• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Alberto

O sexto entrevistado dessa temporada do TSL é o protagonista de O Escaravelho do Diabo, o romance mais famoso de Lúcia Machado de Almeida.

Talk Show Literário: Alberto - O Escaravelho do Diabo - Lúcia Machado de Almeida

Darico Nobar: Boa noite, Brasil. [De pé no centro do palco, olha para o público presente no auditório. A imagem é captada pela câmera 1].


Plateia: Boooa noooite! [A resposta vem em um coro uníssono].


Darico Nobar: Você está ligado no Talk Show Literário, o programa de entrevistas da literatura brasileira. [Volta-se para a câmera 3, posicionada à sua frente]. É muito bom estar mais uma vez na sua companhia. Hoje, nós vamos conversar com... o quê?


[Alguém nos bastidores parece interromper o apresentador. Não é possível ouvir nem ver o que acontece ali, pois não há microfone nem câmera na parte de trás do palco].


Darico Nobar: Um presente?! Opa. Por favor, pode trazer. [Caminha em direção à sua mesa]. É sempre muito bom receber lembranças.


[Rapaz usando fone de ouvido gigante e camiseta branca com a logomarca da emissora de TV aparece no vídeo. A cena é mostrada em um take geral. Ele leva um embrulho para o âncora do programa, que já está sentado na cadeira].


Darico Nobar: Fazia tempo que eu não recebia um presente. [Pega o pacote e começa a abri-lo]. Quem é que enviou? [Novamente não se ouve a resposta]. Ah, entendi. Deve ser, então, de um fã misterioso. [Enquanto o embrulho é desfeito, a banda toca uma melodia de suspense]. Um besouro! [Dentro de uma caixinha, um pequeno escaravelho negro fincado numa rolha aparece nas mãos do apresentador]. Obrigado, né? É um presente, como posso dizer, diferentão. [Sua fisionomia é de surpresa]. Deve ter sido enviado por um entomologista. Não sei o que farei com isso, mas valeu mesmo assim.


[Risadas vem da plateia].


Darico Nobar: Como eu ia dizendo, hoje vamos conversar com Alberto, um protagonista clássico dos romances policiais infantojuvenis. [Coloca o presente em um canto da mesa]. Com vocês, Alberto!


[Vindo dos camarins, o entrevistado aparece no palco muito elegante em seu smoking. O rapaz, de vinte e tantos anos, tem olhos azuis e cabelos levemente ondulados].


Alguém na plateia: Lindo! [O grito é precedido por empolgados assobios].


Alberto: Muito obrigado. Boa noite, Darico. Às suas ordens. [De brincadeira, faz uma funda reverência antes de se sentar no sofá ao lado do apresentador].


Darico Nobar: Seja bem-vindo ao Talk Show Literário, Doutor Alberto. É muito bom conversar com você. Só não sabia que a mulherada do auditório ficaria tão assanhada.


Plateia: Lindo, bonito e gostosão. Lindo, bonito e gostosão!


Alberto: Desse jeito eu fico constrangido.


Darico Nobar: Depois dessa recepção, não posso começar nossa entrevista de outra maneira. Diga-me, doutor, você pretende continuar solteiro?


Alberto: Talvez. Amor é um pássaro rebelde que ninguém pode aprisionar. Até hoje só encontrei uma criatura que poderia me fazer mudar de ideia.


Darico Nobar: Quem foi?


Alberto: Uma moça de minha terra.


Darico Nobar: Bonita, simpática?


Alberto: Vou lhe mostrar um retrato dela. [Tira a carteira do bolso, abre-a e mostra uma fotografia protegida por um celofane. A câmera 2 pega a foto de uma moça no meio de algumas pessoas]. É um instantâneo ligeiro que mandei ampliar.


Darico Nobar: Qual o nome dessa formosura?


Alberto: Verônica. Nessa época, ela tinha dezessete anos e era ainda estudante do conservatório. Ela é linda, é encantadora, é maravilhosa. Mas que geniozinho horrível tem esta criatura!


Darico Nobar: Ela ainda mora em Vista Alegre?


Alberto: Ela foi morar com o irmão, um juiz de Direito, noutra cidade, mas não sei qual. Ela me mandou um bilhete lacônico para não a procurar mais.


Darico Nobar: E como vai o seu fraco por ela?


Alberto: Cada vez mais forte! [Não se contém e solta um suspiro melancólico]. Mas agora ela está noiva. Vai ver até já se casou.


Darico Nobar: Por que vocês não ficaram juntos?


Alberto: É uma longa história... Nós estávamos namorando quando precisei ajudar o Inspetor Pimentel e o Subinspetor Silva em uma investigação criminal. Eu ainda não tinha me formado médico, mas fazia residência no hospital municipal.


Darico Nobar: Ah, sim. Eu soube do caso. Morava em Minas nesse período. É o crime das cabeleiras vermelhas, né? Acho que virou notícia no Brasil inteiro.


Alberto: Para minha infelicidade, Verônica era uma das suspeitas do assassínio.


Darico Nobar: Vixe! Sua namorada estava envolvida com o serial killer?


Alberto: Não posso lhe responder ao certo. Já se passaram quatro anos e o episódio das cabeleiras vermelhas continua no mesmo ponto em que o deixamos. A história foi arquivada pela Polícia na pasta dos casos sem solução. Assim, não temos uma resposta para quem seja o cafajeste que matou meu irmão e os outros ruivos de Vista Alegre.


Darico Nobar: E a Verônica nisso tudo?


Alberto: Ela e os demais suspeitos foram convenientemente defendidos pelos respectivos advogados. Apesar de serem olhados com desconfiança por todo mundo na cidade até hoje, eles são inocentes aos olhos da Justiça.


Darico Nobar: Que encrenca, hem, meu velho?


Alberto: Verônica nunca confiou em mim, essa é a verdade. Deve ter achado que eu estivesse contra ela. Mas, eu sei, Verônica é inocente. [Seu olhar é de pura aflição].


Darico Nobar: Também sou dessa opinião, doutor. Acho que tentaram incriminá-la por pura maldade.


Alberto: Só pode ter sido alguém que tinha raiva dela. Mas quem seria? Quanto mais penso nisso, mais confuso me sinto. O pior é que todos os suspeitos eram criaturas aparentemente normais. E o que nos atrapalhou mesmo foi a fartura de gente suspeita. Nunca vi uma coisa assim!


Darico Nobar: Quem sabe o assassino não tenha sido você mesmo, Doutor Alberto. [O convidado sorri amarelo e não diz nada]. Brincadeirinha! Essa sua experiência com investigação criminal não o fez cogitar a hipótese de virar detetive ou inspetor de polícia?


Alberto: O Inspetor Pimentel disse que eu levava jeito para a coisa, que deveria trabalhar na Polícia Técnica ou no serviço de Medicina Legal.


Darico Nobar: Estou de acordo com ele. Por que não, hem?


Alberto: Adoro a profissão de médico e o atendimento no consultório. Talvez seja por isso que o trabalho tenha se transformado quase que num prazer para mim. Desde pequeno, queria essa vida. Ainda garotinho, vivia brincando de médico. É coisa que está no sangue. [Fica dois ou três segundos em silêncio para depois continuar]. Além do mais, essa atividade tem a sua dose de mistério. A medicina frequentemente me faz lembrar um verdadeiro romance policial. Sim, é preciso auxiliar o órgão atacado, descobrir o culpado através dos vestígios deixados, e depois guerreá-lo, vencê-lo a qualquer custo. É preciso dominar diariamente a grande inimiga, a morte, combatendo os seus cúmplices, aqueles terríveis seres minúsculos e invisíveis: os micróbios e os vírus.


Darico Nobar: Por esse ponto de vista, o médico é ao mesmo tempo o investigador do crime e o policial que executa friamente os criminosos descobertos.


Alberto: E nossos índices de resolução de casos são muito superiores aos das delegacias brasileiras. Não trocaria minha profissão por nenhuma outra nesse mundo.


Darico Nobar: Por falar em mundo, soube que você tem uma viagem programada para os próximos meses.


Alberto: Desde que terminei a especialização em cardiologia, pensava em fazer um curso de aperfeiçoamento nos Estados Unidos ou na Europa. Aí recentemente apareceu a oportunidade. No começo do próximo ano, vou para a França para trabalhar por alguns meses com o Doutor Jean Renaud, o mais famoso cardiologista de Paris.


Darico Nobar: Parabéns! É uma baita oportunidade profissional, Doutor Alberto.


Alberto: Aproveitarei para rever meus pais. Depois da morte do Hugo, eles não ficam muito tempo no Brasil. Vivem viajando pelo exterior. Acho que será bom... [Seus olhos se desviam para a mesa do entrevistador]. Darico, o que é isso aqui?!


Darico Nobar: Não fique tão perplexo, doutor. É só um presentinho que recebi de um fã, provavelmente um entomologista ou alguém que pense que eu goste dessas coisas.


Alberto: Quando chegou o pacote? [Pega o escaravelho e o analisa atentamente].


Darico Nobar: Agora pouco, pouco antes de iniciarmos a entrevista. Você não viu quando vieram me entregar o embrulho?


Alberto: Não vi! [Sua fisionomia é de puro pânico]. Tem telefone aqui? Preciso chamar imediatamente o Inspetor Pimentel.


Darico Nobar: Claro que temos. Produção! [Vira-se para a parte de trás do palco]. Por favor, arranjem um telefone para o Doutor Alberto. O que aconteceu? [Volta-se novamente para o convidado]. É algo muito sério?


Alberto: Não posso explicar agora em detalhes, mas acho que o Inseto resolveu agir outra vez. [Olha minunciosamente para o apresentador]. Antes de esbranquiçar, qual era a cor natural dos seus cabelos, Darico?


Darico Nobar: Ruivo. Quando jovem, tinha os cabelos vermelhos como fogo.


Alberto: Ai meu Deus! [Dá um pulo do sofá e corre para fora do palco. De longe, é possível ouvir seus gritos]. Estou fazendo a ligação. Não saia dessa cadeira por nada nesse mundo, Darico. É caso de vida ou morte.


Darico Nobar: Depois dessas palavras, não vou sair daqui. [Encara envergonhado a câmera 2, que dá um zoom em seu rosto]. Pessoal, preciso terminar o programa agora mesmo. Não sei o que aconteceu com nosso convidado, mas boa coisa não parece ser. De qualquer maneira, obrigado pela audiência e até o próximo Talk Show Literário. Volto na semana que vem. Até lá e uma ótima noite a todos.


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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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