• Ricardo Bonacorci

Livros: Flood, Uma Mulher Implacável - O início da série Burke de Andrew Vachss


Terminei ontem à noite a leitura de "Flood - Uma Mulher Implacável" (Record), um clássico do romance negro contemporâneo. Essa obra de Andrew Vachss, que possui um jeitão de história classe B ou de livro trash da literatura norte-americana, é importante por três motivos.


Primeiramente, esse trabalho representou a estreia do seu autor na ficção. Até então, Vachss, um assistente social que trabalhava na defesa dos direitos dos jovens e das crianças vítimas de violência e de abuso sexual, só havia lançado livros técnicos. Curiosamente, hoje em dia, Vachss, com quase 80 anos, afirma ter conseguido falar mais do problema dos abusos sofridos pelos menores de idade em seus romances do que nos livros de não-ficção com essa temática. O escritor se apresenta como um defensor de adolescentes e de crianças em situações de risco social.


"Flood" também é relevante por ter inaugurado a famosa (e extensa) série literária do detetive particular Burke. A coleção com 18 títulos foi publicada entre 1985 e 2008 e rendeu alguns prêmios literários internacionais para Andrew Vachss. "Flood" conquistou o Deutscher Krimi Preis na Alemanha, em 1989. "Strega" (Vintage Crime/Black), o segundo romance da série Burke, venceu o Grand Prix de Littérature Policière na França, em 1988, e o Maltese Falcon Award no Japão, em 1989. Nada mal para um livro de um gênero literário que desperta muitos admiradores, mas também suscita muitas críticas em relação a sua qualidade artística (é inegável o preconceito que muita gente ainda nutre pelos romances policiais).

E para terminarmos as apresentações preliminares do romance de estreia de Andrew Vachss, "Flood" é importante por ter inserido na ficção policial norte-americana a temática da violência às crianças. Até então, a pornografia infantil, a prostituição de menores de idade e o abuso sexual cometido contra crianças e adolescentes eram assuntos tratados como tabus na literatura. Como ex-diretor de uma penitenciária para jovens delinquentes e como advogado que defendia menores de idade vítimas de abusos, Andrew Vachss sabia do que estava falando. A violência infantil fazia parte do seu dia a dia e ele sentia a necessidade de conscientizar a sociedade para esse grave problema. De tão polêmico, o livro demorou muito tempo até ser publicado. A maioria das editoras norte-americanas resistiu a tocar em assuntos tão delicados como estes.


Lançado nos Estados Unidos em 1985, "Flood - Uma Mulher Implacável" tem quase 500 páginas e é daquele tipo de livro caudaloso. Essa história é cheia de violência (não faltam brigas e lutas corporais ao longo dos capítulos) e seu enredo possui uma coleção interminável de personagens marginalizadas socialmente (prostitutas, cafetões, transexuais, vendedores de armas, traficantes de armas e drogas, abusadores de crianças, policiais corruptos, negros, latinos, asiáticos, imigrantes ilegais, mendigos e pessoas pobres).


Em um primeiro momento, a trama tensa e as cenas fortes podem assustar o leitor menos acostumado ao subgênero dos romances negros. Passado o choque inicial, o livro acaba seduzindo quem o lê. As muitas cenas de ação, o texto extremamente ágil, a narrativa bem-humorada, o clima de suspense e a boa dose de romantismo chegam a empolgar. Quando o leitor conclui a última página, o romance deixa uma vontade de que a história poderia prosseguir em novas aventuras com aquelas mesmas personagens. Nesse sentido, a opção pela criação da série literária me pareceu acertada (tanto do ponto de vista comercial quanto literário).


O enredo de "Flood" gira em torno de um detetive particular nova-iorquino com métodos de trabalho bem peculiares, uma rotina heterodoxa e uma filosofia de vida blasé. Burke é solitário, excêntrico e possui uma ética própria. Afinal, segundo afirma (a trama é narrada em primeira pessoa), ele precisa sobreviver em meio ao caos da violenta metrópole norte-americana. Se não for mais esperto do que seus vários inimigos, Burke não conseguirá ganhar dinheiro. Assim, as ruas escuras, sujas, decadentes e selvagens da Big Apple são ao mesmo tempo um território perigoso e uma terra de oportunidades ilimitadas para quem sabe trafegar naturalmente por seus becos sombrios.

Trabalhando em casos obscuros e vivendo à margem da lei, Burke conhece praticamente todo mundo dentro do universo criminal de Nova York. Tanto os policiais, os promotores de justiça e os jornalistas quanto os bandidos, os assassinos e as pessoas marginalizadas socialmente fazem parte do networking da personagem principal do romance. Com esse trânsito fácil pelas duas pontas da lei, o detetive consegue resolver todos os casos que caem em suas mãos com alguma facilidade.


Tendo a fama de elucidador de problemas indigestos, certo dia, Burke recebe a visita de Flood em seu "escritório". A jovem loira é gordinha e baixinha. Mesmo assim, é muito bonita. Lutadora de artes marciais, a nova cliente do detetive vive abalada com um drama pessoal. A filha pequena de sua melhor amiga (tão amiga que Flood a trata como uma irmã) foi estuprada e morta por um homem chamado Cobra. O criminoso é conhecido por abusar de crianças, mas permanece solto, pois fez uma delação premiada com a Justiça. Em troca de entregar criminosos mais poderosos, ele foi perdoado pelos crimes antigos e permanece em liberdade.


Em busca de vingança, Flood pede a ajuda de Burke (na verdade, ela contrata os serviços dele) para encontrar Cobra. A jovem quer achar e matar o criminoso que destruiu a vida da sua amiga (que morreu logo depois do assassinato da filha). Assim, Burke e Flood passam a trabalhar juntos atrás do estuprador de menores de idade. Não é necessário dizer que os dois começarão um namoro enquanto procuram o paradeiro de Cobra.


Ao ler Andrew Vachss, as literaturas de Rubem Fonseca, João Antônio, Dalton Trevisan, Wander Piroli, Fernando Bonassi e Marçal Aquino, por exemplo, tornam-se de repente leves e com uma pegada um tanto light. Curioso isso, né? O escritor norte-americano tem a capacidade de mergulhar no submundo da criminalidade nova-iorquina do início da década de 1980 (quando a cidade era um completo caos e possuía índices alarmantes de criminalidade) com muita intensidade, não poupando os leitores de nenhum detalhe sórdido. Definitivamente, não há pudores para se chegar aos níveis mais obscuros da moralidade humana.

Apesar das opções temáticas e narrativas arriscadas, esse é o principal mérito de Vachss em minha opinião. O escritor vai aonde ninguém tinha ido até então, apontando o dedo para um problema que estava oculto na sociedade moderna: a violência sexual contra crianças e adolescentes. Infelizmente, esse mal seria agravado alguns anos depois com o advento da Internet...


Apesar da sua grande violência (típica dos romances negros), "Flood" é um livro recheado de graça e muito bem humorado (acredite: essa combinação é possível sim!). Apesar de um pouco exagerada, a figura de Burke (com várias esquisitices e uma moral peculiar) é divertidíssima. O protagonista caminha o tempo inteiro em uma linha tênue entre o heroísmo e o anti-heroísmo. Vivendo solitário, em um apartamento decadente de um bairro barra-pesada, com uma cadela feroz (a quem ele parece aturar porque o animal é uma ótima proteção para seu lar), Burke transformou sua residência em uma pequena fortaleza à prova de invasões indesejadas. Nesse sentido, o detetive lembra muito o taxista neurótico Jerry Fletcher, personagem protagonizado por Mel Gibson no filme "Teoria da Conspiração" (Conspiracy Theory: 1997). E o que falar, então, do carro de Burke que apesar de velho é tão poderoso e cheio de recursos inusitados quanto o Batmóvel? Hilário!


O repertório de malandragens do protagonista parece ilimitado. Logo na cena inicial, o leitor é brindado com técnicas apuradas de Marketing de Guerrilha (ou seria uma gambiarra de um profissional antiético para engambelar a clientela ingênua?!) por parte do investigador. Flood (a cliente) visita Burke (o prestador de serviço) no apartamento dele, mas pensa estar diante de um escritório bem estruturado de um profissional respeitado, muito requisitado e com uma equipe de funcionários. A maneira sutil e criativa como ele engana a moça é divertida. Portanto, o protagonista do romance é, de certa forma, uma mistura de Mandrake (personagem de Rubem Fonseca) e Ed Mort (criação de Luis Fernando Veríssimo).


Andrew Vachss pode fazer uma história um tanto fantasiosa e com jeitão trash, mas é inegável o charme dessa trama e de suas personagens. Tirando um ou outro erro de lógica narrativa, trata-se de um romance policial com muita graça. Li o livro inteiro em dois dias, tamanho meu interesse pela obra. Confesso ter gostado bastante de seu conteúdo e de sua estética narrativa. Esse é o tipo de leitura recreativa para quem não tem medo de se aprofundar em uma investigação policial pelo submundo do crime organizado.

Para quem for ler "Flood - Uma Mulher Implacável" e gostar muito de sua história, a má notícia é que poucos livros da série Burke foram traduzidos para o português e lançados no Brasil. Tenho conhecimento da publicação apenas de "Strega" (Vintage Crime/Black), "Blue Belle" (Nova Fronteira), "Sacrifice" (Ivy) e "Mask Market" (Vintage Crime/Black) por aqui. Os dois primeiros são os títulos que vieram imediatamente depois de "Flood". "Strega", de 1987, é a segunda história da série e "Blue Belle", de 1988, é a terceira. "Sacrifice", por sua vez, é o sexto livro da coleção (foi lançado em 1991). E "Mask Market" é um dos últimos romances da série Burke (é o décimo sexto título da coleção), tendo sido publicado em 2006.


E aí, vai encarar a Nova York barra-pesada dos anos de 1980?! O maior risco que você corre ao ler as páginas de Andrew Vachss é ficar viciado na história de Burke e de seus amigos nada convencionais.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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