• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Hermes

Em nova entrevista de 2021, Darico Nobar conversa com Hermes, personagem de Morangos Mofados, coletânea de contos de Caio Fernando Abreu.

Talk Show Literário: Hermes - Morangos Mofados - Caio Fernando Abreu

Vocalista: Amor, meu grande amor/Não chegue na hora marcada/Assim como as canções/Como as paixões e as palavras/Me veja nos seus olhos/Na minha cara lavada/Me venha sem saber/Se sou fogo ou se sou água.


[Tão logo o apresentador gira o punho e fecha os dedos da mão, em um gesto totalmente cênico, a banda e o cantor interrompem a música. A plateia aplaude a coreografia executada no palco].


Darico Nobar: Se não me engano, essa canção foi imortalizada na voz de Angela Ro Ro. [Fala baixinho como se conversasse consigo]. Boa noite, plateia querida do Talk Show Literário! [Dessa vez, solta o vozeirão que se propaga pelo auditório].


Plateia: Boooooooooooa, noooooooooooite!


Darico Nobar: No programa de hoje, meu convidado é um jovem protagonista dos contos de Caio Fernando Abreu. Agora, no palco do nosso talk show, Hermes!


[As câmeras da atração televisiva procuram em vão o entrevistado pelos quatro cantos. Ninguém surge aos olhos do público presente tanto no auditório quanto em casa].


Darico Nobar: Hermes. Eu chamei Hermes! [Repete mais alto, quase gritando].


[Na escuridão funda do auditório, surge um jovem magricelo de blusa verde-oliva. Com a fisionomia um tanto assustada e com fundas olheiras, como se fugisse de uma caverna secreta e perigosa, ele corre em direção às luzes do palco em passos trôpegos].


Hermes: Sou eu. Eu sou o Hermes. [Joga-se no sofá ao lado do apresentador].


Darico Nobar: Então você é que é o tal do Hermes?


Hermes: Sim, senhor. [Olha para trás como se estivesse sendo seguido ou como se acabara de perder algo].


Darico Nobar: Muito prazer. O que aconteceu?! Você parece assustado, meu rapaz. Por que não subiu ao palco quando eu anunciei seu nome pela primeira vez?


Hermes: Não ouvi. Me desculpe, meu senhor. Estava com os pensamentos longe. [Uma mosca esvoaça perto de seu nariz. Ele tenta sem sucesso matá-la. O jeito atabalhoado do convidado provoca um coro de risadas na plateia].


Darico Nobar: Sem problema. [Olha atentamente para o entrevistado, que insiste em ficar espiando para trás]. Está com medo do programa? Sente medo de mim, Hermes?


Hermes: Não sei... Bom, agora no comecinho, talvez esteja um pouco, meu senhor.


Darico Nobar: Não precisa me chamar de senhor. [Passa os dedos em sua volumosa barba branca]. E não fique preocupado, meu jovem. Só vamos conversar um pouco. Até onde sei, bater um papo com alguém não arranca pedaço de ninguém.


Hermes: Nunca fiz isso.


Darico Nobar: O que você nunca fez: bater um papo ou arrancar um pedaço?


Hermes: Os dois. No fundo é tudo a mesma coisa.


Darico Nobar: Sério? Não acredito. Um rapagão do seu tamanho já era para estar habituado,


Hermes: É verdade.


Darico Nobar: Não se preocupe. Estou aqui para ensiná-lo como se faz. Quer? [Parece que ia pegar os papéis na mesa, mas os dedos que acariciavam a própria face desviam-se para pousar no joelho do entrevistado].


Hermes: Quero. [Novas risadinhas são ouvidas na plateia].


Darico Nobar: Quantos anos você tem, Hermes?


Hermes: Dezessete, meu senhor. Quase dezoito.


Darico Nobar: Me chame de Darico, está bem? Não precisamos de tantas formalidades. [O convidado assente com a cabeça). Já trabalha?


Hermes: Num escritório. Sou arrimo de família. [Pisca os olhos excessivamente].


Darico Nobar: E vai prestar vestibular, imagino? [O convidado balança outra vez a cabeça afirmativamente]. E vai fazer o quê? Engenharia, direito, medicina?


Hermes: Não.


Darico Nobar: Odontologia? Agronomia? Veterinária?


Hermes: Filosofia, meu senhor.


Darico Nobar: Olha que interessante! Então quer dizer que você vai ser filósofo, hein? Então me conta, por qual tipo de filosofia você se sente mais atraído?


Hermes: Não sei exatamente. Outro dia andei lendo um cara aí. Leibniz, aquele das mônadas, conhece? [O apresentador balança a cabeça para os lados]. As mônadas. É um cara aí, ele dizia que tudo no universo é, assim que nem janelas fechadas, como caixas. Mônadas, entende? Separadas umas das outras.


Darico Nobar: Tudo?


Hermes: É, tudo, eu acho. As casas, as pessoas, cada uma delas. Os animais, as plantas, tudo. Cada um, uma mônada. Fechada.


Darico Nobar: É isso o que você quer estudar na faculdade?


Hermes: Sim, meu sargento.


Darico Nobar: Sargento?!


Hermes: Perdão, meu senhor. Força do hábito.


Darico Nobar: Hermes, você fala como se estivesse nas Forças Armadas. Você já se alistou?


Hermes: Sim, meu senhor.


Darico Nobar: Exército, suponho. [Entrevistado faz não com a cabeça]. Aeronáutica, então? [Outro não]. Portanto, foi na Marinha. [Novamente vem a negativa]. Pera aí! Não entendi. Se você não se alistou no Exército, na Aeronáutica e na Marinha, a quem você serviu?


Hermes: Ao Sargento Garcia.


Darico Nobar: Sargento Garcia?! [Em contraste com o público na plateia que se diverte com as respostas do convidado, o entrevistador permanece sério, tentando entender as palavras vindas da figura sentada ao seu lado]. O Sargento Garcia é aquele do Zorro?


Hermes: Senhor, não. Garcia é como a bagualada toda o chama no quartel. Luiz Garcia de Souza, o Sargento Garcia, é oficial do 3º Regimento de Cavalaria de Guarda de Ozório, em Porto Alegre.


Darico Nobar: Não conheço.


Hermes: Ele tem um bigode grosso como um mandruvá cabeludo rastejando em volta da boca. O olho verde frio de cobra quase oculto sob as sobrancelhas unidas em ângulo agudo sobre o nariz. Braços e peito peludos, cabelos quase raspados, duros de brilhantina, e um cheiro de bosta quente de cavalo, corpos sujos de machos e cigarros.


Darico Nobar: Não conheço mesmo.


Hermes: Ele tem uma verruga preta na virilha e uma bunda muito branca, feito leite pasteurizado que azedou, sabe? E tem um dos sacos muito murcho. Tá sempre gritando com a tropa, não tem muita paciência com a gente. Só não tem pressa quando faz o exame médico dos recrutas ou quando leva alguém para os quartinhos fedorentos da Casa da Isadora.


Darico Nobar: Eu já disse que não conheço o Luizão!!! [Seu grito escancara a perda súbita de paciência]. Quero dizer, não conheço o Sargento Garcia. [Tentando retomar a calma, volta a falar com uma voz melosa]. Desculpe-me, Hermes. Acho que me excedi. Diga-me, meu rapaz, o que tem de tão especial nesse Sargento Garcia?


Hermes: Ele disse... ele logo viu que eu era diferente do resto.


Darico Nobar: Diferente como?


Hermes: Como? Como um guri fino, delicado, bonito, de família certinha, educado em bom colégio. Ele tá mais acostumado com perobão mais grosso que dedo destroncado.


Darico Nobar: Nesse sentido, ele tem toda a razão. É raríssimo encontrarmos um rapagão de boa aparência e que ainda seja inteligente a ponto de debater questões existencialistas. Não é? [O rapaz não responde]. Você tem algum preconceito contra os homossexuais?


Hermes: Não, meu senhor.


Darico Nobar: Tem certeza?


Hermes: Eles são apenas corpos que por acaso são de homens gostando de outros corpos, que por acaso são de homens também. Ou são apenas corpos que por acaso são de mulheres curtindo outros corpos, que por acaso são de mulheres também.


Darico Nobar: Tá aí uma perspectiva sábia.


Hermes: É assim que as coisas são, meu senhor. Que se há de fazer, que se há de fazer? O senhor tem um cigarro aí?


Darico Nobar: Você fuma?


Hermes: Comecei ontem.


Darico Nobar: Eu não tenho um aqui agora... [Fica alguns segundos em silêncio. Parece pensar antes de prosseguir]. Mas tenho um maço no meu camarim. Se você quiser dar uma passadinha lá depois do programa, podemos conversar com mais calma. Lá ninguém vai saber que dei um cigarro para um menor de idade [Suas mãos avançam para a coxa do rapaz]. Isso é proibido. Não quero que ninguém saiba. [Fala quase sussurrando].


Hermes: Tá. Não falo nada. Mas não posso demorar. Se eu chegar em casa muito tarde minha mãe fica uma fúria.


Darico Nobar: Não vamos demorar, eu acho. E o meu camarim, você vai ver, é um lugar fino, bacanudo demais. Lá a gente pode ficar realmente à vontade, sabe como é. Ninguém incomoda. [Sua mão sobe um pouco mais]. E ainda servem comida fresquinha. Tem frutas de todos os gostos. Os morangos são ótimos! E carne novinha, de primeira.


Hermes: Tá bem.


Darico Nobar: Pessoal, essa foi a entrevista de hoje. [Olha para a câmera 3, posicionada ao lado de sua mesa]. Obrigado por vir ao Talk Show Literário, Hermes, e por conversar tão francamente com a gente. [Na imagem geral, é possível ver o rapaz acenar levemente com a cabeça]. Na próxima semana, voltaremos com mais um programa ao vivo e exclusivo para vocês. Até a próxima, galera!


[A câmera 1, em uma tomada ampla, mostra o auditório aplaudindo o apresentador e o convidado, que saem apressados para o interior do teatro. Sem a dupla principal, a imagem caminha, então, em direção à banda. No canto esquerdo do palco, os músicos tocam uma nova canção enquanto os créditos da atração televisiva sobem na tela].


Vocalista: Que queres tu de mim/Que fazes junto a mim/Se tudo está perdido, amor/Que mais me podes dar/Se nada tens a dar/Que a marca de uma nova dor/Loucura reviver/Inútil se querer/O amor que não se tem.


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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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