• Ricardo Bonacorci

Livros: Minha Mãe Fazia - As crônicas culinárias de Ana Holanda


Em maio do ano retrasado, ganhei de aniversário o livro “Minha Mãe Fazia” (Bicicleta Amarela). Mais uma vez obrigado, Paulinho! O mais legal é que a obra veio com uma dedicatória personalizada feita pela própria autora, Ana Holanda. Impossível não se emocionar com essas delicadezas protagonizadas pelo meu amigo de longa data. Para quem não sabe, Paulinho é Paulo Sousa, escritor de mão-cheia e autor do divertido romance “A Peste das Batatas” (Pomelo) e da coletânea de contos “Histórias de Macambúzios” (série narrativa disponível na coluna Contos & Crônicas do Bonas Histórias). Por me conhecer bem há tanto tempo (são quase quinze anos de amizade), ele sempre me presenteia com algo ligado à literatura brasileira.


Com a empolgação natural para conhecer este título, li “Minha Mãe Fazia” no começo do ano passado. Gostei tanto de seu conteúdo que o reli nesse finalzinho de 2020. Minha releitura tinha um duplo propósito: fazer um post para a coluna Livros – Crítica Literária; e selecionar algumas receitas para as festas de final de ano. Em tempos de famílias confinadas em casa (quem diria que a segunda onda da Covid-19 iria chegar aos trópicos?), nada melhor do que um bom livro de culinária para nos inspirar.


“Minha Mãe Fazia” é uma obra incrível e extremamente original sobre a culinária e a relação afetiva das pessoas com a comida. O mais interessante é que Ana Holanda mistura receitas caseiras extraídas diretamente dos cadernos de sua família com crônicas/memórias afetivas relacionadas à produção e ao consumo desses pratos. Como resultado, temos uma publicação espetacular! Com um texto sensível e introspectivo, degustamos ao mesmo tempo as receitas e a paixão da autora pela cozinha e pelas relações familiares.


Ana Holanda é jornalista há mais de duas décadas e, desde 2011, é editora-chefe da revista Vida Simples, um dos meus periódicos favoritos. Ela também escreve a coluna “Comida de Alma” na Revista Máxima e é professora da The School of Life no Brasil, uma escola de cursos livres com uma proposta bem inusitada. Criadora da Escrita Afetuosa, uma forma mais sensível de construir narrativas ficcionais e não ficcionais,

Holanda realiza workshops e palestras pelo país promovendo seu método de produção textual.

Publicado em 2017, “Minha Mãe Fazia” é o primeiro livro de Ana Holanda. Em 2018, ela lançou outra obra, “Como Se Encontrar na Escrita” (Bicicleta Amarela). Já comentamos, no Bonas Histórias, esse título no início de 2019. Curiosamente, “Minha Mãe Fazia” nasceu de um projeto pessoal e online de Holanda. Em 2014, a jornalista criou uma página no Facebook intitulada “Minha Mãe Fazia”. Ali, ela divulgava as receitas dos cadernos de culinária de sua família. Ao mesmo tempo em que apresentava os pratos e a maneira de como fazê-los, Ana também narrava fatos íntimos relacionados a cada comida e aos ingredientes citados. Cada receita suscitava na autora memórias afetivas vinculadas à infância ou às pessoas amadas. Assim, junto com a descrição de cada prato, o leitor recebia também uma pequena crônica sobre o poder e o encanto da culinária no nosso dia a dia.


O sucesso dessa iniciativa online foi estrondoso. Em aproximadamente dois anos, a página no Facebook já tinha 20 mil seguidores. Ou seja, não é surpresa nenhuma que o conteúdo de “Minha Mãe Fazia” tenha sido transformado em obra impressa e publicado nas livrarias do país.


“Minha Mãe Fazia” é um livro de 240 páginas. Ele possui doze partes: “Receitas que Demandam Tempo”, “Receitas Tiradas da Gaveta”, “Receitas para Colocar a Mão na Massa”, “Receitas para Aquecer a Alma”, “Receitas para Serem Servidas no Pirex”, “Receitas que Favorecem a Conversa ou Aquietam o Coração”, “Receitas para Aproveitar o Melhor das Frutas”, “Receitas para a Lancheira”, “Receitas de Comidas para Presentear”, “Receitas Fáceis Demais”, “Receitas para Refeições em Família” e “Receitas que nos Levam para as Nossas Raízes”. Cada seção apresenta de quatro a oito pratos. Ao todo, a obra disponibiliza 68 receitas. A maioria é de pratos doces (bolos, brigadeiros, brownies, geleias) e salgados (carnes, sopas, massas, tortas, salgadinhos, pães, suflês, cuscuz, lanches), mas há também receitas de chá e de calda/cobertura.

Li “Minha Mãe Fazia” em duas noites na semana retrasada. Comecei sua leitura na quarta-feira e na quinta já a tinha concluído. Devo ter levado aproximadamente seis horas para percorrer todas as páginas desta obra. Por se tratar de um texto leve, divertido e muito bonito, a leitura é bem rápida. Sinceramente não sei o que é melhor: as receitas ou as crônicas. Ambos os conteúdos são impecáveis. Como sou fã de crônicas e da Escrita Afetuosa de Ana Holanda, no início fiquei mais propenso em dizer que eram as narrativas da autora a minha parte favorita. Contudo, na sexta-feira à tarde me peguei com o livro aberto fazendo o brownie (da página 167) e a tapioca de queijo de coalho (da página 223). Aí a dúvida voltou com força.


Esta publicação é, obviamente, para quem gosta de culinária e de comida caseira, mas também para quem se interessa por uma narrativa sensível e introspectiva. O jeito de Holanda de contar sua relação afetiva com cada prato, com cada comidinha e com cada ingrediente é realmente demais! Ela fala de tudo um pouco: relacionamentos, medos, frustrações, família, trabalho, infância, envelhecimento, criação dos filhos, sonhos etc. Tudo isso é embalado pela experiência de se sentar à mesa com as pessoas que você ama ou simplesmente ir para a cozinha e preparar algo que torne o dia delas mais feliz.


Além do texto maravilhoso e das receitas imperdíveis, “Minha Mãe Fazia” possui um projeto gráfico deslumbrante. Este livro tem um visual de tirar o fôlego. Se eu disser que esta publicação é a mais bonita (ou uma das mais belas, para não parecer tão exagerado) que passou por minhas mãos nos últimos doze meses, isso não será nenhum absurdo. As ilustrações de Laura Nogueira são encantadoras. Os desenhos da ilustradora carioca estão no meio das crônicas e no início de cada seção. Repare em cada detalhe visual desta obra. Cada pequeno item da diagramação ou do projeto gráfico servem para impressionar o leitor. A sensação é de estarmos acompanhando Ana Holanda na preparação de suas receitas. Além disso, a colocação de uma menina em muitas ilustrações aumenta ainda mais a intimidade entre leitor e texto. Minha impressão era de estar vendo a filha da autora na cozinha enquanto Ana preparava os quitutes para a gente.

“Minha Mãe Fazia” é o melhor exemplo de como podemos ser originais na produção de um título com uma proposta aparentemente batida. Afinal, pensariam muitos escritores, como elaborar um livro de receitas sem cair nas velhas fórmulas? Como diferenciar uma obra de um gênero que inunda as livrarias brasileiras há mais de um século? Impossível, alguém mais afoito poderia responder. Não para Ana Holanda, garanto. A jornalista simplesmente subverte a lógica por trás desse tipo de livro e apresenta aos leitores algo realmente novo, intenso e emocionante. Uma vez conhecendo “Minha Mãe Fazia”, juro que não imagino uma publicação sobre culinária com um formato melhor do que este.


O livro de Holanda é tão interessante, mas tão interessante, que acredito que ele agrade até mesmo os leitores pouco chegados à cozinha ou que não possuam qualquer habilidade culinária. Como isso é possível?! Simples: as crônicas da autora são tão legais, mas tão legais, que elas sozinhas já valem, por si só, a leitura da obra. Se você vai ou não fazer as receitas apresentadas nas páginas de “Minha Mãe Fazia”, isso realmente não importa. O importante é conhecer as narrativas da jornalista sobre sua relação com a comida. É impossível não se emocionar com elas.


Outro aspecto que precisamos elogiar neste livro é o uso da Escrita Afetuosa por parte de sua autora. Nota-se que Ana Holanda não fica apenas na teoria quando enaltece a importância da produção de textos mais intimistas, descontraídos e emotivos (conforme apresentado em “Como Se Encontrar na Escrita”). Os leitores da Vida Simples já sabem disso, mas ver esses princípios aplicados também em um livro de receitas é uma experiência espetacular.

Admito ter ficado tão empolgado com esta leitura e com os textos de Ana Holanda que certamente comprarei, sem titubear, a próxima obra que ela vier a lançar, independentemente do tema. Física quântica, astrologia, respiração cutânea em moluscos, relação da besta com o apocalipse, importância do trabalho dos paparazzi, principais fofocas do mundo artístico ou contribuições da mitologia grega para a ciência moderna... Não importa o assunto. Acredito que Holanda saiba extrair beleza de qualquer temática. Seus textos e sua Escrita Afetuosa são maravilhosos e devem ser conhecidos por quem tem bom gosto e sensibilidade narrativa.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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