• Ricardo Bonacorci

Talk Show Literário: Lia de Melo Schultz

A sétima entrevistada desse ano do TSL é uma das protagonistas de As Meninas, romance de Lygia Fagundes Telles publicado em 1973.

Talk Show Literário: Lia de Melo Schultz - As Meninas - Lygia Fagundes Telles

[No canto esquerdo do palco, a banda toca os acordes de Get Out of Here. Com a virada de câmera, o apresentador surge sentado à mesa. Ao fundo, é possível ver o público no auditório. Ao primeiro aceno do âncora do programa, a música para totalmente].


Darico Nobar: Olá, Brasil!!! No Talk Show Literário dessa noite, vamos conversar com uma das personagens mais famosas de Lygia Fagundes Telles. Com vocês, ela: Lia de Melo Schultz, a minha protagonista favorita de As Meninas.


[Sob os aplausos da plateia, uma moça gordinha vestindo camiseta vermelha com o rosto de Che Guevara estampado, saia florida, grossas meias brancas e alpargata azul se levanta do auditório. Com um movimento brusco, ela puxa as meias até os joelhos. A sacola de couro que carrega resvala no chão. Ao caminhar em direção ao entrevistador, a jovem parece se preocupar com as meias que insistem em escorregar. Ela sobe as escadas do palco em três saltos e se atira na poltrona].


Darico Nobar: Tudo bem com você, Lia?


Lia de Melo Schultz: Tudo, mas, por favor, me chame de Rosa. Aqui eu sou Rosa.


Darico Nobar: Rosa?! Seu nome não é Lia de Melo Schultz?


Lia de Melo Schultz: Darico, não posso explicar. Queria apenas que você entendesse meu pedido. Aqui eu sou Rosa Luxemburgo. Pode ser, hein?


Darico Nobar: Pode. É meio estranho, mas tudo bem. Aceita um chá, Rosa de Luxemburgo? [Pega o bule que está no aparador ao lado da mesa e oferece à convidada].


Lia de Melo Schultz: Não tem esse de. [Olha espantada para o bule]. Chinês?


Darico Nobar: Não. É inglês.


Lia de Melo Schultz: Obrigada, mas não tomo chá pequeno burguês.


Darico Nobar: Por falar em nacionalidade, seu pai é alemão, né?


Lia de Melo Schultz: Alemão mais louco, o meu pai. Se engraçou com minha mãe, uma legítima baiana, e acabou ficando depois da Guerra.


Darico Nobar: É verdade que ele era nazista?


Lia de Melo Schultz: Quando meu pai que é distraído à beça viu de perto o que era realmente o Nazismo, arrancou a farda e veio trotando até Salvador. Uma vez no Brasil, não quis mais saber de política e confusão... Será que amanhã você podia me emprestar o carro? Depois do jantar. Digamos às nove, entende?


Darico Nobar: Suas meias estão caindo.


Lia de Melo Schultz: Ou enforcam os joelhos ou ficam desabando. Olha aí! No começo, este elástico apertava de deixar a perna roxa. Agora, não segura nada. Hoje tive que camelar o dia inteiro, putz. E sem meia dá bolha no pé.


Darico Nobar: O que tanto você carrega nessa sacola? Não é bomba nem panfleto subversivo, é? [Dá uma risada brincalhona].


Lia de Melo Schultz: Dariquinho, não começa, não gosto desse tipo de brincadeira [Cruza os braços]. Vai ceder o carro ou não? Devolvo no dia seguinte, pode confiar.


Darico Nobar: Você sempre pedindo algo emprestado! Não tem vergonha?!


Lia de Melo Schultz: Como um cristão pode falar assim? Jesus disse que deveríamos compartilhar o nosso pão com o próximo. Esqueceu?


Darico Nobar: Desculpe-me.


Lia de Melo Schultz: Você pergunta demais, entende?


Darico Nobar: Claro! Esse é o meu papel no talk show. Sou o entrevistador, ora.


Lia de Melo Schultz: Parece mais um torturador em busca de revelações e segredos. Por um acaso, você acha que sou sua prisioneira? [O apresentador balança a cabeça negativamente]. Porque, às vezes, temo ser raptada ilegalmente pelos militares que insistem em se manter no poder a qualquer custo.


Darico Nobar: Você se sente uma prisioneira, Lia?


Lia de Melo Schultz: Rosa!!!


Darico Nobar: Ah, sim, Rosa. Você se sente uma prisioneira, Rosa?


Lia de Melo Schultz: E quem pode arrotar liberdade hoje em dia, hein? A culpa é do imperialismo norte-americano. No Brasil, ainda vivemos na Idade Média, com tantas crianças morrendo de fome e de sede no Nordeste. Há tanta injustiça e tanto sangue nas ruas. É tão terrível ver esse descaso, essa desigualdade social, putz. Como pode, meu Deus, como pode? Revolta e náusea. É preciso ter um peito de ferro pra aguentar esse país, esses governantes, essa elite conservadora...


Darico Nobar: Vivemos realmente um cenário aterrador.


Lia de Melo Schultz: Nunca o povo esteve tão abandonado como agora. E a burguesia aí toda esplendorosa. Nunca os ricos foram tão ricos, podem fazer as casas com as maçanetas de ouro, não só os talheres, mas as maçanetas das portas. As torneiras dos banheiros. Tudo de puro ouro como o gângster grego ensinou na sua ilha. Intactos. Assistindo da janela e achando graça. Resta a massa dos delinquentes urbanos. Dos neuróticos urbanos. E a meia dúzia de intelectuais. Os simpáticos simpatizantes. Tenho mais nojo de intelectual do que de tira. Esse ao menos não usa máscara.


Darico Nobar: Vamos mudar um pouco de assunto. Conte-nos como é a vida no Pensionato Nossa Senhora de Fátima.


Lia de Melo Schultz: O que você quer saber especificamente, Darico?


Darico Nobar: Comece falando, por favor, de Lorena Vaz Leme.


Lia de Melo Schultz: Lena é uma fresca. Tá apaixonada por um homem casado que não dá bola para ela, coitadinha. Passa o dia minhocando, minhocações libidinosas. Nunca vi uma virgem ser tão sem vergonha. Só pensa em sexo. É sexo o dia inteiro naquela cacholinha. É a única coisa que ela faz, além de ouvir música alta e de esperar a ligação do amado. É uma tonta.


Darico Nobar: Soube que ela é muito generosa.


Lia de Melo Schultz: Loreninha é muito boazinha. Nunca deixa as amigas na mão. Sempre que apareço no quarto dela, vai logo tirando minha roupa e me jogando na banheira. Nunca vi alguém gostar tanto de dar banho nas amigas como a Lena.


Darico Nobar: E a Ana Clara Conceição?


Lia de Melo Schultz: O que tem ela?


Darico Nobar: Fale dela, por gentileza. Vocês se dão bem? Ela é legal?


Lia de Melo Schultz: Ana também é uma boa menina. Só tem a cuca meio entortada, sabe? Vive se picando, se pinoteando por aí, coisas de quem não tem família. Acho que tá desbundada. Dizem que ela é puta, mas não é verdade. O problema é que Aninha não sabe falar não. Aí já viu: moça bonita que não sabe falar não é um problemão.


Darico Nobar: Soube que ela está grávida.


Lia de Melo Schultz: Sim. De novo! E outra vez não é do noivo. Acho que a Lena irá ajudá-la. Estão pensando em ir ao médico e fazer tudo de uma vez.


Darico Nobar: Fazer o quê?


Lia de Melo Schultz: Ah, Darico, você sabe... Aproveita-se que vai tirar a pedra dos rins, por assim dizer, e aí retira também as amígdalas.


Darico Nobar: Nossa! Será preciso tudo isso?


Lia de Melo Schultz: O noivo dela é quadradão, um chato de galocha. Pensa que Ana é virgem. Aí já viu, né? Quer tudo certinho. E o que ela menos faz são coiselhas certinhas. Se ele souber o que a noivinha anda fazendo, na certa vai querer matá-la.


Darico Nobar: E as freiras do pensionato? Elas são gente boa?


Lia de Melo Schultz: A Madre Alix é uma santa, santa de verdade. É até difícil de acreditar que exista alguém tão pura, tão altruísta nesse mundo.


Darico Nobar: E das outras irmãs, o que você pode nos contar?


Lia de Melo Schultz: A Irmã Priscila, a mais novinha, e a Irmã Clotilde, a da voz de barítono, são legais. Gosto delas. São um pouco frustradas sexualmente como qualquer religiosa que se preze, mas não causam problemas para ninguém. A única que é carne de pescoço é a Irmã Bula. Dessa eu fujo como o Diabo foge da cruz.


Darico Nobar: Por quê? Ela é tão ruim assim?!


Lia de Melo Schultz: Dizem que gosta de escrever cartas anônimas para a Madre Alix. Nesses bilhetinhos, ela conta o que as meninas do pensionato fazem. Não suporto cagueta. Se bobear, Irmã Bula escreve até para o pessoal do Dops. Por falar nisso, quero o carro, Darico. Posso contar com seus préstimos?


Darico Nobar: É para você ou para os amigos do seu namorado que está preso?


Lia de Melo Schultz: Não fale assim do Miguel. Ele não é bandido. Bandido é o amante da Ana Clara. Aquele lá é quem deveria estar atrás das grades, não o meu Miguel.


Darico Nobar: Até agora não sei direito porque prenderam o Miguel. Você poderia me contar de uma vez por toda essa história?


Lia de Melo Schultz: Darico, isso não interessa agora. O importante é que ele será solto em breve. Está na lista dos que serão trocados. Soube dessa notícia agora pouco.


Darico Nobar: Está bem, empresto o carro. Você precisa de mais alguma coisa?


Lia de Melo Schultz: Se não for fazer falta, também gostaria de oriehnid.


Darico Nobar: De quanto você precisa, minha filha?


Lia de Melo Schultz: Um pouco. Vou fazer uma viagem e preciso tirar o passaporte, pegar umas roupas, enfim, essas coiselhas.


Darico Nobar: Que viagem?


Lia de Melo Schultz: Argélia. Não posso falar mais nada. Ainda é segredo.


Darico Nobar: Está bem. Vou encerrar o programa e a gente vê o que pode fazer.


Lia de Melo Schultz: Tá bom. [Despeja na mesa o conteúdo da sacola e começa a procurar algo]. Mas me diga, Darico: seu carro é russo ou cubano?


Darico Nobar: Norte-americano.


Lia de Melo Schultz: Então não precisa. [Continua vasculhando os itens da sacola]. Vou pegar emprestado o carro da mãe da Lorena. É melhor assim. É menos arriscado.


Darico Nobar: Pessoal, o Talk Show Literário de hoje fica por aqui. [Olha para a câmera posicionada ao lado de sua mesa]. Voltaremos na semana que vem com mais uma entrevista ao vivo e exclusiva para vocês. Até lá! E boa noite.


[Enquanto os créditos do programa sobem na tela, o entrevistador e a entrevistada continuam conversando amigavelmente. Ele saca a carteira e começa a contar as notas de dinheiro].


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O Talk Show Literário é o programa de televisão fictício que entrevista as mais famosas personagens da literatura. Assim como ocorreu nas quatro primeiras temporadas, neste quinto ano da atração, os convidados de Darico Nobar, personagem criada por Ricardo Bonacorci, são os protagonistas dos clássicos brasileiros. Para acompanhar as demais entrevistas, clique em Talk Show Literário. Este é um quadro exclusivo do Blog Bonas Histórias.


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Ricardo Bonacorci

Nascido na cidade de São Paulo, Ricardo Bonacorci tem 39 anos e trabalha como publicitário, produtor de conteúdo, crítico literário e cultural, editor, escritor e pesquisador acadêmico. Ricardo é especialista em Administração de Empresas, pós-graduado em Gestão da Inovação, bacharel em Comunicação Social, licenciando em Letras-Português e pós-graduando em Formação de Escritores.  

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