• Ricardo Bonacorci

Livros: A Menina que Roubava Livros - O best-seller de Markus Zusak


Depois de ler, nesse Desafio Literário, os quatro primeiros romances de Markus Zusak, cheguei, enfim, ao seu grande sucesso: "A Menina que Roubava Livros" (Intrínseca). O quinto livro do escritor australiano foi um divisor de águas em sua carreira. A obra se transformou em um best-seller mundial e tornou conhecido o nome do seu autor nos quatro cantos do planeta. Assim, Zusak deixou de ser um jovem e talentoso romancista da Austrália para virar da noite para o dia em um dos mais originais e sensíveis ficcionistas da sua geração.

Além de ficar vários anos nas listas dos romances mais vendidos dos Estados Unidos e da Europa (chegando a magnífica marca de 10 anos presente na lista do New York Times), "A Menina que Roubava Livros" também conquistou uma sequência incrível de prêmios literários. Os mais importantes foram o Commonwealth Writer's Prize de melhor livro do Pacífico Sul e do Sudeste Asiático em 2006, o Daniel Elliot Peace em 2006 e o Michel L Printz Honor em 2007.

Publicada em 2005, na Austrália, a história de "A Menina que Roubava Livros" foi depois adaptada para o cinema. Em 2013, uma produção hollywoodiana levou a trama de Markus Zusak para as telonas. Dirigido por Brian Percival e estrelado por Geoffrey Rush, Emily Watson e Sophie Nélisse, o filme teve uma bilheteria superior a US$ 75 milhões, sendo um dos principais longas-metragens no biênio 2013-2014.

O quinto livro de Markus Zusak é narrado em primeira pessoa por uma personagem bem peculiar: a Morte. Já nas primeiras páginas do romance, portanto, o leitor é surpreendido pelo autor australiano com uma narrativa muito original. Afinal, quem imaginou um dia ler o ponto de vista dessa senhora fúnebre sobre seu trabalho e, principalmente, a sua visão sobre a vida humana em nosso planeta?! Tão inusitado quanto a proposta de "A Menina que Roubava Livros" é a forma como a história do livro é construída. A narradora não é o monstro de pessoa que normalmente acreditamos. Ela chega a ser simpática e consegue se emocionar com os homens e as mulheres à sua volta.

Neste relato sincero e direto, a Morte apresenta a trajetória de Liesel Meminger. A menina se encontrou com a narradora em três momentos durante o final da década de 1930 e os primeiros anos de 1940. A garota conseguiu escapar em todas as oportunidades. Nesses encontros, Liesel chamou a atenção da senhora de manto negro responsável por levar embora as almas dos seres humanos. Por si só, isso já é uma grande proeza. Imagine a quantidade de seres humanos que a Morte conhece diariamente! De tão impressionada que ficou com a garota, a mórbida narradora resolveu contar a história daquela pequena e frágil vida que gostava de roubar livros.

O primeiro encontro entre Liesel Meminger e a Morte aconteceu em 1939. A mãe da menina, uma comunista alemã perseguida pelos nazistas em seu país, resolveu dar o casal de filhos para adoção. Os pais adotivos, Hans e Rosa Hubermann, eram moradores pobres de uma cidade localizada nos arredores de Munique. Eles aceitaram aquela incumbência por dinheiro. Enquanto viajava de trem com a mãe biológica e o irmão menor para sua nova casa e sua nova família, Liesel se depara com a primeira tragédia. Seu irmãzinho morre de frio dentro do vagão, sendo enterrado na primeira parada do trem. Nesse instante, a garota rouba o seu primeiro livro. Trata-se do Manual do Coveiro, obra que era lida pelo assistente do homem que fez o enterro da criança morta pelo frio no trem. É também, aí, que Liesel vê pela primeira a Morte, encarando-a de frente e com certa curiosidade.

A tristeza pela morte do irmão é logo depois somada ao trauma pela separação da mãe biológica. Liesel é deixada na casa de Hans e Rosa sem qualquer explicação. Na residência dos Hubermann, ela recomeça sua vida. Hans (chamado logo de pai) é um homem magro, alto, generoso e de grande coração. De dia ele é pintor de residências e à noite aproveita para ganhar uns trocados tocando seu acordeom. É o novo pai de Liesel que ensina a menina a ler e a escrever, construindo rapidamente um forte vínculo com ela. Rosa (chamada depois de um tempo de mãe) mostra-se uma mulher autoritária e brava. Sempre trabalhando (além de dona de casa, ela lava e passa as roupas de algumas famílias abastadas da cidade), Rosa está sempre xingando e discutindo. Esse comportamento e o corpanzil da mulher (ela é muito gorda) assusta Liesel em um primeiro momento, mas depois a menina se acostuma com o jeito bruto da mãe adotiva.

A vida da família Hubermann (e de toda a Alemanha nazista) é abalada pela eclosão da Segunda Guerra Mundial. A infância de Liesel é, assim, passada em meio ao conflito armado (cada vez mais próximo de onde ela mora), à perseguição dos judeus pelos alemães e às privações financeiras e materiais da nação. Enquanto tenta entender os acontecimentos ao seu redor, a menina adquire o hábito de roubar livros. Apaixonada pela literatura, mas sem dinheiro para comprar novas obras, a pequena Liesel e seu inseparável amigo Rudy Steiner passam a cometer alguns pequenos crimes pela cidade. Enquanto o menino busca comida para aplacar a fome que sente, a garota quer encontrar novos livros para aplacar sua fome de conhecimento.

"A Menina que Roubava Livros" é daquele tipo de romance memorável. Realmente, trata-se de uma excelente obra. Sua leitura é rápida e muito agradável. Li o livro inteiro em apenas três noites. Ele possui 480 páginas e é dividido em dez capítulos. Cada capítulo é nomeado com o título de um livro roubado por Liesel (ao todo foram dez obras furtadas pela personagem em sua vida). Enquanto conhecemos a história da infância difícil da garota, também sabemos os detalhes de como ela fez para praticar cada um dos roubos.

O que faz esta publicação tão interessante? Para começo de conversa, não é todo dia em que a Morte conversa com a gente. A narradora de Zusak é alguém totalmente diferente da imagem feita pelo senso-comum. Ela não é cruel, sórdida, introspectiva e insensível. Pelo contrário! A Morte é simpática, extrovertida e sensível. Em alguns momentos, chega a transparecer seu bom humor. Ela também se preocupa com as almas das pessoas que precisa carregar. Ninguém pensa nisso, mas a Segunda Guerra Mundial não foi um período nada fácil para esta senhora. Ela não teve um segundo de descanso, chegando a reclamar desta sobrecarga de tarefas. Ao invés ser a responsável pela tristeza de grande parte da humanidade, a Morte é na verdade vítima dos homens. Eles é que a fazem trabalhar incansavelmente, forçando-a a levar a vida de milhares de pessoas o tempo todo. Curiosa esta inversão de perspectivas! "Os seres humanos me assombram" é a conclusão memorável que essa senhora chega ao final do livro.

A história da infância de Liesel também é incrível. Markus Zusak mostra-se mais uma vez um exímio narrador de tramas e de traumas infanto-juvenis. Seus relatos são sensíveis, emocionantes e íntimos. As vidas pobres, duras e um tanto delinquentes das crianças marginalizadas pela família e pela sociedade adquirem uma beleza poética nas páginas dos livros do australiano. O mesmo ocorre em relação às tristezas, às mortes e às tragédias. Impossível não torcer por estas personagens, mesmo quando brigam, roubam, fogem ou cometem inúmeros erros.

Outro aspecto elogiável deste romance é a sucessão de reviravoltas que a história adquire. Em todo capítulo, Zusak consegue surpreender o leitor com o acréscimo de um novo elemento narrativo (um mais interessante do que o outro) ou com uma mudança no enredo. Não pense que este seja um romance convencional sobre Guerra ou sobre os efeitos da Guerra na vida das pessoas. Ele é, em sua essência, um relato direto sobre a infância passada em tempos difíceis.

Markus Zusak considera "A Menina que Roubava Livros" uma obra diferente do seu portfólio: "Eu queria escrever algo muito diferente do que tinha escrito antes. A ideia de um ladrão de livros estava em minha cabeça quando escrevi "Eu Sou o Mensageiro", mas não estava pronta para ser escrita. A ideia original ambientava-se no presente, em Sidney, e isso não parecia muito certo. Depois, pensei em escrever sobre as coisas que meus pais tinham visto, ao crescerem na Alemanha nazista e na Áustria, e, quando juntei as duas ideias, a coisa pareceu funcionar, especialmente quando pensei na importância das palavras naquela época, e naquilo em que elas conseguiram levar as pessoas a acreditar, assim como levá-las a fazer".

Apesar de respeitar a opinião do autor sobre as diferenças estilísticas deste livro, é possível encontrar muitas semelhanças entre "A Menina que Roubava Livros" e as demais publicações de Zusak. Alguns pontos em comum são: o foco na infância e na juventude de personagens pobres e marginalizadas; a dificuldade de adequação dos protagonistas na sociedade e na família; as aventuras criminosas de personagens que, apesar da aparência rude e dos atos inconsequentes, são pessoas boas e éticas; a beleza poética da realidade difícil e do cotidiano banal; o romantismo acentuado; o ponto de vista bem-humorado do ser humano; e a literatura sendo usada como metalinguagem (história ficcional dentro da história do livro). Por outro lado, as diferenças aparecem na escolha do cenário (Europa ao invés da Austrália), o tempo cronológico da trama (passado ao invés do presente) e o contexto histórico do livro (fatos do ambiente externo afetam diretamente as personagens retratadas e não o contrário).

"A Menina que Roubava Livro" é efetivamente o ponto alto da carreira de Markus Zusak até aqui. A excelência desta obra de alguma forma explica a falta de novas publicações por parte do australiano. Zusak está há mais de uma década sem lançar nenhum novo livro. Há quase dez anos ele trabalha em seu próximo romance, "A Ponte de Clay". O escritor é meticuloso na construção de suas histórias. Por exemplo, "O Azarão" (Bertrand), seu primeiro livro e com apenas 176 páginas, demorou sete anos para chegar às livrarias. Zusak diz que está na fase de conclusão de "A Ponte de Clay" e que sua próxima publicação não irá decepcionar seus fãs que há tanto aguardam por novidades. A expectativa do mercado editorial para este lançamento é gigantesca. Os editores do mundo inteiro acreditam que este livro se transforme em um novo best-seller internacional.

Agora que concluímos as leituras e as críticas dos cinco romances de Markus Zusak, o próximo passo do Desafio Literário de setembro é montar uma análise completa da literatura deste autor. Esse é o tema do post da próxima quinta-feira, dia 28. Quem quiser conhecer as características dos romances de Zusak é só pintar aqui no Blog Bonas Histórias na semana que vem. Espero você!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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