Bonas Histórias

O Bonas Histórias é o blog de literatura, cultura e entretenimento desenvolvido por Ricardo Bonacorci desde 2014. Com um conteúdo multicultural (literatura, cinema, música, teatro, exposição e gastronomia), o Blog Bonas Histórias analisa as boas histórias contadas no Brasil e no mundo.

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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 40 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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Talk Show Literário: José Maria

O novo entrevistado de Darico Nobar é um dos protagonistas de Meninos Sem Pátria, o best-seller infantojuvenil de Luiz Puntel.

Talk Show Literário: José Maria - Meninos Sem Pátria - Luiz Puntel

[No canto esquerdo do palco, a banda toca Tô Voltando. A música é acompanhada com entusiasmo pelo apresentador atrás de sua mesa e pela plateia no auditório].


Vocalista: Pode ir armando o coreto/ E preparando aquele feijão preto/ Eu tô voltando/ Põe meia dúzia de Brahma pra gelar/ Muda a roupa de cama/ Eu tô voltando/ Leva o chinelo pra sala de jantar/ Que é lá mesmo que a mala eu vou largar/ Quero te abraçar/ Pode se perfumar/ Porque eu tô voltando. [Assim que o apresentador faz gesto cênico com uma das mãos, os músicos interrompem imediatamente o som].


Darico Nobar: Salve, salve, galera do Talk Show Literário! No programa de hoje, vou conversar com um jornalista que foi perseguido pela Ditadura Militar nos anos 1970. Exilado político, empreendedor no ramo da comunicação, pai de sete filhos e, claro, meu amigo há um tempão, o entrevistado dessa noite é José Maria! Vem para cá, Zé!


[Senhor de cabelos anelados e brancos e com a roupa um pouco amassada entra correndo no palco enquanto o público o aplaude].


José Maria: Ricão, arrombaram o jornal! [Anuncia tão logo desaba na poltrona e afunda os dedos no cabelo, entrelaçando-os na nuca].


Darico Nobar: Essa história é velha, Zê. Tô careca de saber da invasão na redação do O Binóculo em 1970. [Tira uma parte do chapéu que está usando e mostra a ausência de cabelo]. Conte-nos alguma novidade, algo realmente novo, recente.


José Maria: Não, não estou de lorota, meu amigo. Acabou de acontecer. Arrombaram mesmo o jornal. Acabei de ver. Estou vindo de lá.


Darico Nobar: Arrombaram como?


José Maria: Arrombaram arrombando. Arrebentaram a porta e entraram arrombando, oras!


Darico Nobar: Mas e aí? Chamaram a polícia?


José Maria: Polícia? [Gargalhou nervosamente].


Darico Nobar: Sim. Se roubaram é preciso chamar a polícia, não?


José Maria: Como chamar a polícia, Ricão, se eles são os primeiros suspeitos?! Quebraram tudo lá dentro, mas não roubaram nada...


Darico Nobar: Será que foi por causa do artigo que você publicou sobre o esquema de rachadinha no gabinete do filho do presidente?


José Maria: Claro que sim. Eles já estão deixando de ameaçar e partindo para a ação...


Darico Nobar: Mas estamos no século XXI! O Brasil agora é um país democrático, livre. Temos leis, Zé. Ninguém pode atacar a imprensa impunimente.


José Maria: Antes, a repressão se restringia às redes sociais e no máximo às cidades pequenas do interior. Agora, lá em São Paulo e aqui no Rio de Janeiro, já estão partindo para o quebra-quebra. [A voz sai cansada, de quem entregou os pontos]. Eu tinha que publicar o artigo, não tinha?


Darico Nobar: Lógico que tinha! Se você não publicasse, não seria o mesmo Zé Maria combativo e implacável que conheci lá em Canaviápolis. E se você não produzisse conteúdo investigativo, O Binóculo seria chamado de Óculos Fundo de Garrafa.


José Maria: Quem ia gostar muito disso é o Trutinha.


Darico Nobar: O dono daquela rádio chapa-branca?! Pois eu prefiro O Binóculo assim capengando, cheio de dívidas, mas denunciando as injustiças, o desmatamento, a corrupção, as safadezas dos políticos e dos militares...


José Maria: Agora entendo o que o Robertinho queria dizer outro dia com aquela prosa fiada. Era o cabo Cirilo mandando me avisar...


Darico Nobar: O cabo Cirilo? Aquele mesmo?! [Entrevistado balança a cabeça em sinal de aprovação]. Mas ele não tinha ido para a reserva, voltado a viver em Campinas.


José Maria: O presidente nomeou-o Secretário Especial da Comunicação do Ministério da Justiça. Voltou a trabalhar em Brasília e está cheio de prosa. Manda prender e soltar como antigamente. Ele é o terror dos jornalistas de oposição.


Darico Nobar: Mas o cabo não pode ameaçar ninguém, Zé?


José Maria: Agora eles podem tudo, meu amigo! Com esse monte de medidas provisórias e com a ingerência na Polícia Federal, não há mais garantia para nenhum cidadão. Para que alguém seja cancelado, basta um telefonema de Brasília, basta que apontem o dedo na direção de alguém, e pronto! Isto não sai com estardalhaço na grande mídia, mas estou sabendo que a situação está ficando insustentável. Muitos colegas jornalistas estão sendo literalmente caçados. É a volta do pesadelo.


Darico Nobar: E o que você vai fazer?


José Maria: Ainda não sei. [O tom é de desanimação].


Darico Nobar: Vale a pena tanto sacrifício pessoal e familiar em nome do jornalismo sério e imparcial?


José Maria: A gente assume certas posições na vida e isso às vezes traz dissabores...


Darico Nobar: Não vai me dizer que você se culpa por não ter feito coluna social no O Binóculo!


José Maria: Se eu ficasse falando dos bacanas de Canaviápolis como o cabo Cirilo queria, nós não teríamos passado por tudo isso novamente. [Coloca a mão na cabeça].


Darico Nobar: O que é isso, Zé?! E com que cara você, sua família e seus amigos iam olhar para frente, hein? Você quer saber o que penso de você?


José Maria: Quero. Diga!


Darico Nobar: Para mim, você sempre foi um baita homem, foi macho a vida toda. [Morde os lábios tentando não se emocionar]. Denunciar gente perigosa e desumana mesmo sob ameaças e terrorismo não é para qualquer um.


José Maria: Verdade, Daricão?


Darico Nobar: Palavra de jornalista.


José Maria: Então, me dá um abraço forte... [Os amigos se abraçam]. E eu pensando que você ia me entrevistar. Este seu programa está mais para bate-papo de compadres.


Darico Nobar: Já que estamos em clima de conversa informal, diga-me o que o Marcão anda fazendo? Faz tanto tempo que não vejo meu afilhado.


José Maria: O Marcão continua morando em Paris. Ele trabalha como correspondente internacional para alguns veículos de imprensa daqui e tem uma coluna no site do Le Monde em que trata da política brasileira.


Darico Nobar: Tal pai, tal filho.


José Maria: Acho que sim. [Solta uma gargalhada satisfeita].


Darico Nobar: E o menino dele, está bem?


José Maria: Está sim. E a Claire está grávida de novo. Parece que agora vem, enfim, uma menina.


Darico Nobar: Meus parabéns, Zé! Mais um netinho. Ou melhor, netinha. Eu já perdi a conta. Esse é o terceiro ou quarto neto?


José Maria: Quinto. O Marcão tem um, o Ricardo tem dois e a Nicole tem um também. Só o Pablo que não tem nenhum, você sabe. Mas eles estão pensando em adotar.


Darico Nobar: Fico imaginando a expectativa da Terezinha com a chegada da primeira netinha. Ela deve estar subindo nas paredes de ansiedade.


José Maria: Engraçada como é a vida, né, Ricão! A Tererê botou na cabeça que tem que ir para a França para acompanhar o final da gravidez da Claire. Quer estar lá quando a menina nascer. Está toda preocupada. Depois que soube que é uma menina, está toda empolgada com a gravidez da nora.


Darico Nobar: E por que você não aproveita e viaja também? Do jeito que você está trabalhando, pegar uns dias de folga seria bom.


José Maria: Você falou igualzinho a Tererê. Se a coisa piorar, talvez eu precise ir mesmo... Aí não será por vontade própria, sabe? Será necessidade mesmo. E a mala terá que ser um pouco maior. Por falar nisso, você ainda tem aquele apartamento em Sceaux?


Darico Nobar: Tenho. Inclusive, se eu não estiver enganado, ele está desocupado. Se vocês precisarem dele novamente, é só pedir.


José Maria: Muito obrigado. É bom saber que podemos contar com sua ajuda.


Darico Nobar: Claro, Zé. Fique à vontade para pedir. Mas você acha que a coisa pode piorar ainda mais no Brasil? Digo: para vocês jornalistas independentes que têm uma linha editorial mais crítica e atuante?


José Maria: Não sei, mas pelo tom que a banda está tocando, não me admiraria se a música desafinasse e eu tivesse que outra vez sair correndo para o aeroporto. Outro dia mesmo, a Tererê me pegou remexendo nas velhas malas de viagem. Eu só queria ver o estado delas, se ainda aguentam o tranco. A Tererê não disse nada, só ficou me olhando. Acho que ela percebeu alguma coisa, só não quis me dizer. A vontade dela de ver o Marcão e a Claire surgiu depois disso. Agora não sei se ela está querendo ficar um tempo longe dessa confusão ou se está mesmo interessada no nascimento da netinha.


Darico Nobar: Vamos torcer para Brasília acalmar, né? Esse negócio de exílio, perseguição política e ataque à imprensa faz parte do passado. O Brasil é agora um...


[A transmissão do Talk Show Literário é misteriosamente interrompida. A tela fica escura e sem som por cerca de cinco minutos. Após o apagão, a programação da emissora retorna no começo da atração seguinte: um filme bíblico].


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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas cinco primeiras temporadas, neste sexto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.


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