• Ricardo Bonacorci

Livros: O Elefante – O conto infantojuvenil de Aleksandr Kuprin


Quando falamos de literatura russa aqui no Brasil, os nomes dos artistas que vêm à nossa mente, querendo ou não, são geralmente os de Fiódor Dostoiévski, Leon Tolstói, Anton Tchekhov, Vladimir Nabokov, Isaac Bábel, Alexandre Pushkin e Nikolai Gógol. Nessa lista, dependendo do repertório do leitor, podemos incluir mais um ou outro escritor amplamente conhecido. Em comparação com a riqueza e a diversidade da arte literária praticada na Rússia, trata-se de uma simplificação difícil de ser admitida. Por isso, fiquei empolgado quando, ao visitar a Livraria Cultura do Shopping Bourbon Pompéia no último final de semana, me deparei com “O Elefante” (Kalinka). Este conto de Aleksandr Kuprin é um clássico da literatura infantojuvenil russa. Ele não apenas foi lido ao longo do século XX por quase todas as gerações de russos como ainda hoje é leitura obrigatória da criançada na nação mais extensa do mundo.

Se Aleksandr Kuprin é um autor pouco conhecido no Brasil (e em boa parte do planeta), em seu país natal ele é um escritor bastante popular. Sua literatura divide-se basicamente em dois ramos: as histórias engajadas socialmente direcionadas aos adultos, nas quais se denunciam as mazelas das classes menos favorecidas e as injustiças socioeconômicas da Rússia czarista, e as narrativas infantis, que enaltecem o espírito de aventura e as belezas naturais das diferentes regiões do país. No primeiro grupo, destacam-se “O Desafio” (Sem edição no Brasil e as vezes traduzido como “O Duelo”), romance de 1905, “O Bracelete de Granadas” (Globo), coletânea de contos de 1911, e “O Inquérito” (Editora 34), coletânea de contos de 1894. No segundo, temos “Doutor Milagroso” “(Ainda sem edição em nosso país), conto de 1897, “O Poodle Branco” (Também sem publicação no Brasil), conto de 1903, e “O Elefante”.

Publicado em 1907, “O Elefante” foi traduzido no ano retrasado por Tatiana Larkina e integra a coleção MIR, série de pequenas narrativas russas editada em edições bilíngues pela Kalinka. A Kalinka é uma editora especializada na divulgação da literatura da Rússia e dos países do Leste europeu. O interessante é que além do texto original, as obras da MIR permitem aos leitores conhecedores de russo ouvir os áudios das narrações na língua de Aleksandr Kuprin. Isso é possível através do QR Code impresso nas capas dos livros. Muito legal essa iniciativa. Para completar, “O Elefante” ainda possui gravuras de Daniela Mountian que compõem e embelezam o projeto gráfico da publicação.

A trama de “O Elefante” se passa no Outono russo em uma casa de uma família rica. Sacha, um empresário local, e Mancha, sua esposa, são atormentados pela doença da filha de seis anos. Nadiejda, chamada por todos pelo apelido carinhoso de Nádia (diminutivo de Nadiejda em russo), sofre de depressão. Ela passa os dias atirada na cama olhando para o teto. A menina não tem apetite para se alimentar nem disposição para se levantar do leito para brincar ou estudar. A cada dia ela fica mais fraca e magra. Desesperados, os pais consultam mais um médico. O Doutor Mikhail Petróvitch constata que o caso de Nádia é realmente muito sério. A única coisa que ele aconselha Sacha e Mancha a fazer é não deixar Nádia entediada. Os pais devem realizar todos os caprichos da garota.

O problema é que Nádia não quer nada. Ela nunca pede coisa alguma para os pais, permanecendo em seu mutismo característico. Sacha e Mancha tentam agradá-la, mas não conseguem. O panorama muda quando, depois de um certo tempo, a menina pede ao pai um elefante. Sacha sai correndo para comprar um brinquedo desse tipo. Ele compra o presente mais caro que encontra na cidade. Contudo, a garota não fica feliz. Ela quer um elefante de verdade, desses que ela via nos livros, não uma réplica. O pai, à princípio, diz ser impossível trazer um bicho desse porte para casa. Depois de refletir um pouco, ele sai no meio da noite em disparada em direção a um circo.

Após contar com a compreensão do alemão dono da companhia circense, Sacha retorna para o lar na manhã seguinte com Tommy. Tommy é o filhote de elefante que conhece muitos truques capazes de alegrar qualquer criança. Mesmo sendo um filhotinho, ele tem 2,3 metros de altura e 2,8 metros de comprimento, além de pesar mais de 1,8 tonelada. O bichano é alojado com muita dificuldade na sala da casa de Sacha e Mancha. O espanto é geral entre amigos e vizinhos da família. Nádia rapidamente gosta de Tommy e os dois iniciam uma amizade pouco convencional.

“O Elefante” é uma história singela e bonita. Com simplicidade e muita competência, Aleksandr Kuprin retrata em sua narrativa a importância da amizade e do apreço aos animais pelas crianças. Para mensurar a real dimensão deste conto, experimente contá-lo a um menino ou a uma menina. Na certa, eles vão curtir a trama inusitada e um tanto pitoresca. Para os adultos, a parte mais bela é o do seu desfecho. De forma metafórica e sem citações enfáticas, Kuprin mostra aos leitores do que a personagem principal estava de fato padecendo.

Este livro é muito curtinho. Ele possui apenas 64 páginas. Se lembrarmos que a obra é bilíngue (as páginas pares contêm o texto original em russo e as páginas ímpares têm a versão em português), sua leitura se torna ainda mais rápida. É possível concluir sua história em menos de meia hora. No caso de uma leitura mais calma e enfática para uma criança, estime ao menos o dobro desse tempo para a conclusão da publicação.

Como literatura infantojuvenil, “O Elefante” cumpre muito bem seu papel. A mensagem passada é positiva, instigante e bastante contundente. Sua trama e sua moral são universais e atemporais. Em uma narrativa extremamente breve, Kuprin consegue construir uma história sem ornamentos, uma de suas características estilísticas. Além disso, o espírito de aventura do enredo e a trama cativante na perspectiva infantil, outras marcas da literatura de Kuprin, estão presentes na ida do elefante à residência da família de Nádia. Qual criança que não se empolga em cogitar a visita de um bicho de quase duas toneladas em sua casa?!

Esqueça, portanto, as narrativas mágicas e ricamente ilustradas que muitas vezes captam a atenção e o interesse das crianças durante as leituras. As obras de Aleksandr Kuprin voltadas para os pequenos leitores trabalham com a realidade concreta do nosso mundo e com o texto bruto. Na visão do autor russo, as emoções provocadas por boas histórias e as ações inerentes às tramas de aventura são capazes, por si só, de encantar meninos e meninas. É preciso respeitar essa abordagem.

Gostei também da maneira como as personagens foram construídas. Kuprin é o tipo de autor que fala muito sobre suas personagens através de seus atos e de seus pensamentos. Ele não perde tempo com descrições banais (não à toa, ele é um dos grandes contistas russos de todos os tempos). O leitor acaba construindo mentalmente as características psicológicas das personagens sem que o autor precise detalhá-las nas páginas do livro.

Em uma época em que os jovens casais têm cada vez mais filhos únicos (quando os tem) e em um período em que a natureza é artigo inexistente na rotina das famílias cosmopolitas em boa parte do mundo, histórias como “O Elefante” se tornam ainda mais válidas. A amizade de uma menina solitária e depressiva com um animalzinho animado e cheio de vida é uma metáfora belíssima capaz de emocionar até mesmo os corações mais duros.

Há quem relacione essa história aos eventos sociopolíticos da Rússia Pré- Bolchevista. Nessa perspectiva, Nádia seria o povo russo no período czarista: deprimido e angustiado em sua infância injusta e entediante E o filhote de elefante seria um sopro de esperança trazido pelo socialismo marxista. Não é preciso dizer que Aleksandr Kuprin era, em uma fase inicial, um grande entusiasta do comunismo. Contudo, uma vez implementada a União Soviética, ele se decepcionou com as escolhas ideológicas e políticas dos mandatários da nação, preferindo se mudar para a Europa Ocidental, onde morou por muitos anos. Apesar de gostar dessa leitura alternativa da obra de Kuprin, ainda sim prefiro a análise mais elementar de sua trama, na qual a depressão da menina é combatida com a amizade de um animalzinho.

Por que um livrinho curto e simples como este não pode suscitar belezas narrativas, hein? Se você é do tipo exigente e que gosta apenas de leituras adultas, saiba que talvez suas obras favoritas de Kuprin sejam outras. Se você gosta de aventurar-se por tramas infantojuvenis originais e fortes, não vendo preconceitos nisso, “O Elefante” é uma boa opção.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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