contribuir para as ações sociais da paróquia e para a ampliação da igreja. É mais ou menos o que acontece até hoje. A quermesse cresceu ao longo dos últimos 109 anos e se transformou em uma grande festa que mobiliza pessoas dos vários cantos da cidade. O apoio da Rede Globo para divulgar o evento na televisão também contribuiu para seu grande crescimento.

Por que estou falando sobre isso aqui no Blog Bonas Histórias? Porque fui neste sábado à Festa da Achiropita. Queria ver como estava a edição de 2017. Sempre que estou em São Paulo nesta época do ano, costumo dar uma passada por lá. Aproveito as delícias servidas nas barraquinhas e vivo um pouco a atmosfera italiana daquela região da cidade. Confesso que não vi nenhuma grande novidade em meu passeio de ontem. A festa continua sendo realizada aos sábados (das 18h00 à 00h00) e domingos (das 17h30 às 22h30) em três ruas do bairro: 13 de Maio, São Vicente e Doutor Luís Barreto. O trajeto faz um "U". Essas vias são fechadas para os carros e somente as pessoas podem circular pelo local.

Além disso, continuam sendo servidos os mesmos pratos nas barracas. Isso não é uma crítica, tá? Eu gosto do mix de produtos oferecidos. É apenas uma constatação. Para completar, o local permanece recendo milhares de visitantes todas as noites. É muita gente! Nos momentos mais críticos (das 18h30 às 21h30 de sábado) chega a ser difícil caminhar ou até mesmo se mexer no meio da multidão. A fila mínima em uma barraquinha de comida é de meia hora.

Ou seja, se você já foi a esta festa nos últimos dez anos, encontrará tudo exatamente igual. Nada mudou. É a tradição que rege o espírito da Nossa Senhora da Achiropita e não a inovação. Eu, como gosto do ambiente, da celebração e dos pratos vendidos, volto sempre sem reclamar. Encaro com disposição os desafios típicos deste tipo de confraternização.

Para quem deseja ir ao evento pela primeira vez ou está em dúvida se deve ir ou não à festa, criei um pequeno guia com quinze informações essenciais sobre a Achiropita. São informações básicas que você precisa saber antes de sair de casa. Com essas dicas práticas, tenho certeza que você não será surpreendido ao chegar às ruas do Bixiga. Lá vão as quinze informações que o visitante de primeira viagem precisa saber sobre a Achiropita:

1) A Festa da Nossa Senhora da Achiropita é um evento gastronômico. Ponto! Por mais que a organização tente vendê-la como sendo um encontro cultural, com muita música, dança e tradição italiana, a festa se restringe à culinária. Não há nada de interessante no local além das barraquinhas de comida. Por mais que todos os anos aumentam-se as barracas de jogos e de atrações para a criançada, ninguém parece se interessar por elas (nem as crianças). Tudo se resume à comilança. Por isso, se você não está com fome, não quer comer nada muito calórico, não quer gastar dinheiro com comida de rua ou está à procura de uma festa para dançar e se divertir com desconhecidos, este, definitivamente, não é o lugar que você procura.

2) Para não dizer que não há nada além da comilança, a festa promove missas na igreja local (afinal, faz parte da tradição do evento a celebração religiosa). Como não sou católico, visito o culto apenas para ouvir o padre falar italiano. Aos sábados, às 18h30, um padre italiano é convidado para realizar a missa em sua língua natal. Como diria Elizabeth Gilbert, autora do livro "Comer, Rezar e Amar", a língua italiana é a mais bonita do mundo. Ela é música para os ouvidos mais sensíveis. Como eu concordo com este ponto de vista, aproveito a visita à festa para dar uma passadinha na missa (talvez seja a única época do ano em que entro voluntariamente em uma igreja).

3) Quem deseja fazer um passeio mais cultural, há várias opções na região que podem ser atreladas à Festa da Achiropita. A melhor delas é juntar comida italiana com peça teatral. O teatro Ruth Escobar fica muito próximo ao local do festival culinário. É possível assistir aos espetáculos cênicos antes ou depois de dar uma passada na Achiropita. Fiz várias vezes essa combinação e recomendo. Quando não há nada interessante em cartaz neste tradicional teatro de São Paulo (como é caso neste momento), há várias opções de peças na Avenida Paulista, que fica apenas a algumas quadras do Bixiga.

4) Para encarar a Festa da Achiropita é preciso paciência. A superlotação (imagine milhares de pessoas se espremendo em três estreitas ruas!) é geral. Para percorrer alguns metros da rua, você precisa caminhar a passo de tartaruga e dar algumas cotoveladas nas pessoas ao lado. Este é o espírito da festa. Se você está com fome, as filas nas barraquinhas podem ser intermináveis. Ontem, fiquei exatamente uma hora na fila da fogazza da Rua Doutor Luís Barreto, que é a mais tranquila. Na Rua 13 de Maio, eu não consegui sequer encontrar o final da fila para entrar. Na igreja, se você não chegar com 45 minutos de antecedência, você não encontrará um lugar para sentar.

5) Para fugir um pouco das enormes filas (cada ponto de venda tem sua própria fila quilométrica), opte pelas barracas da Rua Doutor Luís Barreto. Sempre tenho a impressão que elas são um pouco menos superlotadas do que as da Rua 13 de Maio. Como a igreja tem entrada apenas na Rua 13 de Maio, é normal haver mais pessoas por ali. Quem estiver com criança e quiser aproveitar mais as atrações infantis, opte pela Rua São Vicente. As barracas com jogos e diversões concentram-se neste ponto da festa. Além disso, os melhores horários são antes das 18h30 e depois das 22h00. Aí, o movimento deixa de ser totalmente caótico e passa a ser levemente caótico. O domingo é um pouco menos agitado do que o sábado.

6) Apesar da confusão (no sentido de excesso de pessoas), eu gosto do clima da Achiropita. O público que visita a festa é formado tradicionalmente por famílias, grupos de amigos e casais de namorados. O perfil dos visitantes é acima da média para um evento aberto e realizado nas ruas. A segurança intensiva da polícia militar e dos seguranças contratados pela paróquia ajuda a manter a ordem. Nunca vi pedintes, mendigos ou trombadinhas se aproveitando da aglomeração. Só acho que a festa é ruim para as pessoas de mais idade (apesar de muitas encarem o evento com alegria). O caminhar pelas ruas cheias de gente é uma dificuldade maior para quem não tem a mesma mobilidade dos jovens. Por outro lado, as filas preferenciais evitam que os idosos passem horas de pé aguardando serem atendidos nas barracas.

7) O gasto médio para quem quer comer bem (com direito a um prato de massa ou uma opção mais farta de salgado, um salgado menor como complemento, uma bebida e um doce como sobremesa) fica entre R$ 22,00 e R$ 30,00. Acho um preço justo. De modo geral, os preços se mantiveram parecidos ao do ano passado.

8) A fogazza é a opção preferida do público. Para chegar a esta conclusão basta ver o tamanho de sua fila. A fogazza, que é gigantesca, custa R$ 8,00. Ela vale por uma refeição. Segundo uma amiga minha meio exagerada, o salgado pode alimentar uma família subnutrida da África por uma semana. Esta é a opção com melhor custo-benefício. Eu que tenho um voraz apetite nunca consegui comer uma fogazza inteira. Sempre acabo deixando um pouco. Por isso, uma alternativa inteligente é divida-la com alguém conhecido. Pedindo com jeitinho, os atendentes até cortam o salgado na metade e colocam em dois saquinhos.

9) Outra ótima opção para quem está com fome ou deseja um prato mais parrudo é o macarrão (spaghetti ou penne). Ele custa R$ 12,00 e também é servido em porção generosa (neste caso não dá para dividir). Para quem não é muito esganado, um prato de macarronada vale por uma refeição. O spaghetti e o penne são acompanhados, ao melhor estilo italiano, por rodelas de pãezinho. A massa e o molho são gostosos, porém dependendo de como é servido ele pode vir um pouco frio.

10) Uma tática muito utilizada por quem vai com frequência à Achiropita é comprar algo em uma barraquinha mais vazia (geralmente a da pizza, da polenta ou da fricazza) e levar o quitute para ser comido enquanto se está na fila maior (da fogazza ou do macarrão). Este, por sinal, é o único motivo para se comprar a pizza (R$ 5,00), a polenta (R$ 6,00) ou a fricazza (R$ 6,00). Esses pratos são os mais fraquinhos da festa em relação ao sabor. Não vejo nada de especial neles. Perdem, portanto, de goleada para a fogazza, para o macarrão e para o sanduíche de linguiça.

11) Sanduíche de linguiça! Será que tem alguém que vai a uma festa italiana para comer pão com linguiça? Sim, há sim. Não só tem como você está lendo o texto de alguém que considera o sanduíche de linguiça da Achiropita a melhor opção do evento. Esta é sempre a minha primeira opção todos os anos. O lanche com vinagrete é simples e delicioso. O problema nesta edição de 2017 é seu preço. Ele aumentou 50% em relação ao ano passado. Pagar R$ 12,00 por um pão francês com vinagrete e linguiça é um absurdo. Acho que erraram à mão neste valor. Os demais produtos estão com valores mais aceitáveis.

12) A Festa da Nossa Senhora da Achiropita é um passeio tipicamente paulistano porque você ficará 90% do tempo na fila aguardando ser atendido. Por isso, é fundamental escolher bem suas companhias. São elas que farão o evento ser legal ou não. As conversas informais e descontraídas nas filas são o que dão graça à festa. É difícil pessoas que não se conhecem começar a conversar. Apesar de raro pode sim acontecer. Eu tinha um casal de amigos que se conheceu na fila da fogazza. Eles começaram a conversar, se apaixonaram e depois se casaram. Tiveram dois filhos e quando a fogazza chegou eles já tinham se separado (Ok, isso foi uma piada sobre a demora no atendimento nas barraquinhas). Porém, é verdade sobre a graça do evento estar no que se faz na fila e na importância de se estar bem acompanhado.

13) Esta época do ano é a mais fria em São Paulo. Como este é um evento realizado na rua e à noite (e as pessoas ficam paradas na fila a maior parte do tempo), vá bem agasalhado(a) porque o frio vai quere pegá-lo(a). Mesmo se você não estiver sentindo frio ao sair de casa, vá encapuzado(a), como diria minha avozinha.

14) Quase sempre tenho a impressão que os funcionários voluntários das barraquinhas estão mais preocupados em servir comida aos funcionários das outras barraquinhas do que ao público que está pagando pelos produtos. Sabendo previamente desta particularidade da equipe de voluntários, tenha paciência com eles. Não espere rapidez muito menos prontidão de ninguém na festa. Por outro lado, todos são muito corteses e atenciosos.

15) Não espere muito conforto ou qualquer sofisticação nas instalações da Achiropita. Lembre-se: esta festa é um evento de rua. Você comerá de pé e exprimido na calçada. É preciso possuir um espírito meio aventureiro para curtir o passeio.

Com essa coleção de informações, acho que você estará pronto(a) para decidir se deve ou não ir ao evento. E se for, tenho certeza que não será surpreendido(a) facilmente. A Festa da Nossa Senhora da Achiropita é um bom passeio para ser feito no inverno paulistano. Divirta-se e bom apetite!

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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