• Ricardo Bonacorci

Livros: Tecle 2 para Esquecer - A estreia de Carolina Zuppo Abed na literatura


Li, no último domingo, "Tecle 2 para Esquecer" (Patuá). Este livro, uma coletânea de contos, representou a estreia de Carolina Zuppo Abed na literatura comercial. Lançada em janeiro do ano passado, esta obra é composta por 21 pequenas narrativas. Na abertura de cada capítulo/conto, o leitor é agraciado com belos desenhos do ilustrador Bruno Malfatti. Os contrastes entre as imagens delicadas e infantis de Bruno e os textos densos e dramáticos de Carolina compõem um quadro intrincado e angustiante de experiências traumáticas. Essas perturbações que rondam as personagens e os narradores do livro são concentradas na infância ou originam-se desse período. Em "Tecle 2 para Esquecer", a infância parece ser a fase mais incômoda e perigosa da vida das pessoas. Assim, a aparência singela, tranquila e doce da diagramação do livro é imediatamente sobreposta à aridez, às tragédias e ao lado negro da alma humana.


O que temos aqui, portanto, é uma excelente leitura do que há de mais escuso dentro do homem moderno. Quem gosta de contos de qualidade e, principalmente, de histórias com forte carga dramática, irá adorar esse livro de Carolina Zuppo Abed. Como alerta André Argolo no prefácio da obra, o leitor precisa "estar equipado" para aguentar o tranco desta tortuosa viagem pelo interior de mentes perturbadas e de almas conflituosas. "Ao entrar neste livro você descerá muitos e muitos lances de escada como num mergulho seco, andares adentro de uma construção que é mais uma ruína. Há quem chame isso de alma, mas alma é nuvem. Talvez o nome esteja mais para passado". Complementaria as palavras de Argolo dizendo que temos nesta publicação o relato de personagens e de narradores com passados sempre tristes, incômodos e muito, muito angustiantes. Não é coincidência que o escritor favorito da autora seja David Foster Wallace.

Escrito com o apoio do Programa de Ação Cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo (ProAC), "Tecle 2 para Esquecer" mostra o talento precoce de Carolina Zuppo Abed para a confecção de contos. Carolina é uma jovem escritora, professora e psicopedagoga. Graduada em Letras pela Universidade de São Paulo e pós-graduada em Formação de Escritores pelo Instituto Vera Cruz, ela mora parte da semana na capital paulista, onde atua como professora de Escrita Criativa, e parte em Santos, onde desenvolve oficinas literárias e ministra aulas de redação literária e de literatura para alunos do ensino médio.


O primeiro conto de "Tecle 2 para Esquecer" se chama "Factal". Nele, uma pessoa tem todas as noites um sonho recorrente: foge de inimigos desconhecidos em uma escada espiral. Por isso, a personagem precisa descer correndo os degraus em um processo eterno que lembra muito as ilustrações das escadas labirintos (moda dos pintores na primeira metade do século XX que conferia uma inusitada ilusão de ótica).


Essa mesma história surge no final do livro, em seu último conto. Apesar de muito parecido à primeira narrativa (tem inclusive o mesmo nome, "Factal"), a vigésima primeira trama da coletânea tem um desfecho totalmente diferente à história inaugural. A opção por iniciar e terminar a obra com um conto aparentemente idêntico, mas ao mesmo tempo totalmente distinto, é muito legal. A riqueza e os contrastes do texto de Carolina estão nos detalhes, sejam eles uma vírgula, uma palavra ou uma omissão.

O segundo conto se chama "Osso é um palíndromo. Somos Todos". Nessa história, um rapaz descreve o motivo de ter a perna torta. Tudo aconteceu quando ele era uma criança. O trauma por ter visto um cavalo sendo sacrificado com a perna quebrada foi o causador de sua deformidade. Na sequência, temos "Casa começa com i". Nessa trama, uma menina órfã relata sua agonia por crescer sem ter sido adotada. Quanto mais velha fica, menores são as chances de ter uma família e uma casa. No quarto conto do livro, chamado de "Amor Líquido", uma menina descreve os sentimentos dela e do pai no dia em que sua mãe morreu.


A tônica das histórias do livro segue sempre essa linha: traumas, mortes, violências, abandonos, traições, medos, doenças não curadas... O interessante é que tanto nos contos mais curtos (de uma página apenas) quanto naqueles um pouquinho maiores (quatro ou cinco páginas), a autora consegue surpreender os leitores ou chocá-los ainda mais com um detalhezinho acrescentado no finalzinho do texto. Incrível!


Os meus seis contos preferidos são: "Satisfaction (I can't get no)", "Cria, Criatura, Criador", "Meias Palavras", "Luiza", "Remoto Controle" e "Manual do bebê: instruções de uso - Capítulo 16, Tirando a Frauda". Em "Satisfaction (I can't get no)", temos um narrador arrependido por ter passado uma noite de amor tórrido com sua melhor amiga. Em "Cria, Criatura, Criador", uma menina cuidava de uma gata e de seus filhotes recém-nascidos. Ela fazia isso escondido da mãe, que odiava animais de estimação. "Meias Palavras" relata o abuso sexual sob o ponto de vista infantil da criança que foi vítima da violência. Em "Luiza", conhecemos o relato de um menino sobre uma garota que poderia ser descrita como sendo sua primeira inimiga; Em "Remoto Controle", temos um homem que não sabe/não consegue economizar dinheiro, endividando-se mais e mais. E "Manual do bebê: instruções de uso - Capítulo 16, Tirando a Frauda" é sobre uma filha adulta que se vinga da mãe velha e doente pelo sofrimento passado na infância.

Em "Tecle 2 para Esquecer", podemos ver não apenas o talento de Carolina Zuppo Abed como uma contista nata, mas também é nítido o incrível potencial dessa jovem escritora. Às vezes, é difícil acreditar que essa obra seja sua estreia na literatura. Também é difícil de acreditar que a moça não tenha ainda completado trinta anos de idade. Fico imaginando o que virá daqui para frente quando a escritora tiver atingido sua maturidade artística ou mesmo tiver evoluído alguns degraus no ofício de ficcionista.


Os dois elementos mais interessantes na literatura de Carolina são o primor do seu texto e a elaborada construção narrativa das suas histórias. Até mesmo nos contos menos criativos (sim, há alguns deles no livro), nota-se uma escolha acertada de palavras e um esmero na composição das tramas, das personagens e dos conflitos. Isso só é possível de ser feito por quem possui grande domínio das técnicas narrativas.


Fiquei muito satisfeito com a leitura deste final de semana. "Tecle 2 para Esquecer" me surpreendeu positivamente. É muito bom ver as angústias da alma humana e os traumas infantis transformados em boa literatura. Para quem não tem medo de se aventurar pelo lado sombrio dos homens e das mulheres do tempo presente, temos aqui uma boa opção de título.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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