• Ricardo Bonacorci

Livros: E Se Amanhã o Medo - O lado contista de Ondjaki


O segundo livro do Desafio Literário de novembro é "E Se Amanhã o Medo" (Língua Geral). Iniciei essa leitura na segunda-feira à noite e a conclui já na noite seguinte. Diferentemente da primeira obra de Ondjaki analisada aqui no Blog Bonas Histórias, "Bom Dia, Camaradas" (Companhia das Letras), que era um romance/novela, temos agora uma coletânea de contos.

Foi através das narrativas curtas que o autor angolano conquistou o maior número de prêmios na primeira década de sua carreira. "E Se Amanhã o Medo" foi publicado originalmente em 2005, sendo o oitavo livro do portfólio artístico de Ondjaki. Este não foi seu primeiro livro de contos. Antes, o escritor já tinha lançado "Momentos de Aqui" (Caminho), em 2001, que teve uma recepção um tanto tímida da crítica e do público leitor.

Juntamente com "Os da Minha Rua" (Língua Geral), próximo livro que será discutido aqui no Desafio Literário, "E Se Amanhã o Medo" é a publicação de contos mais importantes de Ondjaki. A obra conquistou, por exemplo, o Prêmio Literário Sagrada Esperança, em Angola, e o Prêmio Literário António Paulouro, em Portugal. As duas premiações acorreram em 2004, um ano antes de "E Se Amanhã o Medo" chegar às livrarias.

Esse livro possui vinte pequenas histórias que retratam de maneira serena, intimista e um tanto fantasiosa a relação do autor com o tempo. Em um extremo temos a morte, o envelhecimento, a perda, o abandono, a solidão e a amargura. No outro polo vemos o nascimento, a infância, a esperança, a liberdade e os sonhos. Essas narrativas são apresentadas com várias referências culturais. Vários artistas brasileiros são citados. Além da fantasia, boa parte dos enredos possui uma realidade desconcertante. Pobreza, violência, injustiça, amargura e depressão pontuam os desafios que as personagens precisam encarar.

Dividido em duas partes, "E Se Amanhã o Medo" faz menção explícita ao livro "Lavoura Arcaica" de Raduan Nassar. A primeira parte da obra se chama "Horas Tranquilas" (quinze contos) e a segunda "Conchas Escuras" (cinco contos). Ambos os termos foram extraídos diretamente do romance do escritor paulista.

Os quinze contos de "Horas Tranquilas" são: 1) A Libélula (Em uma tarde de domingo, um médico ouve Adriana Calcanhoto em seu jardim quando é visitado por uma mulher pobre que lhe pede água); 2) Jangada Para Longe (Inventor cria a janguicleta, veículo que é uma mistura de jangada e bicicleta, para levá-lo para uma viagem marítima ao redor do mundo); 3) Coração de Porco (Mulher visita uma loja com a intenção de comprar um coração novo para substituir o seu, que já não consegue guardar tantos sentimentos); 4) O Colchão da Mongólia (Menino de rua ganha um colchão de presente de uma mulher estrangeira); 5) Passeadores (Os cães de um canil são levados diariamente para passear por um grupo de voluntários idosos); 6) A Confissão do Acendedor de Candeeiros (Velho faz um relato poético sobre sua profissão de acender as luminárias das ruas da cidade); 7) O Pássaro do Cais (Pela varanda de sua residência, homem acompanha o movimento atípico no cais em certa manhã, requisitando a ajuda de um pássaro para descobrir o que se passa de tão especial naquele lugar).

8) A Filha do Piloto Japonês (Um kamikaze se despede de sua família); 9) Três Relógios e uma Lua Cheia (Duas amantes, Frida e Ara, fazem um jantar romântico em uma noite de lua cheia); 10) A Esquina (Homem trabalha como "tirador de dúvidas" na praça da cidade, tendo a companhia de um garoto); 11) Sangue de Cavalo (Cavaleiro agoniza com uma bala no coração enquanto galopa apressado em seu amigo equino; 12) O Engraxador (Executivo pede para um menino pobre engraxar seu sapato em uma manhã); 13) A Gaiola (Vizinho observa com curiosidade uma mulher carregar uma gaiola coberta com um pano); 14) Na Encruzilhada (Homem aposta com seu compadre que ele tem a coragem de ir à encruzilhada sozinho à meia-noite; e 15) Amarela (Viajante vai ao posto médico para tomar a vacina da Febre Amarela).

Os cinco contos da segunda parte, "Conchas Escuras", são: 1) A Velha (Senhora é tão velha, mas tão velha, que foi esquecida pelo tempo e pela morte); 2) A Filha da Sogra (Rapaz lamenta sua separação com a mulher, tendo como único consolo a partida da sogra); 3) Lábios em Lava (Pessoa muito religiosa sofre com sua libido durante as noites, dividindo-se entre o sagrado e o pecado corporal); 4) Madrugada (Mulher pobre que vive nas ruas é estuprada); 5) Coração com Ferrugem (Viúva contempla sua casa decadente).

De maneira geral, "E Se Amanhã o Medo" é um bom livro. Apesar de ser inferior a "Bom Dia, Camaradas" (uma das mais divertidas leituras que fiz nos últimos anos), ele tem alguns ótimos contos. "A Confissão do Acendedor de Candeeiros", "Na Encruzilhada" e "Lábios em Lava" são os melhores.

Por ser uma publicação com poucas páginas (apenas 120) e com uma diagramação generosa (não há a preocupação de espremer as palavras no menor número possível de páginas), é plausível ler esse livro em uma única tarde. Eu o li calmamente em duas noites. A edição da Língua Geral também é marcada pela sua beleza estética. Utilizando recursos simples, a editora carioca conseguiu produzir um livro diferenciado, que agrada nossos olhos.

O que mais chama a atenção do leitor nessa obra, em um primeiro momento, é a pluralidade cultural de Ondjaki. Percebe-se nitidamente a influência da música e da literatura de vários locais do mundo, além da própria Angola, nas construções narrativas de "E Se Amanhã o Medo". Artistas brasileiros, ibéricos, europeus e de outros países africanos são referenciados por Ondjaki. Assim, a intertextualidade é algo presente do início ao final do livro. O autor cita, por exemplo, os brasileiros Adriana Calcanhoto, Guimarães Rosa, Raduan Nassar e Dori Caymmi. Há também a referência direta a Corsino Fortes (de Cabo Verde), Nikos Kazantzakis (da Grécia), Federico García Lorca (da Espanha) e Jorge Palma (de Portugal), entre tantos outros.

Essa mistura cultural se faz presente também nos enredos dos contos. Muitas histórias se passam em locais indeterminados e possuem personagens de várias nacionalidades (família japonesa, primeira ministra australiana, viajante mongol, cidade escandinava, cantora brasileira, etc.). Assim, o tom das narrativas é universal e não apenas local (África/Angola).

Outros dois importantes aspectos que permeiam os contos de "E Se Amanhã o Medo" são os elementos fantasiosos utilizados pelo autor e a criação de neologismos. A fantasia (Substituição de órgãos humanos pelo de animais, personagens que não envelhecem nem morrem, pássaros com a capacidade de interagir com as pessoas, etc.) é apresentada juntamente com a narração bruta e fiel do cotidiano. Assim, imaginação e realidade caminham de mãos dadas. Por sua vez, os neologismos (Suplicantementesperativo, janguicleta, miopemente, imparavelmente, passamento e vampiricamente) tornam os contos de Ondjaki um pouco parecidos com os de Guimarães Rosa e de Mia Couto. Repare que estou fazendo uma comparação de estilo e não de qualidade. O brasileiro e o moçambicano estão alguns degraus acima do angolano quanto à excelência literária na produção de narrativas curtas.

Em relação à temática de "E Se Amanhã o Medo", o paradoxo temporal é o que une todas as histórias do livro. Enquanto a juventude possui seus mistérios e graça, a fase idoso apresenta seus dramas. Novo e antigo, infância e velhice, sonho e desilusão, esperança e medo, amizade e solidão e beleza e feiura caminham de mãos dadas o tempo inteiro. Junto dessas dicotomias, ainda temos as citações à natureza, o retrato do cotidiano, a menção à desigualdade de renda e à violência, ações genuínas de solidariedade e o aprofundamento de algumas angústias humanas universais.

Quem gosta de estudar a variação linguística do português, ler Ondjaki é um prato cheio. Infelizmente, muitos termos típicos do idioma angolano não são explicados nessa obra. É preciso, por exemplo, saber o que é um "miúdo" e um "matabichar". Quem não está acostumado com a literatura de Ondjaki irá sentir falta de um glossário (algo inexistente aqui, mas que tinha em "Bom Dia, Camaradas"). Uma alternativa interessante ao leitor iniciante nas obras do angolano é ler primeiro "Bom Dia, Camaradas" para só depois mergulhar em "E Se Amanhã o Medo". Assim, uma vez conhecido os principais termos utilizados pelo autor em seu romance/novela, fica mais fácil entender a linguagem empregada por ele em seus contos.

Agora que entrei nos contos de Ondjaki, não quero mais parar de lê-los. O próximo livro desse Desafio Literário é "Os da Minha Rua", a publicação do escritor angolano que sucedeu "E Se Amanhã o Medo". "Os da Minha Rua" também é uma premiada obra de contos. Vou começar a lê-la agora mesmo e no dia 13, próxima segunda-feira, retorno ao Bonas Histórias para apresentar minha análise. Até mais e boa leitura para todos nós!

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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