• Ricardo Bonacorci

Exposições: Wanda Pimentel Envolvimentos - O início da carreira da pintora carioca


O MASP, Museu de Arte Moderna de São Paulo, está neste momento com uma programação incrível. Visitei nas últimas semanas o espaço e encontrei algumas interessantes surpresas. Fui atraído ao local, admito, única e exclusivamente pela mais completa exposição de Henri de Toulouse-Lautrec já montada em nosso país. "Toulouse-Lautrec em Vermelho" continua sendo a grande atração do museu paulistano (e foi tema de um post publicado no Blog Bonas Histórias em julho). Porém, a coleção de obras do artista francês não é a única boa mostra em cartaz no MASP.

Eu também fiquei maravilhado com "Wanda Pimentel Envolvimentos". Apesar de menor e apresentada de forma um tanto tímida no mezanino do primeiro subsolo, a exposição da pintora carioca exibe de maneira inovadora e bem peculiar um retrato crítico da condição feminina durante a década de 1960. Para quem já conhece Wanda Pimentel e seu trabalho, essa mostra em cartaz em São Paulo é uma ótima oportunidade para ver pessoalmente algumas obras emblemáticas do período mais produtivo da artista. Para quem não conhece a pintora e suas telas, essa é a melhor ocasião para ser apresentado ao criativo estilo de Pimentel.

"Wanda Pimentel Envolvimentos" apresenta, pela primeira vez, um conjunto de telas da fase inicial da carreira da pintora, uma das mais marcantes artistas cariocas da segunda metade do século XX. Ao todo são 27 pinturas da série "Envolvimento", o mais famoso trabalho de Pimentel. A maior parte das telas foi pintada na segunda metade da década de 1960, mas há exemplares datados até 1984.

O que chama a atenção logo de cara neste trabalho de Wanda Pimentel é a mistura da abstração geométrica com a representação da mulher no cotidiano doméstico. Com poucas e fortes cores (predomínio do verde, do vermelho e do amarelo, além do branco e do preto) e uma evidente influência da arte figurativa, mais precisamente da arte pop norte-americana da metade do século XX, a carioca conseguiu dar graça e beleza às formas abstratas e geométricas.

Repare que todas as telas retratam uma mulher. A figura feminina é apresentada apenas pelas pernas e pelos pés, em uma posição de informalidade e de banalidade cotidiana. Ela está inserida em ambientes residenciais: quarto, sala, cozinha, banheiro, sala de costura e na garagem. As tarefas domésticas permeiam a vida desta mulher (louça para lavar, banho por tomar, roupas para vestir e comida por fazer). O enquadramento das cenas é o mais original possível, ficando mais evidente pelo uso de formas sintéticas, pelas linhas precisas (ora curvas, ora retas) e pela esquematização geométrica. O resultado é a fragmentação aparentemente confusa do corpo feminino e da residência por ele habitado. A impressão é que os dois elementos (a mulher e a casa) se fundem em uma coisa só.

O colorido dos quadros, a unidade estilística de Pimentel e a força narrativa das telas ficam mais evidentes para quem os aprecia em conjunto. Talvez o apelo visual não fosse tão intenso se esses quadros não estivessem expostos todos juntos como aqui. De longe, já é possível ver a ebulição de formas e de cores primárias, chamando a atenção dos olhos mais curiosos. Foi o que me atraiu para esta mostra. Reconheço que minha visão foi a responsável por conduzir meus pés até "Wanda Pimentel Envolvimentos". Por esta perspectiva, a escolha do mezanino do primeiro subsolo do prédio do MASP se mostrou acertada (apesar da qualidade da exposição merecer um local de maior destaque). Impossível passar pelo andar e ficar indiferente à força expressiva daquelas telas.

O pioneirismo de Wanda Pimentel esteve em criticar, através de sua arte, a posição subalterna da mulher na sociedade brasileira entre o final dos anos de 1960 e o início da década de 1970. Em meio à censura política imposta pelos militares, diante do predomínio masculino no ambiente de trabalho e aproveitando-se da urbanização que o país passava, a artista carioca expôs a vida reclusa, caótica e banal da maioria das brasileiras. O cenário doméstico era uma prisão para a mulher com grandes aspirações profissionais e sociais.

Assim, por mais colorido e florido que parecesse o ambiente doméstico (visão machista), por mais equipamentos e objetos que fossem dados a esta mulher (evidenciando o consumismo) e por mais banais que fossem as cenas retratadas (futilidade da vida feminina contemporânea), a realidade dentro de casa não era muito diferente do cotidiano de um prisioneiro em sua cela. A beleza das imagens e o colorido das formas podem atenuar um pouco a impressão crítica do trabalho de Wanda Pimental, porém eles não podem excluir a veia ácida e o tom ideológico de suas representações.

Com esse entendimento histórico (compreendendo como a mulher era tratada há cinquenta anos em relação à sexualidade e ao seu papel na família, no mercado de trabalho e na sociedade como um todo), "Envolvimento" é uma coleção artística de uma riqueza inestimável. Além de lindos quadros, a série de Wanda Pimentel apresenta um rico panorama cultural de uma importante época do nosso país. Reserve pelo menos meia hora para percorrer com calma as 27 telas da mostra.

A exposição "Wanda Pimentel Envolvimentos" ficará em cartaz no MASP (Av. Paulista, 1.578 - Bela Vista) até o dia 17 de setembro. Ou seja, quem quiser ver as telas da artista carioca precisará correr, pois só restam nove dias. O Museu de Arte de São Paulo abre de terça a domingo das 10h às 18h. Às quintas-feiras, ele fica aberto até um pouco mais tarde (até às 20h). O ingresso custa R$ 30,00 para a visitação de todas as exposições em cartaz (às terças-feiras, a entrada é gratuita). Assim, uma dobradinha interessante é ver as exposições "Toulouse-Lautrec em Vermelho" e "Wanda Pimentel Envolvimento".

Gostou deste post e do conteúdo do Bonas Histórias? Deixe sua opinião sobre as matérias do blog. Para acessar as demais análises desta coluna, clique em Exposições. E não se esqueça de curtir a página do blog no Facebook.

#Exposição #Mostra #Pintura #WandaPimentel

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento