• Ricardo Bonacorci

Livros: A Mina de Ouro – A aventura infantojuvenil de Maria José Dupré


Um dos livros mais marcantes da minha infância foi “A Mina de Ouro” (Ática), romance infantojuvenil de Maria José Dupré. Grande sucesso da autora nascida em Botucatu em 1905, este título integra a Série Vaga-Lume, muito provavelmente a mais bem-sucedida e longeva coleção editorial do Brasil quando o assunto é literatura jovem. “A Mina de Ouro” é o quarto livro de Dupré que leio e analiso neste mês no Desafio Literário. Até agora, já foram comentados no Bonas Histórias “Éramos Seis” (Ática), romance histórico de 1943, “A Ilha Perdida” (Ática), livro infantojuvenil de 1944, e “Gina” (Ática), drama de 1945. Nas próximas semanas de maio, ainda virão posts sobre “Os Rodriguez” (Ática), romance adulto de 1946, e “O Cachorrinho Samba” (Ática), trama infantil de 1949.


Passadas quase três décadas da primeira leitura de “A Mina de Ouro”, ainda me recordava com certa exatidão do drama das crianças presas em uma caverna no Morro do Jaraguá. Por que esta obra ficou em minha memória de maneira quase intacta enquanto outras lidas no mesmo período foram totalmente esquecidas?! Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que a narrativa criada por Dupré é excelente. E, depois, eu morava quando garoto em uma casa que dava vista para o Pico do Jaraguá (meus pais ainda moram por lá). Subir o morro sempre foi um dos mais divertidos passeios de minha infância e de minha adolescência. Juro que muitas vezes ia para lá torcendo para ficar preso em uma caverna como as personagens de Maria José Dupré (algo que nunca ocorreu...). Confesso, agora envergonhado, que achava excitante quando a televisão noticiava que um grupo de jovens tinha ficado perdido no meio da floresta do Parque Estadual do Jaraguá por alguns dias. Eita pessoal sortudo, pensava eu com meus botões. Por isso, para mim, “A Mina de Ouro” foi uma leitura meio que catártica. O livro expressava o sonho de aventura que um menino tímido como eu poderia passar perto de casa...


Feita essa pequena retrospectiva e entendido o valor sentimental deste título para mim, não é difícil imaginar minha empolgação ao poder lê-lo pela segunda vez, agora adulto. Surpreendentemente, “A Mina de Ouro” continua, assim como “A Ilha Perdida”, sendo uma obra emocionante e atemporal. Em poucas páginas e de maneira direta, Maria José Dupré construiu uma narrativa com muito mistério, bastante ação e várias surpresas. Dificilmente um jovem hoje em dia não irá curtir uma leitura como esta.

Publicado pela primeira vez em 1946, “A Mina de Ouro” é a quarta narrativa infantojuvenil desenvolvida pela autora paulista. Assim como aconteceu com as obras anteriores de Dupré deste gênero literário, “Aventuras de Vera, Lucia, Pingo e Pipoca” (Saraiva), de 1943, “A Ilha Perdida” e “A Montanha Encantada” (Ática), de 1945, “A Mina de Ouro” acompanha as peripécias da criançada de uma mesma família: Henrique e Eduardo, protagonistas de “A Ilha Perdida”, Vera, colocada em primeiro plano em “Aventuras de Vera, Lucia, Pingo e Pipoca”, e Cecília, Quico e Oscar, coprotagonistas de “A Montanha Encantada”. A novidade agora é que a trupe tem a companhia do simpático e corajoso cachorrinho Samba. Ele substitui Pingo e Pipoca, os cachorrinhos de Vera e Lúcia, que participaram das narrativas anteriores. Ou seja, em todas as histórias da escritora, a meninada está acompanhada de algum bichinho de estimação (no caso de “A Ilha Perdida”, os animais são silvestres, mas ainda sim adquirem o status de bichos de estimação).


Com o sucesso de “A Mina de Ouro”, Samba ganhou grande destaque na literatura infantojuvenil de Maria José Dupré. O cãozinho deu início a uma coletânea própria de novas histórias direcionadas às crianças. A série “Cachorrinho Samba” foi escrita ao longo de duas décadas e possui seis livros: “O Cachorrinho Samba” (Ática), de 1949, “O Cachorrinho Samba na Floresta” (Ática), de 1950, “O Cachorrinho Samba na Bahia” (Ática), de 1957, “O Cachorrinho Samba na Fazenda Maristela” (Ática), de 1962, “O Cachorrinho Samba na Rússia” (Ática), de 1963, e “O Cachorrinho Samba entre os Índios” (Ática), de 1966. Desses títulos, o mais marcante foi “O Cachorrinho Samba na Rússia”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1964 na categoria de melhor obra de literatura infantil.


Há quem opte por colocar “A Mina de Ouro” como um dos títulos da série “O Cachorrinho Samba”. Segundo essa concepção, este livro seria o primeiro volume da coletânea. A Editora Ática fez isso quando relançou, no início dos anos de 2000, as principais obras infantojuvenis de Dupré em uma nova edição com um belíssimo projeto gráfico. Em minha visão, trata-se de um grande equívoco esse tipo de classificação. O famoso cachorrinho, a principal personagem da literatura infantojuvenil de Maria José Dupré, só se tornaria protagonista das narrativas da autora no livro “O Cachorrinho Samba”, esse sim o primeiro livro da série homônima. Em “A Mina de Ouro”, ele é um dos coprotagonistas. O bichinho divide a cena de igual para igual com os meninos e as meninas de sua família. Por isso, não podemos colocar esse livro como um título da coleção.

No mesmo ano em que “A Mina de Ouro” foi lançado, chegou às livrarias brasileiras “Os Rodriguez”, romance adulto de Dupré. Durante toda a sua carreira literária, a paulista intercalou lançamentos de obras adultas com infantis. Em alguns momentos, principalmente na década de 1940, quando sua produção literária atingiu o ápice, ela lançou no mesmo ano um livro para o público maior de idade e outro livro para o público menor de idade. Isso ocorreu, além de 1946, em mais três oportunidades: 1943, 1945 e 1949. Vale a pena lembrar que mais da metade das obras da escritora, onze dos seus vinte títulos, foram publicados na década de 1940. Dessa forma, muitos lançamentos foram quase que simultâneos.


“A Mina de Ouro” começa com os preparativos de Henrique, Eduardo, Quico, Oscar, Vera e Cecília para um piquenique no Morro do Jaraguá em um domingo de abril. O sexteto formado por primos de onze a quatorze anos decide levar também o cachorrinho Samba, que além de fazer companhia à criançada poderá protegê-los. Dessa forma, ainda de madrugada, a turminha acorda cedo e é levada de carro pelo Padrinho até a base do parque estadual da Zona Oeste da cidade de São Paulo. O combinado é que a garotada passe o dia caminhando sozinha pela montanha e esteja de volta no finalzinho da tarde no ponto de encontro estipulado pelo Padrinho. Assim, poderão regressar para a casa de carro em segurança e sem problema.


O passeio dos primos começa muito divertido. A meninada caminha pela montanha aproveitando as belezas da natureza. Na hora do almoço, eles param e fazem a refeição levada por eles em cestos. No piquenique, comem os sanduíches preparados pelos pais e bebem água e refrigerante. Até esse momento, o domingo está sendo excelente. Na hora de prosseguir com o passeio, a turminha encontra algo extraordinário atrás de uma pedra: um buraco grande no chão.


Curiosos para saber aonde aquele caminho leva, as seis crianças e o cachorrinho descem pela fenda no solo. Ali, encontram uma caverna subterrânea. Com a ajuda da lanterna levada por Henrique, o mais velho dos primos e, por isso, nomeado líder da expedição, os meninos e as meninas descem as escadas que levam à caverna. É o início da aventura que ganha tons perigosos quando as crianças, em meio à escuridão, não encontram, depois de alguns minutos de caminhada, o caminho de volta para a superfície. Sem eles perceberem, a caverna tinha várias passagens ao estilo de um labirinto. Para desespero de todos, eles acabam presos no subsolo da montanha.

Enquanto tentam achar a saída da caverna, Henrique, Eduardo, Quico, Oscar, Vera, Cecília e Samba encontram uma mina de ouro (daí o nome do livro!). O subsolo do Morro do Jaraguá é riquíssimo em pedras preciosas. Porém, aquela descoberta em nada servirá se eles não encontrarem um jeito para sair dali. A situação piora sensivelmente para as crianças quando a comida e a bateria da lanterna de Henrique acabam. Para agravar ainda mais a condição já calamitosa do grupo, barulhos estranhos são ouvidos pela garotada o tempo inteiro. Seria aquele túnel subterrâneo moradia de algum animal perigoso? Como os meninos farão para sobreviver no interior da caverna? Conseguirão eles avisar o Padrinho do perigo em que estão metidos? Esses são os maiores desafios que as personagens desta trama precisam encarar.


“A Mina de Ouro” possui 136 páginas. O livro está dividido em trinta capítulos. Um adulto consegue ler este romance em algumas horinhas. Eu, por exemplo, gastei aproximadamente duas horas para concluí-lo na última sexta-feira à noite. Obviamente, uma criança e um adolescente percorrem todas as páginas da obra em um ritmo mais lento. Dependendo da idade do jovem leitor, será preciso mais de um dia para ele finalizar esta leitura.


Como é típico dos romances infantojuvenis de Maria José Dupré, “A Mina de Ouro” é narrado em terceira pessoa. O narrador é do tipo observador que conhece apenas o que as personagens a sua volta veem. Ele não desgruda do grupo de meninos em nenhum momento da história. Esse recurso potencializa ainda mais o suspense da trama. Portanto, não estamos falando aqui de um narrador onisciente e onipresente.


De certa forma, os ingredientes narrativos utilizados por Dupré para a construção de “A Mina de Ouro” foram similares aos usados para o desenvolvimento de “A Ilha Perdida”. Afinal, mais uma vez temos os meninos de uma mesma família presos em um lugar isolado e inabitável. Longe dos adultos, as crianças padecem de fome, frio e medo. Elas precisarão usar a inteligência, a coragem e o trabalho em equipe para sobreviver em um local aparentemente inóspito. Também precisarão encontrar uma saída que os leve de volta à “vida normal”. Se antes isso acontecia em uma ilha aparentemente inabitável, agora a trama se passa em uma caverna misteriosa.

Esse receituário narrativo é criado a partir do ritual do sobrevivente/náufrago. Nesse tipo de narrativa, a(s) personagem(s) precisa(m) passar por algumas etapas: encontrar água, localizar um ponto seguro para pernoitar, fazer/manter fogo, achar comida e, por fim, descobrir uma saída. Qualquer história bem-construída sobre sobreviventes/náufragos obedece obrigatoriamente a essa sequência lógica tanto na literatura quanto no cinema. E Maria José Dupré respeita essas etapas em sua trama. Um leitor atento perceberá claramente essas divisões na narrativa de “A Mina de Ouro”. O uso desse expediente por parte da autora é o que confere verossimilhança à sua história. Por mais que encontremos uma ou outra passagem mais forçada (crianças fazem fogo, aprendem rapidamente a pescar, sabem cozinhar e escolhem as folhas certas para fazer chá), a sensação final do leitor é de estar lendo um conflito narrativo genuíno e intenso.


Outras características deste livro que precisam ser elogiadas são o ritmo veloz das ações e o clima permanente de mistério da trama. Por essas duas perspectivas, podemos dizer que “A Mina de Ouro” é um romance infantojuvenil impecável e com uma proposta extremamente atual. Dupré se mostra uma escritora moderna ao produzir histórias atemporais e com uma estética contemporânea (velocidade e mistério em doses cavalares). Incrível notar que ela fez isso há aproximadamente 75 anos. A literatura de Maria José é tão moderna que não duvido que haja leitores desavisados que acreditem estar diante de uma autora e de um livro do final do século XX.


“A Mina de Ouro” é uma obra tão boa porque o tempo inteiro está acontecendo alguma coisa que atrai a atenção do leitor. O ritmo da narrativa é alucinante. Isso fica evidente já no começo da publicação. Entre os preparativos do piquenique da criançada e o encontro da caverna no meio da montanha são necessárias apenas quatro páginas. Quatro páginas, eu disse! E uma vez embaixo da terra, as personagens se metem em incontáveis aventuras. A impressão que temos é que de um capítulo para outro muita coisa muda. Há sempre alguém sumindo, um novo barulho despertando a curiosidade e o medo da turminha, um novo plano para a fuga e a necessidade de se resolver imediatamente algum problema diferente (fome, frio, fogo, sede, etc.).


Ao mesmo tempo que a trama avança em meio a incontáveis cenas de ação e de aventura, temos a perpetuação do clima de suspense. Isso é mais um dos elementos que dão força e charme a esta narrativa. O mistério permanecerá até o final do romance, quando serão devidamente explicados. O leitor acaba ficando com o coração na boca por quase todo o livro. Saiba que será difícil desgrudar dessas páginas até chegar ao desfecho da história.

E por falar em final, o desenlace deste romance possui uma pegada meio filosófica. Se em “A Ilha Perdida” tínhamos uma proposta de defesa ao meio ambiente e de gratidão pela ajuda do próximo, em “A Mina de Ouro” a questão é sobre o amor à vida. Afinal de contas, o que é mais importante para uma existência saudável e feliz? Como lição de moral, acredito que este livro de Dupré enriqueça a formação pessoal de crianças e adolescentes por falar de liberdade e da busca pelo enriquecimento a qualquer custo. O debate proposto, apesar de parecer um tanto batido para um leitor adulto (que obviamente não é o público-alvo deste tipo de material), é salutar quando direcionado ao público mirim.


Gostei também do “novo” projeto gráfico da Coleção “Cachorrinho Samba” desenvolvido pela Editora Ática no início dos anos 2000. Usei a palavra “novo” na frase anterior porque estava acostumado com a edição da década de 1980 e 1990 da série Vaga-lume, quando li pela primeira vez boa parte das histórias produzidas por Maria José Dupré. Na “nova edição” de “A Mina de Ouro“, temos muito mais ilustrações e um projeto gráfico mais compatível com o público-alvo da obra.


Como pontos negativos deste romance, temos a construção apenas de personagens planas (uma marca da literatura infantojuvenil de Dupré) e a forçação de barra em algumas passagens da narrativa (algo até esperado em se tratando de uma trama de aventura infantil). Quanto à primeira questão, Henrique, Eduardo, Quico, Oscar, Vera e Cecília não possuem, por exemplo, defeitos que atrapalhem o convívio do grupo no ambiente fechado. Todos eles são pessoas perfeitas. É difícil conceber algo assim. Quem assistiu a qualquer reality show de confinamento sabe disso! Os comportamentos e as atitudes dos meninos e das meninas são sempre impecáveis (nota 10 para eles o tempo inteiro e em todos os quesitos). Ao longo dos dias de prisão na caverna, não assistimos a nenhum deslize de ninguém. Difícil acreditar nisso, né?!


Quanto à forçação de barra, me parece pouco crível as crianças (cuidado: aí vai um grande spoiler!) só conseguirem sair da montanha depois de esvaziarem seus bolsos que estavam repletos de barra de ouro. Como assim, alguém fica mais fino quando esvazia os bolsos?! Sinceramente, achei absurda a relação entre conseguir passar por uma fenda e tirar tudo do bolso. Uma autora com o talento e a criatividade de Dupré poderia ter pensado em algo mais factual. Além disso, há outras pequenas passagens que não são compatíveis com o restante da narrativa. Como crianças corajosas e inteligentes que enfrentam um milhão de desafios (fazem fogo, sabem cozinhar e são peritas em pescar, por exemplo) podem pensar que as luzes de dois vaga-lumes (mais um spoiler, cuidado!) são os olhos de um monstro! Difícil conceber algo assim, ainda mais no final da história.

Mesmo com uma ou outra escorregadinha de ordem narrativa, “A Mina de Ouro” continua sendo uma leitura deliciosa até hoje para crianças e adolescentes. Não à toa, ele é o meu romance favorito da Série Vaga-lume.


Na próxima quinta-feira, dia 21, irei analisar no Bonas Histórias o quinto romance deste Desafio Literário. A obra em questão será “Os Rodriguez” (Ática), narrativa adulta de Dupré lançada no mesmo ano que “A Mina de Ouro”. Não perca a continuação do estudo da literatura de Maria José Dupré! Até semana que vem.


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O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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