• Ricardo Bonacorci

Livros: O Ano da Morte de Ricardo Reis – O criativo romance de José Saramago


Dois anos depois da publicação de “Memorial do Convento” (Companhia das Letras), José Saramago estarrecia seu público com o lançamento do que considero seu romance mais original: “O Ano da Morte de Ricardo Reis” (Companhia das Letras). Nesta trama, o escritor português vencedor do Nobel de Literatura de 1998 acompanha Ricardo Reis, um dos mais famosos heterônimos de Fernando Pessoa, após a morte do poeta. O quê? Como assim?! É isso mesmo o que você leu. Saramago embaralha realidade e ficção com extrema delicadeza e criatividade. Incrível o enredo deste livro, não é mesmo? Por isso, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” é a segunda obra que vamos analisar neste mês no Desafio Literário. Para quem perdeu os posts dos últimos dias, saiba que o Bonas Histórias irá investigar, ao longo de abril, a literatura de José Saramago, um dos principais escritores da língua portuguesa.

Publicado em 1984, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” abre o que podemos chamar da fase de “Crítica à Realidade”, um dos períodos mais frutíferos do autor. Mesmo utilizando-se de tramas ancoradas em elementos fantasiosos (uma de suas características estilísticas), a proposta central desses livros de Saramago era questionar criticamente assuntos da realidade objetiva e histórica de Portugal, da Europa e do Cristianismo. Entre 1984 e 1991, quatro romances foram lançados em sequência com essa pegada. Depois de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, tivemos “A Jangada de Pedra” (Companhia das Letras”), de 1986, “História do Cerco de Lisboa” (Companhia das Letras), de 1989, e “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), de 1991. Não é coincidência que essas obras apareçam entre os trabalhos mais famosos do escritor português.

Para produzir “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, seu quinto romance, José Saramago precisou realizar uma extensa e acurada pesquisa documental, literária e biográfica. Como a trama é ambientada na véspera da eclosão da Segunda Guerra Mundial, o autor precisou mergulhar tanto nos fatos históricos desse período quanto nos detalhes da produção de Ricardo Reis e da biografia de Fernando Pessoa. O resultado é incrível. Com uma sutileza incomparável, os dois planos do enredo (o geral/histórico e o pessoal de Reis/Pessoa) se bifurcam em um drama denso, amargo e filosófico. Enquanto assistimos ao ocaso do(s) protagonista(s), podemos acompanhar simultaneamente um dos períodos mais tristes da história humana. Sem defender explicitamente qualquer ideologia política, Saramago mostra o quanto o ser humano pode transformar-se em um animal cruel, irracional e desmedido quando acuado. Quem gosta de história sabe que na época desta narrativa ficcional, o Nazifascismo assolava a Península Ibérica e a Europa e provocava sangrentos combates armados e milhares de mortes pelo caminho.

Este livro de José Saramago começa no dia 29 de dezembro de 1935. Ricardo Reis, médico e poeta de 48 anos, solteiro, nascido no Porto e monarquista-antinacionalista, retorna ao seu país natal após 16 anos de autoexílio no Brasil. O protagonista do romance viveu no Rio de Janeiro durante esse período, trabalhando na medicina e escrevendo suas odes sem jamais publicá-las. Sua volta à Europa foi motivada por uma carta recebida de Álvaro de Campos, outro heterônimo de Fernando Pessoa. Na correspondência, o amigo informava Reis sobre o falecimento de Pessoa em 30 de novembro. Algo assim, convenhamos, só é possível na ficção e na mente privilegiada de Saramago. De qualquer forma, o fato é que Ricardo Reis chegou à Lisboa após algumas semanas de viagem no navio Highland Brigade.

Outra vez em sua terra, Ricardo Reis hospeda-se no Hotel Bragança, na Rua do Alecrim. Ali é acolhido com carinho pela equipe do estabelecimento. Já na manhã seguinte à sua chegada, o médico decide visitar o túmulo de Fernando Pessoa. Desejava prestar sua última homenagem ao amigo que, curiosamente, faleceu desconhecido do grande público. Como havia muitas pessoas perambulando pelo cemitério, Reis acaba ficando menos tempo do que desejava no local. Sem ter mais o que fazer no último dia de 1935, o protagonista do romance opta por dar um passeio a pé pela capital portuguesa. Sua voltinha pelas ruas de Lisboa vai de manhã até a noite.

Quando, enfim, retorna de madrugada ao hotel, a festa do Réveillon já está pegando fogo por toda a cidade. E justamente nesse momento de celebração e alegria, Reis recebe uma visita surpreendente em seu quarto: o fantasma de Fernando Pessoa. A alma do poeta veio agradecer a passagem, de manhã, do médico pelo cemitério. Fernando Pessoa explica para um estupefato Ricardo que ele ainda ficará nove meses vagando a esmo pelo mundo dos vivos enquanto não passa definitivamente para o mundo dos mortos. Esse período de transição é normal, explica o fantasma. Assim como uma criança precisa ficar nove meses na barriga da mãe antes de vir de fato ao mundo, a alma de um falecido precisa aprender a se desprender da vida física antes de reencarnar totalmente.

Felizes por conviverem mais um pouco, Ricardo Reis e Fernando Pessoa combinam de se encontrar em outras oportunidades. E, assim, eles cumprem o prometido. A dupla se torna mais próxima, algo até então inédito. A relação deles, até aquele instante, era de dois conhecidos, não de dois amigos. Na nova fase, Pessoa e Reis aproveitam para conversar sobre todos os assuntos: a vida, a morte, os medos, os sonhos e seus trabalhos literários. Além disso, eles têm a oportunidade de debater os caminhos políticos que a Europa está seguindo. Portugal de Salazar, a Espanha de Franco, a Itália de Mussolini e a Alemanha de Hitler trouxeram as nuvens da guerra para a região.

Sem nada de produtivo para fazer em Portugal ao longo dos meses de 1936, Ricardo Reis passa os dias a esmo. Sua rotina é ler os jornais com notícias cada vez mais sombrias, passear a pé por Lisboa, fazer sexo com Lídia Martins, uma camareira do hotel, e cortejar Marcenda Sampaio, uma jovem virginal de Coimbra que tem uma mão paralisada. Marcenda hospeda-se, com o pai, uma vez por mês no Bragança. A rotina entediante do médico só é quebrada pelas visitas de um Fernando Pessoa cada vez mais crítico e ácido em relação à vida e à existência humana. Quando se encontram, os dois amigos aproveitam para debater sobre seus trabalhos, suas “vidas” e os acontecimentos políticos.

“O Ano da Morte de Ricardo Reis” é um romance parrudo. Ele possui 432 páginas. É o segundo romance mais extenso deste Desafio Literário, perdendo por pouco para “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), que têm 448 páginas. Como o estilo de escrita de José Saramago condensa parágrafos e diálogos em um texto praticamente corrido, sua leitura é mais demorada do que o habitual. A sensação é que os livros do português possuam muito mais páginas do que efetivamente têm. Demorei cerca de quatro dias para concluir a leitura integral de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, o dobro do que normalmente levo para uma obra com esse número de páginas. Por isso, não tenha pressa quando estiver com este livro em mãos. Na certa, você despenderá muito mais tempo do que está habituado(a) para uma publicação desse porte.

Quanto ao estilo narrativo, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” não apresenta nenhuma grande novidade quando comparado às duas obras precedentes. As principais características da prosa de José Saramago, apresentadas ao público pela primeira vez em “Levantado do Chão” (Companhia das Letras), romance de 1980, e depois utilizadas em “O Memorial do Convento”, são aqui replicadas de maneira intacta. Ou seja, temos neste livro o uso particular dos sinais de pontuação (ausência da exclamação e da interrogação e a substituição do ponto final pela vírgula em muitos momentos), os diálogos acoplados à narração (sem o travessão), os longos parágrafos, a ironia desconcertante, o texto muito descritivo, a mistura de realidade e ficção, a inserção da fantasia em meio à trama realista e o narrador onisciente e onipresente. Todas essas marcas são típicas da literatura saramaguiana.

Um aspecto que chama a atenção do leitor é a duplicidade do ponto de vista da trama (algo que José Saramago já havia feito em seu livro anterior). A história de “O Ano da Morte de Ricardo Reis” tem uma parte micro (vida do seu protagonista) e uma macro (ambiente político da Europa Pré-Segunda Guerra Mundial). Em muitos momentos do livro, o segundo aspecto ganha destaque, monopolizando alguns capítulos. As personagens reais (Salazar, Franco, Mussolini, Hitler) saltam à primeira posição na trama. Elas aparecem no romance a partir das leituras de jornais e do acompanhamento dos programas de rádio por parte de Ricardo Reis. Ou seja, elas não são personagens efetivas da trama. Não acompanhamos de perto suas ações e pensamentos, como ocorreu, por exemplo, em “Memorial do Convento”. Essas passagens macro possuem muito mais um aspecto de crônica histórica da política europeia da época do que um elemento essencial da trama.

A inserção do ambiente político europeu na história, muitas vezes em primeiro plano, acaba tornando o texto do romance um pouco mais difícil para o leitor. É verdade que quem gosta de história irá adorar esse mergulho muito bem embasado por Saramago ao passado. Contudo, é inegável que o aparecimento de muitas figuras históricas da política portuguesa e espanhola acabe tornando sua leitura mais complexa. Dos livros de José Saramago que li até hoje, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” é, com certeza, o que requereu uma leitura mais atenta.

A opção do escritor português por ancorar seu romance nas questões macro e micro fica mais evidente quando analisamos a maioria das cenas protagonizadas por Ricardo Reis. Praticamente em todo capítulo temos uma passagem da personagem principal em um ambiente com multidões. Apesar de introspectivo, tímido e contrário às revoluções, o médico-poeta está sempre no meio do povão (Carnaval de rua, romaria por Fátima, ação beneficente, ato político, etc.). As cenas mais emblemáticas do livro, depois das conversas entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa, são justamente aquelas ocorridas nas ruas e em grandes aglomerações de pessoas.

Algo que não tinha reparado até agora e que ficou claro para mim pela primeira vez nesta leitura é que as obras e as personagens anteriores de José Saramago são sempre citadas direta ou indiretamente nos novos trabalhos do escritor. É legal o leitor procurar essas referências no texto. Em “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, por exemplo, encontramos citações a Blimunda e a Bartolomeu de Gusmão, figuras centrais de “Memorial do Convento”. No romance seguinte do autor, “Jangada de Pedra” (Companhia de Bolso), o hotel Bragança será novamente utilizado como palco da narrativa em alguns capítulos. Assim, Salvador, o gerente, Pimenta, o funcionário da portaria, e Lídia, a camareira, reaparecem ora citados nominalmente ora indiretamente.

Em relação ao ritmo da narrativa, “O Ano da Morte de Ricardo Reis” tem várias oscilações. Naturalmente, quando o texto fica mais descritivo (e ele é muitas vezes extremamente descritivo), a trama se torna mais lenta. Quando ele foca em pontos inusitados da rotina do protagonista, aí temos uma maior celeridade. O problema é que estes instantes são pontuais. Em um livro de 400 páginas, não são mais do que cinco os momentos de maior dramaticidade. No restante da obra, o marasmo e a rotina entediante da personagem principal inundam a história e a tornam propositadamente mais lenta.

O primeiro ponto mais emocionante da narrativa ocorre quando o fantasma de Fernando Pessoa surge no quarto de Ricardo Reis. Essa cena, acredite, ocorre somente no final do terceiro capítulo. Este momento sublime dá uma nova dinâmica ao livro. Depois, a emoção reaparece no início do relacionamento de Reis com Lídia e, mais tarde, no flerte do doutor com Marcenda. Esses instantes dão nova vida à narrativa (desculpe-me o trocadilho involuntário). A mudança de hotel para uma residência e mais um ou outro aspecto da história do protagonista (que não vou citar para não tirar a graça da leitura) repetem esse efeito de injetar alguma adrenalina e ânimo à trama majoritariamente entediante.

De certa forma, a dinâmica do livro é condizente com as características psicológicas e ideológicas de Ricardo Reis. Conservador, meio medroso e profundamente introspectivo, o médico-poeta assiste aos acontecimentos externos com certo enfado e/ou cautela. Trata-se de uma personagem que prefere muito mais ser um espectador do que um protagonista do mundo em que habita. Quando digo aqui a palavra “externo”, não estou me referindo apenas aos episódios políticos que levaram a Europa para um momento derradeiro de sua história, mas também aos pequenos fatos da existência geral de Ricardo Reis. Até mesmo em sua trama particular, ele é um mero coadjuvante. O heterônimo de Fernando Pessoa não dá nenhum passo decisivo para alcançar seus sonhos nem para sair do marasmo que sua vida se vê mergulhada. Nesse sentido, essa criação literária é sublime.

Outro ponto que chamou minha atenção nesse romance é o tipo de narrador utilizado por Saramago. Sem sombra de dúvida, trata-se de um narrador onisciente e onipresente. Até aí, beleza. A questão interessante é tentar identificar se o texto está em primeira pessoa ou se está na terceira pessoa. Na maior parte do tempo, a narração é feita em terceira pessoa. Contudo, em algumas partes, a voz do narrador adquire um tom em primeira pessoa do plural, como se tivesse vinda da consciência coletiva do povo português ou do grupo de pessoas que vivenciaram aquela situação histórica. Apesar de muito sutil, esse expediente narrativo (ortodoxo se formos pensar no foco narrativo, um dos elementos discutidos nessa temporada da Teoria Literária) dá outra dimensão ao romance, encantando o leitor mais atento.

“O Ano da Morte de Ricardo Reis” é um belo livro. Talvez seja a obra com o enredo mais criativo entre os trabalhos literários de José Saramago. E, provavelmente, foi aquele que exigiu mais pesquisas históricas para ser construído. Este romance não é uma leitura nada fácil. Por sua vez, aventurar-se por suas páginas traz boas recompensas ao leitor corajoso. As belezas narrativas, a sutileza dramática, a intertextualidade histórica e o charme da prosa saramaguiana conferem uma experiência de leitura única e intensa. Ao final da última página, você pode gostar ou não deste livro (cada um tem suas preferências e gostos), mas você não pode negar que foi impactado por sua estética narrativa (essa sim a marca de um grande escritor e de uma obra de arte).

O Desafio Literário de José Saramago retorna no próximo sábado, dia 13, com a análise de “Jangada de Pedra” (Companhia de Bolso), justamente o romance que sucedeu “O Ano da Morte de Ricardo Reis”. Continue acompanhando, ao longo de abril, o estudo da literatura de Saramago no Bonas Histórias. Não perca os novos posts com um dos principais escritores da língua portuguesa de todos os tempos!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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