• Ricardo Bonacorci

Recomendações: Doze livros para serem lidos em época de Coronavírus


As últimas semanas foram monopolizadas por um único assunto: a pandemia do novo coronavírus (chamado de Covid-19). As conversas entre amigos, as discussões familiares e as pautas jornalísticas parecem girar exclusivamente em torno do recente surto que parou o planeta. A obsessão das pessoas não é por acaso. Diante do medo pela propagação da doença, as rotinas nas grandes cidades do mundo foram completamente alteradas. Há quem tenha optado por ficar em quarentena em casa. Muitos não deixaram de colocar os pés na rua, mas tomaram medidas de prevenção para não serem as próximas vítimas. Estabelecimentos comerciais e públicos foram fechados por tempo indeterminado. O ambiente é, querendo ou não, de medo acentuado e de muita apreensão. Isso ocorre tanto no Brasil quanto em quase todos os países.


Como esses assuntos são de conhecimento público e já estão bastante batidos, fiquei receoso de abordá-los diretamente no Bonas Histórias. Acredito que uma das formas para seguirmos a vida normalmente, sem pânico, é manter boa parte da nossa rotina inalterada. Por isso, o blog segue com a publicação de seu conteúdo literário e cultural mais ou menos intacta (só não consigo falar de cinema, de espetáculos e de exposições artísticas pois eles foram interrompidos). Além disso, com muita gente em casa, a necessidade por dicas do que ler, assistir ou conhecer no âmbito cultural aumentou.


Aí surgiu a ideia de propor obras literárias que, de certa forma, emulassem o clima de paranoia que estamos vivendo nos dias de hoje. Afinal, um dos papéis da literatura é usar a realidade como uma forma de reflexão e de crítica social. Curiosamente, alguns autores conseguiram recriar na ficção parte dos receios e das angústias que estamos vivendo nas últimas semanas. Ou seja, nada melhor do que usar o ambiente pesado da atualidade para mergulhar em ótimas histórias.

Apresentamos, a seguir, uma lista com doze livros ficcionais que abordam o pânico provocado por surtos epidêmicos, grandes tragédias ou caos generalizado na sociedade. Esses enredos simulam o clima apocalíptico provocado pelo medo das pessoas e pela mudança súbita nas engrenagens sociais. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência!


1) “A Peste” (Record) – Albert Camus (Argélia/França):

Uma das obras mais cultuadas de Albert Camus, escritor franco-argelino vencedor do Nobel de Literatura de 1957, A Peste é um romance existencialista publicado em 1947. Nele, Oran, cidade na Argélia colonizada pelos franceses, padece de uma grave moléstia que mata muitos dos seus habitantes. Quando as mortes se tornam incontroláveis, as autoridades francesas decretam medidas drásticas: Oran é isolada do mundo (ninguém pode entrar nem sair do município e a circulação de alimentos, objetos e mercadorias fica interrompida com exterior) e há a decretação do toque de recolher (as pessoas presas ali não podem andar pela cidade). Com isso, o caos se instala. “A Peste” é uma alegoria que utiliza os conceitos da Revolta, princípio filosófico trabalhado por muitos anos por Camus, para escancarar os comportamentos contraditórios das pessoas em meio às graves crises sociais.


2) “Ensaio Sobre a Cegueira” (Companhia das Letras) – José Saramago (Portugal):

Um dos livros mais populares de José Saramago, autor português agraciado com o Nobel de Literatura de 1998, Ensaio Sobre a Cegueirafoi publicado em 1995. Este romance inaugura uma nova fase na literatura saramaguiana: a dos enredos atemporais desenvolvidos em locais indeterminados que debatem filosoficamente questões da sociedade capitalista e da essência humana. Nesta trama, os habitantes de uma cidade padecem de uma epidemia de cegueira branca. Para evitar o contágio, as pessoas que ficaram cegas são isoladas em um prédio que outrora foi um hospício. Com uma forte pegada existencialista, “Ensaio Sobre a Cegueira” é uma parábola ácida e extremamente pessimista sobre a essência humana. O livro mostra como as pessoas (individualmente) e a sociedade (coletivamente) agem em meio ao caos e ao medo.


3) “A Morte em Veneza” (Companhia das Letras) - Thomas Mann (Alemanha):

Publicado em 1912, “A Morte em Veneza” é a novela clássica do alemão Thomas Mann, vencedor do Nobel de Literatura de 1929. Por trás de uma trama homoafetiva, de um enredo com pouca ação e de um texto profundamente polissêmico, descortinam-se temas extremamente atuais. Os sinais de uma epidemia de cólera são imediatamente ocultados pelas autoridades de Veneza para não prejudicar o turismo e a economia (políticos esses que são as versões antigas de Donald Trump e Jair Bolsonaro!). Não é preciso dizer que tal comportamento dos governantes italianos irá provocar tragédias (continuo me referindo ao enredo ficcional!). Nesse cenário, um viajante alemão que está em Veneza se vê apaixonado pela beleza da sua existência e por um homem misterioso. O que fazer nessa situação: lançar-se aos prazeres cotidianos sem pensar no amanhã ou temer a morte que se espreita logo à frente?


4) “A Peste das Batatas” (Pomelo) – Paulo Sousa (Brasil):

Em um dos principais lançamentos editoriais do ano passado no Brasil, A Peste das Batatas é o romance de estreia de Paulo Sousa, jovem escritor paulistano especializado em sátiras político-sociais. Utilizando-se do humor refinado e do olhar acurado sobre a realidade tragicômica do nosso país, este livro apresenta os dramas dos agricultores do Vale das Batatas, região rural fictícia. A partir de uma peste inexplicável, todas as batatas do país se transformam em sal. O caos se instala tanto no campo, onde famílias de bataticultores perdem seu sustento, quanto nas cidades, onde famílias não podem consumir seu tão amado tubérculo. Para piorar ainda mais o quadro, é época de eleições presidenciais e os políticos em Brasília ficam apavorados que a epidemia vá respingar nas urnas. Com inteligência e graça, “A Peste das Batatas” mostra como as epidemias são encaradas pelos brasileiros.


5) “A Dança da Morte” (Suma das Letras) – Stephen King (Estados Unidos):

Quando entrevistado, Stephen King, best-seller norte-americano, confessou muitas vezes que seu romance favorito, entre as dezenas e dezenas de obras que produziu, é A Dança da Morte. Publicado originalmente em 1978 (com 700 páginas) e relançada em 1990 em uma versão ampliada (com 1.200 páginas), “A Dança da Morte” é a saga kinguiana que retrata os dias pós-apocalípticos vividos pela humanidade depois de uma epidemia de gripe exterminar 99,9% da população da Terra. Dividida em três partes, “O Capitão Viajante”, “Na Fronteira” e “O Confronto”, este romance descreve a batalha pela sobrevivência do grupo de pessoas que, por alguma razão, não foram infectadas pelo vírus mortal que causou a quase extinção dos seres humanos. Como é típico da primeira fase da literatura de Stephen King, este livro possui forte maniqueísmo e um desfecho explosivo (dramático-apoteótico).


6) “O Bom Ditador I – O Nascimento de um Império” (Publicação exclusiva em e-book - Kindle) – Gonçalo J. Nunes Dias (Portugal):

Ainda não publicado em versão impressa, “O Bom Ditador I – O Nascimento de um Império” é o ótimo romance de estreia do português Gonçalo J. Nunes Dias. Lançado em 2016, esta obra integra a trilogia “O Bom Ditador” e já contabiliza mais de 10 mil exemplares comercializados em vários países (uma proeza e tanto para um título independente). Nesta trama, o planeta é invadido por seres extraterrestes que exterminam a população das grandes e médias cidades. Assim, só sobra um punhado de pessoas nos pequenos povoados do interior. A partir desta tragédia apocalíptica, os sobreviventes portugueses da aldeia de Castelo Branco iniciam o processo de reconstrução social. Como a justificativa de criar um governo mais democrático e justo, um antigo funcionário público é alçado ao comando de Portugal e passa a agir de maneira déspota. Este é um dos melhores romances que li nos últimos anos.


7) “Não Verás País Nenhum” (Global) – Ignácio de Loyola Brandão (Brasil):

Este é o meu livro favorito de Ignácio de Loyola Brandão, escritor brasileiro vencedor do Prêmio Machado de Assis de 2016. Publicado em 1981, Não Verás País Nenhum é uma distopia terceiro mundista que mistura questões ecológicas, injustiça social e ditadura militar. Tudo isso com toques de brasilidade. O romance futurista se passa em São Paulo no ano de 2003 (quando isso era um futuro e não um passado!). Após uma tragédia ambiental provocada pelo desmatamento da Floresta Amazônica, o Brasil foi dividido em vários Estados independentes. A cidade mais rica do país foi fracionada em distritos (guetos) que limitam a circulação das pessoas. Com um governo ditatorial e opressor, os paulistanos precisam conviver com a pobreza acentuada, a seca permanente e os desmandos de uma elite dirigente míope e tacanha fortalecida pelo quadro apocalíptico. Trata-se de uma obra incrível!


8) “O Amor nos Tempos do Cólera” (Record) – Gabriel García Márquez (Colômbia):

Depois do incomparável “Cem Anos de Solidão” (Record), “Amor nos Tempos do Cólera” é o romance mais conhecido de Gabriel García Márquez, escritor colombiano agraciado com o Nobel de Literatura de 1982. É verdade que dos livros dessa lista sobre epidemias e caos social, O Amor nos Tempos do Cólera, publicado em 1985, é o que mais sutilmente aborda a questão enfocada aqui. O surto de cólera que atingiu Cartagena das Índias, local onde a narrativa se passa, no final do século XIX compõe meramente o contexto do drama amoroso de Florentino Ariza e Fermina Daza. Assim, as personagens do romance não são afetadas diretamente pela doença contagiosa. Porém, o casal de protagonistas se utiliza do pânico dos seus conterrâneos para traçar um dos desfechos mais surpreendentes da literatura sul-americana. Esta é a obra mais engraçada (leia-se: tragicômica) de García Márquez.


9) “Caixa de Pássaros” (Intrínseca) – Josh Malerman (Estados Unidos):

Lançado em 2014, Caixa de Pássaros" foi o romance de estreia do roqueiro e agora escritor norte-americano Josh Malerman. Vocalista e compositor da banda High Strung, Malerman produziu uma obra aterrorizante em um futuro apocalíptico. O resultado mais concreto desta publicação é que ela se tornou um best-seller internacional e foi adaptada mais tarde para o cinema. Nesta história, assistimos ao drama de uma sociedade assolada pelo medo. Com o temor do que há no céu, algo que cega e mata inexplicavelmente a maioria dos cidadãos do planeta que olham para cima, os poucos sobreviventes vivem isolados e totalmente reclusos em suas residências. Sem poder enxergar (as janelas são lacradas e qualquer saída à rua é feita com os olhos vendados), cada família se vira como pode. As principais estruturas sociais foram arruinadas e o quadro é de loucura e de caos pelas cidades.


10) “Decameron” (L&PM Editores) – Giovanni Boccaccio (Itália):

Giovanni Boccaccio construiu o enredo de “Decameron”, clássico da literatura italiana, a partir do surto da peste negra que assolou a Europa no meio do século XIV. Para não pegar a doença, um grupo de dez jovens (sete moças e três moços) resolveu se isolar por dez dias em uma casa de uma vila rural de Florença. Para passar o tempo da quarentena, eles combinaram que, em todas as noites, cada um dos presentes iria contar uma história ao grupo. Assim, nascem os 100 contos do livro. Quase todas as tramas são de amor. Contudo, uma são mais eróticas, outras são trágicas (com requintes de crueldades e de violências), há as cômicas e tem aquelas com fundo moral (lições de moral). Apesar de revolucionário para sua época (sua publicação é de 1353), este livro visto hoje perde um pouco de sua força/graça. Quando o li há alguns anos, achei sua leitura um pouco pesada e com algumas histórias desinteressantes.


11) “Um Diário do Ano da Peste” (Artes e Ofícios) – Daniel Defoe (Inglaterra):

Mais conhecido pelo clássico infantojuvenil “A Vida e as Aventuras de Robinson Crusoé” (Principius), Daniel Defoe lançou, em 1722, um romance singular. Trata-se de “Um Diário do Ano da Peste”. Nele, o autor britânico apresenta os detalhes da epidemia de peste bubônica que abalou Londres na metade do século XVII. Se por um lado temos o registro histórico riquíssimo do que se passou na capital inglesa durante a epidemia que dizimou mais de 70 mil vidas, por outro lado também temos um texto literário envolvente e extremamente agradável (algo, por exemplo, que ficou faltando em “Decameron” de Giovanni Boccaccio e em “A Peste” de Albert Camus). O principal mérito de Defoe, portanto, foi recriar com verossimilhança uma passagem histórica sem que, com isso, precisasse abrir mão do enredo ficcional. Em muitos momentos, há a sensação de estarmos acompanhando um texto jornalístico.


12) “Sob a Redoma” (Suma das Letras) – Stephen King (Estados Unidos):

Quando falamos de isolamento e de cidades sitiadas, o livro que imediatamente vem à minha mente é “Sob a Redoma”, sucesso recente de Stephen King. Publicado em 2009, Sob a Redoma é uma ficção científica calcada em um drama ecológico. Anos depois do seu lançamento nas livrarias, essa história foi adaptada para a televisão, se transformando em uma série. Na versão literária, a pequena cidade de Chester, no estado norte-americano do Maine, sofre um acidente inexplicável e fica isolada do restante do país (e do mundo). Uma gigantesca redoma transparente se forma no céu impossibilitando a entrada e a saída das pessoas. Dessa forma, surgem dois grupos antagônicos em Chester: um é liderado por um político ambicioso e corrupto e o outro é formado por uma jornalista engajada e por um ex-militar misterioso. Diante do caos e das incertezas, os habitantes da cidadezinha interiorana são levados a situações extremas.


Gostou deste post do Bonas Histórias? Para acessar a lista completa dos melhores livros, filmes, peças teatrais e exposições dos últimos quatro anos, clique em Recomendações. E não se esqueça de deixar aqui seus comentários sobre o conteúdo do blog. Siga também a página do Bonas Histórias no Facebook.

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento