Televisão: Brasil 70 – A saga do tri protagonizada por Pelé, Saldanha e Zagallo
- Ricardo Bonacorci

- 22 de jun.
- 28 min de leitura
Dirigida por Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles e roteirizada por Naná Xavier e Rafael Dornellas, a minissérie de televisão produzida pela O2 Filmes e disponível na Netflix mostra os bastidores da terceira vitória brasileira da Copa do Mundo da FIFA. Ficção inspirada em eventos reais, o drama futebolístico é estrelado por Lucas Agrícola, Rodrigo Santoro e Bruno Mazzeo, que interpretam, respectivamente, o craque da camisa 10, o jornalista aguerrido e o treinador supersticioso que lideraram a conquista em definitivo da taça Jules Rimet.

O Brasil e o mundo já vivem o clima da Copa do Mundo da FIFA. É só andar pelas ruas e conversar com as pessoas para sentir o espírito ufanista tomando conta da torcida nacional. A questão é que mais uma vez nosso país chega desacreditado para o torneio organizado a cada quatro anos. Além do mal futebol praticado e da bagunça interminável da cartolagem verde-amarela, muita gente acha que já não temos mais craques como antigamente. E o único com a velha qualidade está quebrado e há muito tempo não entra em campo. Assim, parece um sonho utópico trazer para a casa o troféu dourado pela sexta vez. Diante de tanto pessimismo, que só aumenta à medida que as rodadas vão evoluindo e os tropeços vão se acumulando, preferi olhar para o passado glorioso ao invés de encarar o presente árido.
Depois de sofrer para caramba vendo Brasil e Marrocos no sábado retrasado, decidi assistir no domingo seguinte a “Brasil 70 – A Saga do Tri” (2026). Esta minissérie televisiva foi produzida pela O2 Filmes em parceria com a Netflix, que a disponibilizou aos seus assinantes no mês passado. Baseada em eventos reais, a trama ficcional narra a obtenção do terceiro título da Copa do Mundo da FIFA pelos brasileiros. Além de reconstruir os acontecimentos dentro de campo, “Brasil 70” também mergulha nos bastidores da Seleção tricampeã. Diferentemente do que se acredita atualmente, a trajetória da equipe canarinho, seja na preparação, seja na jornada na Copa do México em 1970, não foi nada fácil nem tranquila. Diante de tanto caos, brigas, intrigas e confusões de todo tipo, a conquista em definitivo da Jules Rimet pelos brasileiros foi uma façanha inimaginável.
Aí está justamente o maior mérito deste seriado de televisão. “Brasil 70” mostra aspectos esquecidos ou pouquíssimos populares da maior vitória esportiva nacional. É a famosa história: quando se ganha, tudo vira uma maravilha. Mas será mesmo? Quando constatamos o que se passava no país (vivia os tempos mais duros da Ditadura Militar), o nível de bagunça da confederação de futebol (ainda presidida por João Havelange, o mestre dos mestres na arte da safadeza e da maracutaia esportiva), a mente bizarra dos nossos técnicos (figuras mais malucas do que geniais) e a alma birrenta dos jogadores canarinhos (que viviam brigando entre si), encaramos a conquista do tricampeonato no México com mais admiração ainda. Se as cenas dos gols daquela época ainda encantam as plateias até hoje e parecem ser frutos do talento natural dos atletas, a investigação dos bastidores mostra a epopeia que foi para a equipe nacional erguer o troféu.
Por isso, não resisti à tentação e vou comentar com vocês a alta qualidade desta minissérie no Bonas Histórias. “Brasil 70” me surpreendeu positivamente em vários aspectos, conforme vou discutir ao longo do post de hoje da coluna Televisão. Confesso que até tinha preparado o detalhamento de como foi acompanhar uma partida de Copa do Mundo na sala de cinema. Sim, senhoras e senhores, vi o jogo entre Brasil e Marrocos na telona do Espaço Petrobrás de Cinema e achei uma experiência espetacular. Contudo, ao invés de publicar esse relato na coluna Passeio, preferi na última hora analisar a nova produção audiovisual da O2 Filmes e da Netflix. Certamente os fãs do velho esporte bretão vão curtir mais a volta ao passado brilhante do nosso país do que a constatação da escassez de talento do futebol brasileiro atual. Saiba que compartilho desse sentimento com vocês.
O mais incrível de “Brasil 70 – A Saga do Tri” foi notar as enormes e tristes semelhanças entre o ontem e o hoje, algo que nem a vã e traiçoeira filosofia futebolística poderia supor. Politicamente, o Brasil atual segue tão fracionado como naquela época. Afinal, a extrema-direita (que acredita que a solução está na ditadura militar e que a pobreza acabará quando passarem fogo em todos os pobres) polariza com a esquerda corrupta e estúpida (que acredita que gastar dinheiro infinitamente tornará a nação rica e que a pobreza se combate perseguindo a iniciativa privada). Por sua vez, a entidade que comanda nosso futebol permanece tão bagunçada e ordinária como sempre foi. A CBF (Confederação Brasileira de Futebol) de 2026 é muitíssimo semelhante à CBD (Confederação Brasileira de Desportos) de 1970. Na última hora, diante do mal futebol praticado dentro de campo, um novo técnico é contratado como a esperança do país.

As coincidências não param por aí. O time viajou para disputar a primeira Copa na América do Norte sob vaias da torcida, indignada com o desempenho insatisfatório da equipe verde-amarela. No momento de raiva do povão, até os melhores jogadores são contestados e acusados de todo o tipo de maldade. Fulano está acabado para o futebol. Ciclano é preguiçoso e não é confiável. O nosso maior craque está quebrado e velho. Ele não voltará nunca mais a jogar como antes. E Fulano e Ciclano não podem atuar juntos. Se os dois forem a campo ao mesmo tempo, jamais venceremos uma partida. Admita que as frases desse parágrafo parecem extraídas dos jornais e dos sites de 2025 e 2026, né? Porém, elas são manchetes jornalísticas de 1969 e 1970. Incrível como o mundo dá voltas e mais voltas e o Brasil e sua Seleção seguem no mesmo compasso vacilante.
“Brasil 70 – A Saga do Tri” foi dirigido por Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles, trio de cineastas que tem suas trajetórias muito atreladas à O2 Filmes, a maior produtora independente do nosso país. O roteiro da minissérie foi desenvolvido por Naná Xavier e Rafael Dornellas, uma dupla ao mesmo tempo jovem e talentosa. Em seu elenco, nomes de primeira linha do audiovisual brasileiro (como Rodrigo Santoro, Bruno Mazzeo e Marcelo Adnet) dividem as cenas tanto com figuras experientes do teatro, da televisão e do cinema nacional (Ravel Andrade, Val Perré, Lara Tremouroux, Gui Ferraz, Maicon Rodrigues, Julia Stockler, Nelson Baskerville, Rogério Brito e Bruna Mascarenhas) quanto com atores e atrizes pouco conhecidos do grande público (Lucas Agrícola, José Beltrão, Caio Cabral, Daniel Blanco, Fillipe Soutto, Hugo Haddad, Victor Salomão e Fania Espinosa).
Curiosamente, fiquei sabendo desta produção muito antes de que ela começasse a ser gravada. Tudo porque o local escolhido pela O2 Filmes para a preparação do elenco de “Brasil 70” foi a Dança & Expressão, uma das patrocinadoras do Bonas Histórias. A escola de dança em Perdizes, na cidade de São Paulo, é usada frequentemente pela produtora para a preparação do elenco de seus filmes e seriados. Dessa maneira, mesmo morando naquela época em Mi Buenos Aires Querido, recebia o relato quase diário do pessoal da tradicional academia paulistana de dança de como estavam os ensaios para a minissérie. A sala maior da Dança & Expressão, por exemplo, foi pintada de campo de futebol para que os atores praticassem o bailado dos jogadores durante as partidas. As salas menores serviram para que se encenassem os momentos mais tensos fora dos gramados.
A preparação do elenco durou aproximadamente três meses. Entre junho e julho de 2025, a equipe da O2 Filmes ficou exclusivamente na Dança & Expressão aprimorando o lado dramático. E entre julho e agosto, os atores que interpretaram os boleiros fizeram uma imersão em campos de futebol de verdade, onde puderam simular a rotina dos atletas profissionais e recriar as jogadas da Copa de 1970. Lembro que o que mais chamou a atenção do pessoal da academia de dança de Perdizes foi, além da semelhança física absurda de Lucas Agrícola com Pelé, a simpatia da equipe da O2 Filmes e a humildade dos atores e das atrizes da série de televisão. Rodrigo Santoro agia sem qualquer estrelismo e conversava com todo mundo numa boa. Admito que gostei de ficar sabendo desses detalhes dos bastidores.
As gravações aconteceram ao longo do segundo semestre de 2025. As locações começaram no Estado de São Paulo (Santos, São Vicente e Carapicuíba) e terminaram em Guanajuato, no México. “Brasil 70” foi lançado na Netflix em 29 de maio de 2026 e está disponível, desde então, para seus assinantes nacionais e internacionais. Vamos combinar que o timing de sua divulgação foi excelente. Se não estivéssemos em plena Copa do Mundo dos Estados Unidos, México e Canadá de 2026, admito que talvez não assistisse ao seriado sobre a Copa do México de 1970. Pelo menos não tão rapidamente ao seu lançamento, né
Falemos agora do enredo, torcida brasileira. “Brasil 70 – A Saga do Tri” percorre aproximadamente um ano e meio da história da Seleção Brasileira: de fevereiro de 1969, quando João Saldanha (interpretado por Rodrigo Santoro) assumiu o cargo de treinador do scratch canarinho que jogaria as Eliminatórias Sul-americanas, até junho de 1970, quando a equipe verde-amarela entrou em campo para disputar a final da Copa do Mundo do México contra a Itália. Não é preciso ser um grande entendido no velho esporte bretão para saber que estamos falando da Era de Ouro do Futebol Brasileiro. Ou alguém em sã consciência vai questionar isso, hein?!

Para o mundo esportivo e para a imprensa especializada, o brilhante time comandado dentro de campo por Pelé (Lucas Agrícola) e fora dele pelo jovem treinador Mário Jorge Lobo Zagallo (Bruno Mazzeo), que substituiu o demitido Saldanha às vésperas do início da competição mexicana, é lembrado até hoje como a maior seleção de todos os tempos. O mais incrível é que esta não é apenas uma opinião dos brasileiros. Muita gente mundão afora crê que o Brasil de 1970 é o puro suco da arte futebolística. Até os argentinos, birrentos por natureza, se curvam a essa interpretação – acreditem se quiser. Mas será que tal fama que se eternizou é mesmo justa?! Ou seria fruto do ufanismo brasileiro que contaminou os gringos?
O seriado mostra um lado bem menos glamuroso e idílico da grande conquista nacional. Como disse: aí está a sua maior graça. A narrativa da atração televisiva mergulha nos bastidores da cartolagem, dos técnicos (no plural, porque foram dois neste período), dos atletas e dos torcedores numa fase para lá de tensa do Brasil. Assim, acompanhamos passagens dramáticas e momentos cômicos que embalaram a Seleção Brasileira que ergueria definitivamente a Jules Rimet no Estádio Azteca, na Cidade do México. Curiosamente, quando olhamos de perto os acontecimentos históricos, notamos uma outra realidade, muito diferente daquela transmitida pelas lendas futebolísticas e pela saudosa memória dos torcedores mais fanáticos do passado.
Com cinco episódios de cerca de 45 minutos cada um, “Brasil 70” segue mais ou menos a ordem cronológica dos fatos. O primeiro capítulo mostra João Saldanha, um jornalista esportivo gaúcho com personalidade forte e jeitão pra lá de explosivo, recebendo o convite para assumir a Seleção Brasileira. Sua escolha pareceu, em um primeiro momento, ir contra qualquer lógica e bom-senso. Afinal, ele era um ativo militante comunista e o país era governado por militares de extrema-direita, que haviam derrubado o regime democrático em 1964 e decretado o AI-5 no fim de 1968. Para completar a bizarrice, como jornalista radicado no Rio de Janeiro, Saldanha era um dos maiores críticos da CBD e do mal futebol praticado pela Seleção na Copa do Mundo de 1966. E sua experiência como técnico só não era nula porque ele havia comandado com sucesso o Botafogo no Campeonato Carioca de 1966.
Para entender a lógica por trás do inusitado convite a João Saldanha feito por João Havelange (Nelson Baskerville), o presidente da CBD, precisamos olhar para a situação da Confederação Brasileira naquele momento. Às vésperas do início das Eliminatórias da Copa do México, a entidade máxima do nosso futebol estava, para variar, uma enorme bagunça. Além de não ter treinador, seu maior craque, Pelé, vinha se recusando a retornar à equipe. O camisa 10 havia abandonado a Seleção desde que fora violentamente perseguido na última Copa. Não por acaso, vários profissionais qualificados recusaram assumir o comando da equipe verde-amarela, o que colocava Havelange em maus lençóis.
A vinda de João Saldanha, portanto, era realmente uma jogada muitíssimo arriscada, mas tinha lá algumas justificativas plausíveis. Uma vez que se tornasse funcionário de Havelange, o novo treinador da Seleção deveria se tornar menos crítico e menos falastrão. Pelo menos era essa a crença entre os milicos de Brasília, que estavam por trás de todos os movimentos da CBD. Ou seja, de uma hora para outra, a maior pedra no sapato da Seleção mudava de posição e se tornava a maior vidraça do país. Vamos combinar que não dava para Saldanha falar mal do próprio trabalho à frente da equipe nacional, né?
Além disso, o jeitão duro e impositivo de João Saldanha poderia tirar o grupo de jogadores displicentes e acomodados da zona de conforto. Sim, senhoras e senhores, este era o diagnóstico da época para a nossa equipe. Se hoje Pelé, Tostão, Rivelino, Gerson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres são vistos como heróis à prova de críticas, em 1969 eram tidos como um bando de atletas pouco empenhados com o sucesso da camisa verde-amarela. Incrível essa diferença de leitura histórica, né? Por isso, com Saldanha no comando, a esperança era que o time começasse a jogar bem.

Contudo, se a equipe fosse mal e não se classificasse para a Copa, não seria tão ruim assim para as autoridades de Brasília. Aí está justamente o pulo do gato. A culpa pelo fracasso gigantesco do nosso futebol cairia nas costas de um comunista. Certamente os milicos iriam se deliciar com as notícias vinculando as crenças políticas do treinador vermelho com a derrota da Seleção Brasileira. Deu para entender agora a lógica por trás da escolha de João Havelange? Até que ela fazia bastante sentido. Não importava o que acontecesse, vitória ou derrota de Saldanha, o Brasil verde-oliva ficaria satisfeito.
Dessa maneira, o jornalista gaúcho assumiu a Seleção Brasileira em fevereiro de 1969. A voz isolada que se mostrou desgostosa com esse fato foi Thereza Bulhões (Julia Stockler), a esposa do novo treinador. Também comunista e estando na linha de frente da resistência à Ditadura Militar, ela foi a única a entender a arapuca que os governantes estavam criando para seu marido. O problema é que por mais que Thereza avisasse João do perigo que eles corriam, ele não deu ouvidos a ela. A vontade de treinar o time nacional parecia sobrepor qualquer prudência e racionalidade por parte dele.
Como não era bobo, a primeira medida que João Saldanha fez ao se tornar técnico foi convencer Pelé a retornar ao scratch canarinho. O craque do Santos aceitou o convite e, assim, liderou o time brasileiro nas Eliminatórias. A campanha foi excelente: seis jogos e seis vitórias – 100% de aproveitamento. Então, a alegria era geral? Nananinanão. O futebol praticado contra adversários fracos no cenário sul-americano foi péssimo. As partidas contra Paraguai, Colômbia e Venezuela não convenceu nem a torcida nem os jornalistas. Nos confrontos realizados no Brasil, o time de Saldanha saiu de campo sob fortes vaias.
De qualquer maneira, o novo treinador conseguiu ganhar o respeito dos jogadores, sendo admirado pelos craques nacionais. O jeitão linha dura e a teimosia ranzinza do jornalista gaúcho conquistaram a boleirada, tão carente de líderes que impusessem o mínimo de organização à Seleção e algum espírito de coletividade ao grupo. E mesmo com as desconfianças de Norte a Sul do país, a principal meta daquele primeiro ano de Saldanha na CBD fora conquistado: a vaga para a Copa do México no ano seguinte estava assegurada.
No sorteio para a competição de 1970, veio a primeira má notícia. O Brasil caiu no grupo da morte. Os jogos na fase de grupos seriam três pedreiras: Tchecoslováquia, Inglaterra, a atual campeã mundial, e Romênia. Logo depois, o desconforto nacional foi com os comentários de Saldanha sobre a saúde de Pelé. Para o treinador brasileiro, incomodado com os gols perdidos pelo camisa 10 nos amistosos, seu maior craque poderia estar com graves problemas de visão, principalmente nas partidas noturnas. Assim, ele afastou Pelé até que o meia-atacante fizesse exames oculares, o que causou enorme rebuliço midiático.
Foi neste instante que Havelange e os militares compreenderam que tinham se enganado com a possível mudança de postura de João Saldanha. O técnico não ligava para o peso das hierarquias nem para as ordens das autoridades. Ele seguia fazendo o que desejava e falando o que lhe vinha na telha, sem qualquer preocupação com o que sairia na imprensa. A questão é que suas bravatas também tumultuavam o ambiente da Seleção. Por mais que os jogadores confiassem em seu comandante, eles se sentiam seriamente incomodados com as manias inexplicáveis do gaúcho. O mais aborrecido era, obviamente, Pelé, acusado de estar ficando cego.

Entretanto, o pior ainda estava por vir. Há dois meses e meio do início da Copa do Mundo do México, João Saldanha foi demitido. O motivo foi, para variar, sua língua felina. O ditador brasileiro, Emílio Garrastazu Médici, exigiu a convocação de Dadá Maravilha (Victor Salomão). O presidente da República adorava o centroavante do Atlético Mineiro e fazia questão de vê-lo integrado à Seleção. Saldanha, bem ao seu estilo turrão, não apenas não convocou o queridinho do milico como veio à público garantir que não aceitava pressão de ninguém. NINGUÉM!!! Sua famosa frase “nem eu escalo o ministério, nem o presidente escala o time” balançou os alicerces do país. Sua demissão foi mera consequência de suas palavras pouco políticas.
No segundo episódio da série televisiva, ficamos sabendo que o escolhido para o lugar de João Saldanha foi outro treinador com pouquíssima experiência: Mário Jorge Lobo Zagallo (Bruno Mazzeo), então com 38 anos. Seu histórico no comando do futebol se restringia às categorias de base e à equipe principal do Botafogo, clube onde havia encerrado a carreira como jogador alguns anos antes. Obviamente, a primeira medida do novo técnico foi convocar Dadá Maravilha. Se Zagallo rapidamente ganhou a “admiração” do presidente da CBD e dos milicos em Brasília, ele se tornou malquisto pelos jogadores. Os craques brasileiros não entendiam suas táticas e seus métodos de treinamento. O caos estava instalado!
Em meio à balbúrdia interna, o time brasileiro chegou um mês antes ao México. A ideia era fazer uma longa temporada de treinamentos em Guanajuato, cidade a mais de 2 mil metros de altitude. Na cabeça de Zagallo e do preparador físico, um tal de Carlos Alberto Parreira (José Beltrão), o futebol moderno era feito de vigor atlético. Todos os jogadores deveriam atacar e defender simultaneamente. Para conseguirem esse feito, eles tinham que ter excelente condicionamento aeróbico. No calor escaldante do verão mexicano e no ar rarefeito da Cidade do México, era preciso correr, correr e correr. E para dar esse fôlego extra aos jogadores, nada melhor do que treinar na altitude de Guanajuato.
Não é preciso dizer que os jogadores brasileiros odiaram a novidade e se indispuseram contra o treinador. Graças a liderança de Pelé, o grupo acatou a contragosto as principais ordens de Zagallo e Parreira e começou a correr na altitude mexicana. Por outro lado, o técnico também precisou abrir mão de algumas crenças e ceder às vontades dos atletas. Uma de suas mudanças mais sensíveis foi autorizar a volta ao time titular de Tostão (Ravel Andrade), que estava arrebentando nos treinamentos. Até então, Zagallo acreditava que Tostão e Pelé não podiam jogar juntos. Às vezes, acho que nenhum técnico nacional passaria no mais simples teste de cognição mental.
Curiosamente, quando tudo parecia estar entrando nos eixos (jogadores treinando sem reclamar e Tostão de volta à formação titular...), a paz da comissão técnica foi abalada ainda mais com a chegada de João Saldanha ao México. Ele foi contratado como comentarista de televisão, formando dupla com o narrador Eusébio Teixeira (Marcelo Adnet). Assim, passou a acompanhar cotidianamente o time que comandara até pouco tempo antes. Não é preciso dizer que o carinho e a camaradagem entre o ex-treinador e seus jogadores incomodava significativamente Zagallo. Além disso, Saldanha voltou ao velho papel que fazia tão bem: era a voz mais crítica da Seleção Brasileira. Os comentários ácidos e implacáveis do gaúcho mexiam não apenas com a moral da comissão técnica, que parecia perdida, mas com o astral dos jogadores.
Inicia-se, assim, um embate particular entre João Saldanha, com o microfone em mãos e falando diretamente para os torcedores brasileiros, e Mário Jorge Lobo Zagallo, que tinha a prancheta em mãos e falava diretamente com os jogadores canarinhos. Para o jornalista, o treinador era retranqueiro, covarde e não sabia potencializar o talento dos atletas que tinha à sua disposição. E para o técnico, o comentarista esportivo era maldoso, invejoso e estava torcendo contra o sucesso da equipe verde-amarela.

O segundo episódio de “Brasil 70” ainda mostra o jogo inicial da Seleção Brasileira naquela Copa. A difícil estreia foi contra a Tchecoslováquia. Os três capítulos seguintes vão retratando as demais partidas da competição e os bastidores para lá de quente do nosso scratch. Se hoje assistimos aos gols daquela Copa do Mundo imaginando que foi um passeio dos brasileiros, a realidade indica que a tranquilidade e a certeza do título nunca passaram sequer perto da concentração do time nacional.
No episódio 3, acompanhamos o jogo contra a Inglaterra, chamado de final antecipada da Copa do México. Por sua vez, o duelo contra a Romênia, no fechamento da fase de grupo, foi apenas citado (e não mostrado). Para completar, ainda assistimos às delicadas quartas de final contra o Peru. Tudo isso com a crescente tensão entre Saldanha e Zagallo e o incômodo de parte do grupo de jogadores com o uso da imagem de Pelé pelos militares de Brasília. Não é exagero falar que não faltou confusão na jornada brasileira durante a competição da FIFA. Para se ter uma ideia do caos, um grupo terrorista ameaçou sequestrar Pelé, que seria trocado por guerrilheiros presos. A partir daí, a segurança da delegação nacional precisou ser potencializada, o que atrapalhou ainda mais os treinamentos do nosso técnico e o bem-estar do camisa 10.
Enquanto o capítulo 4 relata o pesadelo dos brasileiros com o Maracanazo, o medo de Félix em virar um novo Barbosa e a semifinal violenta contra o Uruguai, o capítulo 5 narra os preparativos para a final, o receio de Pelé de não jogar a decisão por causa de uma lesão e a última partida contra a Itália no Estádio Azteca, na Cidade do México. Em suma, aos trancos e barrancos e contrariando a lógica, o time verde-amarelo vai ganhando as partidas, principalmente com atuações brilhantes no segundo tempo, e se aproxima do inédito tricampeonato mundial.
Antes que alguns leitores mais chatinhos do Bonas Histórias me acusem de ter dado o spoiler do seriado, preciso me defender desta injustiça. O que relatei nos últimos parágrafos são fatos históricos, que quase todos os brasileiros já conhecem. Ou alguém que inicia uma série televisiva chamada de “Brasil 70 – A Saga do Tri” não sabe o resultado desta competição, hein? Por favor, não deem, aqui na coluna Televisão, uma de João Saldanha, que reclama até da sombra.
Como disse, assisti a “Brasil 70” no domingo retrasado, um dia depois do empate da nossa Seleção contra Marrocos na Copa de 2026. Não é preciso dizer que a série televisiva foi o ponto alto do meu final de semana esportivo, né? Vi os cinco episódios em sequência, em uma batida só. A maratona no sofá durou a tarde inteira, das 14h às 18h, aproximadamente. Falo isso porque sei que tem muita gente que gosta de fazer longas sessões à frente da tela. E esta série da Netflix dá muito bem para fazer isso sem problema nenhum.
Entrando agora na análise propriamente dita da minissérie brasileira, começo destacando seu excelente roteiro. Achei que Naná Xavier e Rafael Dornellas foram extremamente felizes, na maior parte do tempo, em recriar os acontecimentos de mais de meio século atrás. Nota-se que os roteiristas realizaram uma profunda e competente pesquisa histórica. Obviamente, temos aqui uma leitura ficcional de passagens amplamente conhecidas dos fãs do futebol. Por outro lado, não dava para os roteiristas saberem o que as personagens reais falaram exatamente em cada cena e o que pensavam nos momentos mais críticos da trama. É aí que entra a dosagem de fantasia de “Brasil 70”. Na minha opinião, a sacada genial foi projetar os holofotes do conflito no trio formado por João Saldanha, Mário Jorge Lobo Zagallo e Pelé. A tensão entre eles é forte, legítima e duradoura. É esse o elemento narrativo que movimenta as engrenagens da trama ao longo dos cinco episódios.
Disparadamente, Saldanha é o melhor protagonista desta série televisiva. Se fosse usar os conceitos da Teoria Literária e da classificação das personagens ficcionais, diria que ele é uma figura redonda. A profundidade e a complexidade do jornalista gaúcho transformado em técnico da Seleção por causa de uma bizarrice da CBD são potencializadas pela atuação primorosa de Rodrigo Santoro. O ator fluminense dá um verdadeiro show interpretativo do início ao fim. Juro que não é exagero tê-lo como um dos principais intérpretes nacionais de sua geração.

João Saldanha de Santoro é uma bomba de contradições e revoltas pessoais, o que gera a percepção de agressividade descomunal e de críticas excessivas a todos. Além de ser, claro, uma chaminé ambulante – fuma compulsivamente em quase todas as cenas. Ao mesmo tempo, possui uma camada humana singular: é muitíssimo preocupado com a família, cuida dos seus atletas com extremo zelo e tem um olhar acurado para os problemas sociais, exalando simpatia e generosidade ao seu estilo turrão. Sua vontade de mudar a Seleção, a CBD, o país e o mundo em cada atitude diária é o que move sua conduta ideológica-passional. Se não entendemos isso, não iremos compreender essa figura singular da história esportiva nacional.
Por sua vez, Mário Jorge Lobo Zagallo é a personagem mais caricata de “Brasil 70 – A Saga do Tri”. Por mais que o treinador multicampeão seja retratado por vezes como um estrategista exemplar (nunca foi!) e um líder com planos claros do que fazer (na verdade, estava mais perdido do que cego em tiroteio!), o que fica mais evidente para o público é a sua superstição doentia (que beira o patético). Desconfio que esse exagero potencializou o lado cômico da minissérie, o que caiu muitíssimo bem do ponto de vista do entretenimento. Porém, é bom avisar que esse componente de comédia pastelão não reflete o perfil real do treinador da Seleção de 1970. Zagallo era supersticioso e gostava de exalar otimismo. Porém, duvido que, no início de carreira, aos 38 e 39 anos, essa característica monopolizasse sua rotina, como demonstrado no programa da Netflix.
De qualquer maneira, a figura que apareceu mais mudada na trama ficcional foi Pelé. O Rei nunca foi um jogador melancólico, inseguro e receoso, principalmente na preparação da Copa do Mundo de 1970. E quem diz isso não sou eu, que jamais o conheci, e sim Tostão, seu colega de Seleção Brasileira por muitos anos. O craque do Cruzeiro comentou, em sua coluna na Folha de São Paulo de alguns dias atrás, que Pelé foi exemplar como líder dos jogadores canarinhos. Além de ser o primeiro a chegar para treinar e o último a sair do campo de treino, nunca reclamava de nada e vivia feliz e incentivando os companheiros. Para Tostão, Edson Arantes do Nascimento encarava naturalmente o papel de liderança dentro e fora de campo, sem qualquer agonia, incerteza ou preocupação. Ou seja, o camisa 10 vacilante, medroso e indeciso de “Brasil 70” jamais existiu.
Por exemplo, o uso político da imagem de Pelé pela Ditadura Militar brasileira no fim dos anos 1960 e no início dos anos 1970 é uma crítica mais atual do que daquela época. Até porque, em meio à intensa censura e à fortíssima repressão estatal, poucos brasileiros ousavam reclamar publicamente da postura fora de campo do Rei do Futebol. Esse olhar mais duro de parte da sociedade com Edson Arantes do Nascimento surgiu no período da Redemocratização, em meados dos anos 1980. Por isso, acho pouco crível que o craque brasileiro fosse instigado, no olho do furacão das décadas de 1960 e 1970, a se posicionar politicamente.
Também é importante dizer que Pelé nunca apoiou diretamente a Ditadura Militar, como algumas vozes mais críticas propagam aqui e ali. Ele apenas não se indispôs com os governantes de plantão, algo que os jogadores da Democracia Corintiana fizeram quinze anos mais tarde. Para aprofundar essa discussão, recomendo o documentário “Democracia em Preto e Branco” (2014), de Pedro Asbeg. No caso do atleta santista, acredito que ele foi mais vítima do cenário político do que um ideológico de extrema-direita. Em outras palavras, foi mais usado pelos militares do que foi um apoiador contumaz do sistema de exceção política. A ingenuidade e o espírito agregador do camisa 10 explicam seu comportamento de apoio ao status quo. Repare que é algo bem diferente de certos craques do presente, que gostam de apoiar os líderes de extrema-direita.
Sei que sou suspeito para falar de Pelé pois o considero o maior ídolo esportivo brasileiro de todos os tempos. No caso, o vejo muito distante de qualquer outro nome nacional do futebol ou dos demais esportes. Acho até mesmo um absurdo que ele tenha tal status contestado hoje em dia em vários círculos sociais. Para muita gente no Brasil, o grande nome do nosso esporte é Ayrton Senna, que para mim nunca passou de um psicopata que para ganhar corridas colocava a vida dos companheiros em perigo. Outros apontam Oscar Schmidt (basquete), Éder Jofre (boxe), Robert Scheidt e Torben Grael (vela) e Gustavo Kuerten e Maria Esther Bueno (tênis) como os ídolos máximos da nação. Será que ninguém nota o tom racista dessa visão, Santo Deus?! Como não dá para embranquiçar Edson Arantes do Nascimento, como fizeram com Machado de Assis na literatura, simplesmente o diminuem historicamente ou não dão os devidos créditos à sua gigantesca figura.

Quando falo em gigantesca figura, saiba que não estou apontando apenas para o aspecto profissional e esportivo, algo que me parece indiscutível. Pelé é o brasileiro mais conhecido no exterior há pelo menos seis décadas e sinônimo de futebol-arte. A questão que sempre me fascinou foi a sua humildade diante do status de maior ídolo nacional do seu tempo e uma das principais figuras da história do esporte mais popular do planeta. Pode reparar que Edson nunca se aproveitou do talento para tripudiar os companheiros de time, para obter privilégios, para faltar aos treinamentos ou para ganhar dinheiro ilegalmente. Muitos jogadores de futebol depois dele, mas com muitíssimo menos conquistas e excelência técnica, exalam arrogância, exigem privilégios, fazem qualquer coisa para não treinar e se envolvem em mil e uma confusões financeiras.
Dá para citar como exemplo certo senador da República, uma das figuras mais desprezíveis a vestir a camisa verde-amarela, que abandona as responsabilidades de legislador em Brasília para curtir presencialmente a atual Copa do Mundo. Claro que as custas do contribuinte nacional, né? Tem o apresentador de televisão desbocado que nunca passou de um bom jogador, mas que se diz craque. Mesmo sem nunca ter sido um protagonista dentro das quatro linhas, exige que seja reverenciado como ídolo descomunal por colegas e convidados de sua atração televisiva. E o que dizer, então, dos atacantes homônimos que conquistaram a Bola de Ouro da FIFA, mas que entraram para a história como atletas preguiçosos, que nunca gostaram de treinar. Esse é um bom estereótipo dos nossos jogadores – e um belíssimo contraponto à postura e à mentalidade vencedora e honesta do Rei do Futebol.
Quanto mais o tempo passa, mais fico fascinado com a personalidade de Pelé. Mais do que um esportista excepcional, ele foi uma pessoa corretíssima, algo que pouca gente comenta hoje em dia. Infelizmente, “Brasil 70 – A Saga do Tri” não mostrou essa característica do meu maior ídolo esportivo. Quando comparo Edson Arantes do Nascimento aos futebolistas das gerações seguintes, percebo que, como ser humano, ele foi disparadamente melhor do que todos. Apenas Zico, entre os grandes ídolos nacionais, talvez tenha chegado perto ou mesmo empatado no quesito profundidade pessoal com o camisa 10 do Santos. Infelizmente, somos uma nação em que nossos craques, salvo raríssimas exceções, são boçais, egoístas, desonestos, trambiqueiros e aproveitadores fora das quatro linhas. Acho isso muito triste.
Lendo a biografia de Pelé e assistindo a vários documentários sobre sua vida, entendi que seu caráter e sua personalidade eram frutos da educação tida em casa. Aí o mérito é totalmente de Dona Celeste e Dondinho, os pais do craque. Uma passagem de Pelé que conheci quando eu ainda era adolescente (não me recordo se vi num livro, numa revista ou num filme) me marcou bastante. O que vou relatar a seguir não aparece, infelizmente, na minissérie da Netflix, tá?
O pequeno Edson, talvez com dez ou onze anos, estava jogando bola com os amiguinhos em um campo de futebol em Bauru. Ao avistar o pai chegando para acompanhar a pelada da molecada, o menino talentoso começou a exagerar nos dribles e nas firulas. Querendo impressionar positivamente Dondinho, um sentimento natural das crianças, o jovem Pelé tripudiava os adversários com seu talento descomunal. A cada jogada incrível, ria e ridicularizava os rivais.
Ao final da partida, Dondinho e Pelé foram embora a pé para casa. Empolgado com o seu desempenho e encantado pelo fato de o pai ter visto suas proezas no gramado, o menino perguntou com um sorriso no rosto o que Dondinho tinha achado da partida. Até então, o pai permanecia em silêncio total na caminhada de retorno ao lar. Aí ele disse: “Nunca passei tanta vergonha na minha vida”. O pequeno Edson não entendeu a tristeza paterna: “Como assim, se eu fui o melhor em campo?!”. Dondinho, com a maturidade de quem já vivera muito e tinha uma enorme sabedoria, respondeu mais ou menos assim: “Deus te deu o talento de jogador de futebol. Por isso, os méritos de jogar tão bem não são seus. O que você tinha que fazer, aí sim é sua responsabilidade, era apenas respeitar seus adversários e seus colegas de time. Mas o que você fez? Ficou zombando de todos, com uma arrogância que não te ensinamos em casa. Nunca fiquei tão desapontado com você como hoje”.

Não é por acaso que, a partir daí, Pelé nunca mais zombou de ninguém e não se achava especial, principalmente diante dos companheiros de time. Enquanto jogadores renomados fugiam da concentração para pegar mulher ou para cair na gandaia, o camisa 10 dos camisas 10 fugia da concentração para treinar. Essa é justamente uma das melhores cenas da minissérie de Paulo Morelli, Pedro Morelli e Quico Meirelles – o craque santista fugindo da polícia mexicana para correr em Guanajuato com os colegas. Se nosso país fosse menos racista, certamente o líder da Copa de 1970 teria adquirido uma dimensão muito maior no panteão dos ídolos esportivos nacionais. Por essas e outras, sou fã tanto de Pelé quanto de Edson Arantes do Nascimento. Até acho que, contradizendo a opinião geral de meus compatriotas, o segundo foi até mesmo maior do que o primeiro.
Desculpe-me o desabafo. Durante o seriado, essas questões vieram à tona na minha mente e ainda estão entaladas na minha garganta. Deu para entender agora o meu incômodo com o retrato injusto de Pelé?! É claro que para uma produção dramática não dava para o herói ser plano, sem qualquer defeito ou sem falhas acentuadas. Daí o colorido que a atração televisiva ganhou com os vacilos e as dúvidas do maior craque da Seleção Brasileira. De qualquer maneira, é bom avisar ao grande público, conforme relatado com brilhantismo por Tostão, que o Rei do Futebol jamais passou perto das características da personagem interpretada por Lucas Agrícola.
Além do retrato inverossímil de Pelé, achei outras pequenas inconsistências históricas em “Brasil 70”. Por exemplo, a cena em que Saldanha convida o supercraque brasileiro é totalmente inconsistente. Por quê? Porque o time que o treinador gaúcho descreve para o filho de Dondinho como sendo o Brasil ideal é a formação tática da equipe da Copa de 70 de Zagallo e não a dele nas Eliminatórias de 1969. E por que o gaúcho conversaria com Edson dentro do campo da Vila Belmiro, em uma noite de chuva?! Não faz o menor sentido. Ainda assim, a licença poética transformou essa cena em uma das melhores do seriado.
Também é um erro histórico chamar os jogadores brasileiros pelos apelidos que eles adquiriram após a conquista no México. Rivelino só virou a Patada Atômica e Gerson só se tornou o Canhotinha de Ouro, por exemplo, depois que Carlos Alberto Torres ergueu a Jules Rimet no Estádio Azteca. Contudo, em “Brasil 70 – A Saga do Tri”, eles são chamados pelos apelidos antes da consagração definitiva. Vamos combinar que não são erros graves, mas que podem incomodar um pouco os torcedores nacionais que conhecem os detalhes da história reconstruída na tela.
Talvez a melhor mudança do roteiro tenha sido a incorporação de Eusébio Teixeira, o narrador fictício que formou dupla com João Saldanha nas transmissões televisivas das partidas do Brasil. É bom contar que, na realidade, a Copa do México teve um rodízio de narradores, uma excentricidade do período inicial da televisão ao vivo em nosso país. Praticamente, cada narrador transmitia os jogos do scratch canarinho por 15 ou 20 minutos e entregava a locução para o próximo. Vamos combinar que não dava para a minissérie mostrar isso, né? Assim, criaram a personagem que Marcelo Adnet interpretou tão bem. Eusébio Teixeira é uma espécie de junção de todos os locutores daquela época. Ou, para o público mais novo, ele é a versão antiga e ficcional do Galvão Bueno.
Em relação ao tom narrativo, a boa surpresa foi a mudança de gênero ficcional à medida que os capítulos vão se sucedendo. Há episódios mais dramáticos e há alguns mais cômicos. Em algumas sequências temos suspense policial e em outras histórias de terror. Há momentos de thriller psicológico e há outros de saga de superação. Essa mescla de gêneros dá ainda mais graça e diversidade à trama de “Brasil 70”, tornando seu roteiro dinâmico e agradável para quem o está maratonando no sofá de casa.

Outro elogio que precisa ser feito à minissérie brasileira é a reconstrução impecável das jogadas da primeira Copa do México. Além da semelhança absurda dos atores com os principais atletas da Seleção Brasileira, o bailado deles no campo é alguma coisa que beira o fenomenal. Em muitos momentos, a impressão é que estamos assistindo às cenas reais das partidas. Mas, não, não estamos, senhoras e senhores. “Brasil 70 – A Saga do Tri” teve a preocupação de ser o mais fiel possível às jogadas e conseguiu imprimir extremo realismo às cenas. Para ser bem sincero com os leitores da coluna Televisão, só peguei duas pequenas diferenças do original: o gol de Jairzinho na final da Copa contra a Itália (ele errou o chute, algo que a série oculta) e o gol perdido por Pelé no início do primeiro jogo contra a Tchecoslováquia (o lance de verdade foi mais difícil do que o recriado). No restante, não temos um A para chiar.
A verossimilhança das jogadas é mérito tanto da preparação do elenco quanto da tecnologia empregada nas filmagens. Os atores selecionados tinham evidentemente experiência no universo futebolístico. Em outras palavras, nenhum deles era perna de pau. Se, por um lado, esse domínio natural com a bola foi magnífico para as cenas de ação dentro das quatro linhas, por outro lado perdeu-se em dramaticidade nas cenas fora do campo. Poucos boleiros da ficção eram experientes atores. Em relação à tecnologia, a equipe do seriado utilizou câmeras móveis que conferiram enorme dinamismo às cenas. A sensação da plateia é que está dentro do campo com os atletas canarinhos.
Isso quer dizer, então, que o realismo das cenas futebolísticas de “Brasil 70 – A Saga do Tri” é acima da média? Infelizmente, a minha resposta é, dessa vez, negativa. O que expliquei no parágrafo acima foi a verossimilhança do bailado das jogadas – este, sim, irretocável! Por outro lado, quando analisamos as cenas das partidas de maneira completa, aí incluindo o estádio e os detalhes do cenário, a qualidade despenca absurdamente. Dá para ver que não há torcida no estádio – os efeitos especiais utilizados foram de baixíssima qualidade. No caso do jogo das Eliminatórias da Copa, dá para ver que o estádio utilizado nas filmagens foi o Canindé, em São Paulo. Vamos combinar que há uma ligeira distinção entre o estádio da Lusa e o Maracanã, local real dos confrontos em solo nacional.
A atuação do elenco me pareceu apenas satisfatória. O único que brilhou pra valer foi Rodrigo Santoro. Há alguns atores e atrizes que até foram bem: Nelson Baskerville, Julia Stockler, Marcelo Adnet e Rogério Brito. Porém, a maioria teve desempenho apenas para passar de ano. Como disse, a maioria dos intérpretes dos craques da Seleção Brasileira foi muito bem na atuação em campo, mas sofrível nos momentos dramáticos fora de campo. Como exceção que só confirma a regra, posso citar Ravel Andrade, que fez Tostão, e Maicon Rodrigues, que representou Paulo César Caju (o PC). A dupla foi a única com mais experiência dramática entre a boleirada da ficção e se saiu bem nas cenas fora do campo. A boa notícia é que as semelhanças físicas dos atores com as personagens reais deixam a história extremamente clara para o público. Afinal, um dos perigos de tramas com várias figuras em cena é torná-la confusa. Isso não aconteceu nesta produção em nenhum momento.
Um aspecto curioso de “Brasil 70” foi a inclusão de alguns torcedores no seio dramático. Eles representaram os 90 milhões de brasileiros que vibraram com a glória canarinha no México. No começo, achei esse expediente desnecessário e um tanto apelativo. Contudo, ao final da minissérie, entendi o caráter dessas figuras desconhecidas, que humanizaram a torcida e mostraram os efeitos dos acontecimentos em campo na plateia comum. Note a variedade dos tipos de torcedores: o pessimista, o supersticioso, o maluco que vende tudo e viaja com o time etc. Impossível não se enxergar nessas figuras, né?
Por fim, considerei a trilha sonora muito boa. Também curti a mistura de cenas reais e cenas ficcionais só no final do último capítulo. Essas foram as principais características deste seriado que me lembro agora. Assista, a seguir, ao trailer de “Brasil 70 – A Saga do Tri” (2026):
Terminei a longa sessão deste seriado no domingo retrasado com duas reflexões que me surpreenderam. Em primeiro lugar, sempre achei que o Brasil tivesse vencido as Copas do Mundo quando superasse o caos administrativo e domado os egos de seus craques, ambos males recorrentes do nosso futebol. Com o mínimo de organização e paz interna, o talento dos jogadores canarinhos seria suficiente para levá-los à conquista do principal troféu da FIFA. Entretanto, não é isso o que vemos em “Brasil 70”. A maior conquista nacional e a maior Seleção de todos os tempos foram erguidas diante de uma enorme confusão. Não será que foi assim também em 1958, 1962, 1994 e 2002, hein? Suspeito que a resposta para tal questionamento seja positiva.
Além disso, a segunda questão que me impressionou em “Brasil 70” foi entender que talvez a Seleção Brasileira da primeira Copa do México não tenha sido assim tão fantástica como acreditamos hoje. Quando comentei isso com meu pai na semana passada, ele quase me matou. “Que ridículo, Ricardo! Aquilo sim era time de futebol. Não fale besteira!!!”, me respondeu Sr. Horacio com o rosto vermelho de braveza. Mesmo sabendo que talvez gere a mesma indignação em muitos torcedores nacionais mais saudosos, sinto que tenho que compartilhar com os leitores do Bonas Histórias a triste conclusão que cheguei ao final do seriado da Netflix.
Para mim, repito, o Brasil de Zagallo e Pelé não jogou tanta bola na competição mexicana em 1970 como acreditamos atualmente. Estou falando sério! Basta ver que em nenhuma partida das seis disputadas, o time desceu para o vestiário, no intervalo das partidas, vencendo. As vitórias aconteceram apenas na segunda metade do segundo tempo, quando os adversários morriam em campo. Aí, sim, com mais preparo físico, o time canarinho voou e liquidou a fatura, até com certa facilidade. Portanto, os méritos não são da parte tática (como muita gente ainda apregoa, conferindo um status de genialidade estratégica que Zagallo nunca teve) nem do talento individual e coletivo dos nossos atletas (que não brilharam, em nenhum momento, em condições normais de temperatura e pressão).
Sei que é triste falar isso, mas o segredo da nossa terceira conquista está mais no trabalho de preparação física de Carlos Alberto Parreira, um herói improvável e ignorado pelos brasileiros, do que pela competência dos nossos técnicos (Saldanha e Zagallo) e pelo desempenho descomunal dos nossos craques (Pelé, Tostão, Gerson, Jairzinho, Rivelino etc.). Juro que acho que se nossos adversários tivessem o mesmo preparo físico que o Brasil teve naquela Copa, não teríamos passado sequer da primeira fase. E aí, adeus imagem de maior time de todos os tempos.
Durmamos com essa bomba, torcida brasileira!
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