• Ricardo Bonacorci

Filmes: Babenco - O representante brasileiro no Oscar de 2021


Quando a Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais anunciou, no mês passado, a indicação de “Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou” (2019) como o representante brasileiro ao Oscar de 2021, confesso ter torcido o nariz. Minha resistência inicial tinha alguns motivos aparentemente claros: (1) tratava-se de um documentário (gênero, queiramos ou não, com menor apelo em relação aos longas-metragens ficcionais); (2) era uma produção de um(a) diretor(a) estreante (pela primeira vez, Bárbara Paz lançava-se na condução dos trabalhos cinematográficos); (3) esse filme apresentava a trajetória pessoal e profissional de Héctor Babenco, um dos principais cineastas do nosso país (minha sensação era que a Academia Brasileira estava homenageando um dos seus...); e (4) não saía da minha cabeça o histórico recente de escolhas polêmicas da entidade responsável pela seleção do representante nacional à maior premiação do cinema mundial (estaríamos diante de mais uma decisão controversa, hein?!).


Preconceito da minha parte? Sim! Essa constatação ficou mais evidente para mim na quarta-feira passada, dia 9, quando fui ao Espaço Itaú de Cinema do Shopping Bourbon Pompéia para assistir a “Babenco”. Bastaram os primeiros trinta minutos de sessão para eu rever totalmente o meu julgamento prévio. Ao final do filme, levantei-me da poltrona com a sensação de que essa foi a melhor indicação brasileira ao Oscar desde “Cidade de Deus” (2002) há quase duas décadas. Se a trama ficcional de Fernando Meirelles promoveu várias inovações cinematográficas naquela época (ao ponto de ser um raríssimo caso de produção estrangeira a ser indicado a quatro categorias do Oscar – MAS NÃO FOI INDICADO AO MELHOR FILME ESTRANGEIRO!!!), o filme de Bárbara Paz traz gratas novidades de ordem narrativa. É até difícil enxergá-lo como um documentário convencional – ele até pode ser um documentário, mas convencional não é, não!


O principal mérito de “Babenco” está em subverter a lógica de seu gênero. Esqueça, portanto, a pegada formal, séria, didática e linear dos documentários. O filme de Bárbara Paz mistura vários planos narrativos em uma única linha de relato. Assim, temos várias dicotomias caminhando lado a lado: realidade (cenas da vida de Héctor Babenco) versus ficção (cenas de sua filmografia); relato da carreira do diretor versus intimidade de sua rotina doméstica; presente (fase idosa, pouco antes de morrer) versus passado (infância, mocidade, início no cinema e auge na carreira); universo onírico (sonhos e fantasias do cineasta) versus brutalidade da vida concreta (doenças, visitas aos hospitais, debilidades física e cognitiva); tom de documentário (entrevistas e imagens de Héctor) versus tom de ficção (encenações do que ele e a diretora gostariam de ver representado na tela); e pegada de produção experimental (Babenco ensina Bárbara Paz a como filmar) e pegada de produção de altíssimo nível (a diretora não estava aprendendo nada, ela já sabia o que fazer desde o início). É ou não é incrível uma construção narrativa tão plural e ousada como essa? Admito ter ficado de queixo caído com essa proposta riquíssima.

Além de representar o Brasil no Oscar do ano que vem, “Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou” conquistou alguns prêmios cinematográficos internacionais. O mais relevante foi o Leão de Ouro do Festival Internacional de Cinema de Veneza de 2019. O filme de Bárbara Paz ganhou o prêmio da crítica independente. Nesse mesmo evento, ele também venceu como melhor documentário sobre cinema. Apesar de sua estreia ter sido em setembro de 2019, no próprio Festival de Cinema de Veneza, “Babenco” só agora chegou ao circuito comercial brasileiro. Até então, ele estava sendo exibido apenas em festivais cinematográficos no país e no exterior.


Esse longa-metragem nasceu de um desejo íntimo de Héctor Babenco, cineasta argentino que escolheu o Brasil como sua pátria. Após passar as últimas quatro décadas filmando – suas produções mais marcantes são “Pixote - A Lei do Mais Fraco” (1980), “O Beijo da Mulher Aranha” (1984) e “Carandiru” (2003) –, ele queria fazer um filme derradeiro. E como tema escolheu seus últimos momentos de vida. “Eu já vivi minha morte. Agora só falta fazer um filme sobre ela”, disse para as câmeras do documentário. Aos 70 anos, Babenco estava muito debilitado e sabia que não restava muito tempo de vida. Ele faleceu em julho de 2016, em São Paulo. Coube a esposa do argentino, Bárbara Paz, realizar e viabilizar seu último pedido.


Nascida no Rio Grande do Sul, Bárbara Paz se tornou conhecida do grande público entre 2000 e 2001, quando participou e venceu o reality show “A Casa dos Artistas”. A partir daí, ela engatou uma carreira exitosa como atriz, primeiro no SBT e no teatro e depois na Rede Globo e no Cinema. Bárbara protagonizou o último filme de Héctor Babenco, “Meu Amigo Hindu” (2016), lançado pouco depois do falecimento do diretor. Como já falei, “Babenco” é o primeiro trabalho de Paz na direção de um longa-metragem.


A atriz-diretora gaúcha e o cineasta argentino se conheceram em 2007. Vindos de relacionamentos longos (ele com a atriz Xuxa Lopes, ela com o ator Dalton Vigh), os dois começaram a namorar naquele ano e, em 2010, se casaram. Entre idas e vindas, a união seguiu até a morte de Héctor. O documentário mostra parte da intimidade do casal e a luta de ambos para vencer as doenças dele. Héctor foi diagnosticado com câncer aos 38 anos de idade. Na época, ele vivia o auge profissional, fora indicado ao Oscar de melhor diretor por “O Beijo da Mulher Aranha”, e ouviu dos médicos que não tinha mais do que alguns meses de vida. Desde então, ele tem feito cinema como uma forma de fugir da morte.

Filmado em preto e branco, “Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou” tem 75 minutos de duração. O filme não tem um enredo linear. Basicamente, assistimos à mistura de trechos da vida de Héctor em 2015 e 2016 (já muito debilitado pela idade avançada e, principalmente, pelas doenças crônicas) com episódios antigos (cenas da infância, da juventude e da plenitude profissional, quando já gravava títulos de destaque). Além disso, a produção ainda insere trechos dos filmes do diretor (curiosamente, as passagens cinematográficas dialogam intimamente com a biografia do cineasta), criações ficcionais (sonhos do argentino, por exemplo) e montagens especiais (reunião dos amigos para um funeral cênico de Héctor).


Um dos elementos que mais chama a atenção em “Babenco” é a sua forte intertextualidade cinematográfica. O filme de Bárbara Paz não apenas presta um tributo à filmografia de Héctor Babenco como também homenageia alguns clássicos da sétima arte. Em relação ao portfólio do diretor argentino, a relação é mais direta. Afinal, assistimos aos trechos dos seus principais trabalhos ficcionais. Nesse momento, ficamos de boca aberta com as atuações inesquecíveis de Paulo José (em “O Rei da Noite”), Reginaldo Faria (em “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia”), Marília Pêra e Fernando Ramos da Silva (em “Pixote – A Lei do Mais Fraco”), Sônia Braga, William Hurt e Raúl Juliá (em “O Beijo da Mulher Aranha), Luiz Carlos Vasconcelos e Milton Gonçalves (em “Carandiru”), Gabriel García Bernal e Paulo Autran (em “O Passado”) e Willem Dafoe (em “Meu Amigo Hindu”). Quanto às citações cinematográficas gerais, aí a pegada é mais sutil. Frases, flashs e músicas fazem referência aos longas-metragens preferidos de Héctor. Obviamente, irá aproveitar muuuito mais o documentário quem conhecer a fundo a trajetória artística de Babenco.


Outro ponto admirável é a atuação/participação de Bárbara Paz no filme. Ela incorpora o papel de diretora e, assim, não tem a vaidade de querer aparecer o tempo todo na frente da tela. A gaúcha não invade o espaço do marido, o verdadeiro protagonista da história. Suas intervenções são certeiras e necessárias. Até mesmo a parte mais apelativa e constrangedora do filme (Bárbara dança nua “Singing In The Rain”) é compreensível. Tratava-se de um pedido de Babenco – ele queria que aquela fosse a última cena em que dirigisse. Em outras palavras, Bárbara Paz não age como Pilar del Río em “José e Pilar” (José y Pilar: 2010). No documentário sobre José Saramago, a esposa espanhola tenta a todo momento escantear o escritor português do próprio filme dele (ela achava que o filme era dela!).

O que mais gostei em “Babenco” foi o tipo de narrativa escolhido. O filme conta a história de seu protagonista por uma linguagem inovadora. Tão importante quanto o conteúdo é a forma como a trama é apresentada ao público. Com uma pegada não linear e um tom aparentemente caótico, o documentário exige certo repertório da plateia e, principalmente, algum grau de concentração do espectador. Dessa maneira, esse não é um longa-metragem para todos os tipos de público. Infelizmente, a maioria dos frequentadores das salas de cinema exige atualmente narrativas de degustação fácil, rápida e empolgante (leia-se: apreciadores de filmes de super-heróis). Se esse é o seu gosto, talvez “Babenco” não agrade tanto. Por outro lado, se você tiver sensibilidade, algum conhecimento cinematográfico e poder mínimo de concentração, na certa ficará encantado(a) com essa experiência audiovisual.


Esse documentário é ao mesmo tempo uma ode à vida e ao cinema. A mensagem de “Babenco” é que a paixão por filmar salvou Héctor da morte precoce. Lembremos o prognóstico médico de quando ele tinha 38 anos! Os poucos meses de vida se transformaram em mais de três décadas de existência. A ânsia por produzir novos longas-metragens, o vício por gravar e a vontade descontrolada em contar histórias acabaram adiando o encontro com a ceifadora. Você até pode não ser fã do cinema de Héctor Babenco (confesso que nunca fui), mas dificilmente você sairá da sessão sem admirá-lo como pessoa e artista.


“Babenco” é um filme simplesmente brilhante. Se a premiação do Oscar fosse pautada exclusivamente pelos critérios técnico-artísticos, diria que essa produção de Bárbara Paz é uma das favoritas à estatueta. Contudo, sabemos o quão político é esse tipo de evento, ainda mais na categoria de melhor documentário. Historicamente, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Los Angeles escolhe seus premiados mais pela temática, pela autoria e pela ideologia das produções não ficcionais. Sob esse ponto de vista, não sei se “Babenco” tem lá grandes chances de sair laureado – talvez seu objetivo seja ficar entre os finalistas, algo que “Democracia Em Vertigem” (2019), de Petra Costa, conseguiu alcançar na última cerimônia. Porém, que o documentário sobre Héctor Babenco merece sim uma estatueta bem dourada, isso também é verdade.


Assista, a seguir, ao trailer de “Babenco – Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou”:

A nota triste da semana é que os cinemas em São Paulo continuam às moscas. Já tinha comentado essa particularidade no finalzinho do post sobre “Tenet” (2020). Na sessão de “Babenco”, na quarta-feira passada, tinha apenas uma pessoa comigo na sala. E olha que se tratava de uma exibição noturna. Nas demais sessões do Espaço Itaú de Cinema do Shopping Bourbon Pompéia, não encontrei mais do que meia dúzia de frequentadores. É de assustar essa debandada das exibições cinematográficas. E não me venha dizer que é precaução contra o Covid-19. Pelo movimento incessante nas lojas dos shoppings nos últimos dias, o povo não parece muito receoso com as possíveis contaminações.


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Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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