• Ricardo Bonacorci

Músicas: Se Eu Quiser Falar Com Deus - 40 anos da mais polêmica criação de Gilberto Gil

Lançada em 1981, essa canção de Gilberto Gil foi recusada por Roberto Carlos por ser extremamente crítica à religião católica.

Se Eu Quiser Falar Com Deus é a música mais polêmica de Gilberto Gil

Hoje, o Bonas Histórias está em ritmo musical. Nesse novo post da coluna Músicas, vamos comentar a história por trás da canção “Se Eu Quiser Falar com Deus”, obra-prima de Gilberto Gil e uma das composições mais polêmicas da Música Popular Brasileira. Para completar, ainda vamos analisar a letra dessa faixa e explicar o impacto que ela teve no cenário cultural nacional. Portanto, se você ficou positivamente impressionado(a) com as inovações estéticas e as maluquices sonoras promovidas por “Domingo no Parque”, a grande produção artística de Gilberto Gil, aqui temos uma faceta mais questionadora e bem mais sutil de seu trabalho musical.


No início de 1980, Roberto Carlos pediu para Gilberto Gil criar uma música para ele lançar com exclusividade, mas não detalhou a temática que desejava para aquela faixa. O músico baiano pensou, pensou, pensou e supôs que o Rei iria querer falar de algo religioso. Afinal, Roberto era/é um católico fervoroso e já tinha composto canções nessa linha. Por exemplo, “Jesus Cristo”, a mais famosa delas (aquela de “Jesus Cristo/Jesus Cristo/Jesus Cristo/Eu estou aqui”), é de 1969. Com a ideia de falar de Deus em uma música própria, Gilberto Gil começou a escrever a letra. Logo em seguida, surgiu a proposta da melodia que iria acompanhar os versos musicais. Em sua cabeça, o amigo capixaba não iria se recusar a gravar uma bela canção que tratasse das relações com o Divino. O problema é que Gilberto Gil não era/é tão religioso quanto Roberto. Ou melhor, sua religiosidade e sua visão de Deus eram/são diferentes das concepções católicas.


Algumas semanas de trabalho foram suficientes para Gilberto Gil, então com 38 anos, criar “Se Eu Quiser Falar com Deus”, uma preciosidade da MPB. Essa canção é tão brilhante que figura atualmente entre as principais criações da música nacional do século XX. Em outras palavras, é um clássico. Em 2008, a Revista Bravo elegeu essa faixa de Gilberto Gil como a 73ª canção essencial da Música Popular Brasileira. Nada mal para uma encomenda vaga e descompromissada e um trabalho feito para atender ao pedido de um amigo querido.

Caetano Veloso e Gilberto Gil

Contudo, Gilberto Gil ficou inseguro em apresentar sua composição diretamente para Roberto. Será que o Rei iria gostar daquela interpretação alternativa para a religião? Ele gravaria uma música que, ao invés de enaltecer a figura de Deus e de descrever a beleza da fé, questionava abertamente a devoção dos fiéis? As dúvidas do compositor eram pertinentes porque o teor de “Se Eu Quiser Falar Com Deus” era/é extremamente amargo.


Nessa letra, Gilberto Gil escancara as contradições, a mesquinharia, as falsas promessas e a despreocupação do Senhor e, principalmente, de seus representantes na Terra em relação aos homens e as mulheres do povo. Essa canção é quase um hino dos ateus (abraço, Paulinho!). Do ponto de vista de seu conteúdo, “Se Eu Quiser Falar Com Deus” lembra muito “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” (Companhia das Letras), obra-prima de José Saramago (e meu livro favorito do português vencedor do Nobel). Gosto tanto desse romance que para mim ele é a versão verídica da vida de Jesus Cristo, enquanto a interpretação que está na Bíblia é a parte ficcional da trama sacra.


Antes de apresentar sua nova música para quem a encomendou, Gilberto Gil resolveu mostrá-la para outro amigo, Caetano Veloso. Caetano ficou encantado com o que ouviu e não se cansou de rasgar elogios ao trabalho de Gil. Sim, aquela música era brilhante e deveria ser gravada. Na certa seria um sucesso, garantiu o irmão mais velho de Maria Bethânia. “Então você acha que o Roberto irá gravá-la?”, quis saber o compositor de “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, empolgado com o feedback que estava recebendo. Caetano Veloso foi categórico e atirou um balde de água fria no amigo: “Nunca!!! Ele jamais gravará isso!”. E Caetano estava certo.


Ao ouvir “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, Roberto Carlos ficou ofendido. Por muitos anos, segundo dizem, a amizade com Gilberto Gil ficou estremecida por causa justamente dessa canção. O cantor oriundo da Jovem Guarda foi até diplomático nas declarações à imprensa. Em entrevistas aos jornalistas, Roberto disse que a canção era linda e que só não a gravaria porque ela refletia o pensamento religioso de Gil e não o dele. E quando ele cantava algo, precisava acreditar em sua letra, algo que infelizmente não acontecia com os versos de “Se Eu Quiser Falar Com Deus”.

Essa música incomodou tanto Roberto que, uma década e meia mais tarde, ele compôs “Quando Eu Quero Falar Com Deus”. Gravada no álbum de 1995, essa canção é uma resposta direta ao trabalho quase homônimo de Gil. Obviamente, Roberto expôs, em “Quando Eu Quero Falar Com Deus”, sua visão de Deus e da fé católica. O mais legal é que a letra da composição do capixaba dialoga intimamente com a do baiano. Há inclusive oposições diretas entre os versos. Enquanto uma música fala uma coisa, a outra fala o oposto. É incrível assistir a essa intertextualidade musical e criativa de dois gênios da música brasileira!


Com a recusa de Roberto Carlos em cantar “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, Gilberto Gil resolveu lançar sua criação por conta própria. Assim, a música integrou “Luar (A Gente Precisa Ver o Luar)”, disco gravado no finalzinho de 1980 e lançado no início de 1981. Esse foi o primeiro álbum do baiano produzido por Liminha, um dos principais produtores musicais do nosso país (talvez você o conheça de outra forma – ele foi baixista da banda de Rock Os Mutantes). Os principais sucessos de “Luar (A Gente Precisa Ver o Luar)” foram, além de “Se Eu Quiser Falar Com Deus” e da faixa que emprestou o nome ao título do disco (aquela de “O luar/Do luar não há mais nada a dizer/A não ser/Que a gente precisa ver o luar”), “Cores Vivas” (de “Tomar pé/Na maré desse verão/Esperar/Pelo entardecer/Mergulhar/Na profunda sensação/De gozar/Desse bom viver”), “Palco” (“Subo nesse palco/minha alma cheira a talco/Como bumbum de bebê/ de bebê/Minha aura clara/só quem é clarividente pode ver/Pode ver”) e “Flora” (“Toda aquela luz acesa/Na doçura e na beleza/Terei sono, com certeza/ Debaixo da tua sombra/ Oh Flora/ Oh Flora/Oh Flora”). A turnê desse LP durou seis meses e se estendeu em shows no exterior – América Latina, Europa e Estados Unidos.


Curiosamente, Gilberto Gil não foi o primeiro a gravar “Se Eu Quiser Falar Com Deus”. Logo depois da negativa de Roberto Carlos, ainda em 1980, Elis Regina conheceu essa canção e pediu para cantá-la. Sem pestanejar, Gil permitiu. Assim, a música polêmica estreou em um compacto simples de Elis ao lado de “O Trem Azul”. Em 1981, a cantora gaúcha colocou “Se Eu Quiser Falar Com Deus” em uma faixa de seu novo LP. Essa é justamente a gravação mais famosa da música, superando até mesmo a versão do compositor. A interpretação de Elis é, sem qualquer trocadilho, qualquer coisa de outro mundo.


Veja, a seguir, a letra de “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, e ouça/assista, logo depois, o áudio/vídeo da gravação original de Elis.


“Se Eu Quiser Falar Com Deus” (1980/1981) – Gilberto Gil:


Se eu quiser falar com Deus

Tenho que ficar a sós

Tenho que apagar a luz

Tenho que calar a voz

Tenho que encontrar a paz

Tenho que folgar os nós

Dos sapatos, da gravata

Dos desejos, dos receios

Tenho que esquecer a data

Tenho que perder a conta

Tenho que ter mãos vazias

Ter a alma e o corpo nu


Se eu quiser falar com Deus

Tenho que aceitar a dor

Tenho que comer o pão

que o diabo amassou

Tenho que virar um cão

Tenho que lamber o chão

Dos palácios, dos castelos

suntuosos do meu sonho

Tenho que me ver tristonho

Tenho que me achar medonho

E apesar de um mau tamanho

Alegrar meu coração


Se eu quiser falar com Deus

Tenho que me aventurar

Tenho que subir aos céus

Sem cordas pra segurar

Tenho que dizer adeus

Dar as costas, caminhar

Decidido, pela estrada

que ao findar, vai dar em nada

Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada

Nada, nada, nada, nada

Nada

do que eu pensava encontrar

O que faz “Se Eu Quiser Falar Com Deus” uma canção tão espetacular é a união de elementos raros. Em primeiro lugar, não é todo dia que podemos acompanhar, em uma música popular, uma veemente crítica à religião, à fé e ao Divino. Para ser sincero, não conheço muitas criações musicais nessa linha mais ateística e contestadora. De cabeça, lembro apenas de “Depois do Começo”, do Legião Urbana, “Pescador de Ilusões”, do Rappa, e “Igreja Universal”, dos Ratos do Porão. E olha que elas são bem sutis e não vão à fundo nas críticas como Gilberto Gil foi. Talvez quem questionou mais Deus na música brasileira tenha sido Raul Seixas. São antológicas as gravações de “Paranoia”, “Paranoia II”, “Rock do Diabo” e “Pastor João e a Igreja Invisível”.


Contudo, nenhuma dessas canções chegou perto da força narrativa, da beleza poética e, acima de tudo, do tom crítico de “Se Eu Quiser Falar Com Deus”. Toda vez que ouço a música de Gilberto Gil, eu encontro uma nova questão que ele faz referência que eu não tinha me atentado. Por exemplo, “calar a voz” é não criticar os dogmas cristãos; “folgar os nós dos sapatos e da gravata” é a necessidade de ir bem-vestido à Igreja (importância da aparência em contradição à pureza da alma); “tenho que perder a conta/tenho que ter mãos vazias/ter a alma e o corpo nus” é a concepção católica de valorização da pobreza; “tenho que lamber o chão /dos palácios, dos castelos/suntuosos” é a riqueza da Igreja em oposição à precariedade da vida dos fiéis; e aí vai.


O final dessa canção é simplesmente fantástico. Os versos “Tenho que dizer adeus/Dar as costas, caminhar/Decidido, pela estrada/que ao findar, vai dar em nada/Nada, nada, nada, nada/Nada, nada, nada, nada/Nada, nada, nada, nada/Nada/do que eu pensava encontrar” demonstram o desalento daquele que sempre acreditou em tudo o que a Igreja pregou. A sensação é de estarrecimento e de decepção, o que confere certo tom de melancolia e desespero ao desfecho da letra.

Gilberto Gil, autor da música Se Eu Quiser Falar Com Deus

Repare que a forte crítica de Gilberto Gil, ponto alto de “Se Eu Quiser Falar Com Deus”, vem quase que escondida na música. Falo isso porque se alguém ouvir despretensiosamente essa faixa (sem notar as nuances de sua letra) não irá reparar na pegada crítica. Aposto que muita gente até hoje não tenha captado a ironia e a profundidade dos versos de Gilberto Gil. Esse efeito é conseguido porque a acidez semântica da música vem mascarada em palavras brandas (mas não menos potentes) e no tom quase que sacro da melodia. Essa contradição (conteúdo versus aparência) só enaltece ainda mais o valor da criação artística do compositor baiano.


Por fim, “Se Eu Quiser Falar Com Deus” não é uma canção com apenas uma letra marcante. Sua melodia também merece elogios. A harmonia dos instrumentos musicais dá naturalmente destaque para as interpretações dos cantores (que soam quase como um desabafo), mas não fica meramente em segundo plano. Pouco a pouco, os acordes vão subindo e envolvendo a plateia. Em algumas versões, como a clássica de Elis Regina, a melodia vem acompanhada de um impactante coro vocal. Impossível não gostar de uma harmonia musical como essa.


Mais surpreendente é notar que o lançamento dessa obra-prima de Gilberto Gil (e da Música Popular Brasileira como um todo) completa, em 2021, quatro décadas de vida. E, depois de tanto tempo, ela é ainda mais atual do que nunca. O Brasil de hoje parece cada vez mais parecido ao do início dos anos 1980. Nesse sentido, a polêmica suscitada por “Se Eu Quiser Falar Com Deus” lá atrás deve continuar incomodando as almas mais conservadoras e religiosas do século XXI.


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Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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