Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 40 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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Músicas: Samba do Avião - Seis décadas da memorável criação de Tom Jobim

Gravada em 1962, a canção trata da paixão do compositor pelo Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, resvala em seu medo de andar de avião.

Samba do Avião é a música de Tom Jobim criada em 1962 e que homenageia o Rio de Janeiro

Não deve ser novidade para ninguém que Tom Jobim criou uma infinidade de obras-primas da música brasileira. A carreira do compositor carioca foi tão prolífica que ele é considerado pela Revista Rolling Stone como o maior músico brasileiro de todos os tempos. Do ponto de vista da maioria dos críticos musicais, Jobim divide esse posto com Chico Buarque. Tão difícil quanto sacramentar quem foi o maioral da cena musical brasileira (em um Fla-Flu que poderia se chamar Tom-Chico ou Francisco-João) é apontar qual é o melhor trabalho de Tom Jobim. Posso citar, logo de cara, “Águas de Março”, “Chega de Saudade”, “Garota de Ipanema”, “Desafinado”, “Eu Te Amo”, “Retrato em Branco e Preto”, “Eu Sei que Vou Te Amar”, “Luiza” e “Insensatez”. Ele compôs essas canções ora sozinho, ora com parceiros. Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Newton Mendonça foram os companheiros de criação mais comuns. Já comentei algumas dessas canções memoráveis aqui na coluna Músicas.


No post de hoje do Bonas Histórias, quero trazer a análise de “Samba do Avião”, uma das principais obras de Antônio Carlos Jobim. Por mais que Tom tenha músicas mais famosas, como “Garota de Ipanema”, “Águas de Março” e “Chega de Saudade”, sua genialidade fica mais evidente nessa letra. “Samba do Avião” descreve a visão de um eu-lírico que retorna de viagem ao Rio de Janeiro. No sobrevoo à capital fluminense, ele versa sobre as belezas que os olhos testemunham e exalta a emoção por voltar à cidade amada. Além da qualidade indiscutível, uma homenagem sincera e emocionante ao Rio, “Samba do Avião”, que completará em 2022 seis décadas de vida, tem alguns bastidores interessantes. Vale a pena rememorarmos as curiosidades desse hit da Bossa Nova na coluna Músicas.


Há basicamente duas versões para a criação dessa canção de Jobim. Uma é mais factual e menos charmosa. A outra é menos crível, mas extremamente deliciosa. Escolha qual das opções você prefere. Eu, que nessa seara sou um romântico inveterado, já tenho a minha preferida. Entre a verdade e a beleza de uma história, fico sempre com a segunda alternativa. De qualquer maneira, para entendermos cada uma das versões, precisamos antes contextualizar o período em que “Samba do Avião” foi desenvolvido.


Em 1962, Tom Jobim, então com 36 anos, se tornou um dos músicos mais requisitados do país. Curiosamente, isso aconteceu antes que ele pudesse lançar seu primeiro álbum. O sucesso foi fruto de suas composições, gravadas por outros artistas ou exibidas no teatro e no cinema. Em 1959, João Gilberto explodiu com o disco “Chega de Saudade”. As principais faixas do LP eram justamente as músicas de Tom: “Chega de Saudade” (feita em parceria com Vinicius de Moraes), “Desafinado” e “Samba de Uma Nota Só” (ambas criadas ao lado de Newton Mendonça). Assim, surgia a Bossa Nova e Jobim se tornava instantaneamente um de seus estandartes. Ainda naquele ano, “Orfeu Negro” (1959), filme baseado na peça teatral “Orfeu da Conceição”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, conquistou a Palma de Ouro em Cannes.

Tom Jobim, músico autor de Samba do Avião (1962)

A partir daí, choveram convites para que os integrantes da recém-criada Bossa Nova se apresentassem tanto nacional quanto internacionalmente. Na maioria das vezes, Tom, Vinicius e João Gilberto recusaram as solicitações, principalmente quando houvesse a necessidade de longas viagens. O motivo das negativas era, acredite se quiser, o receio do grupo em andar de avião. O mais medroso era justamente Tom Jobim. Na verdade, ele não tinha simplesmente medo em embarcar na aeronave – Tom tinha pavor!


Contudo, em 1962, a pressão pelas apresentações dos músicos da Bossa Nova no exterior aumentou consideravelmente. Eles foram convidados para fazer um show no Carnegie Hall, o tempo da música norte-americana. Não querendo entrar no avião de jeito nenhum, Tom recusou-se a ir para Nova York. Foram necessárias muitas insistências dos amigos, dos familiares e dos colegas para convencê-lo a mudar de ideia e entrar em um avião pela primeira vez. E, assim, Tom foi para Nova York em novembro de 1962 e se apresentou no Festival de Bossa Nova no Carnegie Hall.


O sucesso do espetáculo abriu definitivamente as portas do mercado fonográfico internacional para os músicos brasileiros. Não à toa, no ano seguinte, Jobim já gravava um disco com o saxofonista Stan Getz e, em 1967, cantava ao lado de ninguém mais, ninguém menos do que Frank Sinatra. Concluída a apresentação em Nova York, o novo problema de Tom era pegar mais uma vez o avião. Como consolo, o destino agora era a volta para a casa. Desejando colocar os pés no Rio de Janeiro, cidade em que o músico nascera e sempre fora apaixonado, ele encarou o medo e embarcou.


Diz a lenda que “Samba do Avião” foi composta ainda no interior da aeronave. Há versões que dizem que ela começou a ser criada nos céus e foi concluída mais tarde em terra firme. Essa é justamente a opção menos crível e mais bonita sobre o desenvolvimento da música. Não me parece verossímil que alguém que esteja apavorado em um avião consiga compor. Porém, que é incrível vislumbrarmos Tom Jobim angustiado em sua poltrona, olhando para o Rio lá embaixo e criando os versos da canção é maravilhoso.

Rio de Janeiro - Samba do Avião, música de Tom Jobim

Para corroborar com essa tese, “Samba do Avião” descreve as saudades que o compositor sentiu do Rio e dos cariocas durante a curta temporada no exterior. Os versos que melhor exemplificam tal sentimento são: “Este samba é só porque/ Rio eu gosto de você/ A morena vai sambar/ Seu corpo todo balançar/ Rio de sol, de céu, de mar”. Em alguns momentos, tenho a impressão de que prevalece o medo do compositor pela viagem feita nas alturas. Logo no início da música, temos: “Minha alma canta/ Vejo o Rio de Janeiro/ Estou morrendo de saudade”. Juro que, quando ouço esses versos, sempre imagino outras palavras: “Minha alma chora/ Vejo o Rio de Janeiro de cima/ Estou morrendo de medo”. E o que dizer, então, da parte que fala: “Aperte o cinto, vamos chegar/ Água brilhando, olha a pista chegando/ E vamos nós aterrar”? Parece-me que o passageiro está realmente angustiado. Afinal, o avião não aterra, ele pousa.


Para completar, é possível entender alguns versos da música como frases ditas por tripulantes ou por outros passageiros do voo. “Dentro de mais uns minutos/ Estaremos no Galeão” é, para mim, algo que o piloto diria no alto falante da aeronave. “Aperte o cinto, vamos chegar” teria sido dito pela aeromoça aos passageiros desatentos.


Infelizmente, a história de que “Samba do Avião” foi criada, no final de 1962, na volta de Tom Jobim de sua primeira viagem internacional é pouco crível. A maior inimiga dessa versão é a incompatibilidade de datas. O retorno do músico de Nova York se deu entre novembro e dezembro. E, acredite, a música foi cantada pela primeira vez em agosto de 1962, no restaurante Au Bom Gourmet, no Rio de Janeiro. Ela foi interpretada pelo grupo Os Cariocas e tocada por Jobim. Como isso foi possível?! Voltemos para o começo de 1962 e analisemos a opção mais factual (e menos emocionante) da criação dessa canção.


Com o sucesso da trilha sonora do filme “Orfeu Negro”, Jobim recebeu, ainda em 1961, o convite para musicar o longa-metragem italiano “Copacabana Palace” (1962), que foi gravado na Cidade Maravilhosa. Dirigido por Steno, roteirizado por Luciano Vincenzoni e estrelado por Walter Chiari, Myléne Demongeot e Franco Fabrizi, a comédia trazia canções interpretadas por João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Os Cariocas. “Samba do Avião” foi uma das músicas exibidas na produção cinematográfica.

Tom Jobim, compositor de Samba do Avião, música de 1962

E como, então, o compositor carioca fez para emular uma viagem de avião se até então não havia entrado em um? Simples: ele imaginou. Aproveitando-se dos passeios a pé que sempre fizera do bairro de Ipanema até o Aeroporto Santos Dumont, no Centro do Rio, Tom contemplava a beleza paradisíaca de uma das regiões mais famosas do país. Encantado com o cenário proporcionado pela Baía da Guanabara, pela praia de Copacabana, pelo Morro da Urca, pelo Pão de Açúcar e pela Marina da Glória, o músico colocou em versos o que estava visualizando. Paradoxalmente, o aeroporto carioca que entra na letra da música foi o Galeão e não o Santos Dumont. O motivo para essa alteração é que Jobim imaginava o avião chegando do exterior e não de uma viagem nacional. Daí a saudade maior que o eu-lírico sentia e a necessidade do pouso no aeroporto internacional da cidade.


Nota-se, nos versos de “Samba do Avião”, uma homenagem explícita às belezas da capital fluminense: a flora, as paisagens naturais, as construções e as mulheres. Não à toa, essa música é um dos mais bonitos tributos que a cidade do Rio de Janeiro já recebeu na música popular brasileira. E olha que não foram poucas as citações que ele recebeu.


Confira, abaixo, a letra de “Samba do Avião”:


“Samba do Avião” (1962) - Antônio Carlos Jobim


Minha alma canta

Vejo o Rio de Janeiro

Estou morrendo de saudade


Rio, teu mar, praias sem fim

Rio, você foi feito pra mim

Cristo Redentor,

Braços abertos sobre a Guanabara


Esse samba é só porque

Rio, eu gosto de você

A morena vai sambar

Seu corpo todo balançar


Rio de sol, de céu, de mar

Dentro de mais uns minutos

Estaremos no Galeão


Esse samba é só porque

Rio, eu gosto de você

A morena vai sambar

Seu corpo todo balançar


Aperte o cinto, vamos chegar

Água brilhando, olha a pista chegando

E vamos nós,

aterrar


“Samba do Avião” foi gravado, pela primeira vez, em outubro de 1962 por Elza Laranjeiras. Porém, a canção só se tornaria um grande sucesso nacional no ano seguinte quando Os Cariocas a lançaram. O grupo já estava cantando músicas de Tom Jobim há alguns anos e embarcava de cabeça na Bossa Nova. Ainda em 1963, o próprio compositor passou a cantar os versos de “Minha alma canta/ Vejo o Rio de Janeiro/ Estou morrendo de saudade”. Mesmo assim, “Samba do Avião” não foi incluído no primeiro álbum de Tom, “The Composer of Desafinado Plays”, de 1963.


Lançado pela gravadora Verve e voltado para o público norte-americano, o LP de estreia de Jobim tinha pouco mais de meia hora de duração e trazia 12 canções: (1) “Girl From Ipanema”, (2) “Amor em Paz/Once I Loved”, (3) “Água de Beber”, (4) “Vivo Sonhando/Dreamer”, (5) "O Morro Não Tem Vez/Favela", (6) “Insensatez/How Insensitive”, (7) "Corcovado”, (8) "Samba de Uma Nota Só/One Note Samba", (9) “Meditation”, (10) "Só Danço Samba/Jazz Samba", (11) “Chega de Saudade” e (12) “Desafinado”. Algumas dessas faixas seriam, mais tarde, consideradas como clássicas da música brasileira e da Bossa Nova.


“Samba do Avião” só entraria em um álbum de Tom Jobim em 1995. Um ano após a morte do compositor carioca, a gravadora Warner lançou a coletânea “Antonio Carlos Jobim – Composer” e colocou essa faixa no álbum póstumo. A interpretação mais famosa de “Samba do Avião” é a que Tom Jobim fez em um show em Montreal, em 1986. Nesse evento, ele estava acompanhado de Danilo Caymmi, filho de Dorival Caymmi, e da Banda Nova. Outra versão memorável é a do espetáculo em Milão de 1978. Nessa outra apresentação, Tom teve a companhia de Toquinho (violão) e de Miúcha (voz). Assista, a seguir, à ambas as interpretações:

Outras figuras famosas cantaram “Samba do Avião”. As intepretações que mais gosto são, em ordem decrescente, de Leila Pinheiro, João Gilberto, Gal Costa, Ivan Lins, Elis Regina e Milton Nascimento. Em 2007, essa música de Tom Jobim foi inserida na trilha sonora da novela “Paraíso Tropical”. Apesar de adorar a versão de Leila Pinheiro, para mim uma das melhores cantoras das últimas três décadas, ouvir “Samba do Avião” na voz de Jobim é outra coisa.


Para encerrar esse post da coluna Músicas, não posso me esquecer de comentar a dimensão que “Samba do Avião” tomou. De tão marcante, essa canção foi decisiva para a maior homenagem que Antônio Carlos Jobim recebeu até hoje. Após cantar a beleza de sua terra natal por tantos anos, o compositor foi honrado postumamente pela cidade do Rio com o nome do aeroporto que está localizado na Ilha do Governador, o segundo mais movimentado do Brasil. Chamado antigamente de Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro e popularmente conhecido como Aeroporto do Galeão, o local ganhou o nome oficial de Aeroporto Internacional Tom Jobim em julho de 1999, quatro anos e meio após a morte do músico. Nada mal para quem tinha medo de viajar de avião e que protelou por tanto tempo a primeira viagem pelos ares.


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