Livros: Feliz Ano Novo - A polêmica coletânea de contos de Rubem Fonseca

Em 1975, Rubem Fonseca já era um autor consagrado no cenário nacional. Depois da publicação de quatro ótimos livros de narrativas curtas, "Os Prisioneiros" (Agir), "A Coleira do Cão" (Nova Fronteira), "Lúcia McCartney" (Agir) e "O Homem de Fevereiro ou Março" (Nova Fronteira), e um romance, "O Caso Morel" (Biblioteca Folha), o escritor mineiro resolveu radicalizar. Lançou naquele ano "Feliz Ano Novo" (Nova Fronteira), uma coletânea de contos em que potencializava a violência, as cenas de sexo, a desigualdade social e a imoralidade do país. Ou seja, foi mais Rubem Fonseca do que nunca.  

 

O resultado desta ousadia literária foi um novo sucesso de público e de crítica. Em poucos meses, "Feliz Ano Novo" se tornou um best-seller nas livrarias com mais de 30 mil unidades comercializadas em três edições sucessivas. Para interromper a venda de uma obra tão incômoda, a ditadura militar resolveu censurá-la. O ministro da Justiça da época, Armando Falcão, alegou que o livro de Fonseca ia contra a moral e os bons costumes da sociedade brasileira. Com isso, "Feliz Ano Novo" ficou mais de uma década sem ser publicado e vendido no Brasil. Entre 1976 e 1989, quem quisesse adquirir a coletânea de contos precisava comprá-la em versões editadas no exterior. Na França e na Espanha, por exemplo, a obra continuou sendo publicada normalmente.  

 

A censura atrapalhou sim as vendas do livro, mas tornou Rubem Fonseca um escritor ainda mais conceituado perante a crítica literária e aos olhos do público leitor. Indiretamente, a medida radical dos governantes de Brasília (violência maior do que aquela retratada pela publicação proibida) jogou mais luz sob o trabalho artístico do escritor brutalista (algo inversamente proporcional à pretensão dos militares – normalmente, uma obra ganha em dimensão e visibilidade depois de ser censurada). "Feliz Ano Novo" só seria relançado no Brasil em 1989, com o fim da ditadura e a redemocratização do país.

Outra consequência da censura (e da perseguição dos militares contra o escritor) foi a demissão de Rubem Fonseca do cargo executivo que ele ocupava na estatal fluminense de energia elétrica, a Light. Naquela época, ele trabalhava na Light durante o horário comercial e (acredite!) escrevia apenas nas horas de folga e aos finais de semana. A literatura, de certa maneira, era ainda um hobby. Entretanto, uma vez desempregado, Fonseca passou a se dedicar com mais afinco à escrita (ela se tornou sua verdadeira profissão). Assim, inicia-se uma nova fase da carreira do autor: a de romancista. Dedicando-se exclusivamente à arte de escrever, ele passaria a produzir também narrativas longas nos anos seguintes. Ou seja, o tiro dos militares saiu pela culatra. Se era para calar a voz literária de Fonseca, sua demissão do trabalho convencional apenas conferiu mais tempo para ele construir suas tramas policiais. Ainda bem!     

 

"Feliz Ano Novo" possui cerca de 100 páginas e apresenta 15 contos. Suas histórias são: "Feliz Ano Novo", "Corações Solitários", "Abril, no Rio, em 1970", "Botando pra Quebrar", "Passeio Noturno (Parte I)", "Passeio Noturno (Passeio II)", "Dia dos Namorados", "O Outro", "Agruras de um Jovem Escritor", "O Pedido", "O Campeonato", "Nau Catrineta", "Entrevista", "74 Degraus" e "Intestino Grosso".

 

Em "Feliz Ano Novo" (estou agora me referindo ao conto que empresta o nome ao livro), temos o relato de um latrocínio praticado por um trio de homens pobres e sádicos. "Corações Solitários" apresenta o novo trabalho de um jornalista policial que passa a escrever uma coluna sentimental em um jornal destinado às mulheres. Em "Abril, no Rio, em 1970", vemos o drama de um jogador de futebol que sonha em ser descoberto por um olheiro de um time de primeira divisão. "Botando pra Quebrar", por sua vez, trata das angústias sentimentais e financeiras de um homem desempregado.

Em "Passeio Noturno (Parte I)" e "Passeio Noturno (Parte II)", o leitor fica diante de um homem de boa posição social (empresário) que esconde um segredo aterrorizante: seu prazer sádico por praticar violência banal. A vida do outro não tem qualquer valor para ele. Assim, assassina as pessoas como quem vai à padaria comprar pãozinho. "Dia dos Namorados" e "O Outro" narra, respectivamente, um conto do detetive particular Mandrake - personagem apresentada em "Lúcia McCartney" e que seria explorada mais intensamente no romance "A Grande Arte" (Companhia das Letras), publicado na década de 1980 - e a história de um empresário que é incomodado pelo stress do trabalho e por um mendigo que vive lhe pedindo dinheiro. Em "Agruras de um Jovem Escritor", um rapaz aspirante a artista acaba recorrendo a violência após brigar com a mulher.

 

"O Pedido" narra o drama de um português falido no Rio de Janeiro que vai pedir empréstimo para um conterrâneo bem-sucedido. "O Campeonato" é um divertido relato sobre um torneio em que os homens duelam para provar quem tem a capacidade de praticar sexo por mais tempo. "Nau Catrineta" e "Entrevista" apresentam, respectivamente, a história de uma família que tem a tradição de praticar canibalismo e a descrição de uma conversa sincera entre um homem e uma mulher. Por fim, temos "74 Degraus", relato passo a passo do assassinato de dois homens por duas mulheres, e "Intestino Grosso", a irônica entrevista com um autor famoso especializado em romance policial do tipo noir (seria ele Rubem Fonseca?!).

 

"Feliz Ano Novo" é realmente um livro espetacular. É difícil apontar qual é o seu melhor conto. Gosto muito de "Passeio Noturno (Parte I)", "Feliz Ano Novo", "Corações Solitários", "Entrevista", "Campeonato" e "Dia dos Namorados". Ou seja, listei praticamente metade das tramas. Para se ter uma ideia da força narrativa destas histórias, "Passeio Noturno" e "Feliz Ano Novo" estão na lista dos melhores contos da literatura brasileira de todos os tempos. Em qualquer bom ranking que englobe as 100 melhores narrativas curtas nacionais, lá estão estes dois contos de Fonseca. Nada mal, hein?

Quem está acostumado com as tramas de Rubem Fonseca pode se perguntar hoje em dia: afinal, o que tem "Feliz Ano Novo" de tão especial para ter se tornado uma obra tão marcante na carreira deste escritor? O questionamento aparentemente faz algum sentido. Afinal, este livro tem várias das características que pontuam a literatura de Fonseca desde o começo: violência acentuada, erotismo, tramas velozes e cosmopolitas, estilo seco e cortante, humor negro, enredo ao estilo cinematográfico, podridão moral em todas as escalas sociais, clima sombrio e mistura entre o popular e o erudito.

 

O que não percebemos logo de cara é que foi a partir de "Feliz Ano Novo" que Rubem Fonseca potencializou essas características ao extremo. Se até então ele utilizava cada um desses expedientes literários com certa parcimônia, foi depois do sucesso do livro de 1975 e da censura do governo militar que ele passou a abusar dessa receita ao limite máximo. Aí, sua literatura adquire um tom ainda mais marcante, tornando-a inconfundível.

 

De fato, "Feliz Ano Novo" é uma obra singular. Mergulhar no universo de violência, sexo, imoralidade, banalidade e humor de Rubem Fonseca é uma experiência interessantíssima. Vale a pena conhecer esta que é uma das mais importantes obras da literatura contemporânea brasileira. Das coletâneas de contos do autor, este livro é o meu favorito!

 

Dando prosseguimento ao Desafio Literário de setembro, o próximo trabalho de Rubem Fonseca que será analisado pelo Bonas Histórias é "A Grande Arte" (Companhia das Letras), romance publicado em 1983. Essa obra representou a estreia de Mandrake nas narrativas longas. Além disso, esta obra rendeu o segundo Jabuti para o escritor mineiro. O post com os comentários de “A Grande Arte” estará disponível na próxima quinta-feira, dia 17. Até lá!  

 

Gostou da seleção de autores e de obras do Desafio Literário? Que tal o Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para saber mais sobre as Análises Literárias do blog, clique em Desafio Literário. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

Please reload

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Conteúdo Inteligente é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Keli Quitutes
Bonas Histórias | blog de literatura, cultura e entretenimento | bonashistorias.com.br

Blog de literatura, cultura e entretenimento