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Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura, arte e entretenimento criado por Ricardo Bonacorci em 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, dança, teatro, exposição, pintura e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 43 anos, mora em Buenos Aires e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

  • Foto do escritorRicardo Bonacorci

Talk Show Literário: Helena Matoso

Na primeira entrevista de 2024, Darico Nobar conversa com a protagonista de A Carne, o romance mais polêmico de Júlio Ribeiro e da literatura naturalista brasileira.

Talk Show Literário: Entrevista com Helena Matoso, a Lenita, a bela e polêmica protagonista do romance A Carne, clássico naturalista de Júlio Ribeiro

[Uma exalação capitosa subia do palco, casava-se estranhamente à essência sutil que se desprendia das câmeras curiosas. Era uma excitação suavíssima de ser vista e ouvida, que relaxava os nervos e adormecia o cérebro. Lenita hauriu a sorvos largos esse ambiente embriagador, deixou-se vencer pelos amavios da televisão. Apoderou-se dela um desejo ardente, irresistível, de banhar-se das palavras frescas, de perturbar a consciência até então pacífica da boa gente. Circunvolveu-se os olhos, perscrutou toda a plateia, a verificar se alguém a censuraria].


Helena Matoso: Obrigado pelo convite, Ilustríssimo Senhor Darico Nobar. É um prazer estar neste programa tão respeitado e apreciado pela boa família brasileira.


Darico Nobar: O Talk Show Literário é quem agradece a tua nobre presença, Exrna. Senhora Dona Helena. É para mim uma surpresa, uma revelação. Sabia que eras muito bem-educada, mas te supunha como são em geral as moças com especialidade as brasileiras – piano, canto, quatro dedos de francês, dois de inglês, dois de geografia e... pronto. Pois enganei-me. A senhora dispõe de erudição assombrosa, mais ainda, tem ciência verdadeira, é um espírito superior, admiravelmente cultivado.


[A sua roupa branca recendia a retiver, a sândalo, a ixora, a peau d´Espagne. Era uma formosa mulher de cabelos muito negros. Moreno-clara, alta, muito bem lançada, tinha braços e pernas roliças, musculosas, punhos e tornozelos finos, mãos e pés aristocraticamente perfeitos, terminados por unhas róseas, muito polidas. Por sob os seios rijos, protraídos, afinava-se o corpo na cintura para alargar-se em uns quadris amplos para arredondar-se de leve em um ventre firme, ensombrado inferiormente por velo escuro abundantíssimo. Os cabelos pretos com reflexões azulados caíam em franjinhas curtas sobre a testa indo frisar-se lascivamente na nuca. O pescoço era proporcionado, forte, a cabeça pequena, os olhos negros vivos, o nariz direito, os lábios rubros, os dentes alvíssimos, na face esquerda tinha um sinalzinho de nascença, uma pintinha muito escura, muito redonda].


Helena Matoso: É por demais bondoso, senhor.


Darico Nobar: Acabemos com essas excelências, com essas senhorias. A partir de agora será Lenita para cá, Darico para lá e... toca! Cerimônias só para a Igreja.


[Atrás da mesa, o apresentador sorria. Era evidente o seu contentamento por conversar com uma figura tão simbólica da literatura naturalista].


Darico Nobar: Menina, você sabe que sou quase seu tio. Seu pai, o Doutor Lopes Matoso que Deus o tenha, era um dos meus melhores amigos. Se precisar de alguma coisa, mande-me chamar a qualquer hora, não tenha receios de me incomodar. 


Helena Matoso: Obrigada, não quero coisa nenhuma. Meu único desejo é paz de espírito e controle emocional para lidar com os impulsos carnais que me dominam vez em sempre. E, convenhamos, isso só depende de mim.


Darico Nobar: Por falar em amigos, conheceste Júlio Ribeiro. Como ele é?


Helena Matoso: Um gramático que se pode parecer com tudo menos com um gramático. Não usa simonte, nem lenço de Alcobaça, nem pincenez, nem sequer cartola. Gosta de porcelanas, de marfins, de bronzes artísticos, de moedas antigas. Tem, ao que creio, uma quantidade adorável, um verdadeiro título de benemerência – nunca fala, nunca disserta sobre coisas de gramático.  


Darico Nobar: Que observação mais perspicaz! É com uma mulher como você que eu devia ter me casado. Burro eu não sou, mas teria atingido níveis inimagináveis de inteligência se a tivesse tido para minha companheira de prosa desde os princípios. Inda se tivesse um filho ou um neto da sua idade para se casar com você...


Helena Matoso: Escusa que me diga, mas saiba que eu não me quero casar.


Darico Nobar: Como?! És uma mulher virgem, moça, bela, sábia, ilustrada, nobre e rica. Olha que mais cedo ou mais tarde é preciso que o faças.


Helena Matoso: Algum dia talvez, por enquanto não.


Darico Nobar: São Benedito há de dar a senhorita um marido bonito. [A moça solta uma grande risada]. Não sente falta de companhia às vezes, minha amiga?


Helena Matoso: Em um momento, como por uma intussuscepção súbita, aprendi mais sobre mim do que em todos os longos estudos de fisiologia. Reconheci que a mulher superior, apesar da mentalidade prodigiosa, com toda a ciência, não passava, na espécie, de uma simples fêmea, e que o que sentia era o desejo, era a necessidade orgânica do macho. Ou de outra fêmea. Aí invadiu-me um desalento imenso, um nojo invencível da solidão. Uma falta de complemento, um vazio imensurável, uma letargia que pede movimento e fricção. Se os planetas giram e o tempo não para de correr, ficar estático é antinatural.


Darico Nobar: O mundo é assim mesmo. O que não tem remédio remediado está.


Helena Matoso: Há horas que não cabe a razão. O desabrochar do intelecto não preenche a necessidade da carne. É como se a realidade vigorasse, como se os arcanjos de Milton, do alto imaculado do céu para o lodo sujo da terra, sentissem feridos pelo aguilhão da volúpia dos desejos mais íntimos. Espolinhamos nas concupiscências do cio, como uma coelha albina, como uma cabra, como um animal qualquer... é a suprema humilhação da luz e a maravilha libertina da escuridão.      


Darico Nobar: Teria amantes?


Helena Matoso: Por que não, Darico? Não me importa as murmurações, os diz-que-me-diz da sociedade brasileira, hipócrita, maldizente. Sou moça, sensual, abastada, culta e inteligente. Tenho mais que gozar a vida. Escandalizam-se? Pois que se escandalizem.


Darico Nobar: Não temes se arrepender depois, Lenita?


Helena Matoso: Depois, quando ficar velha, quando quiser me aburguesar, viver como toda gente, casar-me, ter filhos, aí que não vou me arrepender da minha juventude. Por ora, é muito fácil. Tenho dinheiro. Não há de me faltar titulares, homens formados que se submetam ao jugo uxório que vou impor-lhes. Ao menor dos pedidos de sua ama, eles se atiram aos meus pés como vassalos cumpridores das suas obrigações feudais.   


Darico Nobar: Me contaram que a senhorita e o Sr. Manuel Barbosa ficaram muito próximos.  


Helena Matoso: Ele é um pobre diabo, caipirão, velhusco, achacoso. Caça por caçar, sem intuição poética, bestialmente, como qualquer caboclo. Bebe pinga em excesso. Verdade que viveu na Europa, mas ter estado por lá não muda a constituição de ninguém. Ele é o que eu esperava encontrar nos recôncavos do interior paulista – um tipo sem imponência, reles, abaixo até da craveira comum. Além disso, é casado.


Darico Nobar: A mulher de Lesseps era uma mocinha nova, quase uma criança, e se casara por paixão. Ademais, o Sr. Barbosa não é velho, é homem maduro apenas. E, até onde sei, para a senhorita o casamento é uma instituição egoísta, hipócrita, profundamente imoral, soberanamente estúpida.


Helena Matoso: É uma instituição velha de milhares de anos. Exatamente por isso, nada mais perigoso do que arrostar, contrariar de chofre as velhas instituições. Elas hão de cair, sim, mas com o tempo, a mesma lentidão com que se formaram, e não de chofre, como um relâmpago. A sociedade ainda vai estigmatizar por muito tempo o amor livre, o amor fora do casamento. Não serei eu que forçarei as mudanças. Não tenho nem esse poder nem tal pretensão.


Darico Nobar: Tem visto o Sr. Manuel Barbosa constantemente? 


Helena Matoso: Há semanas Manduca partira da fazenda. Só tinha escrito uma carta ao coronel, sobre negócios, na qual lhe dava esperanças de salvar parte da fortuna da família. Manduca está sempre na estrada. Sua alma é de viajante, andarilho, aventureiro.


Darico Nobar: Você tem algum sonho especial, Lenita?


Helena Matoso: Sonho?! Sempre sonho com um gladiador forte, másculo, viril. Às vezes ele é violento. Às vezes carinhoso.


Darico Nobar: Não é esse tipo de sonho que estou me referindo...


Helena Matoso: Ele se avoluma no meu leito, toma atitude de bicho indomável que não pode ser contrariado. Baixa os braços, endireita-se e desce pelo meu corpo lânguido. Rolo com as delícias no eflúvio magnético do seu toque, como na água deliciosa de um banho tépido.


Darico Nobar: Entendi.


Helena Matoso: Sinto tremores súbitos percorrer todos os meus membros. Meus pelos hispidam-se em uma irritação mordente e lasciva, dolorosa e cheia de gozo. O gladiador revela sua nudez provocadora de suas forças viris. O contato não é contato frio e duro de uma estátua de bronze grega; é o contato quente e macio de um homem vivo e com sangue a correr pelas veias.


Darico Nobar: Já entendi!!! Podemos mudar de assunto?


Helena Matoso: Os lábios dele colam-se nos meus, seus braços enlaçam-me, seu interminável peito cobre meus seios delicados. Estremeço de prazer, mas de prazer incompleto, falho, torturante. Quando me revolvo na besta-fera do ardor do cio, na tonicidade nervosa do erotismo, no orgasmo fantasmagórico, a alucinação revela-se uma alucinação. Acordo molhada e decepcionada com a vida que era para ser e não é.


Darico Nobar: Oh! Meus pecados! [O grito do apresentador ecoou pelo estúdio]. Pois é uma louquinha que se está a tagarelar sobre o que se passa nos recôncavos de sua alma. Isto é dinamite puro para a nossa sociedade conservadora e de mente limitada. Com certeza vai pilhar um formidável rebuliço.


Helena Matoso: O que tenho pilhado é um formidável apetite por falar. Hoje hei tagarelar por todas as damas.


Darico Nobar: Ó produção, anda, vai, traz conhaque lá de dentro, depressa.


Helena Matoso: Vai beber conhaque, Darico?


Darico Nobar: Você vai beber conhaque.


Helena Matoso: Nunca provei tal coisa.


Darico Nobar: Pois agora há de prová-lo. É o único meio de ganhares lucidez.


[Veio o conhaque, um conhaque genuíno, velho, de 1848. Lenita bebeu um calicezinho, tossiu. Lagrimejaram-lhe os olhos. Achou forte, mas gostou. Repetiu. E repetiu mais uma vez. De repente, sentiu o efeito da bebida. As verdades foram contidas impiedosamente e a entrevista perdeu o sentido. O Talk Show Literário prosseguiu por mais meia hora. Contudo, o mais importante que Lenita poderia dizer já havia sido revelado quando estava sóbria. Ou, quem sabe, quando estava embriagada pela sinceridade nua e crua].


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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas sete primeiras temporadas, neste oitavo ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.


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