• Ricardo Bonacorci

Premiações: Nobel de Literatura de 2020 - Louise Glück


Um ingrediente que nunca falta na escolha do Prêmio Nobel de Literatura é a surpresa. Na maioria das vezes, os favoritos dos críticos literários e os queridinhos dos leitores são preteridos pela Academia de Letras da Suécia. Até mesmo quando os preferidos do público são selecionados, o que acontece de vez em quando (ou seria de vez em nunca?), a sensação de surpresa permanece. Afinal, ninguém em sã consciência cogitava que a obviedade fosse, enfim, prevalecer. O imponderável (me lembrei das crônicas de Nelson Rodrigues ao usar esta palavra!) é algo tão marcante na entrega da maior honraria da literatura mundial que, há quatro anos, chegamos ao ponto máximo dessa característica inusitada. O prêmio daquela edição foi concedido para alguém que não era escritor. Ou seja, o vencedor não estava nem mesmo inserido na literatura! Depois desta bizarrice histórica, tenho a impressão de que tudo pode acontecer (e que nada mais conseguirá me chocar tanto).


Honrando a tradição de surpreender o público, o Nobel de Literatura de 2020 foi conquistado pela poetisa e ensaísta norte-americana Louise Glück. Entre as surpresas dos últimos anos, diria que esta foi de nível médio. É verdade que Glück não é um nome tão popular entre as massas. Por outro lado, a escritora nova-iorquina possui um portfólio artístico de qualidade inegável. Anunciado em 8 de outubro, o prêmio renderá a Louise Glück, além da famosa medalha redonda e dourada com o perfil de Alfred Nobel em relevo, a quantia de 10 milhões de coroas suecas (aproximadamente 1,1 milhão de dólares ou 6 milhões de reais).


Assim, mais uma vez, os favoritos ao prêmio ficaram de mãos abanando. Nesta edição, os nomes mais fortes para conquistar o Nobel de Literatura eram, segundo as casas de aposta do mundinho das letras, a canadense Margaret Atwood, autora de “Conto da Aia” (Rocco), o japonês Haruki Murakami, autor de “Norwegian Wood" (Alfaguara) e da trilogia "1Q84" (Alfaguara), a franco-caribenha Maryse Condé, autora de “Eu, Tituba: Bruxa Negra de Salem” (Rosa dos Tempos), o queniano Ngugi wa Thiong, autor de “Um Grão de Trigo” (Alfaguara), a russa Liudmila Ulítskaia, autora de “Mentiras de Mulher” (Relógio D'Água), e o francês Michel Houellebecq, autor de “As Partículas Elementares” (Sulina). Curiosamente, ninguém citava o nome de Louise Glück como uma forte postulante ao prêmio. Daí a nova surpresa.

Se Glück não era uma das favoritas, isso quer dizer que a escolha da Academia Sueca não foi justa, certo? Nananinanão! Nas últimas duas décadas, Louise Glück alcançou o status de uma das figuras centrais da poesia contemporânea em língua inglesa. Aos 77 anos, ela é professora na Universidade de Yale e publicou 12 coletâneas poéticas e alguns ensaios sobre poesia. Glück é também uma das poetisas mais premiadas dos Estados Unidos. Dos prêmios que já tinha conquistado ao longo da carreira, podemos citar o Pulitzer de Poesia de 1993, o Prêmio Bollingen de 2001, o National Book Award de 2014 e a Medalha Nacional de Humanidades em 2015. Seus versos são analisados nas universidades do seu país natal, possuem uma voz inconfundível e tratam normalmente de temas cotidianos como a infância, a vida familiar, a dureza da realidade e os sonhos.


Louise Glück é o primeiro nome da poesia a conquistar o Prêmio Nobel de Literatura desde 2011, quando o sueco Tomas Tranströmer foi laureado pela Academia de Letras da Suécia. Curiosamente, esta é a segunda vez em quatro anos que um norte-americano leva a principal honraria literária do planeta. Em 2016, o músico Boby Dylan foi o vencedor, quebrando, naquela oportunidade, um jejum de mais de duas décadas de seu país sem um Nobel de Literatura. O último escritor dos Estados Unidos a ganhar este prêmio tinha sido a romancista Toni Morrison, na distante data de 1993.


Para o público brasileiro e português, a única nota negativa da escolha de Louise Glück é que não temos nenhum livro seu traduzido para o nosso idioma. Apenas alguns poemas avulsos da norte-americana estão em português. Por terem sido incorporados a coletâneas poéticas multiautorais, eles acabaram traduzidos para a língua portuguesa. É uma pena não termos acesso aos demais trabalhos da poetisa. Contudo, não deverá demorar para as editoras nacionais promoverem as primeiras traduções completas das obras de Glück. Esta é uma das vantagens de ser um autor vencedor do Nobel: o recebimento do prêmio desperta interesses do público, dos críticos literários e dos editores. Foi o que aconteceu, por exemplo, com os livros da polonesa Olga Tokarczuk, vencedora de 2018, e com os títulos do austríaco Peter Handke, vencedor de 2019.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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