• Ricardo Bonacorci

Músicas: A Lenda dos Três Pinheiros - Os mitos de Campos do Jordão em versão musicada

A banda Alquimistas Sonorus lançou a canção que narra a lenda mais antiga da cidade da Serra da Mantiqueira.

A Lenda dos Três Pinheiros é a música da banda Alquimistas Sonorus

Nos últimos anos, algumas músicas famosas foram transformadas em filmes. De cabeça, dá para citar “O Menino da Porteira”, canção imortalizada nas vozes de Sérgio Reis e Tião Carreiro, “Faroeste Caboclo” e “Eduardo e Mônica”, dois hits da Legião Urbana. Essas músicas migraram para o cinema com certo êxito. Há também episódios verídicos da esfera política que ganharam versões musicadas e com uma pegada de protesto. “Micheque” dos Detonautas é provavelmente a melhor exemplificação desse processo criativo. A inusitada criação do grupo de rock carioca chegou a figurar na quinta posição entre as mais tocadas no Spotify no segundo semestre de 2020.


Agora, se alguém pedir para listarmos uma canção contemporânea que foi desenvolvida a partir de uma lenda colonial fica mais difícil de apontarmos, né? Exatamente por isso, a ideia de fazermos hoje, na coluna Músicas, um post sobre a canção “A Lenda dos Três Pinheiros”. “A Lenda dos Três Pinheiros” foi gravada, no comecinho de 2021, pela banda Alquimistas Sonorus e sua letra conta a lenda mais antiga de Campos do Jordão. Como a história por trás dessa música é ótima, não podíamos deixar de comentá-la aqui no Bonas Histórias. Então aí vai a narrativa que inspirou a letra dessa canção.


Cidade paulista localizada na Serra da Mantiqueira, Campos do Jordão foi fundado em 1874 e é considerado o município brasileiro de maior altitude (está a mais de 1.600 metros do nível do mar). A lenda jordanense mais antiga remonta aos tempos do Brasil Colônia, quando o povoado ainda não tinha sido criado oficialmente, mas já era habitado e visitado regularmente por fazendeiros e aventureiros ambiciosos.

Músicos da banda Alquimistas Sonorus

Em 1790, consta que o desbravador português Ignácio Caetano Vieira de Carvalho chegou à região e iniciou uma intensa disputa por terras. Como não havia autoridade pública por perto nem um sistema de posse da terra confiável, as disputas territoriais eram decididas na base do grito e da pistola. Os principais adversários do recém-chegado eram os indígenas locais e João Costa Manso, um fazendeiro poderoso que já tinha fixado residência em Campos do Jordão há alguns anos (e, por consequência, apropriado grandes extensões de território).


Enquanto brigava por hectares de terra no alto da montanha que separa os estados de São Paulo e Minas Gerais, Ignácio Caetano Vieira de Carvalho tinha medo de perder a fortuna que havia amedalhado até ali. Como precaução, ele teria enterrado sua riqueza em um baú aos pés de três araucárias, a árvore símbolo da Serra da Mantiqueira. Para ninguém saber a localização exata do baú, o português matou os escravos que o ajudaram a enterrar a fortuna. Quando Vieira de Carvalho morreu em 1823, em uma disputa armada que também vitimou seu maior inimigo, João Costa Manso, sua riqueza ficou então oculta embaixo do solo.


Há quem diga que muitos aventureiros foram para Campos do Jordão ao longo do século XIX para tentar desvendar o paradeiro da riqueza de Ignácio Caetano Vieira de Carvalho. Há também quem diga que alguns moradores do Alto da Boa Vista, um dos bairros da cidade paulista, viam o fantasma do desbravador português nas noites de sexta-feira. Com roupas pretas e montado em um cavalo, o espírito de Vieira de Carvalho gritava os versos: “Lomba larga/três pinheiros/onde estão/meus dinheiros?”. Essa história é tão marcante em Campos que as tais três araucárias dessa lenda foram parar no brasão do município. E lá estão até hoje, o que ajudou a propagar essa narrativa dos tempos coloniais.

Cidade de Campos do Jordão

Em 2021, a lenda do tesouro de Ignácio Caetano Vieira de Carvalho foi desenterrada. Ao menos simbolicamente, né? Essa trama histórica foi musicada pela banda Alquimistas Sonorus. Natural de Campos do Jordão, o quinteto de músicos do Alquimistas Sonorus é formado pelo vocalista Mauro Alquimista, pelo baixista Jefferson Joker, pelo baterista Jorge Campos Alquimista e pelos guitarristas Marcelo Alquimista e Punk Alquimista. Pelo sobrenome em comum da maioria dos integrantes, deu para perceber que estamos falando de músicos de uma mesma família.


Com o apoio da lei Aldir Blanc, os Alquimistas Sonorus gravaram “A Lenda dos Três Pinheiros” no início desse ano. A banda lançou inclusive um clipe com essa música em março. O grupo iria apresentar essa canção em alguns eventos em Campos do Jordão ao longo de 2021, mas a nova onda da pandemia do coronavírus atrapalhou os planos (ou, na melhor das hipóteses, adiou um pouco as apresentações).


A musicalidade da banda Alquimistas Sonorus é diferenciada. Eles misturam vários estilos musicais em uma experiência sonora única. Confesso que não consegui até hoje defini-los a partir de uma classificação pré-determinada. Por isso, prefiro enxergá-los como um grupo experimental.


Veja (e ouça!), a seguir, “A Lenda dos Três Pinheiros”:

Em “A Lenda dos Três Pinheiros”, a sensação é de estarmos ouvindo uma música com aspecto colonial. As batidas fortes e os gritos roucos (quase sussurros de desespero) representam, de alguma forma, a violência e a dureza da vida que se levava no alto da montanha paulista entre os séculos XVIII e XIX. A letra, por sua vez, dialoga diretamente com o mito da fortuna de Ignácio Caetano Vieira de Carvalho. O clipe foi gravado na própria Serra da Mantiqueira (o que rende imagens de tirar o fôlego da paisagem local) e brinca com as histórias do fantasma do rico desbravador português (repare no desfecho do vídeo). Nas tomadas dos músicos tocando a céu aberto é possível ver ao fundo a Pedra do Baú, um importante ponto turístico da região (e destino imperdível para quem gosta de fazer trilhas montanha acima!).


Achei muito interessante a proposta da banda Alquimistas Sonorus e da música “A Lenda dos Três Pinheiros”. É muito legal ver/ouvir músicos com ideias diferentes e estilos tão inusitados.


Que tal este post e o conteúdo do Blog Bonas Histórias? Seja o(a) primeiro(a) a deixar um comentário aqui. Para acessar os demais posts sobre o universo musical, clique em Músicas. E não deixe de nos acompanhar nas redes sociais – Facebook, Instagram, Twitter e LinkedIn.

A Editora Pomelo é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Dança & Expressão é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
Eduardo Villela é Eduardo Villela é book advisor e parceiro do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento

Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

bonashistorias.com.br

Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

Mandarina é a livraria diferenciada que está localizada em Pinheiros, na cidade de São Paulo
BonaBelle Design & Organização é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento
A Epifania Comunicação Integrada é parceira do Bonas Histórias, blog de literatura, cultura e entretenimento