• Ricardo Bonacorci

Livros: Berenice Corta o Cabelo – O famoso conto de Francis Scott Fitzgerald


Quem olha a imagem de “Berenice Corta o Cabelo” (Lote 42) no alto deste post do Bonas Histórias deve pensar intuitivamente: “O que há de errado com a reprodução deste livro?!”. Entendo a possível surpresa dos nossos leitores. Não é comum encontrarmos uma publicação nesse formato. Porém asseguro: não tem nada de equivocado com sua imagem nem mesmo com a obra em si. O design diferenciado foi um recurso utilizado pela Lote 42, pequena editora paulistana, para valorizar esteticamente o famoso conto de Francis Scott Fitzgerald. Se a visualização na tela do computador ou do celular gera uma sensação inicial de esquisitice, ao vivo e com o material em mãos, o leitor fica maravilhado com o projeto gráfico do livro. “Berenice Corta o Cabelo” é, sem dúvida nenhuma, a publicação literária mais inovadora, ao menos em relação ao projeto gráfico, que vi neste ano (e olha que estou escrevendo isso no último dia de dezembro!). O material e o formato utilizado na produção da obra valorizam ainda mais seu texto.

F. Scott Fitzgerald foi um dos principais escritores norte-americanos do século XX. A maior parte de suas obras foi publicada nas décadas de 1920 e 1930. “O Grande Gatsby” (Tordesilhas), romance de 1925, é um clássico da literatura mundial e é apontado indiscutivelmente como sua principal produção artística. Além dos cinco romances produzidos, Fitzgerald também se dedicou com afinco às narrativas curtas. Foram nove as coletâneas de contos lançadas. O autor contabilizou mais de 160 contos escritos ao longo de sua carreira. Essas pequenas histórias eram normalmente vendidas aos jornais e às revistas da época, principalmente ao Saturday Evening Post, Esquire e Collier’s, rendendo muito mais dinheiro ao norte-americano do que os seus romances. Entre as histórias mais famosas desse gênero estão “Berenice Corta o Cabelo”, de 1920, “O Curioso Caso de Benjamin Button”, de 1921, transformado recentemente em filme, e “Sonhos de Inverno”, de 1922.

Diferentemente da maioria dos contos de Scott Fitzgerald, “Berenice Corta o Cabelo” não foi originalmente publicado de maneira independente em um periódico. Esta história foi lançada em “Flappers and Philosophers” (Sem edição no Brasil), uma coletânea de pequenas narrativas de 1920. Este foi o primeiro livro de contos do autor. Além de “Berenice Corta o Cabelo”, “Flappers and Philosophers” continha outras sete histórias. Este livro foi lançado no mesmo ano do primeiro romance do autor, “Este Lado do Paraíso” (BestBolso). Perto do sucesso do romance de estreia de Fitzgerald, sua primeira coletânea de contos teve uma receptividade tímida do público leitor. Seu maior sucesso nesse gênero viria apenas dois anos mais tarde, com o lançamento de “Contos da Era do Jazz” (Sem edição integral para o português). Contudo, “Berenice Corta o Cabelo” ficou marcado para sempre como uma das principais histórias do autor.

Este conto de F. Scott Fitzgerald começa em um baile, no final do Verão, em um country club norte-americano. A nata da sociedade local está presente no salão de festas. Enquanto os mais velhos conversam calmamente, os mais jovens aproveitam para dançar animadamente. Warren McIntryre, um universitário de dezenove anos, é apaixonado por Marjorie Harvey, sua antiga vizinha. Contudo, a moça nunca demostrou interesse por ele. Sabendo do fascínio que o amigo tem por ela, Marjorie pediu um favorzinho para Warren: dançar com Berenice.

Berenice é prima de Marjorie. A moça de dezoito anos veio de uma família muito rica de Eau Claire e está passando as férias de Verão na casa de Marjorie. Por não ser nada popular entre os rapazes, Berenice dificilmente consegue um par para as danças nos bailes. Por isso, sua prima precisa interceder. Muitíssimo popular entre os jovens do sexo oposto, Marjorie solicita que alguém puxe sua prima para uma dança, o que é feito a contragosto pelos rapazes. Um dos encarregados dessa tarefa naquela noite é o sempre prestativo Warren McIntryre.

Ao final do baile, as primas retornam para a casa. Enquanto está se trocando e se preparando para dormir, Berenice vai até o quarto de sua tia para desejar boa noite. Ao chegar à porta do cômodo de sua anfitriã, a visitante ouve Marjorie conversando com a mãe, Josephine Harvey, sobre a festa recém-terminada. Na visão de Marjorie, Berenice é um estorvo para ela e para os que estão ao seu redor. Apesar de bonita, a visitante é extremamente chata. Ela conversa pouco e quando abre a boca fala de assuntos totalmente desinteressantes para os rapazes. Sua timidez, suas roupas convencionais, seu comportamento conservador e seu romantismo meloso chocam os mais jovens. Berenice parece uma velha e não uma pessoa da nova geração.

Ao ouvir aquelas palavras, Berenice volta para seu quarto arrasada. No dia seguinte, já no café da manhã, ela comunica à prima o que ouviu sem querer atrás da porta. Marjorie, de forma indelicada, sustenta a sua opinião e as duas brigam feio. Berenice não se aguenta e cai no choro. Depois de algumas horas de lamentação, a visitante retorna para falar com a prima. Berenice concorda com as críticas de Marjorie e aceita receber sugestões dela para se tornar uma moça popular e requisitada pelos rapazes nas últimas semanas de férias. Entre as várias dicas dadas por Marjorie (o que vestir, como aparar as sobrancelhas, como dançar, como abordar um rapaz, etc.) está cortar o cabelo.

Motivada a puxar conversas nos eventos sociais, Berenice pergunta aos cavalheiros o que eles acham da ideia de ela ter o cabelo bem curtinho. Todos ficam empolgados com o tema e discutem acaloradamente a questão. Mesmo não tendo a vontade de se desfazer dos longos fios, Berenice sinaliza que qualquer dia irá cortá-los. O atrevimento dá início à fase de grande e de inédita popularidade da jovem. Vale lembrar que no início do século XX somente os homens usavam cabelos curtos. Aquele gesto de Berenice indicava o quanto ela era uma moça descolada e à frente do seu tempo.

Sob os conselhos da prima, Berenice passa a ser vista como uma dama moderna, interessante e alegre. A nova versão da moça chama a atenção de Warren McIntryre, que passa a acompanhá-la em todos os lugares. Ao invés de ficar feliz com sua realização, Marjorie fica enciumada com a ascensão repentina e intensa da prima. De uma hora para outra, Marjorie passa a ver Berenice como uma inimiga. Assim, fará o que for necessário para retomar sua posição de moça mais popular da cidade, custe o que custar.

“Berenice Corta o Cabelo” é um livro curto (afinal é um conto, né?). Na edição da Lote 42, ele tem 96 páginas. Se a princípio parecem poucas páginas para uma obra literária, na verdade o que temos aqui é uma publicação espichada. Se não fossem a diagramação generosa, o formato fino do livro e as inserções de ilustrações no meio do texto, “Berenice Corta o Cabelo” não ultrapassaria 30 páginas. Por isso, é possível concluir a leitura integral dessa história em menos de uma hora. Quem lê muito devagar, na certa não levará mais do que duas horas para percorrer o livro de ponta a ponta.

Esta trama de F. Scott Fitzgerald parece hoje em dia um tanto óbvia: a transformação da menina impopular em alguém admirada pelos integrantes do sexo oposto. É só dar uma olhada nos filmes hollywoodianos e nas obras infantojuvenis para ver o quanto este tema é batido atualmente. Porém, no início do século XX, essa história era original e conseguia despertar a curiosidade nos leitores. Não há prova maior da força de um enredo do que quando ele é repetido até a sua exaustão. Aí, não culpe quem o escreveu pela primeira vez e sim quem vive copiando-o.

A principal questão debatida por este conto de Fitzgerald é: qual mulher você quer ser no início do século XX? Na visão do escritor, há dois tipos de damas no seio da sociedade norte-americana. A primeira é constituída pela mulher conservadora, que faz tudo para ser uma esposa zelosa, uma dona-de-casa respeitada e uma boa mãe de família. Para tal, ela deve ser discreta, reservada e até mesmo tímida. Suas principais qualidades são sua inteligência acima da média, seu caráter ilibado e seu comportamento reto. Necessita também gostar dos romances românticos, deve preferir ficar em casa ao invés de passear pela rua e precisa ser fiel a um único homem. A segunda é formada pela mulher moderna (ao menos aos olhos de um homem em 1920). Ela deve ser uma boa companhia masculina, sendo, portanto, alegre, divertida e bonita. Seu comportamento deve ser pautado pelas necessidades e desejos do seu par. Aqui sai o romantismo e entra a praticidade da vida moderna. A boa mulher é aquela que consegue administrar vários relacionamentos com os homens e está sempre aberta para um encontro casual.

O que choca o leitor contemporâneo é que a mulher moderna de Scott Fitzgerald, chamada por ele de feminista, não é nada feminista (pelo menos não sob o ponto de vista atual). Por mais liberal que ela seja na aparência e nas atitudes, ainda sim ela é escrava das aspirações masculinas, vivendo em prol das vontades exclusivas dos homens. Não é preciso ser muito esperto para ver o quão machista é esse ponto de vista. Se você não for uma feminista ortodoxa, que provavelmente queimará o livro por isso, precisará engolir a seco essa questão e seguir em frente na história. Não podemos nos esquecer que estamos falando de um conto de quase cem anos de idade. Para se ter uma ideia, na época da publicação de “Berenice Corta o Cabelo”, as mulheres tinham acabado de receber o direito de votar nas eleições norte-americanas.

Para quem ficou incomodado com a visão machista das protagonistas, vale a pena dar uma olhada mais atenta às personagens masculinas. Elas também não foram descritas com um olhar nada positivo. Os homens são normalmente fúteis, dependentes das relações e dos afetos das mulheres, inclinados unicamente para as aparências sociais e pessoas espiritualmente pobres. Ou seja, Fitzgerald é mordaz e implacável com ambos os sexos.

De qualquer forma, é possível notar o choque de gerações retratado pelo conto. Berenice e Marjorie representam dois tipos de mulheres daquela sociedade. De tão diferentes, era óbvio que o destino das duas era o de se tornarem inimigas ferrenhas. O único ponto em comum entre elas era a relevância do cabelo, um importante símbolo da feminilidade. Por mais distintas que sejam as duas protagonistas, ainda sim elas estão unidas em algo que as aproxima.

A maior decepção de “Berenice Corta o Cabelo” (se relevarmos o machismo da trama e a obviedade do enredo) é o seu desfecho. A parte final do conto é exatamente aquilo que o leitor médio espera. Não há qualquer novidade ou surpresa de ordem narrativa. Se eu ou você fossemos escrever essa história, na certa a concluiríamos como Fitzgerald fez. Minha decepção é fruto de uma expectativa alta que tinha. Com o fechamento simples e extremamente óbvio, essa história acabou enaltecendo o aspecto infantil e um tanto tolo do seu enredo.

Se esses foram os pontos negativos, não posso deixar de retornar ao ponto mais incrível desse livro da Lote 42: seu projeto gráfico. Os detalhes e os acabamentos fazem dessa obra uma maravilha. O que mais me impressionou foram as ilustrações impecáveis de Mika Takahashi e as fitas de marcação das páginas que simulam os cabelos da protagonista. Incrível! Duvido que “Berenice Corta o Cabelo” não tenha ganhado nenhum prêmio de design.

Assim, fechamos com chave de ouro as críticas literárias do Bonas Histórias neste ano. Em janeiro, retornamos ao blog com mais livros nacionais e internacionais para serem discutidos e analisados em profundidade. Bom Ano-Novo para todos!

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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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