Músicas: Limón y Sal – Duas décadas do maior sucesso de Julieta Venegas
- Ricardo Bonacorci

- 17 de ago.
- 15 min de leitura
Lançado em maio de 2006, o quarto disco da cantora e compositora mexicana se tornou seu maior êxito comercial, com 8 milhões de cópias vendidas. Com a conquista do Grammy Awards de 2007 na categoria Melhor Álbum Pop Latino, Julieta Venegas se tornou uma artista internacional. A canção “Limón y Sal”, que emprestou seu nome ao título do disco, se converteu em um clássico da música pop mexicana e ainda está na boca do povo. Confira a história por trás deste hit composto em parceria com Jorge Villamizar.

Terminada a Copa do Mundo de Futebol na América do Norte, a brincadeira de muita gente é discutir quem foi a maior decepção do último torneio da FIFA. Os brasileiros, obviamente, apontam o dedo para o time canarinho. Inacreditavelmente, temos uma geração que ainda não viu um conterrâneo erguer o troféu mais reluzente do esporte internacional. Há aqueles que consideram a Seleção Argentina como a maior derrotada: perdeu no campo e fora dele. Não vencer é uma coisa; passar vergonha jogando sujo e sendo mal exemplo desportivo é outra. Talvez ingleses (que viram a consagração escorregar pelos dedos nos últimos minutos da semifinal), alemães (voltaram para casa na etapa de dezesseis avos) e uruguaios (eliminados na primeira fase) tenham muito mais o que lamentar, né? Isso sem mencionar a querida Azzurra, a hors concours do fracasso há três ciclos.
No parágrafo anterior, analisei a Copa do Mundo de 2026 pela perspectiva exclusivamente futebolística. Como estamos na coluna Músicas, precisamos ampliar a abrangência deste enfoque para o universo cultural, senhoras e senhores. Aí a maior decepção, sem sombra de dúvida, foi Julieta Venegas, uma das mais importantes intérpretes e compositoras da música mexicana. Por mais que adore seu portfólio, preciso reconhecer que, desta vez, ela escorregou feio, muuuito feio. Acredito que a maioria dos brasileiros, sempre de olhos e ouvidos distantes do que ocorre no lado castelhano da América Latina, não saiba do que estou me referindo. Por isso, me sinto na obrigação de explicar o que se passou no cenário da música pop em língua espanhola nos últimos meses. Só assim será possível compreender o nível de frustração do público e da crítica com Venegas.
Para a abertura da Copa em seu país, os mexicanos convocaram uma de suas maiores estrelas musicais para compor o que deveria ser o novo hit da competição futebolística. Segundo a concepção ufanista dos organizadores locais, já estava na hora de alguém desbancar Shakira como a musa e a voz do torneio de seleções. Diante do enorme desafio, ninguém melhor do que Julieta Venegas para criar e interpretar a nova trilha sonora, que deveria ser apresentada mundialmente na festa de inauguração do primeiro jogo. Afinal, estamos falando de uma artista com três décadas de experiência, com fama internacional e colecionadora de muitas faixas de enorme sucesso.

Contudo, o que Venegas trouxe efetivamente estava longe, muuuuuuuuuuuuuuito longe do apelo midiático e da animação de “Waka Waka” (2010), “La La La” (2014), “Colors” (2018) e “World Cup” (2022). “La Niña Futbolista” (2026), sua canção para a Copa do Mundo de 2026, era o contraponto aos hits anteriores que encantaram o público nos quatro cantos do mundo. Basicamente, a criação de Julieta Venegas tinha uma melodia enfadonha e versos com forte cunho ideológico, um pecado mortal nesta época de enorme polarização política. A letra feminista até possuía um conteúdo pertinente, mas não combinava nem um pouco com o cenário de um torneio masculino – seria perfeita, por exemplo, para a Copa do Mundo Feminina de 2027. Como consequência, “La Niña Futbolista” provocou repulsão nos mexicanos, que não tiveram coragem de lançá-la em escala global.
A chuva de críticas e xingamentos foi tão elevada que foi preciso desabilitar os comentários do videoclipe no Youtube. Ainda assim, a galera mais enfezada entrou em outras faixas da cantora e nas redes sociais dela para extravasar a ira. Pela primeira vez na carreira, Julieta Venegas se viu tendo milhões de haters e pouquíssimos fãs a lhe apoiar. A sensação é que a intérprete havia cometido um crime grave em vez de um deslize musical. Diante da gigantesca crise de imagem pública, a cantora mexicana foi excluída da festa de abertura no Estádio Azteca, em 11 de junho. Em seu lugar, foi escalada a compatriota Belinda. A jovem (e belíssima) cantora dividiu o palco com a banda Maná, outro ícone do pop rock local.
Confesso que achei a reação dos mexicanos extremamente desproporcional, violenta e até injusta. Será que Venegas não pode lançar uma canção ruim de vez em quando? Será que as ofensas de todos os tipos que ela recebeu não passaram do ponto do aceitável? Minhas respostas para ambos os questionamentos são positivas. Em razão disso, a proposta deste novo post do Bonas Histórias é relembrar o maior sucesso musical de Julieta Venegas, que completou neste ano duas décadas de seu lançamento. Voltemos, portanto, à fase dourada desta artista que já foi unanimidade no México em repercussão favorável.
Como o título e subtítulo deste post entregam facilmente, estou me referindo à música “Limón y Sal”. Composto por Venegas em parceria com o colombiano Jorge Villamizar (ex-integrante da banda Bacilos), este hit foi gravado no álbum homônimo da cantora. Devido à sua força melódica e à profundidade de seus versos, esta canção possui elementos suficientes para que a analisemos hoje na coluna Músicas. Para completar, esta faixa ainda está na boca dos mexicanos (inclusive dos haters recentes de Julieta Venegas) e é uma das minhas favoritas do repertório da compositora mexicana.

Mas quais as razões concretas de minha predileção por “Limón y Sal”, hein? Em primeiro lugar, o lançamento desta música tem uma história deliciosa, daquelas que tenho certeza de que os leitores do blog vão adorar conhecer. O segundo motivo é que todos nós já vivenciamos um amor como o que a mexicana canta aqui. Se você ainda não o viveu, saiba que um dia o viverá. Falo com propriedade. Depois dos 40 anos de idade, me vi caidinho por uma bruxinha temperada com muito limão e sal. Fazer o quê? Coisas da vida, né? Por fim, estamos falando de um hit que catapultou a carreira da cantora para fora das fronteiras de seu país e conquistou vários prêmios internacionais. Em outras palavras, esta é uma canção de grande qualidade, que foi capaz de cair no gosto tanto do público quanto da crítica.
Para entender o contexto da criação de “Limón y Sal”, um clássico contemporâneo do pop mexicano, precisamos retornar ao início da trajetória de Venegas no universo musical. Como diria o narrador da abertura de “Rá-Tim-Bum”, senta que lá vem a história. Curiosamente, nossa volta remete à primeira Copa do Mundo de Futebol realizada no México, quando a Seleção Brasileira comandada por Pelé, Carlos Alberto, Rivelino, Jairzinho, Tostão e Gerson encantava o mundo com o futebol arte – conforme retratado muito bem no seriado “Brasil 70 – A Saga do Tri”.
Nascida em Long Beach, nos Estados Unidos, em novembro de 1970, e filha de fotógrafos mexicanos, Julieta desde cedo se interessou pela música. Ainda criança, estudou vários instrumentos musicais e, mais tarde, estudou a fundo a teoria musical. A infância foi passada essencialmente em Tijuana, no extremo noroeste do México, para onde sua família se mudou. Assim, a cantora e compositora é vista até hoje por seus compatriotas como uma tijuanense e não como uma californiana. Justo, muito justo, justíssimo!
A paixão pela música avançou inabalável pela adolescência e pela juventude de Julieta Venegas. Sabendo que seria cantora profissional, ela participou de várias bandas, em que teve a oportunidade de apresentar suas composições autorais. A mais relevante foi a “Tijuana No!”, grupo de reggae/ska que alcançou certo sucesso no país com a canção “Pobre de Ti”. Nesta época, Julieta tinha apenas 17 anos. Após se mudar para a Cidade do México alguns anos depois e aprofundar os estudos musicais, ela seguiu participando de vários conjuntos musicais. A principal banda deste período foi o "La Milagrosa", grupo formado com Jorge Fratta (Ziggy Fratta) e Rafa González (Señor González) que chamou a atenção dos principais estúdios do país.

Dessa forma, em 1996, a gravadora Sony & BMG, vendo o potencial na jovem artista de 26 anos, lhe ofereceu um contrato de oito anos. Iniciava, assim, a carreira solo de Venegas como profissional da música. Pelo contrato inicial com o tradicional selo, a cantora lançou três álbuns. Enquanto o primeiro, de 1997, se chamou “Aquí”, o segundo, de 2000, ganhou o nome de “Bueninvento”. Ambos os discos foram produzidos por Gustavo Santaolalla, músico argentino vencedor de dois prêmios Oscar, e tinham pegada de pop rock e de rock alternativo. Vale mencionar que, das 26 músicas desses dois LPs, 25 eram criações de Julieta Venegas. Os destaques desta fase inicial vão para os singles “De Mis Pasos”, “Hoy No Quiero” e “Casa Abandonada”. Tanto “Aquí” quanto “Bueninvento” foram muito bem recebidos pela crítica e pelo público, tornando sua intérprete respeitada nacionalmente.
O grande sucesso de Venegas veio em 2003, com seu terceiro álbum. “Sí” vendeu mais de um milhão de cópias no México e conquistou os principais prêmios da indústria fonográfica do país. Com esse trabalho, Venegas deixava de ser uma promissora artista e se consolidava como um nome popular da música mexicana. As faixas “Lento” (Si quieres un poco de mí/Me deberías esperar/Y caminar a paso lento/Muy lento/Y, poco a poco, olvidar/El tiempo y su velocidad/Frenar el ritmo, ir muy lento/Más lento), “Algo Está Cambiando” (No se ve/Pero siento que hay en mí/Algo que está cambiando) e “Andar Conmigo” (Dime si tú quisieras andar conmigo/Oh-oh-oh/Cuéntame si quisieras andar conmigo/Oh-oh-oh/Dime si tú quisieras andar conmigo/Oh-oh-oh/Cuéntame si quisieras andar conmigo/Oh-oh-oh) estão até hoje na boca do povo e são apontadas como uma das melhores do portfólio da compositora.
Em meio ao sucesso, Julieta Venegas vivia o drama do fim do contrato de oito anos com a Sony & BMG. Por isso, ela bateu à porta da gravadora, em meados de 2005, para apresentar a proposta para seu quarto disco. A esperança era que o estúdio fosse gostar das novas canções e oferecesse um novo contrato para lançar o disco com as faixas inéditas. Aí que começa a saborosa história de “Limón y Sal”, senhoras e senhores. Ou alguém aí já tinha se esquecido que esse é o tema de hoje do Bonas Histórias, hein? Eu não me esqueci, não, apesar da pequena volta para se chegar ao assunto principal deste post.
Para surpresa de Venegas, os produtores não gostaram nem um pouco do que ela mostrou na reunião. O feedback foi terrível: as composições eram fracas, careciam de originalidade e, principalmente, não transmitiam emoção genuína. A cantora saiu da sala com a seguinte frase martelando na sua cabeça: “Se você não tiver nada peculiar e emotivo para nos mostrar da próxima vez, nem perca seu tempo vindo aqui”.

Julieta chegou em casa desolada e contou sobre a péssima avaliação da gravadora para seu namorado/marido na época, o também cantor e compositor Jorge Villamizar. Inesperadamente, o colombiano, que até então era o líder da banda Bacilos, concordou com o feedback negativo do estúdio. Ele afirmou que a mexicana tinha talento suficiente para apresentar hits mais impactantes e emotivos do que os mostrados naquele dia. E ele exemplificou: “Veja essa música que você fez para mim e que vive cantando aqui em casa. Ela é ótima e é realmente genuína. Por que você não a canta para todos ouvirem?”.
Esta faixa era justamente “Limón y Sal”, a música que Julieta Venegas fez para ilustrar seu amor contraditório e real por Jorge Villamizar. No início, ela não queria expor seus sentimentos para o grande público. Porém, foi convencida pelo companheiro do potencial artístico de abrir o coração de verdade e cantar suas emoções. Para mostrar o que estava dizendo, o colombiano se sentou com a amada e juntos finalizaram a canção que ela cantarolava de brincadeira todos os dias. Basicamente, ele fez a melodia e Venegas concluiu os versos.
A partir da inspiração doméstica, a mexicana compôs outras 13 faixas. Além de “Limón y Sal”, outros hits que podemos destacar desse período são “Me Voy” (No voy a llorar y decir/Que no merezco esto, porque/Es probable que lo merezco/Pero no lo quiero, por eso, me voy/Qué lástima, pero adiós/Me despido de ti y me voy/Qué lástima, pero adiós/Me despido de ti) e “Eres para Mí” (Eres para mí/Me lo ha dicho el viento/Eres para mí/Lo oigo todo el tiempo/Eres para mí/Me lo ha dicho el viento/Eres para mí).
Ao mostrar para a Sony & BMG a novíssima coleção de músicas, Julieta Venegas ganhou merecidamente um novo contrato e gravou seu quarto álbum, em Buenos Aires. O produtor foi o argentino Cachorro López, responsável por vários discos de grande prestígio em seu país. O lançamento do álbum “Limón y Sal” ocorreu em maio de 2006. Além de “Limón y Sal”, Me Voy” e “Eres para Mí”, o disco trouxe as seguintes canções: “Canciones de Amor”, “Primer Día”, “Dulce Compañía”, “De Qué Me Sirve”, “A Donde Sea”, “Mírame Bien”, “No Seré”, “Última Vez”, “No Hace Falta”, “Te Voy a Mostrar” e “Sin Documentos”.

Dessa vez, a repercussão foi mais estrondosa do que a obtida em “Sí”. O quarto álbum de Venegas vendeu mais de 8 milhões de unidades no México e no exterior. Sim, você leu direito: no exterior também. Foi a partir desse trabalho que a cantora se tornou conhecida na América Latina, na Europa (principalmente Espanha e Itália) e nos Estados Unidos. Além do êxito comercial, “Limón y Sal” brilhou nas principais premiações da música internacional. Além de conquistar algumas estatuetas no Grammy Latino (algo que Julieta Venegas já havia ganhado com “Sí”), dessa vez ela levou para casa o inédito Grammy Awards de 2007 na categoria Melhor Álbum Pop Latino. Era a consagração definitiva da artista mexicana que aos oito anos de idade disse que queria ser música.
Após o êxito da canção “Limón y Sal”, surgiu nas redes sociais a teoria de que essa faixa fora criada para ilustrar o amor da compositora pelos gatos. Por que a relação dos versos com o amor felino? Porque, segundo a crença popular, esses animais são frios e pouco afetuosos com seus donos. Veja o início da letra da canção: “Tengo que confesar que a veces/No me gusta tu forma de ser/Luego te me desapareces/Y no entiendo muy bien por qué/No dices nada romántico/Cuando llega el atardecer/Te pones de un humor extraño/Con cada luna llena al mes”.
Como Julieta Venegas curtiu alguns posts com essa teoria, criou-se a impressão de que ela confessava a inspiração. Entretanto, na época em que vivia com Villamizar, a mexicana sequer tinha gatos em casa. Assim, tal interpretação para a criação da música é totalmente falsa. A cantora e compositora apenas reagiu positivamente à publicação nas redes sociais pois achou divertida a criatividade dos fãs.
Para que todos entendam o que estou querendo dizer, acho válido conhecermos todos os detalhes de “Limón y Sal”. A seguir, apresento a letra original da canção. Logo depois, mostro uma tradução livre que fiz para o português. Por fim, exibo o videoclipe de Venegas da época do lançamento de seu quarto álbum. Por gentileza, confiram com atenção esses três materiais. Só assim, estaremos prontos para adentrar na parte analítica deste post da coluna Músicas.

Limón y Sal – Julieta Venegas (México) e Jorge Villamizar (Colômbia) - 2006
Tengo que confesar que a veces
No me gusta tu forma de ser
Luego te me desapareces
Y no entiendo muy bien por qué
No dices nada romántico
Cuando llega el atardecer
Te pones de un humor extraño
Con cada luna llena al mes
Pero a todo lo demás
Le gana lo bueno que me das
Solo tenerte cerca
Siento que vuelvo a empezar
Yo te quiero con limón y sal
Yo te quiero tal y como estás
No hace falta cambiarte nada
Yo te quiero si vienes o si vas
Si subes, si bajas, si no estás
Seguro de lo que sientes
Tengo que confesarte ahora
Nunca creí en la felicidad
A veces algo se le parece
Pero es pura casualidad
Luego me vengo a encontrar
Con tus ojos, me dan algo más
Solo tenerte cerca
Siento que vuelvo a empezar
Yo te quiero con limón y sal
Yo te quiero tal y como estás
No hace falta cambiarte nada
Yo te quiero si vienes o si vas
Si subes, si bajas, si no estás
Seguro de lo que sientes
Yo te quiero con limón y sal
Yo te quiero tal y como estás
No hace falta cambiarte nada
Yo te quiero si vienes o si vas
Si subes, si bajas, si no estás
Seguro de lo que sientes
Solo tenerte cerca
Siento que vuelvo a empezar

Tradução de Limón y Sal para o português brasileiro por Ricardo Bonacorci
Tenho que confessar que às vezes
Não gosto do seu jeito de se comportar
De repente, você desaparece
E eu não entendo bem o porquê
Não diz nada romântico
Quando chega o entardecer
Fica com um humor estranho
Durante a lua cheia de cada mês
Mas todo o restante
Vence o bem que você me faz
Só de ter você por perto
Sinto que renasço
Eu quero você com limão e sal
Eu quero você do jeitinho como é
Não precisa mudar nada
Eu quero você neste vai-e-vem
Se entra, se sai, se não está
Certo do que sente
Tenho que confessar agora
Que nunca acreditei na felicidade
Às vezes, algo é parecido
Mas é pura coincidência
Quando me deparo com seus olhos,
Que me dão algo mais
Só de ter você por perto
Sinto que renasço
Eu quero você com limão e sal
Eu quero você do jeitinho como é
Não precisa mudar nada
Eu quero você neste vai-e-vem
Se entra, se sai, se não está
Certo do que sente
Só de ter você por perto
Sinto que renasço
A maior graça de “Limón y Sal” está em sua letra, digamos, agridoce. Os versos de Julieta Venegas descrevem com raro realismo os sentimentos de alguém apaixonado. Esqueça a visão idílica, o retrato exagerado e a descrição passional dos enamorados, tão comum nas músicas e nas artes de modo geral. Em vez de um quadro só com aspectos positivos e qualidades excepcionais do(a) amado(a), algo que sabemos ser inverossímil, o que temos aqui é uma narrativa honesta e balanceada com os pros e os contras do jeitão de alguém extremamente normal.
Para começo de análise, o eu lírico desta canção confessa que tem alguns aspectos da personalidade do(a) namorado(a), marido(esposa) ou companheiro(a) que ele não aprecia. A pessoa amada costuma, por exemplo, desaparecer sem avisar. Não é romântica, mesmo nos momentos em que são esperadas atitudes carinhosas e gestos afetuosos. Também tem um humor bem particular, que intriga quem está ao seu redor. Mesmo com tais pontos falhos, sua companhia segue sendo agradável e, por que não, viciante. Só de estar perto de quem ama, o eu lírico percebe que a vida vale a pena e se aproxima da felicidade.
Se pensarmos bem, o relacionamento conjugal é isso mesmo: acostumar-se com os defeitos, as falhas e os aspectos que entendemos serem negativos do outro. Quem sabe até mesmo gostar desse lado menos nobre do(a) amado(a). Porque, conforme reza o clichê dos clichês, ninguém é perfeito e jamais irá se encaixar perfeitamente em nossa lista de exigências. Quando conseguimos enxergar essa face sombria com tranquilidade e aceitá-la com relativa naturalidade, é porque estamos (ou permanecemos) apaixonados. Em outras palavras, mesmo com alguns comportamentos, hábitos e crenças distantes do esperado, ainda nos emocionamos de estar ao lado daquela pessoa e almejamos a sua companhia. É assim que o amor verdadeiro costuma se manifestar na prática cotidiana.
Quando falo sobre isso, me lembro automaticamente da Rose, minha amiga que mora na Pompeia, em São Paulo, e que frequentou por muito tempo a Dança & Expressão. Ela é uma das pessoas mais alegres e divertidas que conheço. Afinal, está sempre com o sorriso estampado no rosto e jamais escorrega no mau humor. Ela é dessa maneira 24 horas por dia, 365 dias no ano. Acho este seu comportamento incrível. Contudo, o que mais chama a atenção da nossa galerinha é a sua mania de namorar rapazes que contradizem completamente sua lista de exigências. Nesse quesito, ela é insuperável.

Quando está solteira, Rose adora relacionar as características do homem ideal. Se deixar, minha amiga comenta por horas o que espera dos candidatos a namorado. Segundo suas palavras, ela só aceita ficar com alguém que cumpra todas ou a maioria dos pré-requisitos muito bem confeccionados por sua astuta mente. Porém, sabemos que a prática é distinta da teoria e que a passionalidade é a maior inimiga da racionalidade. Vire e mexe, Rose aparece apaixonada por um rapaz que é a antítese de seu modelo de companheiro ideal. Ao ser questionada sobre essa enorme contradição, ela fala com o ar doce que tão bem a caracteriza: “Eu sei disso, mas eu gosto mesmo dele”. Nessa hora, seus olhinhos brilham e vemos que ela está dizendo a verdade verdadeira.
Atire a primeira pedra quem já não passou por isso, senhoras e senhores. Você almeja uma pessoa honesta e se vê aos beijos ardentes com uma trambiqueira profissional. Quer uma mulher sincera, mas aceita uma mentirosa contumaz. Imagina uma namorada doce e educada e surge ao lado de uma barraqueira sem qualquer noção de civilidade. Deseja alguém solteira para se casar, mas acaba ao lado de uma serial lover que só o(a) enxerga como mais um passatempo. E aspira uma pessoa virtuosa e de valores nobres e amarra seu burro numa alma interesseira e ambiciosa.
Nesse sentido, os versos mais famosos desta canção de Julieta Venegas, “Yo te quiero con limón y sal”, tratam do tempero inusitado do ser amado. Quando estamos verdadeiramente apaixonados, não ligamos para o quão salgado ou azedo é o outro. Simplesmente o(a) queremos daquela forma e somos felizes com os excessos ou as faltas de condimentos. Simples assim.
Em relação à melodia, “Limón y Sal” é uma baladinha romântica com toques de pop rock latino. Os sons marcantes de violão/baixo/guitarra e os sons sutis de acordeão/piano/teclado e da bateria ajudam na criação de uma atmosfera alegre, leve e descontraída. O canto suave de Venegas confere um tom ainda mais intimista e confidencial à interpretação musical, casando-se perfeitamente com a simplicidade, o coloquialismo e a organicidade da canção. Nota-se que Jorge Villamizar priorizou a progressão simples e repetitiva dos acordes para facilitar a memorização do público. O nome disso é música comercial, pessoal!

Como disse no início deste post do Bonas Histórias, esta música completou em maio duas décadas de seu lançamento. Admito que a acho incrível e atemporal. Até agora, não sei qual é a minha faixa preferida do portfólio de Julieta Venegas: se “Limón y Sal” ou se “Me Voy”. Analisando com o devido cuidado, podemos concluir que as duas canções deste álbum são complementares. Quando o tempero por vezes complicado da pessoa amada ainda não incomoda tanto, seguimos apaixonados e iludidos com as contradições saborosas do amor (conforme retratado na música “Limón y Sal”). Entretanto, quando as pitadas a mais ou a menos de alguns condimentos exóticos se tornam obstáculos intransponíveis na relação a dois, aí os versos de “Me Voy” fazem todo o sentido: “Qué lástima, pero adiós/Me despido de ti y me voy/Qué lástima, pero adiós/Me despido de ti”.
Para o conhecimento das almas mais curiosas, informo que o relacionamento de Venegas e Villamizar terminou antes mesmo de o quarto disco da mexicana ser gravado. O casal ficou junto por aproximadamente um ano e meio, entre março de 2004 e outubro de 2005. Pelo visto, as pitadas de limão e sal dele não foram bem digeridas pela companheira por muito tempo, né?
Já quando o assunto é Copa do Mundo de 2026, recordo que foi preciso chamarem mais uma vez Shakira para abrilhantar a abertura da competição da FIFA. Enquanto Julieta Venegas era execrada por seus conterrâneos por “La Niña Futbolista”, a colombiana apareceu com “Dai Dai” (2026) e levou o público ao delírio com uma nova música animada e popular. Para os fãs do principal esporte mundial, Shakira não tem uma gota de limão nem uma grama de sal. Ela é simplesmente perfeita, contradizendo tudo o que eu disse nesta publicação da coluna Músicas. Viva a contradição!!!

