• Ricardo Bonacorci

Teoria Literária: Elementos da Narrativa - 7 - Narrador


No post de hoje da coluna Teoria Literária, vamos tratar do narrador, o sétimo elemento da narrativa (BONACORCI: 2018). Vale lembrar que em maio, junho e julho, respectivamente, analisamos aqui no Bonas Histórias os conceitos de Tempo Narrativo, Ambientação e Realidade Ficcional.

Toda obra literária possui um ponto de vista ou um foco narrativo. Em outras palavras, em uma trama ficcional, sempre há alguém que conta a história para o leitor. Esse indivíduo (em alguns casos, ele é mais uma entidade do que uma personagem) exerce o papel de porta-voz dos acontecimentos criados na mente do escritor. A escolha de quem será o narrador (ou do tipo de narrador) de determinada trama é uma decisão do autor que influencia muitas outras. É a partir da posição do narrador no enredo que o leitor fica conhecendo os conflitos protagonizados pelas personagens do romance e pode, assim, estabelecer uma visão completa ou parcial sobre a narrativa (MOISÉS, 2014, p.143).

O estudo do tipo e das características do narrador é tão relevante para a análise literária que alguns teóricos o colocam como o ponto de partida da investigação dos romances. Afinal, não existe narrativa sem narrador (GANCHO, 2014, p. 30). Percy Lubbock, intelectual inglês que se dedicou à crítica literária na primeira metade do século XX, foi quem mais reforçou essa ideia. Ele defendia que a constituição de um bom romance passava essencialmente pela forma como este era apresentado para o público leitor. A forma era quem conferia unidade temática e verossimilhança à obra ficcional. Ela era constituída fundamentalmente a partir do foco narrativo escolhido pelo escritor (LUBBOCK, 1976, p. 46). O autor, neste caso, fala ao leitor com sua própria voz ou fala através das suas personagens. O caminhar de uma história deve estar atrelado à “[…] consciência das pessoas que a povoam e poder-se-ia supor que se faz mister alguém nos contar como tudo aconteceu” (LUBBOCK, 1976, p. 115 e 116).

É importante notar que para a análise literária, narrador e autor são entidades distintas e dissociadas. O narrador pode ser caracterizado como uma criação ficcional ou como uma criação linguística do escritor, só existindo dentro do texto literário. Assim, não se devem utilizar informações biográficas sobre o autor para compor o retrato psicológico ou entender a ideologia do narrador. Como entidades (ou pessoas) distintas, eles não se influenciam. O narrador é uma criação fictícia do escritor, fruto de sua imaginação, não tendo quaisquer bases reais e concretas (GANCHO, 2014, p.30).

Existem dois tipos principais de narrador: O narrador observador e o narrador personagem. Ambos são estabelecidos a partir da posição ou da perspectiva de quem conta a história. De modo geral, o narrador observador apresenta ao leitor os acontecimentos em terceira pessoa e o narrador personagem o faz em primeira pessoa (GANCHO, 2014, p.31-33).

1. Narrador observador:

O narrador observador é aquele que se posiciona fora dos fatos narrados. Ele narra a história em terceira pessoa. Possui, assim, uma maior imparcialidade e isenção sobre as ações quando comparado ao narrador personagem, que participa efetivamente da trama (BROOKS & WARREN, 1943, p.588).

Os Maias, romance de Eça de Queiróz, é narrado em terceira pessoa. Como a obra literária do português percorre três gerações de uma família, seria impossível contar tal história a partir da visão de uma única personagem (sem utilizar a realidade fantástica). Por isso, é natural, neste caso, o narrador ser do tipo observador. O narrador de A Moreninha, romance romântico de Joaquim Manuel de Macedo, também é classificado como observador. O livro inteiro está escrito em terceira pessoa, por alguém externo aos acontecimentos. Apesar da alusão, durante a leitura da obra literária, de que seu autor fictício seria Augusto, o protagonista que perdeu a aposta que originou tal relato, o narrador é observador. Afinal, em nenhum momento ele (o narrador) se manifesta explicitamente como Augusto ou escreve em primeira pessoa.

O narrador observador pode adquirir, dependendo da trama, alguns papéis específicos. Ele pode ser um narrador onisciente (sabe de tudo o que acontece na história, até mesmo o que se passa na mente das personagens) e onipresente (está em todos os lugares ao mesmo tempo, possuindo uma capacidade de observação total). Ou seja, ele tem uma visão geral e completa da realidade do romance e pode informá-la ao leitor sem dificuldades. Esse é o caso do narrador de Os Maias.

O narrador observador, porém, pode não ser onisciente e onipresente. Neste caso, suas capacidades e poderes são mais limitados. Ele tem uma visão parcial da realidade, divulgando ao leitor apenas a parte que consegue observar dos fatos. Esse é o caso do narrador de A Moreninha. Parte da reviravolta no desfecho da trama se dá pela descoberta de algo relativo ao passado de Carolina, a outra protagonista do livro. Esse fato passara despercebido por Augusto e, também, pelo narrador.

2. Narrador personagem:

O narrador personagem é aquele que está inserido nos fatos narrados. Ele não apenas relata os acontecimentos em primeira pessoa como também participa (direta ou indiretamente) da trama. Tradicionalmente, o narrador personagem possui uma visão limitada e parcial da realidade do romance, pois não é onisciente nem onipresente. Como qualquer pessoa, ele não consegue estar o tempo inteiro em todos os lugares ao mesmo tempo (GANCHO, 2014, p.32).

São raríssimos os casos em que temos um narrador personagem onisciente e onipresente. Um exemplo dessa excepcionalidade ocorre no romance A Menina que Roubava Livros, do australiano Markus Zusak. Como a narradora é a morte, ser místico com a capacidade para ver todos os acontecimentos do mundo sem restrição, o livro é narrado em primeira pessoa e com uma visão completa das ações das demais personagens.

O narrador personagem pode ser de dois tipos: o narrador testemunha e o narrador protagonista. O que os define é a posição do contador da história dentro do enredo. O narrador protagonista é a personagem principal do romance. Ele relata sua própria história aos leitores (MOISÉS, 2014, p.143). O narrador dos sete volumes de Em Busca do Tempo Perdido, principal obra do francês Marcel Proust, é Marcel, uma personagem homônima do escritor. O Marcel ficcional é um homem nascido em uma família burguesa de posses que viveu em meio à alta nobreza francesa entre a segunda metade do século XIX e os primeiros anos do século XX. Em seus relatos, o protagonista relata, em primeira pessoa, suas experiências de vida, com destaque à sua inclinação homossexual e à sua paixão pela arte.

O outro tipo de narrador personagem é o narrador testemunha. Diferentemente do narrador personagem protagonista, esse não exerce o papel de personagem principal da narrativa. Ele é normalmente um coadjuvante ou uma pessoa secundária dentro do enredo. Participa, portanto, da trama em uma posição de menor destaque. Sua importância não está efetivamente nas ações da história e sim no poder de observar os acontecimentos e de conseguir narrar o que está se passando naquela trama ao leitor (GANCHO, 2014, p. 33).

Um exemplo clássico dessa ocorrência é o romance Moby Dick, do norte-americano Herman Melville. A história da caça à baleia monstruosa que dilacerou um dos pés do capitão Ahab é contada por Ismael, um dos marinheiros presentes no navio The Pequod. Ismael não é a personagem central do romance, porém está em uma posição privilegiada para relatar, em primeira pessoa, os acontecimentos marcantes ocorridos no The Pequod. O conflito dramático travado entre o capitão Ahab e a baleia branca chamada de Moby Dick é contado ao leitor por um simples marinheiro.

Compreendido o conceito de narrador, poderemos avançar para o oitavo elemento da narrativa, a Linguagem. Este será o tema do próximo post da coluna Teoria Literária. Em setembro, retornarei ao Bonas Histórias para debater os aspectos relacionados à Linguagem em uma narrativa ficcional. Não perca a continuação da discussão sobre os 11 elementos da narrativa.

Bibliografia:

BONACORCI, Ricardo. Análise Literária dos Romances de Rubem Fonseca - Investigando a Nova Literatura Brasileira. Projeto de Iniciação Científica. Varginha: Centro Universitário do Sul de Minas (UNIS-MG), 2019.

BROOKS, Cleanth & WARREN, Robert Penn. Understanding Fiction. Nova York: FS Crofts, 1943).

GANCHO, Cândida Vilares. Como Analisar Narrativas. 9a ed., Série Princípios, São Paulo: Ática, 2014.

LUBBOCK, Percy. A Técnica da Ficção. São Paulo: Cultrix, 1976.

MOISÉS, Massaud. A Análise Literária. 19a ed. São Paulo: Cultrix, 2014.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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