• Ricardo Bonacorci

Livros: O Bom Ditador - O Nascimento de Um Império - A estreia de Gonçalo J. Nunes Dias

Publicada em 2016, essa obra do autor português inaugura a trilogia de ficção científica que encanta pela originalidade e pela sagacidade narrativa.

O Bom Ditador - O Nascimento de Um Império é o primeiro romance de Gonçalo J. Nunes Dias da trilogia O Bom Ditador

No finalzinho de 2021, reli “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” (ebook independente), o primeiro romance do português Gonçalo J. Nunes Dias. Eu já tinha lido essa obra há cerca de três anos e confesso que tinha ficado extremamente encantado com sua narrativa. Gostei tanto do texto de Gonçalo que agora quis revê-lo com mais atenção para produzir esse post na coluna Livros – Crítica Literária (o primeiro de 2022!). E novamente fiquei maravilhado com o enredo distópico ambientado em um mundo devastado por um implacável ataque extraterrestre. Sabe aquele título que você lê e pensa: “eu gostaria de ter escrito algo parecido!”. Pois foi exatamente o que se passou em minha mente durante a leitura dessa publicação. Infelizmente, não tenho competência para tal – o que me faz admirar ainda mais os bons escritores que sabem produzir uma boa e criativa história ficcional.


Outro pensamento que tive ao reler “O Bom Ditador” na semana passada foi: “por que não analisei esse romance antes, meu Deus?!”. Pela qualidade do livro de Gonçalo J. Nunes Dias, ele merecia sim ter ganhado um post no Bonas Histórias na época do lançamento. Realmente, foi um vacilo gigantesco da minha parte que espero que o autor português e os leitores do blog me perdoem. Prova maior da dor de consciência que senti ao longo do tempo é que acabei citando esse título algumas vezes no Bonas Histórias. Quem acompanha minhas análises há mais tempo se recordará que comentei rapidamente a excelência narrativa de “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” quando discuti “A Dor do Esquecimento” (Chiado Books), novela do também português José Vieira (pseudônimo da excelente Teresa Vieira Lobo), e quando apresentei o post sobre os “Doze Livros para Serem Lidos em Época de Coronavírus”. Agora tiro esse peso das minhas costas e apresento um post completo sobre a ficção científica com pegada de crítica política e de denúncia socioambiental.


Publicado em fevereiro de 2016 em e-book na Loja Kindle, “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” é o primeiro volume da trilogia homônima. Nessa saga de Gonçalo J. Nunes Dias, acompanhamos a formação, a ascensão e a consolidação de um Estado totalitário português após uma tragédia planetária que dizimou 85% dos seres humanos. A série “O Bom Ditador” é constituída também por “O Bom Ditador II – A Expansão” (e-book independente), romance de 2018, e “O Bom Ditador III – A Sucessão” (e-book independente), romance de 2020. “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império”, que pode ser chamado de “O Bom Ditador I”, representou a estreia de Gonçalo na literatura comercial. Esse livro ganhou uma segunda edição (texto revisado) em junho de 2018, época em que “O Bom Ditador II – A Expansão” foi lançado. Acabei lendo tanto agora quanto há alguns anos a primeira versão do romance, aquela publicada em 2016.

Gonçalo J. Nunes Dias, escritor português

O sucesso dessa distopia de Gonçalo J. Nunes Dias na Loja Kindle foi expressivo, principalmente se entendermos que se trata do trabalho inaugural de um autor independente. “O Bom Ditador I” foi traduzido para o inglês, para o espanhol e para o italiano, o que comprova o potencial literário e a universalidade de sua narrativa. Apesar de ter caído no gosto dos leitores do Kindle em Portugal e no Brasil, Gonçalo ainda não recebeu a devida atenção das editoras de seu país natal. O portfólio do escritor português possui atualmente oito títulos e está disponível essencialmente no formato eletrônico. Se por um lado a ausência de suas obras nas estantes das livrarias atrapalha quem prefira as versões impressas, por outro lado a disponibilidade nas plataformas digitais permite aos leitores lusófonos o acesso rápido e barato à produção dessa promessa da literatura contemporânea em língua portuguesa.


Gonçalo J. Nunes Dias nasceu em Lisboa, em 1977, e atualmente vive no País Basco (Espanha). Formado em Engenharia do Ambiente e Recursos Naturais, ele se lançou efetivamente no papel autoral com quase quarenta anos. De suas publicações, seis são romances – os três da série “O Bom Ditador”, “Manual de Um Homicídio” (e-book independente), suspense policial de 2017, “Amor e Medo no Caminho Santiago” (e-book independente), thriller psicológico de 2019, e “O Paradoxo da Vida” (e-book independente), drama sentimental de 2021 – e dois são narrativas autobiográficas – “Memórias de Um Maconheiro” (e-book independente), de 2020, e “Memórias de Um Adolescente Suburbano” (e-book independente), de 2021. Legal reparar que o escritor lisboeta tem, desde 2016, média superior a uma publicação por ano. Afinal, nos últimos seis anos, ele lançou oito livros.


Aviso desde já a quem for procurar mais informações sobre Gonçalo na Internet e nos veículos de comunicação literários que você não obterá muita coisa. Nota-se que ele é aquele tipo de autor-raiz: gosta de escrever e não se preocupa nem um pouco com a divulgação de seu trabalho fora da plataforma Kindle. Por exemplo, Gonçalo J. Nunes Dias não possui um site próprio (pelo menos eu não achei!), não dá entrevistas (também não achei) e tem atuação tímida nas redes sociais. Em alguns casos, é possível encontrar descritivos bem-humorados (mas totalmente falsos) sobre sua biografia na loja de e-books da Amazon. Minha impressão é que o escritor tem uma carreira de engenheiro ambiental bem consolidada na Península Ibérica e a literatura ficcional é apenas um hobby, uma diversão. Daí seu estilo low profile. Ou é isso ou Gonçalo ainda não foi descoberto pelos críticos literários, não recebendo a devida atenção de quem gosta de boas narrativas (colegas, por favor, abram os olhos para o trabalho desse rapaz!!!).

Livros de Gonçalo J. Nunes Dias

O enredo de “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” se passa em Portugal e começa no feriado de Páscoa de um ano indeterminado. Gustavo, o protagonista do romance, é técnico de informática na Câmara de Vila Franca de Xira, cidade da Região Metropolitana de Lisboa. Aos 37 anos, o funcionário público tem uma rotina para lá de entediante. No mesmo trabalho há uma década, Gustavo se limita a fazer o mínimo necessário. Isso é, ele faz alguma coisa apenas em meio período. No restante do expediente, aproveita para enrolar o quanto der, algo que parece normal entre os funcionários municipais daquela localidade.


Fora do serviço, a vida de Gustavo não é muito melhor. Casado há 13 anos com Marta, engenheira da qualidade de uma indústria de iogurte, ele quase não conversa com a esposa (eles não têm qualquer afinidade nem assunto em comum) e raramente faz sexo com ela. O casal tem dois filhos, Diogo, de 6 anos, e Alice, de 4 anos. A rotina enfadonha de Gustavo se limita aos passeios de bicicleta no final de tarde (para manter a forma), ao cuidado da residência e dos filhos (já que Marta chega geralmente tarde em casa), à leitura de bons livros e a se masturbar à noite.


Esse dia a dia melancólico da personagem principal é interrompido por um acontecimento histórico e inusitado. Um objeto não identificado aparece de repente na Lua, o que causa comoção na Terra. Nenhum governo sabe o que está se passando no satélite natural do nosso planeta e nenhum país se apresenta como responsável pelo pouso daquele OVNI. Por isso, começam a surgir muitos boatos para explicar tal episódio, um prato cheio para os veículos de comunicação no mundo inteiro. Há quem diga se tratar de uma nave extraterrestre em visita ao nosso planeta. Seria, portanto, o primeiro contato de uma civilização inteligente de fora da Terra com os terráqueos. Quem não acredita em E.T. cogita ser alguma manobra militar norte-americana para reafirmar seu poderio tecnológico. E há quem suponha ser algo mais banal, como a simples publicidade de um novo filme hollywoodiano.


Curiosamente, o surgimento de um objeto não identificado na Lua não muda a rotina na Terra. A maioria dos cidadãos continua com suas tarefas cotidianas tranquilamente. Entretanto, Gustavo tem a certeza de que algo de muito grave ocorrerá nos próximos dias, capaz de mudar para sempre a vida de todos no planeta. Para se preparar para os tempos calamitosos que virão, o rapaz bola um plano com Norton e Zeca, dois amigos de Lentiscais, pequena aldeia no interior do país onde o pai de Gustavo nasceu e onde a família mantém um sítio.

Livro O Bom Ditador - O Nascimento de Um Império de Gonçalo J. Nunes Dias

O grupo começa, então, a adquirir itens de primeira necessidade a partir de um manual de sobrevivência criado por Norton: abrigo longe da cidade, água potável, alimentos, remédios, sementes, animais (galinhas, cabras), armas de fogo, materiais para geração de energia (pilhas, painéis de energia solar), manuais informativos (com orientações sobre como fazer as principais atividades da nossa sociedade) etc. O plano dos amigos é transformar as casas de Norton e Zeca e o sítio do pai de Gustavo em Lentiscais em uma espécie de território autossuficiente para quando o planeta colapsar.


Obviamente, a iniciativa de Gustavo é vista com desdém pelos familiares. Os pais de Marta não se cansam de tirar sarro do genro. Mesmo quando o mistério sobre a origem do objeto não identificado na Lua é solucionado, o que poderia corroborar com as ideias e a proposta preventiva de Gustavo, ele ainda é alvo de chacota dos parentes. Contudo, os tempos difíceis que o protagonista vislumbrava realmente chegam. Por causa de seu planejamento minucioso, Gustavo está em posição extremamente favorável para encarar os novos dias. Com uma ambição até então oculta, o técnico de informática se transforma no líder da comunidade de Lentiscais após os acontecimentos apocalípticos que dizimam grande parte do planeta.


Pouco a pouco, Gustavo torna-se não apenas o comandante municipal como vira o homem mais poderoso do distrito de Castelo Branco. Nessa nova posição, ele encara o desafio de ser o político que reintegrará Portugal. Afinal, com a destruição das principais cidades do país e do mundo, os governos e as instituições públicas simplesmente desapareceram. Seria esse o surgimento de um novo Império português, capaz de colocar novamente o povo lusitano no centro do mapa político internacional?


“O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” possui 288 páginas e está dividido em 13 capítulos. Precisei de aproximadamente seis horas e meia para concluir a leitura integral (no caso, releitura) desse livro na última quinta-feira, o penúltimo dia de 2021. Sim, li essa obra de Gonçalo em um único dia (e olha que comecei a lê-la depois do almoço!). O que permite as longas sessões de leitura é a excelência da narrativa de “O Bom Ditador I”. Confesso que não desgrudei de suas páginas depois que comecei a história – foram três sessões de leitura de pouco mais de duas horas cada. Eita, romance bom esse!

Livro O Bom Ditador - O Nascimento de Um Império de Gonçalo J. Nunes Dias

Alguns fatores fazem de “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” uma trama tão encantadora. Em primeiro lugar, temos um protagonista com características de personagem redonda. Gustavo é o típico cara comum com muitos defeitos e muitas qualidades. É, portanto, alguém como a gente. O que o faz especial é ter sido alçado ao poder (por méritos próprios, é verdade) de um jovem e ambicioso Estado pós-apocalipse. Se um dia ele é um simples e preguiçoso técnico de informática, no outro o rapaz se torna o líder visionário e carismático de uma sociedade reformulada. Em sua nova rotina, Gustavo tem intenções aparentemente nobres, mas muitas vezes suas atitudes são controversas. Quanto mais poder ele tiver, mais questionáveis serão seus métodos de governo. Por incrível que pareça, a transmutação do protagonista em uma figura banal em uma espécie de anti-herói não muda nossa consideração por ele. Até o final, o leitor continua torcendo por Gustavo, independentemente dos caminhos que ele percorra. É legal reparar nesse efeito contraditório: torcemos pelo anti-herói.


Por falar nisso, não é todo o dia que podemos acompanhar a intimidade de um líder político tão poderoso. Nesse caso, “O Bom Ditador I” se parece um pouco (repare que usei o termo “um pouco”) com o seriado de televisão “House of Cards” (2013 – 2018) e com o filme “Um Conto quase de Fadas” (The Beautician and the Beast: 1997). Se no âmbito profissional Gustavo é alguém que parece não ter escrúpulos para alcançar o que deseja, no âmbito pessoal e familiar ele se mostra uma pessoa carinhosa, altruísta, afável e caridosa. Como isso é possível, Santo Deus?! Essa dualidade faz os leitores refletirem sobre o quão corrosivo é o poder e sobre a capacidade de transformação que a política exerce nas pessoas. Incrível!!!


E saiba que não é apenas o protagonista que foi bem construído nesse livro. As demais personagens dessa obra também são excelentes constituições ficcionais. Até mesmo os coadjuvantes receberam um cuidado especial por parte de Gonçalo, o que as torna tão especiais e valoriza ainda mais o enredo do romance. Assim, acabamos não percebendo que há muitas personagens em “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” nem nos confundimos sobre quem é quem no meio da história (algo que acontece quando temos muitos indivíduos sendo retratados e/ou quando eles não são bem constituídos). Para completar, nota-se que várias personagens são figuras alegóricas. Temos, nesse caso, o padre, o militar, o banqueiro, o comerciante, o político tradicional, o guerrilheiro, o esquerdista, o burocrata... Parte do charme dessa obra está justamente no caráter alegórico de sua narrativa, algo que o leitor mais atento notará principalmente na segunda metade do livro.

Livro O Bom Ditador - O Nascimento de Um Império de Gonçalo J. Nunes Dias

Outra característica interessante do estilo literário de Gonçalo J. Nunes Dias é a mistura de sumários e cenários em um mesmo plano narrativo. Apesar dessa técnica não ser uma novidade na ficção comercial, é legal notar quando um jovem autor a usa com tanta competência. Isso acontece ao longo de todo o romance. A partir da apresentação de uma cena determinada, o autor português discorre sobre o passado das personagens e contextualiza aquele episódio (sumário). Além disso, é possível constatar a boa velocidade da narrativa. No capítulo 1, por exemplo, já conhecemos à fundo o protagonista e seu drama. No capítulo 2, o objeto estranho já pousou na Lua e desperta alguma curiosidade entre os terráqueos. No capítulo 3, já acompanhamos os preparativos de Gustavo e de seus amigos para o “fim do mundo”, o que soa naquele momento quase como uma paranoia. Ou seja, tudo acontece muito rápido, potencializando o suspense e o mistério do enredo.


“O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” é uma narrativa que mistura vários assuntos simultaneamente: crítica política ao estilo de “1984” (Companhia das Letras) e de “A Revolução dos Bichos” (Companhia das Letras), ambos livros de George Orwell; denuncia ambiental à la “Sob a Redoma” (Suma das Letras), romance de Stephen King; alegoria social que lembra as melhores peças de Ariano Suassuna e de Gil Vicente; crítica à ambição humana ao estilo dos textos de William Shakespeare; reflexão sobre à pseudo evolução da nossa sociedade que nos faz lembrar de “O Conto da Aia” (Rocco), best-seller de Margaret Atwood; e retrato do mundo pós-apocalipse com jeitão de “A Dança da Morte” (Suma das Letras), saga de Stephen King.


Por tudo isso, repare nos detalhes saborosos do enredo desse romance de estreia de Gonçalo. Assistimos ao poderio/decadência da Igreja Católica, à ambição política tomando conta até mesmo das almas aparentemente mais altruístas, à eterna oposição entre esquerda e direita, à manipulação das massas, à criação de líderes populistas, à força dos militares em sociedades pouco evoluídas e à perpetuação do mal em nome do bem coletivo.


A segunda metade de “O Bom Ditador I” é quase um manual didático de como construir um governo ditatorial do zero: (1) abasteça o povo com água e comida; (2) forneça energia elétrica para todos; (3) apodere-se dos meios de comunicação; (4) constitua as bases de um Estado centralizador; (5) receba o apoio da Igreja; (6) construa fortes e sólidas relações com os vizinhos; (7) crie uma força policial forte, inteligente e atuante; (8) colete impostos; (9) institua uma moeda local; (10) crie um banco estatal para fomentar a economia; (11) promova a educação e a saúde; (12) crie e combata um inimigo externo; (13) fortaleça o poder estatal (governo central); (14) persiga e extermine a oposição interna; e (15) promova o culto à personalidade do líder carismático. Tomara que nossos (des)governantes não leiam esse livro! Sorte nossa é que os atuais políticos brasileiros (e seu bando de seguidores cegos) não são chegadinhos nas leituras ficcionais...

Livro O Bom Ditador - O Nascimento de Um Império de Gonçalo J. Nunes Dias

Outro aspecto muito interessante da série “O Bom Ditador” é a intertextualidade com a História de Portugal. Se no passado o pequeno país ibérico foi protagonista mundial e teve um Estado poderoso, rico e com atuação global, assistimos nas páginas da trilogia de Gonçalo J. Nunes Dias à volta dos tempos de supremacia portuguesa. E essa relação entre o passado (real) de sucesso de Portugal e o futuro (ficcional) da nova sociedade portuguesa (conduzida com mãos de ferro por Gustavo) não é por acaso. Ao longo dos três livros dessa saga, o escritor faz várias citações a personagens históricas e a grandes realizações de seus conterrâneos durante os séculos dourados do Reino de Portugal.


Nesse sentido, “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” é quase que a narração da constituição do condado Portucalense e a formação de Portugal como nação. E, seguindo com a mesma analogia, “O Bom Ditador II – A Expansão” e “O Bom Ditador III – A Sucessão” mostraria como o povo lusitano dominou o mundo na época das Grandes Navegações. Obviamente, a diferença é que o trio de romances de Gonçalo é a versão ficcional e contemporânea dessa bonita história, criada a partir da ascensão da região Serrana (parte central do país) e não mais do condado Portucalense (no Norte). Até mesmo a presença e a atuação dos ciganos nos livros do “O Bom Ditador” lembram o papel dos mouros (o conflito da Reconquista). Não é preciso dizer que quem gosta de História irá fazer várias associações!


Por falar em Portugal, é uma delícia para os leitores brasileiros poder acompanhar o texto do romance em português de Portugal. Confesso que já estou habituado às peculiaridades da versão europeia do nosso idioma e que não tive qualquer dificuldade de compreensão (quem manda ficar lendo os originais de José Saramago, José Eduardo Agualusa, José Vieira/Teresa Vieira Lobo, António Lobo Antunes, Ana Teresa Pereira...). Acho que meus conterrâneos também não terão problemas nesse sentido (mesmo quem não estiver habituado à leitura dos textos portugueses). O que garanto é que é sempre prazeroso a degustação das variantes linguísticas do nosso idioma (sejam elas da Europa ou da África). O mais legal é reparar que a narrativa de Gonçalo estar no português de Portugal só reforça ainda mais a intertextualidade histórica da formação do Estado lusitano (nesse caso, a reformação).


Apesar de ser um excelente romance, “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império” não está imune a tropeços de ordem narrativa e textual. O principal deles é em relação ao tipo de narrador escolhido. A trama é relatada em terceira pessoa por um narrador colado ao protagonista. Ele tem acesso ilimitado aos pensamentos, aos sentimentos e as ações de Gustavo. Até aí, beleza! O problema, na minha opinião, ocorre quando o narrador acaba acompanhando cenas em que a personagem principal não está presente ou quando o narrador acessa os pensamentos e os sentimentos de outras personagens. Segundo a Teoria do Foco Narrativo, essa é uma contradição imperdoável da produção ficcional: ou o narrador se torna onipresente e onisciente (se desgrudando do protagonista) ou ele permanece fiel à sua posição inicial (exclusivamente ao lado de Gustavo).


Também temos nesse livro alguns errinhos (poucos!) de digitação e pontuação, que em nada atrapalham a experiência de leitura. Além disso, há uma ou outra inconsistência narrativa (por exemplo, Alice, a filha de Gustavo, ora tem quatro anos, ora tem três anos). Acredito que esses probleminhas são normais em se tratando de um título independente e que tenham sido corrigidos na segunda edição de “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império”. Como li apenas a primeira versão da obra, acabei encontrando-os.

Trilogia O Bom Ditador de Gonçalo J. Nunes Dias

Outro aspecto que fiquei um pouco incomodado e que preciso citar aqui é a falta de unidade visual nas capas da coleção “O Bom Ditador”. Em “O Bom Ditador I”, temos uma ilustração maravilhosa que estampa a arte feita por Suhar Izagirre. Aí quando vamos conferir as capas de “O Bom Ditador II” e de “O Bom Ditador III”, temos projetos gráficos totalmente distintos e que não conversam com o do primeiro volume da trilogia. Sai a ilustração cuidadosa e inteligente e entram as fotos genéricas extraídas provavelmente de algum banco de imagens. Admito que fiquei bastante decepcionado com a falta de cuidado com o visual das capas dos demais títulos dessa série literária.


Só com essa leitura de Gonçalo J. Nunes Dias já fiquei fã do autor português. Por isso, não estranhe se eu continuar analisando os trabalhos dele aqui no Bonas Histórias nos próximos meses. Além de prosseguir na saga de Gustavo e da nação Serrana, estou com vontade de conhecer o romance policial “Manual de Um Homicídio”, o thriller “Amor e Medo no Caminho Santiago” e o drama “O Paradoxo da Vida”. Se esses títulos de Gonçalo tiverem 50% da força narrativa e da excelência ficcional de “O Bom Ditador – O Nascimento de Um Império”, eles serão ótimas obras literárias.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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