• Ricardo Bonacorci

Músicas: Kevin Johansen - O melhor do pop rock argentino

Cantor e compositor portenho mistura diferentes gêneros musicais e traz leveza e bom humor à música latina há duas décadas.

Kevin Johansen, músico argentino de pop rock

Desde que morei em Buenos Aires entre 2004 e 2005, acompanho a músicaargentina com bastante entusiasmo. Não à toa, vire e mexe, eu comento na coluna Músicas algumas bandas e cantores do país hermano. Para ser sincero, após essa rápida experiência portenha, trouxe o gosto não só pelas canções em espanhol, mas também por várias outras manifestações artístico-culturais de lá. Posso citar o cinema (reconheçamos sem bairrismo: os filmes argentinos são muito superiores aos nossos!), os times de futebol (“Muchachos, traigan vino juega la Acade/Que esta banda esta de fiesta/Y hoy no podemos perder/Muchachos, traigan vino juega la Acade/Me emborrarcho bien borracho/Si el Rojo se va a la B”), a carne (ojo de bife con papas fritas, por favor), a literatura (¿Jorge Luis Borges o Julio Cortazar? ¡No sé decir!), a eclética arquitetura de Buenos Aires (A Avenida de Mayo é espetacular!) e as livrarias de rua (cada bairro parece ter no mínimo uma; sempre escolhia aquelas que vinham integradas a um café elegante e gostoso!).


Poderia passar um dia inteiro falando sobre minhas descobertas e preferências em terras argentinas, mas preciso ter foco. Foco, Ricardinho!!! Como estamos na coluna Músicas, não posso desviar do assunto principal desse post do Bonas Histórias. Voltemos, então, à música portenha. Até o final do ano retrasado, meu cantor argentino preferido era Vicentico. Já contei a história de como conheci as canções dele aqui no blog. De forma resumida, digo que foi pelas rádios dos restaurantes, cafés e kioscos do subúrbio da Grande Buenos Aires que visitava diariamente. Antes que alguém pense que eu era um alcóolatra que não tinha amor à vida por frequentar cidades barras-pesadas do país vizinho, alerto que eu trabalhava na época como executivo de vendas (minhas visitas a estes estabelecimentos faziam parte da minha rotina profissional). Aí, ao invés de prestar atenção nos que os clientes e os vendedores da minha equipe falavam, eu preferia dar ouvidos às canções que tocavam ao fundo. Não é preciso dizer que minha carreira em Vendas não durou muito, né?


Porém, em algum momento de 2019 (quando o mundo ainda caminhava sem surtos pandêmicos), aconteceu a troca na primeira posição de minhas preferências musicais. Vicentico foi, enfim, superado por Kevin Johansen no meu (nada convencional) ranking da música argentina. O responsável por me apresentar as canções de Johansen foi meu amigo Pablo (abraços, Pablito!). De longe, ele começou a me enviar algumas faixas de Kevin Johansen. Acho que até hoje, Pablo não se conformava de eu ainda continuar ouvindo o integrante da banda Los Fabulosos Cadillacs. E não demorou para eu perceber que ele tinha razão. Johansen não é apenas um ótimo cantor e compositor – ele tem uma música muito mais interessante.

Kevin Johansen

Acho que a mudança de preferência musical não poderia ter sido mais abrupta. Se Vicentico é um músico mais tradicional que dialoga com o público simples da periferia e faz canções mais comportadas, Kevin Johansen é um artista mais moderno que fala para a moçadinha descolada de Palermo Soho, Palermo Hollywood, Puerto Madero, Recoleta e Montserrat e faz várias experimentações musicais. Suas letras bem-humoradas e seu ritmo contagiante me ajudaram muito a encarar os meses enfurnados dentro de casa em São Paulo (após a Covid-19 bater por aqui). Se eu fosse bolsonarista (só de pensar nisso me arrepio todo!), acho que soltaria uma fake news no WhattsApp informando que as músicas de Johansen ajudam no tratamento precoce do novo coronavírus.


Curiosamente, Kevin Johansen não nasceu na Argentina. Ele é natural do Alaska, o estado mais setentrional (e frio) dos Estados Unidos. Sua família (pai norte-americano e mãe argentina) morava nas terras geladas ao noroeste do Canadá quando Kevin veio ao mundo, em junho de 1964. Contudo, os Johansen não ficaram muito tempo no Alaska. No final dos anos 1960, eles se mudaram para o Arizona (que diferença de temperatura, Santo Deus!). Com a separação dos pais no começo da década de 1970, Kevin se mudou, ao lado da mãe e da irmã mais nova, para a Califórnia e, mais tarde, para Buenos Aires.


Assim, o futuro cantor passou a viver desde os doze anos na capital da Argentina. Por isso, Kevin Johansen tem dupla cidadania (é norte-americano e argentino) e tem dois idiomas maternos (é fluente tanto em inglês quanto em espanhol). Ele voltaria a morar nos Estados Unidos na década de 1990, dessa vez em Nova York. Kevin foi para a Big Apple porque sua primeira esposa, uma bailarina argentina, entrou para uma companhia de dança de lá. Nessa época, ele trabalhou como garçom, guia turístico e tradutor, enquanto atuava informalmente como músico (tocou e cantou por alguns anos em um bar nova-iorquino).


É importante dizer que, desde a adolescência, Kevin tocava violão (e depois guitarra) e criava suas próprias letras musicais. Entretanto, a música pairou como um hobby ou uma atividade profissional pouco lucrativa por muitos anos. Ainda na juventude, ele integrou uma banda argentina de rock, o Instrucción Cívica, mas não obteve êxito. Anos mais tarde, já trintão, ao se tornar vocalista de uma banda amadora em Nova York, Kevin Johansen vislumbrou novamente a oportunidade de seguir os caminhos da carreira musical (um sonho que talvez nunca tenha abandonado, apenas ficara adormecido).

Kevin Johansen

Com o fim do casamento, em 2000, Johansen regressou para Buenos Aires (onde mora desde então, agora ao lado da segunda esposa e dos quatro filhos) e apostou todas as fichas na música. Depois de criar a banda de pop rock The Nada (que o acompanha até hoje!), Kevin Johansen lançou seu primeiro álbum. O título do disco de estreia é uma homenagem à banda recém-formada: “The Nada” (2000). E que álbum foi esse, hein?! Misturando inglês e espanhol (uma das marcas do estilo de Johansen), o debute do artista reuniu três de suas faixas mais conhecidas (e divertidas) até hoje: “Guacamole” (a minha favorita!), “En Mi Cabeza” e “Mc Guevara's o Che Donald's”.


Nos sete anos seguintes, Kevin Johansen lançou outros três álbuns inéditos: “Sur o no Sur” (2002), “City Zen” (2004) e “Logo” (2007). “Sur o no Sur” foi indicado ao Grammy Latino como melhor álbum em língua espanhola e reunia três canções memoráveis, a própria “Sur o no Sur” (que empresta seu nome para o título do disco), “Cumbiera Intelectual” (uma de minhas favoritas) e “Daisy” (que se transformou em um dos videoclipes mais hilários do artista). “City Zen” traz a impecável “Desde que te Perdí” e as ótimas “Buenos Aires Anti-Social Club” e “Milonga Subtropical”. Além da belíssima faixa homônima, “Logo” apresenta “Anoche Soñe Contigo” (outra das minhas favoritas!) e as boas “Susan Surrender” e “Fantasmas de Carnaval”. Sem dúvida nenhuma, essa foi a fase mais prolífica da carreira do cantor e compositor argentino – quatro discos (e vários sucessos) em sete anos.


De 2007 a 2016, Kevin Johansen diminuiu o ritmo dos trabalhos e priorizou a vida pessoal. Vale a pena dizer que, em 2006, ele se casou com María Laura Franco, sua segunda esposa. E nos anos seguintes, nasceram os filhos do casal. Por isso, Johansen só lançou, nesse período, apenas um disco original (duplo), “Bi” (2012). As melhores músicas desse trabalho são “Fin de Fiesta”, “Baja a la Tierra”, “No Digas Quizás”, “Modern Love” (sua versão dessa conhecida canção ficou excelente!) e “Amor Finito”. Para aplacar um pouco a saudades do público e sua vontade de subir aos palcos, ele gravou duas coletâneas de antigos sucessos: “Kevin Johansen + The Nada + Liniers = Vivo en Buenos Aires” (2010) e “Kevin Johansen + The Nada + Liniers = (Bi)vo en México” (2014). Se já sabemos que o The Nada (mencionado nos títulos das coletâneas) é a banda que acompanha Johansen, Liniers, por sua vez, é o quadrinista e grafiteiro argentino Ricardo Liniers. Ele acompanhou os músicos nos shows de gravação desses dois álbuns (enquanto o cantor e a banda tocavam no palco, Ricardo Liniers ilustrava painéis ao fundo).


Nos últimos cinco anos, Kevin Johansen lançou dois álbuns: “Mis Américas” (2016) e “Algo Ritmos” (2019). “Mis Américas” foi indicado ao Grammy Latino como melhor álbum em língua espanhola e traz a canção “Es Como El Día”. Essa faixa foi gravada com Miranda Johansen, a filha mais velha de Kevin. Já os destaques de “Algo Ritmos” são “Mi Querido Brasil”, gravado com Maria Gadú, Jorge Drexler e Kassin, “Solo Le Dije” e “Cuentas Claras”. Nota-se, nesses últimos trabalhos de Johansen, um maior flerte do músico argentino com artistas internacionais. Além disso, suas canções estão com uma pegada mais séria e tradicional (em outras palavras, ficaram mais comerciais!). Sinceramente, gosto mais das maluquices interpretativas, das dancinhas ensaiadas, do humor escrachado, do ritmo mais alegre, das letras inteligentes e das misturas anárquicas da primeira fase da carreira de Johansen (aquela que foi de 2000 a 2007).

Kevin Johansen

Por falar nisso, o estilo tradicional de Kevin Johansen mistura vários gêneros musicais. Ele faz a linha pop rock (como quase todos os principais cantores e bandas argentinos – a música portenha é monocórdia e se limita ao Rock, ao Rock e ao Rock), mas flerta com o punk, o country e a música romântica. Suas letras falam de amor, das agruras da vida moderna e dos relacionamentos conturbados. Tudo isso com muito bom humor, leveza, intertextualidade cultural e uma melodia impecável. Para o público brasileiro entender melhor sua pegada e seu portfólio artístico, Johansen é uma espécie de Zeca Baleiro argentino (mistura vários ritmos e fala de maneira original e inteligente dos sofrimentos amorosos) com pitadas de Jorge Ben Jor (música divertida e contagiante) e de Hebert Vianna (pelo humor escrachado).


Por falar em humor, as letras de Kevin Johansen são hilárias. Destaque para “Guacamole” (não há nada mais argentino do que misturar comida, futebol e família – sempre lembro dos longos almoços de final de semana dos portenhos quando ouço essa música), “Cumbiera Intelectual” (que pode ser vista hoje em dia como uma letra machista pelas feministas mais radicais – o que elas não veem como machista, né?), “Mc Guevara's o Che Donald's” (misturar Che Guevara com Ronald McDonald's é espetacular!) e “Sur o no Sur” (referência direta à famosa frase existencialista de William Shakespeare).


Quando as letras das canções não são divertidas por natureza (o que acontece às vezes), Kevin Johansen e o The Nada tratam de transformar a experiência musical em algo muito engraçado. Como eles fazem isso? Através de interpretações inusitadas (como em “Fin de Fiesta” e “El Incomprendido”), de dancinhas criativas (com em “Logo” e “S.O.S. Tan Fashion – Emergency”) e de videoclipes hilários (como em “Daisy”, “Anoche Soñe Contigo” e “No Diga Quizás”). Essa combinação é a responsável por divertir e surpreender o público, principalmente nos shows ao vivo (quando a plateia compra a brincadeira e dança e canta junto com os artistas no palco).


Nesse sentido, é nítida a boa química entre Johansen e os integrantes do The Nada. Basta assistir aos videoclipes de “Fin de Fiesta”, “No Diga Quizás” e “Sur o no Sur” para entender o que estou dizendo. A banda é parte fundamental da experiência musical de Kevin Johansen. Não por acaso, ela está com o cantor e compositor há 21 anos.


Se você quiser conhecer mais do trabalho desse músico argentino, aí vão as minhas quinze músicas preferidas de Kevin Johansen. Espero que você curta. Eu, pelo menos, fiquei fã de carteirinha do estilo amalucado e despojado de Johansen:


15º) “Es Como El Día”:


14º) “Amor Finito”:


13º) “Baja a la Tierra”:


12º) “Logo”:


11º) “Modern Love”:


10º) “Mc Guevara's o Che Donald's”:


9º) “En Mi Cabeza”:


8º) “Sur o No Sur”:


7º) “Daisy”:


6º) “No Diga Quizás”:


5º) “Desde Que Te Perdí”:


4º) “Fin de Fiesta”:


3º) “Cumbiera Intelectual”:


2º) “Anoche Soñé Contigo”:


1º) “Guacamole”:

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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