• Ricardo Bonacorci

Premiações: Nobel de Literatura de 2019 - Peter Handke


No mês passado, a Academia de Letras da Suécia divulgou simultaneamente os vencedores do Prêmio Nobel de Literatura de 2018 e 2019. A iniciativa inédita teve como causa o adiamento da entrega da honraria do ano passado. Um grande escândalo de abuso sexual na comissão avaliadora em maio de 2018 impediu a escolha de um nome para o maior prêmio da literatura mundial. Assim, a definição do escritor premiado do ano passado ficou para agora. E sua apresentação ocorreu juntamente com a escolha do autor premiado de 2019. Os felizardos foram Olga Tokarczuk, polonesa de 57 anos (vencedora de 2018), e Peter Handke, austríaco de 76 anos (vencedor de 2019). Como já tratei, em outubro, na coluna Premiações do Bonas Histórias da escolha de Tokarczuk, vou usar o post de hoje para discutir exclusivamente a opção por Handke.

Peter Handke é um nome extremamente polêmico da literatura contemporânea europeia. É evidente que a Academia sueca se baseou apenas em seus trabalhos como escritor para premiá-lo, deixando de lado sua vida pessoal e, principalmente, suas posições político-ideológicas. Contudo, os críticos foram impiedosos ao decretar que alguém com a personalidade e as crenças de Handke jamais poderia conquistar a maior honraria da literatura mundial. Afinal, quem está certo nesse debate? Para entender essa dissonância, vamos começar falando do aspecto literário do novo Nobel de Literatura.

Nascido em 1942, no sul da Áustria, Peter Handke vem de uma família de origem eslovena. A admiração pela nacionalidade dos avós fez com que ainda pequeno ele quisesse aprender a língua e a cultura eslovacas. Depois de trabalhar por muitos anos como professor universitário e tradutor, Handke optou pela carreira de escritor. A partir daí, atuou como romancista, poeta, ensaísta, dramaturgo e roteirista de cinema. Após viver em várias cidades da Áustria, Alemanha e França, decidiu fixar residência nos Estados Unidos, onde vive até hoje.

Seus trabalhos mais importantes na literatura estão na ficção. “A Mulher Canhota” (Brasiliense), romance de 1976, é considerado sua obra-prima. “O Medo do Goleiro Diante do Pênalti” (Brasiliense) é a novela publicada em 1970 e que dois anos mais tarde seria adaptada para o cinema. “Desgraça” (Em inglês “A Sorrow Beyond Dreams” e em alemão “Wunschloses Unglück) é a novela semiautobiográfica de 1972 em que Peter Handke relata a traumática morte de sua mãe durante a Segunda Guerra Mundial, quando ele era ainda uma criança.

Curiosamente, a obra mais famosa de Handke para a maioria dos brasileiros não está na literatura, mas no cinema. Ele foi o roteirista de “Asas do Desejo” (Der Himmel über Berlin: 1987), clássico franco-alemão do cineasta Wim Wenders. No teatro, os destaques são “Offending the Audience” (em alemão, Publikumsbeschimpfung), peça de 1966, e “The Hornets” (“Die hornissen” em alemão), outra peça de 1966. Nenhuma delas foi traduzida para o português.

Com esse portfólio magnífico, alguém poderia questionar: “Então, o Nobel de 2019 acabou em boas mãos, hein?!”. É claro que sim, respondem aqueles que olham apenas para o trabalho artístico do agraciado. As críticas que Peter Handke recebe é pela sua postura fora do universo literário. O austríaco começou a queimar sua imagem internacionalmente por causa da Guerra da Bósnia.

O conflito armado da primeira metade da década de 1990 representou o massacre de sérvios contra a população muçulmana da Bósnia e da Herzegovina, então regiões da antiga Iugoslávia (país comandado pela Sérvia). Surpreendentemente, Handke sempre se posicionou a favor dos sérvios (um povo eslavo). Essa postura não mudou até hoje. Ele inclusive foi ao enterro, em 2006, do tirano sérvio Slobodan Milosevic, incriminado como genocida pelo Tribunal Internacional das Nações Unidas. E lá, o escritor austríaco discursou a favor dos ataques sérvios nos anos de 1990. Para incredulidade da opinião pública, ele ainda negou o genocídio na Bósnia e na Herzegovina.

Dessa maneira, para os olhos do mundo, Peter Handke adquiriu a imagem de um monstro, amigo de genocidas e defensor de massacres contra minorias indefesas. Sem se importar com a repercussão negativa, o autor permanece convicto de suas crenças e continua até hoje defendendo seu ponto de vista. Sob essa nova ótica, seria justo dar o principal prêmio da literatura mundial para uma figura tão polêmica? Há muita gente que responde negativamente a tal questão.

A minha opinião é que o Nobel de Literatura deve ser dado para o(a) escritor(a) e não para o homem/mulher (pessoa física). É preciso saber diferenciar o lado profissional do lado particular. O prêmio deve ser baseado única e exclusivamente no trabalho artístico-literário do autor e não em suas crenças pessoais. O que ele ou ela faz fora da escrita não é papel da Academia de Letras da Suécia avaliar.

Nesse sentido, apoio incondicionalmente a escolha de Peter Handke como Nobel de 2019. Ele realmente é um monstro de escritor e mereceu o prêmio. Por outro lado, é inegável que ele se mostre cada vez mais uma pessoa indigna de nossa admiração e dos nossos elogios. Quando olhamos suas crenças particulares e suas atitudes pessoais, vemos um escritor monstruoso. Durmamos com esse desconforto!

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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